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Patrícia Capítulo 72 
Atendendo a um pedido do senhor Alcides, neste Natal não houve a tradicional ceia Natalina na noite do dia 24. Ele alegou que não suportaria a lembrança da mulher que, em ocasiões assim, fazia questão de cuidar de cada detalhe. Por isso, naquela noite, o jantar transcorreu de forma quase rotineira. Havia um ou outro enfeitezinho de Natal na mesa, mas jantaram cedo e logo foram para cama. Agora, já no final da manhã do dia 25, Iara cuidava dos últimos preparativos para o almoço de Natal, com a ajuda da mulher de um dos funcionários do sítio. A mesma que a ajudava antes de Vera vir trabalhar com ela. Estava se servindo de um refrescante “suco de cevada” quando foi interrompida por Vera que, como convidada, acabara de chegar com seu filho de oito anos. ––– Eu queria ter vindo mais cedo, pra ajudar a senhora, dona Iara, mas a farra lá na casa da minha mãe foi até muito tarde e acabei dormindo demais... ––– Ah, não tem importância, Vera. Hoje você é nossa convidada e, além do mais, antes de ir embora anteontem, você deixou tudo praticamente pronto pra mim. Hoje foi só colocar no forno e cuidar das saladas... Leve seu filho lá pra conhecer o Rodrigo e volte aqui pra gente tomar um aperitivo juntas, antes de servirmos o almoço... ––– Tá bom, então... Vera saiu, e Iara ficou pensando no quanto gostaria de ter uma companhia feminina no almoço de hoje. Mas não se referia a qualquer pessoa do gênero feminino. Lembrou-se de Patrícia e logo aquietou-se, porque ela estava fora de questão. “E Vânia... Bom, Vânia aprontou feio comigo. Não vou perdoar nunca! Será que minha sina é ficar sozinha? Não, não posso desanimar, porque afinal só conheci essas duas mulheres... por enquanto... Acho que ainda tenho muito chão pra caminhar até encontrar a mulher ideal... Aquela que vai me fazer feliz... Sim, porque eu quero ser feliz... Nesse ritmo, acho que vou ter que investir pesado e tentar conquistar a Vera... Acho que é minha última alternativa...” ––– Dona Iara... Dona Iara... Dona Iara... Vera chamou 3 vezes até que ela voltasse do drama que estava criando com seus pensamentos. ––– Sim, Vera... ––– Tem uma moça lá fora querendo falar com a senhora... Iara fez uma cara de surpresa, ao mesmo tempo em que ria do pensamento anterior, e se dirigiu ao portão. Passou pelo seu pai, que conversava com Hélio e com outras pessoas – eram, na maioria, ou funcionários do sítio, ou pessoas que ocasionalmente faziam algum tipo de trabalho pra ele. Ao chegar próximo ao portão, avistou Vânia. Haviam se falado rapidamente na noite anterior, de forma um tanto fria, portanto, não houve nenhum convite para o almoço. Enquanto Iara vencia a distância que as separava, Vânia ficou admirando a mulher graciosa que vinha ao seu encontro e pensando no que aconteceria agora. Sabia que essa atitude intempestiva – de chegar sem avisar, como uma verdadeira ‘penetra’ - poderia não agradar a Iara, mas precisava arriscar. Passara a noite de Natal com seus pais, seus irmãos, suas cunhadas e vários sobrinhos. A única pessoa com que se dava bem era a irmã solteira, que felizmente estava presente e amenizou a chatice que era conviver com a maior parte das outras pessoas. Na verdade, a família nem levava tão a sério assim essa obrigatoriedade de passar os natais reunidos, porque não eram tão ligados, nem uns aos outros, nem às tradições. Eles usavam esta data apenas como pretexto para a reunião anual da família. Era a época em que havia os recessos, férias e tudo o mais que facilitava o entrosamento e a visitação entre as pessoas. O próximo encontro entre eles agora só aconteceria se houvesse algum enterro de parente, ou no próximo Natal. De qualquer forma, Vânia deu “Graças a Deus” quando se despediu de todos e se mandou de volta. Ela acabara de chegar de lá, vindo diretamente para a casa de Iara. ––– O que você está fazendo aqui, Vânia? ––– Resolvi quebrar o gelo e vim almoçar com você, mesmo sem ter sido convidada. ––– É muita cara-de-pau da sua parte. Quem te garante que vou te deixar entrar em minha casa? – Iara estava pasma com a audácia da mulher à sua frente. ––– O seu bom senso. – Vânia respondeu tranquilamente – Sabemos que você gosta de mim, e eu estou cada vez mais louca de paixão por você... Então, nada mais normal do que você abrir a porta da casa e também me apresentar para seu pai e seu filho como sua namorada. Iara não conseguiu disfarçar o riso diante de tanta ousadia. ––– Você não vale nada mesmo, hein? ––– Não, não valho... Mas sou a única mulher que te ama atualmente... ––– E em algum momento eu tive mais de uma mulher apaixonada por mim? ––– Sim, você teve... Mas optou por mim, Graças às Deusas... Iara não resistiu mais e a convidou para entrar. ––– Só que não posso apresentá-la como namorada... Nem invente moda! ––– OK! Vou me contentar com aquele ‘sem-gracissímo’: “Pai, essa é minha amiga Vânia...” Iara deu-se por vencida e, rindo junto com ela da palhaçada, entraram na sala, onde as pessoas ainda conversavam e bebiam, alheias à possibilidade de qualquer mudança que pudesse acontecer naquele momento. E exceto pela cara feia de Hélio, realmente não houve mudança alguma. As apresentações foram feitas de modo simples, porque ao ver Vânia de calça e casaco jeans, Iara quase se arrependeu de tê-la deixado entrar. Bom, mas de qualquer modo, sua família precisava conhecê-la. “Pena que ela tenha vindo assim, com essa roupa tão inadequada”, pensou ela, enquanto levava-a para a cozinha, para concluir os preparativos. O almoço estava bem animado, com muita conversa e risadas. Seu Alcides relaxou logo que começara, e até elogiou a roupa e o cabelo de Vera, que se sentara ao seu lado. Iara atentou para este fato e se sentiu aliviada por isso, pois finalmente via o pai menos triste desde a morte da mãe. Assim que todos se sentaram e começaram a comer, Iara observou que Hélio não tirava os olhos de Vânia. Após o almoço, ele a chamou para um lado e disse: ––– Pelo menos a outra lá é feminina... Pode até ser confundida com uma mulher, mas esta aí, Iara... Pelo amor de Deus, como é que você tem coragem de trazer essa figura para o meio da sua família, Iara? ––– Hélio, isso é problema meu e é bom que você não se intrometa tentando colocar o Rodrigo contra mim! ––– Não vou fazer nada contra você, Iara! Pode levar a vida que quiser! Agora, quem está feliz por ter se livrado do casamento sou eu! Sou livre e tenho bom gosto! Dizendo isso, ele lhe desejou um Feliz Ano Novo e se afastou, indo para perto de Rodrigo e de seu Alcides. E em poucos minutos despediu-se e saiu dali. Uma hora depois, quase todos já haviam se retirado. Seu Alcides estava na varanda se despedindo de dois rapazes que esporadicamente faziam trabalhos para ele, Rodrigo em seu quarto ensinava o filho de Vera a jogar vídeo game, Vera e Vânia ajudavam Iara na organização da cozinha. Em dado momento, Iara deixou Vera sozinha com o pretexto de mostrar o quintal para Vânia. Ao perceber que já não poderia ser ouvida, ela desabafou: ––– Será que você não poderia ter caprichado um pouco mais na roupa para vir até aqui? –––Ah, qual é o seu problema, Iara? Você gosta de mim ou das roupas que uso? Qual a importância disso, afinal? ––– Não é nada disso! Apenas acho que você poderia ter usado uma blusa menos masculina e uma calça de tecido fino... Mas tudo bem! Vânia aproveitou a chance para tentar mais uma vez: ––– E então, vai me aceitar de volta ou pretende entrar Ano Novo na solidão? Olha que os mais antigos diziam que você vai repetir tudo o que você fizer no primeiro dia do ano. Vai mesmo se arriscar a passar um ano inteiro secando lágrimas de saudade de mim? ––– Como você é engraçadinha, Vânia! Nem adianta usar desses truquezinhos aí, porque não vai me convencer... ––– Eu não preciso usar nada... Só quero te deixar com essa idéia na cabeça: ficar comigo ou “sem migo”... Pense e escolha o que for mais vantajoso. – Vânia tentava fazer uma cara séria, mas não conseguia. ––– Só se você me prometer que vai resistir àquela safada da sua ex, se ela aparecer de novo! ––– Prometo! Prometo tudo o que você quiser, mas, por favor, não me deixe sozinha por um ano inteirinho! Nesse momento, estavam sob uma grande mangueira, e Vânia puxou Iara contra si e beijou-lhe apaixonadamente, tentando, com isso, convencê-la de que não estava brincando. Minutos depois, duas mulheres sorridentes entravam de volta na cozinha, mas Iara percebeu que seu pai conversava com Vera de uma maneira um tanto quanto íntima. Então ela pegou Vânia pela mão e saíram de fininho dali.
Escrito por MariaN às 21h40
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Patrícia Capítulo 71 
A viagem foi tranquila e, em menos de uma hora, Patty estacionou em frente à casa dos pais de Cíntia. Foram recebidas no portão, porque Cíntia os avisou quando entraram na cidade. Passava um pouco das dez da manhã. Cíntia desceu, abraçou o pai, a mãe e fez as apresentações: ––– Mãe... Pai... Esta é a Patrícia, minha chefa e sua mãe, dona Marta... Tudo normal, sem exageros ou afetações, mas com alegria por parte de Carmen e Afonso que, além de educados, sempre gostaram de receber em casa. Logo André apareceu, e Cíntia se agarrou a ele, como sempre. Haviam sido muito grudados na infância e recuperaram essa união depois de adultos, já que na adolescência tiveram lá seus desentendimentos homéricos. O próximo movimento foi de Afonso que, com a ajuda do filho, se ofereceu para levar as malas das senhoras para seus respectivos quartos. Patty e a mãe dividiriam o quarto de hóspede da casa, enquanto Cíntia ocuparia o seu próprio quarto. Da mesma forma faria André com a esposa e filhos, que já estavam usando o antigo quarto dele. No entanto, elas não foram direto para o quarto, claro. A manhã estava linda, e os anfitriões fizeram questão de servir um pequeno lanche com suco, café e bolinho de polvilho para as recém chegadas na varanda da cozinha. ––– Que maravilha uma cozinha assim, dona Carmen! Com todo esse espaço, o quintal logo ali... – admirou-se Marta, logo que se sentaram. ––– Ah, eu não conseguiria viver num lugar todo apertado, como um apartamento, em que a gente precisa medir cada móvel que compra pra ver se vai entrar... Nem! Não gosto disso não! Não sei como vocês conseguem! – antes que Marta pudesse continuar, ela ainda falou: - E, por favor, não me chame de dona, hein! Afinal, a gente deve ter a mesma idade... ––– Que isso, Carmen? Você deve ser bem mais jovem do que eu... Respondeu Marta com sinceridade, sem saber que sim, elas tinham quase a mesma idade, sendo que Marta era apenas um ano mais velha. Mas o galanteio de Marta agradou muito a Carmen. Enfim, o entrosamento entre elas foi bem rápido. Dona Marta ficou encantada com a simpatia de Carmen que, por sua vez, logo notou a maneira carinhosa como Marta tratava Cíntia. Em pouco tempo estavam trocando receitas; não de tortas ou de bolo, mas de creme para a pele e para os cabelos. Definitivamente, Carmen, sempre muito vaidosa, não era o tipo de dona de casa com quem se troca receitas caseiras de biscoitos ou ponto de tricô. Na outra ponta da mesa, Patty conversava com o irmão e a cunhada de Cíntia. Falavam de profissão e ele dizia por que não poderia morar numa cidade longe do litoral. ––– Veja bem, sou oceanógrafo e, claro, o mar é o meu escritório... ––– É tudo uma questão de paixão mesmo, né? Eu sempre fui apaixonada por direito. Desde menina, eu dizia para minha mãe que queria ser advogada pra resolver todas as injustiças deste mundo. Depois de pouco tempo descobri que não é bem assim. ––– Pois é, você lida com as injustiças do homem contra seus semelhantes, e eu atuo na área de preservação ambiental. No caso, tento encontrar soluções e técnicas que possam amenizar a crueldade do ser humano contra aos animais marinhos e seu habitat natural. Pouco depois, contava para Patrícia como conhecera a mulher, Daysa, que neste momento chegava com o filho menor nos braços e se sentava ao lado da sogra. ––– Ela é bióloga marinha, e eu conheci o tal amor à primeira vista no primeiro dia de trabalho dela no mesmo escritório que eu... Todos riram e Patty deu continuidade à conversa: ––– Muito legal conhecer alguém assim e se apaixonar logo de cara, não é? ––– É verdade, Patrícia... E, segundo resultados recentes de uma pesquisa feita por um psicólogo e escritor, o relacionamento tende a ser duradouro quando o casal se conhece num ambiente mais restrito, como o familiar, um clube ou o trabalho. Nesta hora Cíntia ficou animada: ––– André, me fala mais sobre isso. Afinal, eu também conheci alguém no trabalho... Poxa, gostei dessa pesquisa! Riram e trocaram olhares, mas a partir daí passaram a participar da conversa que rolava na mesa entre os pais, Daysa e dona Marta. E, naquele momento, o assunto eram os filhos e a profissão escolhida por cada um deles. Dona Marta percebeu que evitaram falar sob outros aspectos de Cíntia, e ela respeitou isso. Durante o resto do dia, de uma maneira ou de outra, todos eles ficaram envolvidos com os preparativos da ceia. Foi um corre-corre típico deste dia. Carmen desenrolava tudo com aquela rapidez esperada de uma dona de casa experiente, delegando tarefas e botando a mão na massa, quando necessário. Marta não ficou pra trás, acreditando que logo essas duas famílias estariam unidas com a união das filhas, participou de tudo com alegria e competência. Descobriu com isso que sentia falta de agitação familiar. Nos poucos momentos silenciosos, ela ficava observando a família de Cíntia. Sabia que mesmo sendo um dia atípico, muitas coisas poderiam ser notadas. Não houve um só grito ou discussão entre eles. Muito pelo contrário, o carinho partilhado nos olhares trocados ao longo do dia era algo lindo de se ver. Que bom que apesar de negarem a condição homossexual da filha, eles a tratavam com carinho. Ela não sabia se na época da descoberta, ou da conversa crucial entre eles, haviam ultrapassado a linha do respeito. Aparentemente, eles mantinham um acordo silencioso. Desses em que ninguém afronta ninguém e fica tudo hipocritamente bem. Por causa do excesso de afazeres, o dia acabou passando rápido, mas de forma prazerosa. Muitas pessoas passaram pela casa durante toda aquela tarde. Como esta era uma cidade pequena, as portas ficavam abertas, e as pessoas simplesmente apeavam do seu cavalo, ou desciam de seus carros e entravam porta adentro, cumprimentavam todo mundo, tomavam uma bebidinha ou comiam uma rabanada e seguiam seu caminho. Toda essa visitação se devia ao fato de Afonso ser o único Médico da Terra residente na cidade. E por ser este agrônomo querido e respeitado, além de um ótimo profissional, ele conhecia todos os proprietários de terra da região. E quase todos que passavam pela cidade faziam questão de vir lhe dar um abraço de final de ano. À noite, como se tivessem sido ligados ao botãozinho de automático, cada um encontrou o seu momento certo de tomar banho e se arrumar para o jantar. Marta e Patrícia estavam encantadas com a quantidade de pessoas que podiam caber dentro de uma casa. Sim, a casa era grande, mas o que chamava a atenção das duas eram os abraços e o carinho das pessoas que passavam apenas para partilharem sua alegria e desejarem Boas Festas aos donos da casa. Quando o relógio marcava pouco mais de vinte e três e trinta, Carmen convidou a todos para se sentarem à mesa. À exceção do lugar à ponta da mesa, sempre ocupado por Afonso, e o de Carmen, do seu lado direito, não havia lugares marcados. Automaticamente, todos se sentaram próximos aos seus respectivos pares. Além de Patrícia e dona Marta, dois casais amigos da família também estavam presentes. Assim que todos se acomodaram, Afonso pediu a palavra e fez uma oração de agradecimento a Deus, à sua família e às pessoas que se agregaram a eles nesta data tão importante: ––– ... E não querendo me alongar, já que posso ver a fome na cara de muitos aqui... – todos riram com a frase engraçadinha – eu desejo a todos um FELIZ NATAL e MUITA PAZ para todas as Famílias! Terminado o coro de Feliz Natal, eles se entregaram à deliciosa tarefa de saborear toda aquela comida preparada com tanto carinho. Algum tempo depois da algazarra típica recheada dos pedidos comuns à mesa, quando todos se sentiram satisfeitos, eles se levantaram e juntos ajudaram a dona da casa a tirar a mesa. Instantes depois, todos voltavam da cozinha com a sobremesa. Desta vez, porém, ninguém se sentou à mesa. Ficaram por ali, se entregando àquelas delícias, e logo se dispersaram, formando grupinhos aleatórios. Andavam pela casa, bebiam ou apenas conversavam sentados a um canto, observando o movimento ao redor. Este último caso era protagonizado por dona Marta e Carmen, que acompanharam o momento em que, não muito longe delas, o bebê de seis meses, filho de André, acabava de acordar no carrinho. A Tia coruja e Patrícia disputavam quem iria pegá-lo nos braços primeiro. O grupinho perto da criança ainda contava com a presença da mãe do pimpolho, Daysa. Marta e Carmen, de onde estavam não podiam ouvir o que diziam, mas ficaram admirando de longe. Quem primeiro falou foi Carmen: ––– Mesmo sabendo que o André é mais velho do que Cíntia, eu esperava que fosse ela a primeira a me dar um neto... Eu sempre acreditei que neto vindo de filha é mais chegado na gente... Bom, mas eu nem sei se ela vai, um dia, pensar em fazer essa minha vontade... ––– Eu sempre quis muito um neto, claro... – falou Marta – e quando a Patty me falou que a vida dela seria bem diferente da que eu esperava, fiquei muito triste. Com o tempo fui aceitando... E eu sei que ela pode ter filhos, se quiser, mas nos últimos tempos ela tem falado mais em adotar, do que em dar um jeito de engravidar... Carmen fez uma cara de quem acabava de entender tudo, disfarçou a descoberta e continuou: ––– É uma pena que eles nunca fazem como a gente quer... Não sei... Às vezes, eu me sinto confusa com certas coisas da minha filha, sabe... ––– Ela é uma menina muito doce, Carmen... Eu demorei a perceber que cada pessoa só pode ser feliz do seu jeito. E como eu sempre tive o respeito da minha filha, aprendi a respeitar a única maneira que ela tem de ser feliz. Carmen analisou aquelas palavras um pouquinho e respondeu simplesmente: ––– É, talvez você tenha razão... Dizendo isto, ela pediu licença a Marta e saiu para se aproximar de outras pessoas. Depois dessa conversa, muitas vezes Marta notou que ela ficava pensativa, observando Cíntia e Patrícia juntas. Como dizem que são as pessoas que fazem o ambiente, estas construíram um ambiente muito sereno. E o resto da noite transcorreu com alegria e tranqüilidade. Antes das três horas da madrugada todos já se encontravam em seus respectivos quartos. É verdade que a certa altura da noite, Patty fugiu e entrou no quarto de Cíntia, onde ficou até quase o amanhecer. De manhã, os itens mais procurados na cozinha foram água e suco de laranja. Prevendo isso, Carmen já havia preparado dúzias de laranjas. Com a ajuda de Marta, ela fez suco e café da manhã para todos. Na mesa do café, ficaram por muito mais tempo do que o necessário, adiando assim, a preparação do almoço de Natal. O dia foi muito gostoso. Cíntia tirou um tempinho antes do almoço para levar Patty a conhecer as redondezas e os seus esconderijos de infância. Em todos os lugares discretos e desertos que chegavam, aproveitavam para trocarem beijos apaixonados. E foi num desses momentos que Patrícia chamou a atenção de Cíntia para uma coisa que ela observara: ––– Cín, desde hoje de manhã que tua mãe me olha de um jeito diferente... ––– Ela tem te tratado mal, Patty? ––– Não, de forma alguma! Só que ela está diferente. Observe depois... Você que a conhece bem... ––– Eu agora evito alimentar esperança quanto a alguma mudança da parte deles... Meu irmão ainda aceita, mas ainda assim não posso conversar de forma muito clara com ele. Percebo que eles querem o silêncio. Então, eles terão o silêncio. Patrícia brincou com essa palavra: ––– Mas, por favor, não faça muito silêncio naquelas horas gostooosas, tá? ––– Então, da próxima vez, me leve para um lugar bem hermético, porque vou gritar tanto que você vai me pedir pra calar a boca... E rindo muito das próprias brincadeiras, elas voltaram para casa.
Escrito por MariaN às 22h04
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Patrícia Capítulo 70 
A intenção inicial de Cintia era chegar à casa de seus pais com dois dias de antecedência do Natal. Chegando, inclusive a marcar a data com a mãe. No entanto, de última hora, Érica sugeriu brincarem de amigo oculto. Sugestão aceita, eles reservaram então a tarde do último dia de expediente do ano para a revelação e entrega dos presentes. Assim, em menos de três dias tudo foi primorosamente organizado por Érica, com a ajuda dos outros funcionários. E então, para evitar correria, Cíntia adiou a viagem para o dia seguinte. Sua mãe não gostou muito quando recebeu a ligação da filha, porque já havia preparado tudo para receber as visitas, mas acabou aceitando a mudança. Afinal, nesta época as pessoas querem mesmo confraternizar. Nesta tarde, um outro acontecimento marcou a ocasião. E este não tinha nenhuma ligação com esta ou com qualquer outra data comemorativa. E aconteceu mais ou menos assim: por volta das quatro horas da tarde, todos se preparavam para iniciar a pequena troca de presentes na revelação do ‘amigo oculto’ no escritório. Patrícia estava em sua sala terminando de arrumar sua mesa, que entraria em recesso junto com ela, enquanto os outros funcionários, inclusive Cíntia, abriam embalagens de pratinhos e garfinhos descartáveis, distribuindo-os sobre uma das mesas. Nesse momento, chegou o rapaz da tele-entrega com a encomenda dos salgadinhos. Érica o atendeu e, quando se preparava para fechar a porta, Iara irrompeu sala adentro. Érica ainda tentou sinalizar para impedi-la de seguir em frente. Como estava com as mãos ocupadas, não o fez. Conseguiu apenas abrir a boca e dizer: ––– Com quem a senhora deseja falar? Não obteve resposta e automaticamente olhou para Cíntia. Viu-a boquiaberta acompanhando os passos da mulher, que olhando de um para outro, sem nenhum sinal de cumprimento, se dirigiu à sala de Patty. A cara de espanto de Cíntia chamou a atenção de Vítor e também de Alfredo e Mariana, os novos estagiários, que se olharam sem entender nada. Patrícia estava de costas para a porta, mas sentiu a entrada de alguém. E foi logo dizendo, enquanto se virava na direção de quem entrava: ––– Nem precisa me apressar, porque já estou terminando isso aqui... eu também estou com fome de presen... Iara? O que você está fazendo aqui? Ante a surpresa, ela não imaginou outra pergunta, senão esta. Iara sequer abrira a boca para responder, e Cíntia apareceu na porta: ––– Quer que eu feche a porta, Patty? Patty, meio desnorteada e já de pé, respondeu: ––– Sim, mas com você do lado de dentro! Foi tudo muito rápido: Iara rodeou a mesa de Patty e a agarrou pelos ombros, chorando. ––– Por favor, me perdoa! ––– O que é isso, Iara? Que invasão é essa? ––– Prometo que vai ser diferente agora! Nenhuma outra mulher é tão carinhosa e compreensiva quanto você... ––– É, mas isso não foi suficiente pra você. Agora acabou, Iara. Volta pra sua namorada, pra sua vida... ––– Aquela namorada? Hum! Você nem imagina o que ela me fez! ––– Não, não imagino... ––– Ela me traiu, Patrícia! Eu a peguei com outra na cama? Pois é... E pensar que desconfiei de você... Patrícia olhou para Cíntia, como se tivesse pedindo socorro, mas a impediu com um gesto quando ela tentou se aproximar. Era apenas uma cara de tédio que ela deixou escapar. Assumindo o controle, ela afastou Iara, que em nenhum momento parou de falar, e a conduziu para uma cadeira. ––– Vem cá... Sente-se aqui... Tenta se acalmar... Cíntia, por favor.... Pegue um copo d’água... Cíntia voou lá pra fora e voltou com a água. E Iara continuava na mesma lengalenga, como ela diria depois. Patrícia havia se sentado de frente pra Iara, do outro lado da mesa. Esperou que tomasse um pouco da água e perguntou, com muita serenidade: ––– E então, está mais calma? Iara se empertigou na cadeira, jogou os ombros pra trás, secou as lágrimas com um lenço que Patty ofereceu e respondeu? ––– Estou mais calma, sim... É que muitas coisas estão acontecendo e eu preciso falar com alguém... sei lá... Falar com você... Com um olhar sossegado, Patty respondeu: ––– Pode falar, Iara... Olhando aquela cena, Cíntia fez menção de sair, mas foi impedida por Patty: ––– Fica, Cín.... Iara não gostou: ––– Quero falar a sós com você, Patrícia – disse, olhando para Cíntia com cara de poucos amigos. -–– Ela fica, Iara! Eu prefiro que ela ouça tudo agora. Assim vai me poupar de contar tudo mais tarde... Cíntia agradeceu o gesto de Patty, mas, obsequiosamente, saiu dali. ––– OK! Você conseguiu... Cíntia já saiu... Fale o que te trouxe aqui... ––– Poxa, é assim que você me trata depois de tudo o que passamos juntas? ––– Estou te tratando tão bem... Iara fez uma pausa e continuou: ––– Vejo que perdi o meu tempo vindo aqui! Eu só queria poder voltar atrás em muitas coisas, sabe, Patrícia. Talvez nem saiba, mas tem sido difícil viver sem você... ––– É mesmo, Iara? Você só queria isso? Felizmente, é tarde demais para voltar atrás... Eu já me recuperei... Já reaprendi a viver sem você... ––– Não seja irônica, Patrícia... Eu não acredito que todo aquele amor acabou assim, de repente! Patty fez uma pequena pausa antes de dizer: ––– Não, Iara, aquele amor se transformou, e te confesso que eu o prefiro nesse novo formato. E é isso aí: não tenho mais nada pra falar e nem pra ouvir sobre nós duas. Pra mim, acabou de vez... ––– E que formato ele tem agora? – Perguntou Iara. ––– Lembrança... Aquele amor agora, Iara, é apenas uma lembrança. Mas... Foi muito bom te ver de novo! Acho que eu precisava disso pra saber se o que sinto por você ainda pode me dominar... ––– E pode? O que você sente por mim agora, Patty? - sua voz era pura esperança. ––– Não sei dar um nome. Mas sei que é algo que não me faria voltar atrás. Agora, por favor... Hoje é o dia em que vamos revelar o nosso amigo oculto aqui e não posso me demorar... Estão todos lá fora, só me esperando... –––É, acho que você tem razão. Estou sobrando aqui... E, pelo jeito, não restou nem amizade, não é? ––– Sinceramente? Eu espero que um dia possamos ser amigas, mas isso terá que acontecer de forma natural... Agora, por favor... – disse, indicando a porta – Como eu já disse, estão me esperando na outra sala... Tenha um ótimo Natal com sua família... E até outro dia... Levantou-se e abriu a porta, convidando-a a se retirar. Sem argumentos, Iara saiu calada. Passou por todos e ganhou a rua. Diante do silêncio constrangedor que se abateu entre todos na sala, Patty resolveu abrir o jogo: ––– Bem, pessoal, se vocês querem saber... Quem acabou de passar por aqui foi o meu passado. Todos disfarçaram a curiosidade e ela completou: ––– É um assunto particular e chato pra caramba! Portanto, vamos seguir com nossos planos... Acho que essa festinha vai me ajudar a desanuviar um pouco... A partir daí, todos relaxaram lendo os bilhetinhos de amigo oculto, brincaram ao abrir cada lembrancinha e se divertiram tomando refrigerante e comendo salgadinhos dentro do espírito natalino que se propuseram a fazer. Finalmente, loucos para encerrar o expediente e saírem para o tão esperado recesso até o segundo dia de janeiro, eles se despediram. Eram quase dezoito horas quando, todos juntos, saíram do prédio. Depois de trocarem mais abraços e mais votos de Feliz Natal e Feliz Ano Novo, cada um foi para o seu lado. Patty seguiu Cíntia até a casa desta, para que ela pegasse suas bolsas de viagem. Como queriam sair bem cedo na manhã seguinte, Cintia dormiria com Patricia. Decidiram viajar no carro de Patty, para que dona Marta ficasse mais à vontade na hora de carregar tudo o que ela achava indispensável. Cintia desceu até a garagem e Patty estacionou em frente ao prédio. Ficaram de se encontrar no elevador pra subirem juntas. Quando Patty passou pelo porteiro, que já a conhecia, ele a chamou: ––– Por favor, a senhora pode entregar isso aqui para a dona Cíntia? Ela pegou em suas mãos um pacote em papel presente, com um envelope colado sobre uma fita vermelha. Agradeceu e foi para o elevador. Logo Cíntia chegou. Ela entrou e lhe deu o pacote, calada. ––– Outro presente, Vida? – perguntou Cíntia sorridente. ––– Não é meu. Foi o rapaz da portaria que me pediu para te entregar. ––– Ah, tá... – foi um comentário meio decepcionado. – vamos ver de quem é... Abrindo o cartão, ela leu em silêncio, riu e passou à tarefa de abrir o pacote. Como estava chegando, esperou, abriu a porta de casa e, colocando tudo sobre a mesa, finalmente abriu o presente. Patrícia, não se agüentando mais de tanta curiosidade, perguntou: ––– De quem é, Cín? Você só fica rindo e não fala nada... ––– É que não está assinado... ––– Que coisa estranha.... Um presente anônimo? ––– Médio... ––– Como assim, Cín? Fala logo, mulher... ––– Ué, Patty, mas se você não me deixa concluir uma frase sequer! ––– OK... Vou ficar quieta... Explica isso: não está assinado, mas não é anônimo? ––– Não, o presente é uma agenda, e quem mandou foi a Milene. Ela não assinou o cartão... Será que estava tentando fazer alguma brincadeira comigo? Ele sequer foi escrito à mão... Mas eu reconheceria esse estilo de escrever mesmo que se passassem cem anos. Afinal, eu vivi com ela tempo suficiente para conhecer algumas de suas peculiaridades... E o estilo de escrever é uma delas. Aliás, cada pessoa tem seu estilo... ––– Cíntia, você quer parar de tentar me enrolar com esse papo de estilo disso e daquilo? Que liberdade é essa que ela tem para ficar te mandando presentes? Será que ela é a única pessoa dessa cidade que não sabe que estamos juntas? Mas ela estava no dia do seu aniversário! Ela nos viu grudadas uma na outra...! O que ela está pretendendo? ––– Calma, Patty! Que ciúme fora de hora é esse, Vida? Você está lembrada que hoje a sua ex- mulher-maravilha foi atrás de você, e eu não reagi assim? A gente tem que saber separar as coisas, Patrícia... ––– Ah, mas ela não conta! A gente sabe que ela não serve de parâmetro pra nada! E a Milene sabe que estamos juntas! ––– A Iara também sabe de nós duas, mas isso não a impediu de vir atrás de você! OK? E a gente sabe também que a Milene está muito bem com a nova namorada e só me mandou um mimo, com votos de Feliz Natal! Nada demais também! Eu inclusive vou ligar para agradecer... Ou talvez eu retribua com outro mimo... ––– Ah, mas não vai mesmo! ––– Oh, vida minha... Deixa de ser encrenqueira, vai... - disse Cíntia, rindo da cara de bravinha de Patty. – Venha, vamos cuidar da vida... Vem, minha dengosinha ciumenta... E, com muitos carinhos e beijos, ela acalmou Patty, a ponto de irem parar na cama antes de resolverem as coisas práticas.
Quando chegaram à casa de Patty, dona Marta já as esperava com um lanche leve. Sentaram-se à mesa, conversaram um pouco e logo foram dormir, já que de manhã sairiam para Rio Sem Fim.
Escrito por MariaN às 14h07
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Patrícia Capítulo 69 
Naqueles dias, Iara vivia uma experiência absolutamente nova. Jamais havia ficado tanto tempo sem ver o filho. Rodrigo havia ido passar uma semana com Hélio, na capital, onde ele dava expediente enquanto aguardava a abertura do seu novo escritório. Para não ter que pegar a estrada todas as noites, Hélio se hospedou num pequeno flat bem perto do escritório central. No terceiro dia juntos, ambos estavam esgotados. Ele não sabia como cuidar de uma criança: tratava o filho como um pequeno adulto. E esse método não estava funcionando. Rodrigo, por seu lado, também não tinha muita liberdade, nem intimidade com o pai. Sempre ficava meio sem graça quando passava muito tempo com ele. A solução que encontraram foi alugarem vários filmes e jogos de vídeo game. Assim, Hélio chegava do trabalho e ia tomar seu uísque vendo o telejornal no quarto, enquanto Rodrigo continuava jogando sem parar, louco pra chegar logo o dia de voltar pra casa da mãe. Esta, por sua vez, aproveitaria para ficar algum tempo com Vânia, já que não precisava se preocupar com ‘explicações” para Rodrigo. Bem cedo, no segundo dia sem o filho em casa, Iara pegou uma sacola, botou algumas roupas dentro e avisou: ––– Pai, eu vou ficar alguns dias na cidade. Todas as manhãs eu vou freqüentar aquele curso que te falei e também quero ficar um pouco só. ––– Iara, a cidade fica a poucos minutos daqui. Você não tem necessidade de ficar lá durante tantas noites se o que vai resolver é só durante o dia. Mas tudo bem. Você é bem grandinha e sabe o que faz. ––– É verdade, pai! Eu sou bem grandinha, e já que meu filho está passando alguns dias com o pai dele, não há nada de errado se eu também mudar de ares um pouco. Pode deixar que eu ligo diariamente pro senhor. Deu um beijo nele e se foi para a casa de Vânia. Elas haviam conversado sobre isso há alguns dias, e a idéia de ter Iara em casa, dormindo e acordando ao seu lado por mais tempo, era bem agradável. Apesar de não planejarem morar juntas, passar um tempo se curtindo seria muito bom. Ela foi logo de manhã. Um pouco antes de chegar, ela parou numa floricultura e comprou flores para dar um colorido à casa. Estava bastante alegre por fazer esta surpresa pra Vânia. Já não se viam há duas noites e Iara estava cheia de saudade. Mas, como o coração volúvel de uma delas acabaria por pregar-lhes uma peça, este momento chegou. Na verdade, elas contaram com uma bela ajuda de Rosa, que jamais deixara de perturbar Vânia. Em uma dessas suas idas e vindas de tentação, Vânia não resistiu, e Rosa dormiu com ela. De manhã, Vânia fez o café, tomou seu banho e foi trabalhar pensando que logo mais teria de conversar com Rosa sobre o acontecido. Esta noite de amor não significava um resgate da relação. Ela fraquejara diante da velha máxima de que a carne é fraca e, se bem conhecia Rosa, com isso tinha arrumado uma bela confusão pra sua vida. Rosangela não iria encarar a situação desta forma. Ao entrar no quarto para pegar sua bolsa, Vânia ainda olhou para Rosa e não pôde deixar de sorrir ao ver como ela dormia tranquilamente na sua cama. Ainda sorrindo, encostou a porta e foi para o trabalho. Algum tempo depois que ela saiu, Iara entrou. E entrou com ares de dona da casa. Afinal, a essa altura, ela já tinha a cópia da chave da casa. Na noite anterior haviam combinado que almoçariam juntas, porque ela tinha um compromisso na cidade, pela manhã. Por isso, num primeiro momento ela apenas deixaria sua ‘mala’ e iria para a sua primeira aula de um curso oferecido pelo SEBRAE para pessoas que precisavam de apoio e de algum conhecimento sobre os meandros de uma empresa. Depois de muito pesquisar, havia se decidido por uma loja multifuncional com “lan house”, locadora e salão de beleza. Apesar das velhas desavenças, Hélio a ajudava na parte jurídica. Ele havia se conformado definitivamente com o fim do casamento e esporadicamente até saía com uma ou outra mulher. Mas, voltando ao assunto: ela entrou, escolheu um canto da sala, onde deixou sua mala e foi à cozinha. Tomou um pouco de café e, em seguida, abriu a geladeira, pra ver se precisava comprar algumas coisas para os dias em que ficaria ali. Anotou alguns itens no papel que pegou de um bloco pendurado por um imã na porta da geladeira e dirigiu-se ao quarto para guardar a bolsa. Estancou e perdeu o chão ao ver aquela mulher deitada de maneira tão lânguida na cama de sua namorada! Da porta mesmo, virou as costas e saiu. Já na sala, ainda tentando se refazer do choque, sentou-se no sofá e ficou pensando no que fazer a respeito dessa novidade. Talvez a melhor atitude fosse ir até o local de trabalho de Vânia para tomar satisfação. Ou apenas para dizer que lhe dera um flagrante ao chegar mais cedo e num horário que ela não esperava. Estava sem ação e sentia seus olhos cheios de lágrimas, mesmo que não estivesse chorando. Seria apenas uma reação natural do seu corpo diante do inusitado da situação? Não tinha a resposta. Não soube por quanto tempo ficou ali, paralisada. De repente, ouviu passos e se retesou ainda mais no sofá. Em segundos, Rosangela apareceu toda sorridente e faceira, passando as mãos pelos cabelos e pelos olhos, quase cantarolando. Usava apenas calcinha e camiseta e sua intenção era a de ir à cozinha para tomar o café que Vânia havia passado antes de sair. E esse era um hábito de Vânia que Rosa lembrava muito bem. Foi então que ela deu de cara com Iara. Ela estava sentada no sofá, com as mãos cruzadas sobre as pernas, olhando fixamente para ela. Com cara de espanto, ela fuzilou Iara enquanto perguntava aos gritos: ––– Quem é você? E como foi que entrou aqui? Iara ficou parada, sem reação. E isto facilitou a vida de Rosa, porque como se tivesse tido uma grande idéia, ela sorriu, se desculpando – Ah, você deve ser a diarista... Desculpa se atrasei o início do seu serviço... Eu não sabia que era seu dia hoje. A Vânia não me falou nada... Mais uma vez Iara sentiu o chão se abrindo aos seus pés ao ouvir tais palavras. Reagiu, partindo pra cima de Rosa, com toda sua fúria: ––– Sua imbecil, safada e aproveitadora! Vocês dormiram juntas! Eu vi você na cama dela! – gritava e tentava esbofetear Rosa, que se esquivava, interceptando os ataques com os braços. Com um safanão ela jogou Iara de volta no sofá. ––– Hei! Qual é tua, mulher? Já sei! Você deve ser a ex-namorada da Vânia, não é? Pois acabou, sua idiota! Ela voltou pra mim! Pode esquecer! Vá embora daqui, porque desta vez eu vim pra ficar! Iara se amaldiçoou enquanto se levantava, ajeitava os cabelos e saía da casa de Vânia, dizendo pra si mesma o quanto fora tola ao se deixar envolver assim! Não resistiu e foi até a livraria. Ao vê-la entrar, Vânia foi ao seu encontro sorrindo. ––– Que surpresa boa! Que delícia te ver aqui logo cedo! Iara sentiu seu rosto inchar diante da falsidade de Vânia, mas ainda conseguiu falar bem baixinho: ––– Deixa de ser cínica, Vânia! ––– O que é isso, Iara? Recebo você com carinho e é assim que você reage? ––– Estou vindo da tua casa... Preciso dizer mais alguma coisa? Nessa hora, Vânia baixou os olhos e a chamou: ––– Vem comigo! Vamos conversar.. Não é nada disso que você está pensando... Isso era um convite para que Iara a acompanhasse até o pequeno escritório. Só que Iara sequer ouviu. ––– Não é mesmo: é muito pior! Eu a vi deitada na tua cama, Vânia! Eu não preciso ouvir mais nada! Só vim aqui para olhar nos seus olhos... Que decepção! Dizendo isso, ela saiu dali, sem dar outra chance a Vânia de se explicar, e passou horas andando pela cidade. Nos três dias seguintes ela só saiu de casa para ir ao curso. No quarto dia ela fez algumas comprinhas para o Natal. Comprou presentes para o pai, para Vera e para Rodrigo, que chegaria logo mais. Sentia falta de Vânia, mas estava magoada. Lembrou de Patrícia e se arrependeu por não tê-la apoiado quando ela precisou. E Vânia precisou de dois dias para despachar Rosa. E mesmo assim, depois de muita discussão. Quando finalmente viu Rosa saindo da sua casa, Vânia prometeu a si mesma que jamais cederia aos seus encantos novamente, caso ela reaparecesse. A essa altura, o estrago já estava feito e agora teria que suar muito pra reconquistar Iara.
Escrito por MariaN às 09h26
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Patrícia Capítulo 68 
Dona Marta sentia que por um bom tempo a filha estaria tranquila, agora que tinha Cíntia ao seu lado. Antes, ela chegara a pensar que as moças que gostavam de outras moças jamais encontravam a tranqüilidade de uma boa relação. Agora, depois de conhecer essas duas que se envolveram com Patty mais intimamente, pôde entender que o critério para a escolha era o mesmo usado pelas pessoas que gostam de pessoas do outro sexo. Ou seja: amor, companheirismo, parceria e tesão, por mais que fosse difícil pra ela pensar que sua filha fazia sexo com outra mulher. Nesses dias, lá no abrigo, conheceu mais uma moça “parecida” com Patrícia. Mas, pelo que ela soube, essa não era bem aceita pelos familiares, assim como a Cíntia. Esse fato levou-a a pensar em como sofrem quando não encontram apoio na família. Desde que começara a dar assistência às crianças do abrigo, vinha pensando bastante a respeito da visita que fariam à família de Cíntia. Havia decidido que não diria nada aos pais dela. Eles teriam que aprender a respeitar a filha maravilhosa que tinham sem que isso lhes fosse imposto. Na verdade, ela não sabia como agir. Porém, não se arrependera de ter aceitado o convite. Estava só esperando a confirmação. “Bom, mas chega de ficar pensando aqui, parada... Vou cuidar da vida, porque daqui a pouco elas chegam para almoçar”. Pensando nisso, ela voltou a cuidar do almoço que, por sinal, estava de dar água na boca. Enquanto isso, Cíntia trabalhava com cara de contente. Agora tudo se encaminhava para um final realmente feliz. Pouca coisa poderia atrapalhar os planos que ela fizera para a sua vida, desde que conhecera Patty e se apaixonara por ela. Ela acreditava que os piores momentos já haviam passado, porque Patrícia já não tinha mais aquele olhar melancólico e viajante que trouxera como herança da relação com Iara. Sim, porque apesar de ter disfarçado tudo o que podia engolindo todas as lágrimas de dor, ela sofreu muito com o rompimento causado pela falta de companheirismo e de confiança da Iara. E Cíntia assistiu a cada um desses momentos, ainda que se mantivesse quieta em muitos deles. Nos primeiros dias, Patty sentira seu coração se desintegrar dentro do peito, mas manteve-se firme; em primeiro lugar, por causa da mãe, que não merecia vê-la sofrer tanto. Em segundo lugar, por Cíntia que nunca desistiu dela e sempre lhe dizia que tudo se transformaria com o passar do tempo; a mesma Cíntia amorosa e paciente que sentiu e respeitou a ausência dos seus carinhos, mesmo enquanto lhe entregava os seus. Hoje, passados mais de trinta dias do rompimento com Iara, Patrícia já se sentia bem mais leve e já começava a fazer planos, nos quais Cíntia desempenhava o importante papel de sua companheira. Elas dormiam juntas quase todas as noites. Às vezes na casa de uma, às vezes na cama da outra. Isso, porem, não significava que sempre fizessem amor. No longo caminho a ser percorrido até o esquecimento total, Cíntia sabia que em alguns momentos apenas o papel de amiga lhe seria concedido. Era visível, porém, o estado de êxtase constante em que ambas viviam devido às várias descobertas diárias, tanto do corpo quanto dos segredos que formavam a personalidade de cada uma. O tempo se mostrava a favor de Cíntia que, carinhosa e dedicada, vivia a esperar com paciência pelo dia em que Patty lhe diria as três palavrinhas mágicas, aquelas capazes de mudar a história de qualquer pessoa. No início da relação, ela soube que Patty se agarrara a ela, porque precisava sobreviver, respirar e recuperar a crença num possível recomeço. E mesmo tendo se entupido de tanto trabalho, Patty não deixou de dar assistência e atenção para a mulher que, segundo ela, havia lhe tirado do buraco em que Iara a colocara.
Agora, faltando quinze dias para o Natal, Cíntia já se sentia mais segura nesta relação e era isto que sustentava o seu desejo de apresentar a namorada para os pais. Mesmo que eles nem ficassem sabendo que ela era a sua namorada. Ligou para os pais combinando que, como sempre, faria a ceia natalina com eles. Quem atendeu ao telefone foi Afonso, seu pai. E isso sempre dificultava um pouco as coisas, porque ele fazia o tipo de homem que não entende nada dos preparativos domésticos. Por isso, sua mãe sempre brincava, dizendo que “pelo menos ele é um bom provedor e costuma pagar tudo calado... E essa é a melhor parte”, concluía sorrindo. ––– Oi, pai, tudo bem por aí? ––– Tudo, Cíntia, mas estou com saudade da minha menina... Quando é que você vem nos ver? ––– É pra combinar isso que eu estou ligando, pai. Vou passar o Natal com vocês, como de costume. Só que desta vez não irei sozinha. ––– Será que finalmente vai nos apresentar um bom rapaz? – arriscou ele, cheio de esperança. ––– Pai, nós já conversamos muito sobre esse assunto, tá lembrado? ––– É, eu sei... ––– Então, quero levar minha chefa e a mão dela, mas para isso preciso combinar com vocês... Resignado, ele deu um longo suspiro. ––– Tudo bem, Cíntia... Vou passar pra sua mãe... Ela que entende dessas coisas... Um beijo, filha... Carmem, sua mãe, gostou da idéia e aproveitou para dizer que este ano a casa estaria cheia, porque André, irmão de Cíntia, estaria presente com a mulher e os dois filhos. Ele morava no Nordeste e raramente vinha nesta época, porque sempre passava os Natais com a família da mulher. Conversaram por algum tempo e Cíntia desligou. Imediatamente, ligou para dona Marta para lhe contar que agora era oficial: elas iriam passar o Natal com a sua família. No dia seguinte, Marta foi ao Shopping com sua lista, desta vez com mais dois nomes: Afonso e Carmem. Ficou cheia de dúvidas quanto ao melhor presente para o casal, já que não os conhecia. Resolveu que não pediria ajuda de Cíntia, porque certamente ela tentaria dissuadí-la dessa idéia, por isso optou por uma echarpe em tom neutro para a mulher e um bom vinho para o homem. Mesmo fazendo as compras com alguns dias de antecedência, ela percebeu que a cada ano a correria ficava maior. “Bom, mas a gente tem que se adaptar sempre, né?”, pensou ao pegar o táxi de volta pra casa. No abrigo das crianças, o almoço de Natal aconteceu no dia 22 e Marta participou de toda a organização. Só não cozinhou, porque cada prato foi oferecido, já pronto, por um comerciante diferente da cidade. Nesta ocasião, vários presentes eram enviados para as crianças carentes. E no restante do ano, muitos desses comerciantes esqueciam totalmente das criancinhas que tanto bajulavam no Natal.
Escrito por MariaN às 23h26
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Patrícia Capítulo 67 
Na segunda-feira de manhã, a paz entrou com elas no escritório. Qualquer pessoa que tivesse convivido com as duas percebeu que havia alguma coisa mágica no ar naquela semana. Naqueles dias, Patrícia dormiu fora duas vezes. E dona Marta achou a coisa mais natural do mundo. Ela exultava de alegria, mas evitava demonstrar além do normal. Sentia no olhar de Cíntia o quanto ela prezava o bem-estar de sua filha e via em seus gestos o desejo de dar à Patricia segurança e dedicação diariamente. E assim, a semana passou voando. Cada minuto era bem alimentado de amor e atenção por Cíntia, que não cabia em si de contentamento. A cada dia Patrícia notava que a lembrança de Iara tornava-se mais e mais distante. Aprendera também a ligar o mecanismo do esquecimento, afinal, não queria se entregar às lembranças, nem a um possível “revival” com Iara. Acreditava que o fim era definitivo e não daria chances para o sofrimento infrutífero. Por isso, ao final de vinte dias desde o rompimento, ela se lembrava apenas que, ao perder tempo tentando ensinar a alguém coisas que esse alguém não queria aprender, ela ganhara muita experiência para, no futuro, não se entregar tão completamente como o fizera com Iara. Por conta disso, por mais que estivesse se sentindo feliz e tranquila ao lado de Cíntia, passava muito tempo se controlando para não se entregar. No entanto, sentia-se vitoriosa, no balanço final, porque com Cíntia tudo acontecia de maneira diferente: a certeza do amor sereno a sossegava nos seus momentos de dúvidas e a ajudava na condução da sua vida. E o mês que havia começado com sofrimentos, lágrimas e rompimento chegava ao final com alegrias, sorrisos e recomeço. E como passava rápido este mês de novembro! Os dias sucediam-se com competência e presteza. Patty e Cíntia absorviam-os com alegria e prazer. O escritório, antes tão formal e tenso, aos poucos ganhou suavidade, e todos foram atingidos por essa onda de leveza que delas emanava. Nos últimos dias desse mês, duas novas pessoas integraram-se ao quadro formado por Patrícia, Cíntia, Érica e Vítor. O espaço físico foi ampliado com a aquisição da sala ao lado, e o escritório agora caminhava para se tornar a sede regional do departamento jurídico da empresa. A filial de Rio Sem Fim estava programada para entrar em funcionamento em março e, durante algum tempo, dependeria da infra-estrutura do escritório chefiado por Patrícia. Este detalhe acabou perturbando um pouco sua tranqüilidade, porque Hélio Santiago já estava designado para o novo escritório. Teriam que trabalhar em harmonia até que o novo escritório pudesse se tornar independente. Ela soube que ele ainda não havia retornado da viagem e que, assim que voltasse, no início de janeiro, ficaria na capital até a mudança definitiva. Então, ela teria um bom tempo para se preparar para os possíveis problemas que ele viesse a lhe causar. Com a chegada de dezembro, a companhia de Cíntia e o passar inexorável dos dias, Patricia relaxou um pouco e considerou que o aumento automático de responsabilidade nada mais era do que o reconhecimento pelo trabalho de tantos anos. Ela sentia que a carga de trabalho e as exigências de seus superiores aumentariam consideravelmente, mas não temeu por isso. Sabia que agora estava mais forte e mais capaz. Enquanto isso, Iara irrompia o mês de dezembro com uma voracidade de vida, de desejos de realizações e aventuras até então desconhecidas por ela mesma. Nos últimos dias já não se dava tão bem com o pai quanto antes, o filho estava prestes a entrar em férias, e ela não havia sequer iniciado uma programação com ele e, pra completar o quadro, Hélio aparecera duas vezes com ares de bom moço no intuito de resgatar o casamento perdido. Ele dizia que agora tudo poderia ser diferente, já que saberia como agir, na cama e fora dela, para fazê-la feliz. E era bom que ela aproveitasse a chance que ele estava lhe dando, porque seria sua última tentativa de lhe dar o amor que ela desprezara antes. ––– Hélio, porque você ainda perde seu tempo comigo? Já se esqueceu de toda a minha luta para conseguir o divórcio? ––– Não me esqueci, não... Você passou feito um trator em cima de mim e de tudo o que construímos juntos, eu me lembro muito bem de tudo o que você fez comigo!... Mas eu já sei que você já se livrou daquela uma que ficava botando coisas na sua cabeça contra mim... ainda bem que você despertou a tempo e não deixou que ela continuasse a estragar a sua vida, porque ela só queria dar o golpe em nós dois! Ela tanto fez que alcançou o que queria: a nossa separação e o meu cargo na empresa... Como você pode ver, ela desestruturou nossa família! ––– Hélio, você quer fazer o favor de ir embora daqui? Nosso casamento acabou, e eu não pretendo retornar ao passado. ––– Eu sei que acabou, Iara, mas foi por culpa dela. Sozinha, você não teria me enfrentado! ––– Eu já queria interromper o casamento há muito tempo. Ela não teve nada a ver com minha decisão. ––– Você quer que eu acredite que aquela Patrícia não foi o principal motivo? ––– Por que você insiste tanto? Será que preciso me repetir, Hélio? Quando ela surgiu na minha vida, eu já estava decidida a pedir o divórcio... Nós dois não tínhamos um relacionamento: tínhamos um casamento que se arrastava por muito tempo, sem amor, sem tesão... Nesse ponto ele a interrompeu: ––– Alto lá! Eu nunca perdi o tesão por você! E eu estou pronto pra te perdoar... Volta pra mim, vamos terminar de criar nosso filho... Iara retomou a sua frase do mesmo ponto em que ela foi interrompida: ––– Eu precisava sair viva do casamento com você! Talvez você não saiba, mas eu morria a cada dia ao seu lado. E... quer saber? Eu já estou com outra pessoa! Por isso, pode ir parando com essa conversa sem sentido pra mim! – perdendo um pouco a paciência, ela concluiu: - Ah, não me gasta, Hélio! Vou chamar teu filho e depois de falar com ele, por favor, vá embora daqui! Aliás, que é que você acha de levá-lo pra passar uns dias contigo, seja lá onde você estiver? Nem esperou resposta e saiu da sala indo atrás de Rodrigo, que como sempre, estava em volta dos animais no quintal. ––– Rô, teu pai está aí... Vai lá dar um beijo nele... O garoto saiu correndo e entrou em casa. Encontrou o pai e o avô conversando na sala. ––– E aí, filhão, que saudade, moleque!! Dá cá um abraço no teu velho pai... Rodrigo riu da maneira que Hélio falou e o abraçou apertado. Vera serviu café, suco e bolo de milho para todos enquanto eles decidiam se Rodrigo iria ou não passar o final de semana com ele. Foi o próprio Rodrigo quem definiu a situação: ––– Pai, eu vou com você no outro final de semana, porque minhas férias começam na sexta-feira e eu ainda preciso estudar pra duas provas, tá? ––– Ótimo, meu filho... Até lá dou uma organizada nas coisas, afinal acabei de chegar de viagem... E virando-se para Iara, ele disse: ––– Estou pensando em vender a casa daqui e comprar lá em Rio Sem Fim... Você tem certeza que não quer vir comigo? ––– Hélio, você já sabe a minha posição... ––– Tudo bem, Iara... Depois não diga que eu não tentei... Ele saiu em seguida, e Iara, no momento da despedida, viu lágrimas em seus olhos. Mais tarde ela diria para Vânia: ––– Você precisava ver que homem patético! Que situação desagradável... Meu pai me olhava o tempo todo, como se estivesse exigindo que eu aceitasse o que ele me propunha! ––– Olha, eu ainda não conheci o teu pai, mas ele não me parece uma pessoa incompreensível. Para o bem de todos, e já que você não pensa em sair de lá tão cedo, que tal se você voltasse a tratá-lo bem? ––– Ah, sei lá, viu... Estou ficando cansada disso: sempre alguém se metendo em minha vida... Antes era o Hélio, depois a Patrícia, que, assim como ele, se achava minha dona, depois meu pai e agora você também... ––– Lá vem você com o nome dessa mulher de novo! Por que não vai atrás dela de uma vez? E também não entendo a razão dessa explosão comigo! Só estou tentando te dar uns toques sobre como viver bem com as pessoas que te rodeiam... Ah, como você é cabeça dura, Iara... Assim, sem mais, nem menos, você vem com tudo pra cima de mim! ––– É o que eu deveria fazer mesmo! Ir atrás de Patty, pelo menos ela era carinhosa comigo... ––– Juro que não te entendo! Você reclamava tanto por não suportar as pieguices dela... E, mais uma vez, elas iniciaram uma briga sem ter nem porquê. E mais uma vez a briga acabaria na cama, como todas as outras. E assim, elas levariam a relação até que o excesso de sexo bruto, ou o coração volúvel de uma delas, ou de ambas, as separasse. E dona Marta, neste mês de dezembro, decidiu que exerceria algum trabalho voluntário. Tudo por conta da avalanche de emoções causadas por tantas propagandas na TV, panfletos e também pelas pessoas que em maior quantidade nesta época, batem nos vidros dos carros, pedindo “uma esmolinha pelamordedeus”. Isto sem falar que quando o Natal se aproxima, o apelo pela emoção vem embutido em tudo o que nos rodeia, justamente para causar comoção nas pessoas. Num desses outdoors espalhados pela cidade, ela se comoveu ao ver fotos de crianças implorando por uma madrinha ou um padrinho. Assim, em duas ocasiões pediu a Patricia que a levasse para conhecer asilos, creches, orfanatos e casas de apoio aos doentes. Desta forma ela poderia escolher em que área atuar. Pelas informações obtidas durante essas visitas, o lugar com o qual ela mais se identificou foi com um orfanato-creche situado num bairro não muito distante do seu. Segundo ela disse depois para Cíntia: ––– As crianças são muito fofas e muito carentes... aqueles olhinhos lindos olhavam pra mim como se estivessem vendo uma avó de verdade. E olha que muitos ali sequer conheceram mães ou avós! Acho que vou gostar de passar algum tempo com elas... ––– E a senhora já sabe qual o período do dia será dedicado a elas? ––– Ah, não vou lá todos os dias, mas nas terças e quintas irei pela manhã e só voltarei pra casa depois do almoço. E é aqui perto, posso ir sozinha. Nem vou precisar que a Patty me leve lá... Cíntia entendeu que ela estava tentando suprir seu desejo de ser avó. E ao comentar isto com Patrícia esta se lembrou que uma vez dissera a mãe, há muito tempo, que não havia nada que a impedisse de ter filhos. O fato de ser homossexual não a deixara estéril e, através de métodos bem modernos, poderia sim dar um neto a ela. ––– Acho que minha mãe está agindo desse jeito para me lembrar disso, Cín... ––– E você pensa mesmo em passar por todo o processo da gravidez? ––– Não vejo problemas nisso, mas diante de tantas crianças abandonadas, talvez a melhor opção seja mesmo adotar. Mas, pra isto, ainda preciso me preparar um pouco mais... Tiveram esta conversa na cama dois dias antes de dona Marta iniciar o seu trabalho no abrigo. Então, tudo combinado, as terças e quintas Patty almoçaria pela rua, porque a mãe teria compromisso no abrigo. E finalmente chegou o dia em que Marta uniu o útil ao agradável. Conseguia seu intento de se sentir avó quando começou a participar da vida daquelas crianças. Seria uma espécie de madrinha, mas logo no primeiro dia já foi chamada de ‘Vó’, e isso a deixou muito feliz.
Escrito por MariaN às 20h00
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Patrícia Capítulo 66  A força do olhar de Cíntia acordou Patty, que abriu os olhos já sorrindo para a mulher que a admirava: ––– Cín, eu fiz alguma coisa da qual eu possa me arrepender? – perguntou com uma carinha sapeca. ––– Sim, Patty, você fez de mim a mulher mais feliz deste mundão de meu Deus! – quase gritou Cíntia. Mas se conteve para concluir: - e sim, você pode se arrepender muito se não repetir a dose pelo menos duas vezes por dia, daqui pra frente... ––– Acho que algo afetou minha memória, Cín, porque não me lembro de nada... ––– Vem cá que eu vou refrescar sua memória... E num único movimento se posicionou sobre o corpo de Patty de tal maneira que podia sentir na sua pele cada poro do corpo da mulher amada. E isto a levava ao êxtase. Deliciada com a competência das carícias, Patrícia se entregou sem reservas a mais uma sessão ímpar de amor nos braços ardentes de Cíntia. Quase uma hora depois, Patrícia se soltava da boca de Cíntia, mais uma vez totalmente saciada. Foi a contragosto que ela se levantou para pegar o celular e ligar para a mãe: havia se lembrado que não tinha avisado que dormiria fora. Ligou meio apreensiva. Marta, entretanto, a recebeu muito bem, pois imaginava mesmo que ela não voltaria pra dormir em casa, por isso ficou tranquila. E como elas foram de táxi, nem teve motivos para preocupações. ––– Ah, mãe, que bom! É que chegamos tão tarde... Com certeza eu te acordaria se tivesse ligado... Peraí, mãe, que a Cíntia está falando alguma coisa aqui... ––– Veja se ela aceita o convite pra almoçarmos juntas... – Cíntia, deitada sobre as pernas de Patty, sentia-se a mulher mais feliz do mundo. Patrícia fez o que ela pediu, desligou o telefone, trocaram muitos carinhos, dos mais simples aos mais ousados e bem depois foram para o banho. Almoçaram juntas, como Cíntia sugeriu, e dona Marta observou o quanto Patty estava com a aparência mais leve... Os olhos mais calmos, o sorriso mais fácil... Ainda bem que aquelas rugas de tensão sumiram de sua testa. Pensou em tocar no nome de Iara, mas se conteve para não aborrecer as duas moças. Ao invés disso, ela deu uma idéia: ––– Filha, você vive me dizendo que preciso sair um pouco, me divertir, essas coisas... Eu estava pensando: que tal se a gente fosse dar uma volta pelos arredores da cidade, numa cachoeira, ou coisa assim? Patrícia olhou para Cíntia na expectativa de uma resposta. E esta veio na forma que dona Marta queria: ––– Eu acho uma ótima idéia! Que tal amanhã? A gente poderia fazer um piquenique, com direito a toalha xadrez, cestas de vime e tudo o mais... Todas ririam e combinaram que fariam o tal passeio. Marta reservou aquela tarde de sábado para fazer bolo, uma torta e sanduíches que levariam para o passeio. Patrícia ficou encarregada das compras, desde que alguém fizesse a lista, claro; à Cíntia coube a arrumação e a organização de tudo. Para facilitar a saída no dia seguinte, segundo dona Marta, Cíntia deveria dormir com elas naquela noite, porque assim, nada poderia atrasar a partida, logo de manhãzinha. E assim foi feito, para a alegria de Cíntia que estreou a cama de Patty. Fizeram amor devagarzinho, silenciosamente e, entre beijos e sussurros, ficou decidido que trocariam a cama por uma maior na semana seguinte. Antes de dormir, naquele último segundo de lucidez antes de ser laçada pelo sono, Patrícia conseguiu dizer: ––– Cín... ––– Hum... ––– Com você eu estou conhecendo a paz... Boa noite... Cíntia respondeu com as palavras dentro de um beijo: ––– Eu te amo... Boa noite, minha vida... Vencida pelo cansaço da “silenciosidade’’ dos gozos sucessivos, Cíntia aconchegou-se à mulher amada e entregou-se aos sonhos. Antes das oito estavam na estrada. Em pouco mais de uma hora de viagem, chegaram a uma cidadezinha muito famosa por suas festas religiosas, cuja arquitetura do século XIX era responsável pelo grande número de turistas que basicamente moviam a sua economia durante todo o ano. Claro que dona Marta aproveitou para visitar pelos menos três igrejas. As meninas, porém, não a acompanharam em todas. Na última, elas ficaram comprando lembrancinhas nas barriquinhas ali de fora. Terminando a via sacra de Marta, lá se foram para os arredores da cidade à procura de um lugar à sombra de uma grande árvore onde pudessem estender a toalha xadrez. Havia outras pessoas por ali aproveitando o dia de sol, mas todos mantinham uma distância educada umas das outras. A paisagem bucólica em torno desta cidadezinha rodeada de pequenas cachoeiras e tão próxima a duas grandes cidades transformou-a em um retiro onde as pessoas esqueciam seus problemas de cidade grande, por algumas horas que fosse. Cíntia e Patty trouxeram roupas de banho, por isso, mal esvaziaram o porta-malas, deixaram Marta cuidando da arrumação e caíram na piscina natural formada pela queda d’água de cinco metros de altura. Na água cristalina elas brincaram, feito duas crianças que há muito não viam tão de perto a natureza na sua simplicidade. Dali a pouco, Marta se aproximou e, sentando-se numa pedra com os pés na água, começou a contar casos vividos por ela quando era criança. As duas moças ririam muito quando ela disse que ela e os dois irmãos, que Deus os tenha, roubavam milho e melancia na roça dos vizinhos. Sim, e por isso, uma vez ela ganhara uma surra do pai que jamais esquecera. Ah, como era bom recordar dessa época em que a vida se resumia em ir pra escola rural e correr pelos campos sem preocupações com o futuro ou com o presente. Bom, mas agora tudo estava diferente e algumas crianças da cidade sequer sabiam como era um pé de melancia ou de milho. ––– Fico pensando, sabe, são tantas boas recordações de quando eu tinha meus pais e irmãos... Agora somos só nós duas, não é, minha filha? – concluiu meio choramingona. ––– É, mãe, mas estamos bem... Por favor, não fique triste com essas lembranças. Dizendo isso, Patty voltou a dar umas braçadas, e se afastou nadando, em direção a Cíntia. ––– Tá bom! Nada de tristezas! Vamos tomar um suco, gurias! Depois vocês voltam para cá e eu vou andar um pouco por aí. Cíntia e Patty acompanharam-na até a “mesa”, já posta e organizada. Enroladas em cangas, elas se sentaram no chão e se serviram de suco e ficaram conversando. Conversa vai, conversa vem elas acabaram chegando ao assunto de como alguns pais aceitam a orientação sexual dos filhos, e outros não. Nesse ponto, Cíntia acabou desabafando: ––– Eu seria muito feliz se conseguisse aceitar os meus pais como eles são. Ou seja, lá na minha casa, há uma espécie de acordo: eles não me aceitam e eu não os aceito. Como se já não bastasse todo o conflito que enfrentei dentro de mim quando me descobri homossexual. Talvez eles jamais tenham pensando em como foi difícil pra mim essa aceitação. Não que eu tenha pensado em cogitar qualquer tipo de negação... É que na época, o meu sofrimento e o meu conflito foram muito maiores do que os deles hoje e sempre. Afinal, quem vai conviver com o preconceito sou eu, e não eles! Foi então que dona Marta e Patty contaram a ela como havia sido quando Patricia resolveu se abrir. No final, a mãe de Patrícia até se ofereceu para conversar com os pais de Cíntia: ––– Quem sabe ouvindo de outra mãe eles consigam abrir um pouco o coração? ––– Ah, mãe, tu nem sabes como eles são! Vai que resolvem brigar contigo também! ––– Não, Patty! Tua mãe tem razão! Meus pais não convivem com nenhuma outra família que tenha um homossexual! ––– Então, pensa nisso, pequena! Talvez eu nem diga muita coisa, mas eles vão saber que existem algumas mães e pais nesse mundo que aceitam seus filhos como eles são e isso pode mudar um pouco a cabecinha deles... ––– Ah, dona Marta, vou pensar num jeito de promover um encontro entre vocês. E não é só por isso, não, hein? É porque a senhora é uma pessoa maravilhosa e, mesmo que não dê em nada e a gente não consiga falar com eles nesse assunto, vai valer a pena pra eles conhecerem a senhora. E assim o domingo foi se acabando dentro de muita alegria, troca e desejo de perpetuar este momento. E dia foi mesmo maravilhoso. Ou, como diria Cíntia: perfeito. Já era noite quando voltaram. Descarregaram tudo na casa de Patty, ajudaram Marta em algumas arrumações e Patty levou Cíntia até sua casa, ficando lá por tempo suficiente para matarem a saudade dos beijos longos e intensos. Sim, porque perto de Marta elas não se acarinham. Patty aprendeu que um dos segredos para manter a mãe ao seu lado era primar pelo respeito. E mesmo se namorasse um rapaz, agiria da mesma forma. Não tinha necessidade de mostrar para sua mãe como duas pessoas se beijam ou fazem amor. Ela já sabia. E além do mais, sempre que via uma cena dessas muito escrachadas na TV, a primeira coisa que dizia era “o mundo está perdido com essa pouca vergonha tão escancarada dentro da casa da gente”. Naquela noite, Patty sentiu falta de Cíntia em sua cama, e Cíntia se sentiu solitária em seu quarto. Mas ambas dormiram rapidamente por causa do agito no final de semana.
Escrito por MariaN às 23h52
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Patrícia Capítulo 65

Horário do almoço. Iara, à volta da mesa, servia ao seu pai e ao seu filho. Havia interrogações no ar. Ela sabia que o pai iria querer a verdade, afinal ela chegara em casa já pela manhã. Tivera sorte que, ao entrar, ele estivesse na pequena sala, que ele chamava de escritório, anotando algumas coisas num livro grosso e preto. E estava tão entretido que ela agradeceu aos céus e foi direto para seu quarto. O filho já havia se levantando e ela correu para trocar de roupa, antes que ele a visse. Besteira, já que ele vira a ausência dela a noite toda no quarto que dividiam. Falaria com o pai. Estava na hora de Rodrigo ter seu próprio quarto. Não seria problema, afinal tinha mais um quarto na casa e estava vazio. Na próxima semana, pediria a Vera que fizesse uma limpeza lá e faria uma pequena reforma. Boa idéia: Rodrigo ganharia um quarto novinho em folha. Andou pela casa até achar seu filho. Estava próximo aos animais, conversando com os cavalos. Deu-lhe um beijo e voltou para dentro, indo direto ver o que Vera tinha deixado adiantado para o almoço de sábado. Havia uma lasanha congelada e salada já lavada. Retirou a lasanha do freezer, decorou uma travessa com a salada, acrescentando algumas conservas e decidiu fazer um pouco de arroz. Enquanto dava andamento ao almoço, pensava na noite mal dormida. Por um lado, com algum arrependimento; por outro, com muito prazer. Ao chegar ao encontro com Vânia, depois de horas tentando falar com ela por telefone, a primeira pessoa que vira foi Patrícia, toda serelepe com aquela bat-girl da Cíntia. Deixou as duas de lado para ouvir de Vânia toda a saga com Rosa no início da noite... Inclusive, ela disse, tinham estado naquele mesmo bar. Ela só tinha saído dali pelo tempo suficiente para despachar Rosa na Rodoviária, onde ela pegou o último ônibus para a capital. E este foi o motivo pelo qual não atendera as ligações. Afinal, Rosa era perigosa. Só Vânia sabia do que Rosa é capaz: ––– Poderia ter pegado o telefone em minhas mãos para te falar horrores... Mesmo sem te conhecer ela saberia como te ofender, porque não tem papas na língua. Eu conheço aquela peça rara. ––– E como é que você pôde se envolver com uma mulher tão vulgar? ––– Iara, a gente só percebe essas características com o passar do tempo. E, de mais a mais, todas nós somos capazes de cometer coisas desse tipo em algum momento da vida. ––– E essa farra aí, faz tempo que começou? – perguntou Iara, curiosa com a presença de Patty. ––– Ah, sei lá... Foram chegando aos poucos... Para quem já terminou a relação, você está muito interessada nos passos da moça... E olha só, mesmo que a gente esteja num relacionamento aberto, como já foi dito, é preciso seguir certas regras, e ficar de galho em galho ou de olho em ex não faz parte do jogo. Aliás, Iara, eu não admito gracinhas. ––– Não vejo problema, poxa vida, afinal, ainda estou bem mexida com o rompimento, que é ainda muito recente... E pelo que você me disse, quando propôs um novo modo de relação, achei que valia tudo! ––– Eu não acredito que você tenha levado a sério o que eu disse! Chifres é um enfeite que não combina comigo! Acorda, mulher! Se eu gostasse de dividir mulher minha, não teria rompido com Rosângela! ––– Eu estou vendo que palavra é uma coisa para a qual você não dá muito valor! Depois conversaremos sobre isso. Já não sei se me interessa ficar com você. ––– Iara, você não é mais uma adolescente, cuja formação psicológica ainda está incompleta, que vive por aí,fazendo coisas sem noção de responsabilidade! Você acredita mesmo que as pessoas aceitem essa vida de aventuras o tempo todo? Pois se não conseguiu isso com a Patrícia, que é bem mais nova do que eu, não será comigo que vai aprontar! Acho melhor sairmos daqui! Vamos conversar em minha casa! Ela não gostara do tom de Vânia. E de repente, sentiu que tudo estava contra ela. Antes era Patty com aquela mania de cuidar o tempo todo, agora Vânia com esse jeito de mandona pra cima dela! Decidiu que resolveria os problemas com Vânia depois. Agora queria se dedicar a perturbar Patrícia. Estava com raiva e não deixaria por isso mesmo. Enfim, uma junção de fatores provocou nela o desejo de ir até lá só pra provocar. Só queria dizer que não era trouxa... ou qualquer outra coisa que tirasse do seu rosto aquele sorriso idiota, como estava agora. Sentiu muita raiva ao ver que Patrícia se divertia logo no dia seguinte ao rompimento, como se nada tivesse acontecido. Aquela bat-girl tanto fez, que conquistou Patrícia de novo. Ah, mas ela não fora enganada! Ela sabia o tempo todo! Não faria escândalos. E também queria, entre outras coisas, se vingar de Vânia, que preferiu dar atenção e posar de anfitriã para a ex, do que atendê-la quando ela queria. Agora mais essa novidade! Porque tudo bem que ela houvesse concordado com uma relação aberta, mas não esperava ser traída logo na primeira noite de namoro... digamos assim, oficial... E Patrícia também não tinha o direito de ficar de agarramento com a outra na sua frente. Aquilo era falta de respeito com ela! Por isso, foi até a mesa da aniversariante: precisava se vingar das duas. Vânia e Patty deviam ter se unido para desmoralizá-la. Afinal, todas as pessoas da mesa em que elas estavam as tinham visto juntas em determinada ocasião. E por que Vânia fizera questão de permanecer ali? Ela sugeriu irem para outro lugar, mas não, ela tinha que provocar! Quando Vânia praticamente a arrastou para fora do bar àquela hora, ela ficara com muita raiva. Discutiram, berraram e gritaram uma com a outra, mas Vânia não lhe deu tréguas e decretou que, ou ela assumia o romance entre elas, ou acabava ali o que mal havia começado! E ficar sozinha era a última coisa que Iara queria agora. Apesar daquele papo de liberdade com Patty, ela sabia que se ficasse sozinha agora, poderia fazer alguma besteira, tipo correr atrás de Patty rebaixando-se com pedidos humilhantes de desculpas... O principal motivo, porém, era que não se preparara para ficar só. Este último pensamento provocara um arrepio em Iara: dera-se conta de que nunca havia se preparado para nenhuma das duas coisas: nem para assumir qualquer uma de suas relações, nem para ficar só. Mas não era hora de ficar remoendo suas frustrações, por isso direcionou novamente sua atenção para as sensações da noite anterior, o que a levou a perceber como era exageradamente nítida a diferença entre Vânia e Patrícia. Esta era suave, apesar de determinada; aquela transpirava segurança, não gostava de pieguices, mas era um tanto quanto rígida, e até mesmo grosseira no trato diário. Patrícia era bastante maleável e, apesar de sempre esperar dela uma atitude, também a ajudava a enfrentar seus medos, suas inseguranças. Vânia sequer lhe dava tempo de respirar: queria mais do que respostas, exigia atitudes imediatas! Para Vânia não havia meio termo, mais ou menos, talvez, quem sabe... Não! Com ela as coisas eram ou não eram e ponto final. Naquela noite, Iara provou do seu real sabor e sentiu saudade de Patty, sempre tão romântica e carinhosa. Pôde sentir também que aqui ela não teria chances de dominar a relação. Vânia fazia o tipo ativo intransigente e logo de cara Iara percebeu que nesta relação ela voltaria à antiga posição submissa que conhecia tão bem, dos tempos de Hélio. O sexo com Vânia era louco e selvagem, sem muito tempo para carinhos. Aliás, pensava ela, Vânia era muito envolvente, porém, muito prática. Acostumada a morar sozinha, às vezes agia com um quê de egoísmo. Antes ela morava com os pais na capital, mas quando surgiu a oportunidade de se transferir com uma promoção, não pensara duas vezes. Aqui na livraria, ela era a ‘big boss’, lá era apenas mais uma. Em nome disso, abrira mão até da convivência com Rosângela. E deu no que deu. Iara foi a primeira mulher que a interessara nesta cidade. Algumas dessas coisas Iara soubera naquela noite, entre as brigas e o sexo. O almoço seguia um pouco silencioso. Havia cobranças no ar. Rodrigo foi o primeiro a falar. O assunto girou em torno da viagem que o pai lhe dera de presente no último encontro que tiveram. ––– Mãe, a gente pode ir agora nas férias de dezembro, né? ––– Não, Rodrigo, nós iremos em Julho. Tenho muitas coisas para resolver agora. E também está muito em cima da hora. ––– Ah, mãe , mas eu quero ir agora! Julho está muito longe! – disse fazendo cara de birra. ––– Você não é mais tão criança assim, que não possa entender como as coisas funcionam. ––– Sua mãe tem razão, Rodrigo. Você pode esperar um pouco mais. Quando crescer e for independente, você pode ir e vir do jeito que quiser. Mas agora tem que obedecer. Seu Alcides se meteu no assunto para que Iara não tivesse problemas mais tarde. E Rodrigo aceitou calado sua intromissão. Terminado o almoço, Iara foi pra cozinha e ficou juntando a louça sobre a pia. Ela sabia que mais cedo ou mais tarde seu pai viria falar com ela. E assim foi. Ele chegou de mansinho, sentou-se por ali, pigarreou e começou a falar: ––– Iara, eu não vou dar bronca e nem passar sermão. Assim como teu filho, você também já tem idade para saber como as coisas devem funcionar para que o respeito entre as pessoas não se acabe. Teu filho não é mais uma criança e logo vai querer saber detalhes da sua vida, inclusive onde e com quem você costuma passar as noites. ––– É, pai, eu sei. Só não sei se devo abrir o jogo com ele de cara. Tenho medo da sua reação, sei lá... ––– Não precisa abrir o jogo dizendo coisas que ele ainda não pode entender. Apenas dê-lhe satisfações quando precisar passar a noite fora de casa. Aos poucos, à medida que ele for crescendo, você vai se abrindo. – fez uma pausa e continuou - Esta noite ele acordou e, quando não te viu na cama, veio me perguntar por você. Eu disse que você tinha ido visitar uma amiga... ––– Ai, meu pai, eu preciso resolver isso... e o que foi que ele disse? ––– Perguntou se era a Patrícia. Não minta pra ele, mas também não diga a verdade de uma maneira muito crua. ––– Obrigada pelo apoio, pai. Vou achar uma maneira de contar tudo... ––– Agora... Eu quero saber: quem é a pessoa com quem você tem passado tanto tempo? ––– Pai, o nome dela é Vânia e ela é gerente de uma livraria lá no centro. ––– Já esqueceu a Patrícia? Fico desnorteado com a facilidade com que o amor de vocês muda de direção... vai assim, ao sabor do vento... Hoje é uma... amanhã é outra... depois de amanhã eu tenho até medo de saber... Falando isso, ele saiu dali, deixando-a sem saber o que pensar. Ela não era assim, tão promíscua como ele acreditava. Ah, isso não! Agora, ela não tinha culpa se não tinha dado certo com a Patrícia! Poxa, essas coisas acontecem! As pessoas não precisam ficar juntas toda a vida, só porque seu pai acha que é certo. Pensando nisso, chegou a sentir o perfume de Patrícia ali perto dela. Sim, agora acabou mesmo. “Será que eu tive alguma culpa no fim? Claro que não! Ela que é muito exigente e quer tudo do seu jeito! É, mas a Vânia também é assim. E talvez até mais do que Patty. Ah, vou parar de pensar nela, porque tenho mais o que fazer!” Mas o que ela fez foi apenas mudar de protagonista. Encostou-se à mesa e lembrou-se de Vânia e de como era maravilhoso transar com ela. Se era amor, ela só saberia depois. E nem queria pensar nisso agora. Ficou parada por um bom tempo, recordando a noite anterior. Depois da briga que tiveram por causa da sua atitude inconseqüente de abordar Patty na mesa, elas foram pra cama e transaram de um modo muito louco, sem medida e sem pudores. Pois que assim fosse sempre que brigassem. Não perderia nenhum dos bons e ardentes momentos que pudesse viver com Vânia. O futuro a Deus pertence, e ela não perderia tempo pensando nele.
Escrito por MariaN às 00h26
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Patrícia Capítulo 64 
Era o velho e bom reduto de tantas farras para Cíntia, porém um ambiente relativamente novo para Patty. Algumas meninas, Márcia, Ana, Tatiana, Tânia e Milena, que Cíntia e Patty conheciam já haviam chegado. Disseram que esperavam outras amigas, porque a noite prometia, e muito! Depois de receber o abraço de cada uma ali, Cíntia pegou Patty pela mão e, pedindo licença levou-a para um canto. Ela se encostou à parede e segurando Patty pela cintura, puxou-a para si e deu-lhe um beijo de tirar o fôlego. Patrícia, sem resistência, apertou o seu corpo contra o (ou a favor do) dela e correspondeu ao beijo, como se fosse este o seu ideal de vida. Sem interromper os beijos, Patty conseguiu falar: ––– Uau!! Passiva agressiva... Não brinque assim comigo... Eu estou muito carente... E quando estou assim, não me responsabilizo pelos meus atos. Cíntia não deixou por menos: ––– Pode relaxar que eu assumo os nossos atos daqui pra frente! Eu queria este presente hoje! Com dificuldade elas se soltaram e voltaram à mesa. Sentaram-se no lugar que alguém determinou, e Cíntia continuou segurando a mão de Patty sobre a perna. Durante o resto da noite ela deixou claro que falara muito sério. Patrícia apenas se deixou levar, pois, mesmo sem que nada fosse dito, sabia que estava num caminho seguro. A noite foi animada. Ao todo, doze mulheres passaram por ali. Nem todas se sentaram ou ficaram, mas a maioria conhecia Cíntia e fez questão de parabenizá-la. Logo no início da noite, Cíntia viu Vânia numa mesa do canto com uma mulher e comentou com Patrícia. ––– Não é a mulher que estava com a mulher-maravilha aquele noite? ––– Sim, é ela. Bom, mas não temos nada a ver com isso. Melhor fazer de conta que não vimos nada. Mesmo sentadas, elas continuavam de mãos dadas. E a presença de Vânia ali não impediu Patty de ficar cada vez mais próxima de Cíntia, que volta e meia precisava se levantar para receber o abraço de alguém. Apesar da fartura de bebidas na mesa, já que cada pessoa pedia uma diferente, Patty evitou misturar. Elegeu o vinho como a bebida da vez e não provou nenhuma outra. Cíntia, ainda que tomasse cerveja, arriscou um ou outro gole de uísque com Márcia. Em determinado momento, Patty deu-lhe um toque, pedindo-lhe carinhosamente que se controlasse pra não ficar de porre. E Márcia, assim que teve chance, aproveitou-a para provocá-la em relação à Patrícia: ––– E então, vai grudar na mulher, ou vai deixá-la solta de novo? Se eu fosse você não arriscaria, viu, porque, cá pra nós, ela é tudo de ‘bão’... Ao que Cíntia comentou seriamente, apesar do sorriso bobo: ––– Pois vá cantar de galinha em outro quintal, porque agora que estou reconquistando minha morena, ninguém tasca mais! ––– Calma, amiga... Brincadeirinha... Eu estou acompanhada, ó...- disse apontando Aninha que alheia a tudo isso, conversava com outra menina na mesa. E assim, a noite foi passando. Já era bem tarde quando a atenção de Patty foi atraída para uma mesa do outro lado do salão. Era Iara que acabava de chegar e se sentava com Vânia. Patrícia não entendeu nada, porque ainda há pouco havia outra mulher ali, mas disfarçou. Achou melhor nem comentar com Cíntia. Mas ficou contrariada com a situação e, naturalmente se viu procurando justificativas para o final da relação entre elas. “Cruzar com as duas logo na primeira noite? Bom, mas eu também estou aqui com a Cíntia. E está bem claro pra quem quiser ver, que estamos nos entendendo. Ah, mas eu sabia que elas estavam juntas, e a Iara com aquele papo de liberdade, de não querer se comprometer e, principalmente, com aquele ciúme bobo de Cíntia... Quem tem coragem de fazer costuma acusar quem não faz, só pra tirar a atenção dos seus atos... Ainda bem que não banquei a boba... Olha só a cara de satisfação dela! E na rua até essa hora... comigo tinha que chegar cedo em casa, por causa do pai, do filho, do cachorro, do gato... e de não-sei-mais-quem! É bom pra eu saber como funciona... Vou fingir que não vi nada, nem ninguém. Afinal, a última coisa que eu faria seria estragar a noite da Cín." Cíntia brincava e se divertia sem, no entanto, se afastar de Patty, que a todo instante colocava a mão sobre sua perna ou mexia em seus cabelos, tocava seu rosto... Não poderia desejar uma comemoração melhor para o dia em que completava trinta anos de idade. De repente, do nada, Cíntia viu Iara. A primeira sensação foi de medo. Medo que ela estragasse seu momento com Patty. Medo de que Patty tivesse uma recaída... Por isso, olhou para Patrícia, que estava toda risonha ao seu lado, e isso a tranqüilizou. Ela não parecia mexida com a presença da outra. Mas... Será que ela já a vira? Ante seu olhar interrogativo, Patty, adivinhando o motivo, respondeu: ––– Sim, eu já vi... Está tudo bem, Cín... ––– E ela, já te viu? ––– Bom, se não viu, a outra já contou... Além do mais, eu não estou escondida. Ela sabe que eu tenho o direito de estar aqui, fazendo o que estou fazendo, sem culpa... ––– Entendi... Quer dizer que vocês brigaram... ––– Sim, mas não foi uma briga qualquer... ––– Quer dizer que foi pra valer? Que você rompeu aquela relação inócua com ela? ––– Sim, Cíntia, nós rompemos. Do contrário eu não estaria aqui contigo. Você se esqueceu de como é que eu sou? Eu não gosto de traição. ––– É, mas você já quis “cometer adultério” comigo e não foi apenas uma vez, lembra disso? Patrícia usou uma expressão brincalhona pra dizer a verdade: ––– É que você é irresistível, Cín! ––– Engraçadinha... Mas te confesso que andei pensando e mudei de idéia... Agora eu aceitaria ficar com você, mesmo que ainda não tivesse resolvido sua vida com ela. Patrícia ficou pensativa por alguns segundos, antes de responder: ––– Sabe, apesar do sentimento que eu acredito existir dentro de mim, acho que durante esses meses com Iara eu acabei traindo foi a mim mesma... Aceitei ser tratada friamente, coisa que nunca suportei; Aceitei que me chamassem de infantil... E isso é complicado quando trazemos lembranças tão difíceis da infância.... Enfim, eu traí algumas das minhas certezas... Deixei a submissão tomar conta de mim... Bom, mas não vou me lamuriar agora. Hoje é teu aniversário e temos que festejar. Cíntia não ficou feliz ao ouvir sobre sentimento pela outra, mas se sentiu bem por merecer a confiança de Patty nesse desabafo com jeito de confidência. Por isso, confessou: ––– Pois, mesmo sabendo que você ainda sente “isso aí” por ela, eu vou arriscar, Patty! Não pretendo te deixar escapar de mim outra vez! ––– Eu te proíbo de me abandonar, me deixando à deriva – brincou seriamente Patrícia – tente e verá! Aí é que vou me agarrar a você de vez! Os olhos de Cíntia brilhavam de felicidade. Mesmo em sonhos, nunca conseguira tantas declarações de Patty, quanto nesse momento. Ambas viram quando Iara se levantou e veio em direção a elas. Quieta e tranquila, Patty esperou que ela se aproximasse. Iara deu a volta à mesa e postou-se por trás e, abaixando-se para ficar no meio das duas, falou entre dentes: ––– Agora eu entendi o porquê do rompimento entre nós. Você queria cair na farra com ela... Patrícia a interrompeu, tentando manter a voz baixa, mas não foi muito eficaz na tentativa e todas as pessoas da mesa se calaram diante do entrevero que se anunciava: ––– Podemos conversar em qualquer outro lugar, em qualquer outra hora, mas não aqui! Não agora! Não vou admitir isso, Iara! Nisso, Vânia chegou perto de Iara e sem pestanejar, e nem dar importância para a platéia, falou em alto e bom tom: ––– Que papelão, hein, dona Iara! Venha! Vamos embora daqui! – a voz alta e ríspida não deixou margem para qualquer dúvida: elas estavam juntas. Vânia não admitiu a falta de respeito de Iara, por isso, pegou-a pela mão e tirou-a dali, sem sequer olhar para os lados. Patrícia ficou pasma, sem saber pra que lado olhar, talvez procurando onde se esconder. Nunca havia acontecido em sua vida qualquer deste tipo. Sempre fizera questão de se manter íntegra, o que incluía a maneira como entrava e saía dos lugares. Na única vez em que saiu embriagada de um bar, por ocasião do divórcio de Iara, quase morreu de vergonha. Hoje, porém, não ficaria com ressaca moral, a pior de todas, porque se sentia livre das amarras de Iara. Aconchegou-se a Cíntia, que lhe deu um abraço discreto, na tentativa de consolar seu coração que se sentiu pequenininho, apesar de forte. Esse incidente causou o maior frisson entre os freqüentadores do local, composto basicamente de mulheres. Mesmo depois de elas saírem e de tudo adquirir uma aparente normalidade, havia uma certa tensão no ar. Todas ficaram meio sem graça, mas ainda continuaram a farra por uma meia hora. Depois de enfrentarem uma mini fila no caixa para pagarem suas despesas e de se despedirem, cada uma tomou um rumo diferente. Cíntia e Patrícia ficaram ali, na calçada do bar, esperando por um táxi que se aproximava. Já passava das duas da madrugada e Cíntia, um pouco mais do que Patty, estava um pouco tonta. Assim que entraram, Cíntia deu o endereço de Patrícia. ––– Não, moço! Ela se enganou. Siga para o bairro Jardim Vermelho. Era o bairro de Cíntia. ––– Assim o táxi vai dar uma volta, Patty. Sua casa fica no caminho para a minha... ––– Eu não vou pra minha casa hoje... Cíntia segurou a mão de Patty e seus olhos brilharam mais uma vez. A presença do motorista segurou a impetuosidade de Cíntia que, não fosse isso, teria se atirado nos braços de Patrícia. Para não ficar naquele silêncio delator, Cíntia tentou puxar qualquer assunto: ––– Tudo bem, Patty... O que você achou da noite e das pessoas? Só que Patrícia não pensava igual, por isso falou outra coisa: ––– Você acha que ela vai continuar me perturbando, como fez hoje na mesa? ––– Se a Vânia não der um jeito de controlar a situação, vai sim. Conheço o tipo. ––– Conhece, é? E como funciona esse tipo? – Patty não evitou o riso. ––– Agem dessa maneira, assim, duronas, como se não se importassem com o que a gente sente; se é amor, paixão, essas coisas... Aí, quando não agüentamos mais e botamos um fim, elas vêm pra cima com tudo, dizendo que não foram compreendidas, que precisam de outra chance e tal e coisa e coisa e tal... ––– Uau, quanta experiência! – comentou Patty meio que debochando – e eu, pertenço a esse tipo? Cíntia foi rápida na resposta: ––– Não, você faz parte do tipo que quando percebe que está perdendo a atenção e a ex-apaixonada está quase partindo pra outra, vem correndo, tentando nos segurar... Ambas ririam e, indiferente à presença do motorista, Patty deu um beijo de leve nos lábios de Cíntia. Por fim, chegaram. Patty, já com ares de dona da casa, logo decretou: ––– Cín, eu vou tomar um banho pra me livrar daquele cheiro de boteco... Só que não trouxe roupa pra dormir... ––– Vai ligando o chuveiro que eu já levo roupas pra nós duas... Se bem que nem vamos precisar delas por enquanto... Fazendo-lhe um carinho, Patty falou: ––– Ah, sua safadinha... Já é madrugada, melhor irmos dormir pra acordarmos cedo e aproveitarmos o sábado... ––– Não me importo de aproveitá-lo na cama, com você... Patrícia riu e entrou no banho. Logo Cíntia juntou-se a ela e, silenciosamente, amaram-se debaixo do chuveiro. As palavras foram dispensadas. Apenas os gemidos, sussurros e as respirações ofegantes eram ouvidos. Como amantes relativas, elas se entregaram uma a outra sem necessidade de definir papéis... Quando a posição incômoda tornou-se insuportável, Cíntia conduziu Patty para sua cama e o amor se fez macio, escorregadio e calmo até que os primeiros raios de sol inundassem o quarto. Esgotadas com tanto gozo e felizes por tanto amor, elas dormiram abraçadas, como a dizer que não mais temiam a separação. Antes de se entregar ao sono pesado, Patty ainda falou: ––– Como pude esquecer a maravilha que é fazer amor com você? Em resposta, Cíntia apertou-a em seu abraço sorrindo. E assim dormiram até quase ao meio-dia.
Escrito por MariaN às 22h25
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Patrícia Capítulo 63 
Em sua casa, Vânia travava uma batalha com Rosângela, sua ex. Como vinha acontecendo regularmente, mais uma vez ela viera pedir-lhe que voltasse atrás na decisão de romper a relação entre elas. Depois das frases usuais de cumprimentos, Rosângela abordou o motivo da visita, e Vânia não foi nada condescendente com ela. Foi bem objetiva no intuito de deixar bem claro que não havia mais a menor possibilidade de retorno. ––– Nós já falamos tudo o que tínhamos pra falar. Acabou, Rosângela! –––Só porque moramos longe não significa que eu tenha outras mulheres! – gritava a mulher, descontrolada. –––Realmente, não significa, mas você me traiu até não agüentar mais! E eu me cansei disso! Mulher, até quando você vai ficar insistindo nisso? ––– Até você voltar atrás nessa decisão estúpida... ––– Sempre que algo dá errado lá, com suas conquistas, você vem correndo tentar me convencer que devemos retomar a relação... Chega desse vai-e-vem!! Enquanto isso, o telefone tocava sem parar. Vânia olhava e via o nome de Iara no visor do seu celular, mas não podia atender. Conhecia bem Rosângela e sabia do que ela era capaz. Em muitas situações a reação dela até beirava à vulgaridade. Ou a extrapolava. ––– Quem é a mulher que você não quer atender? Se estiver com medo, deixa que eu atendo e digo que a tua mulher chegou e você não vai mais galinhar por aí! Vânia, não suportando mais tanta pressão, pegou Rosângela pelo braço e levou-a até a porta. ––– Vá embora daqui antes que eu perca a cabeça, Rosa! Deixou-a entre a porta de entrada e o portão, e voltou para dentro. Toda a relação delas havia sido assim, aos trancos e barrancos. Quando Vânia rompeu com ela, por não suportar mais tantas histórias de casinhos aqui e acolá, passou por um mau bocado, até se recuperar. Agora que encontrara Iara e estava disposta a ser feliz – sim, porque é preciso disposição para construir a felicidade a cada dia – ela aparecia outra vez. Pensava nisso, quando ouviu as batidas fortes na porta da frente e os gritos de Rosângela. ––– Se você não abrir esta porta eu vou ficar aqui, gritando a noite inteira, até que os vizinhos chamem a polícia! Você é quem decide! Diante das ameaças que ela poderia cumprir, Vânia abriu a porta e ela tornou a entrar. Mas desta vez seria diferente, pensou Vânia, ela não cairia nos braços de Rosa no final da briga, como sempre acontecia quando elas se encontravam. A discussão voltou a esquentar, só que agora Vânia decidiu adotar outra estratégia, para evitar que a história se repetisse. ––– Rosa, me dá um tempo, por favor! Preciso de um banho e depois vamos sair pra comer alguma coisa antes de você ir embora. ––– Você está me convidando pra jantar? Nossa, que romântico... Eu aceito, sim... Eu vou tomar banho com você, como nos nossos velhos tempos... Tentando dar a voz um tom de suavidade, ela mudou de idéia, como se fosse para ganhar tempo e ficarem mais algum tempo juntas. ––– Pensando bem, vou deixar o banho para quando for dormir... Podemos ir agora mesmo, senão você pode perder o último ônibus pra casa... ––– Não quero ir embora hoje... Deixa eu ficar aqui... Deixa eu dormir com você.. Por favor, vai... Vânia, apesar do dengo da outra, perdeu a paciência de novo e, louca pra se ver livre de Rosângela, foi dura na resposta: ––– Comigo, dentro de casa, você não dorme! E vamos logo, antes que eu mude de idéia! ....................<<<>>>................ Patty entrou em casa com um sorriso nos lábios. Uma idéia tomara forma em sua cabeça e ela faria de tudo para botá-la em prática. Entrou, mal cumprimentou a mãe, que estava às voltas com o bolo de Cíntia, e foi para o banho. Do pequeno corredor ainda gritou: ––– Mãe, se a Cíntia chegar e não puder me esperar sair do banho, diz pra ela deixar o endereço de onde vai rolar a comemoração pra mim, tá? Dona Marta ouviu, mas nem respondeu, já que ela não ouviria a resposta. Terminou de espalhar a cobertura de chocolate no pequeno bolo, lavou as mãos e o colocou sobre a mesa. Agora era só esperar que ela chegasse. Cantariam os “Parabéns pra Você”, fariam aquelas brincadeiras típicas da ocasião e pronto. E assim foi feito. Cíntia só chegou meia hora depois. Patrícia terminava de se vestir quando ela bateu à porta do seu quarto, convidando-a para comer um pedaço de bolo. Aproveitando o momento, Patty deu-lhe um super abraço de corpo inteiro parabenizando-a pelo dia especial e foram para a sala, onde Dona Marta já arrumara a mesa. Brindaram com espumante, Patty e Marta entregaram-lhe “as lembrancinhas”, Cíntia abriu e agradeceu pelos “presentes”. Como sempre, tudo depende do lado em que se está. As três mulheres, em total harmonia, riram e se sentiram à vontade nos quarenta minutos que durou a comemoração. ––– Bom, dona Marta, muito obrigada pela festa, mas tenho que ir ao encontro de outras amigas que também querem me abraçar. Juro que se eu não tivesse combinado com elas, ficaria aqui a noite toda. É sempre muito agradável a companhia de vocês! ––– Você é que é uma menina muito doce e simpática. Vai lá, que suas amigas estão esperando. Eu é que agradeço por você ter dedicado um pouquinho desse seu dia pra ficar com a gente aqui. Cíntia aproveitou para brincar com a amiga: ––– Eu só não convido a senhora pra ir comigo, porque tenho umas amigas muito mal comportadas que não saberiam respeitar a sua presença... ––– Ah, não tem problema, pequena... Já ‘tou’ me acostumando com essas coisas modernas... só não vou porque tenho um compromisso com o José Mayer na novela. Nossa! E já vai começar! Vou ligar a TV... Todas riram, e Cíntia, fazendo os movimentos de despedida, pegou sua bolsa sobre o sofá e chamou Patty: ––– Vamos? Ou ainda não está pronta? ––– Preciso de dois minutinhos e já venho. – sumiu lá pra dentro, e elas ficaram num abraço apertado. Marta repetindo os desejos de que em sua vida acontecessem mil coisas maravilhosas pra ela, não apenas nesta data, mas em todos os dias da sua existência. Cíntia só se desvencilhou do abraço quando Patty chamou seu nome, já ao seu lado. ––– Cín, eu vou com você e volto de táxi, tá bom? ––– Claro! E é bem mais seguro assim. Dona Marta, que terminava de tirar a mesa, entrou no assunto: ––– Por que não vão as duas de táxi? Vocês sabem que com essa nova lei aí, eles estão pegando até quem bebe uma xícara de álcool... Sugestão aceita, elas ligaram pedindo um táxi e desceram. Antes de sair, porém, Patty fez um arranjo com o porteiro do prédio pra que ele cuidasse do carro de Cíntia. Elas entraram no táxi, Cíntia deu o endereço e se foram. Cíntia vestia uma calça de tecido leve, cor caramelo e uma blusa branca rajada nos tons bege e lilás. O perfume que a rodeava era algo indescritível e irresistível. Patty admirou-a desde que chegara em sua casa, mas só agora pôde se deliciar tendo-a tão perto do seu corpo, no banco traseiro do táxi. “Isso perturba o juízo de qualquer cristã, imagine o meu que anda escasso!”, pensou ela e, em seguida, lembrou-se de um detalhe: ––– Cín, eu acabei de me tocar que em nenhum momento você me convidou para a sua comemoração... Aliás, nunca tocamos no assunto... Então, como foi que eu vim parar aqui? Ao que Cíntia naturalmente respondeu: ––– Simples: você não é mais convidada em minha vida. Você já é parte dela. Automaticamente seus olhares se cruzaram, e o de Cíntia demonstrou uma intensidade que Patrícia já conhecia. Não falaram mais até chegarem ao bar.
Escrito por MariaN às 10h38
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