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Conto de Meninas - UOL Blog



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Conto de Meninas


 

 

Patrícia

Capítulo 79

 

 

Iara olhava intrigada para a sua imagem no espelho. Em que momento havia perdido o controle da sua vida?
Quando se separou de Hélio, imaginara uma rota bem diferente desta em que se encontrava. O envolvimento com Patrícia a deixara mais vulnerável do que todo o tempo em que ficara presa ao casamento. De certa forma, se entregou à proteção de Patty da mesma maneira que havia cedido ao modo controlador de Hélio. Em que momento, afinal, perdera as forças pra continuar no caminho antes traçado? Não gostava das transformações pelas quais passara, mas não tinha força para voltar... Ou tinha?
Mas quem disse que precisava voltar a agir como aquela mosca-morta da época do casamento? Será que a preparação para a nova vida de solteira e independente havia sido insuficiente? Na teoria, parecia tão fácil e corriqueiro tomar atitudes e administrar a liberdade, depois de tantos anos naquela vida de casada, obediente e submissa ao marido...
Quanto mais pensava, mais percebia a dimensão da burrada que fizera com Patty. Agora, a dor de cabeça que a despertara mais cedo resolveu torturá-la ainda mais. A sensação que tinha era de que suas têmporas explodiriam a qualquer momento. De repente, sentiu uma forte pontada de dor na nuca, o que a obrigou a se segurar na bancada da pia. Porém, isso não aplacou o mal estar; em seguida se viu lutando contra as ânsias de vômito. Então, lembrou-se do quanto havia bebido durante a festa de réveillon, numa famosa casa de eventos próxima à capital.
Vânia insistira muito até convencê-la a aceitar o convite:
___ Vamos lá, Iara, chegou a hora de sacudir a poeira e dar a volta por cima.  Você precisa se jogar pra vida e começar um ano verdadeiramente novo: sem traumas, sem histórias mal resolvidas, sem maridos ou mulheres complicadas...
Diante desse argumento, Iara se deixou levar e não se arrependia, afinal, acabou se divertindo muito. E o que era melhor, sem culpas e sem remorsos, já que o filho passaria o final de ano com Hélio. Também não se sentira na obrigação de ficar com o pai, “Seu” Alcides, porque tinham passado o Natal juntos.
Seguindo o ‘conselho’ de Vânia, ela resolveu se jogar naquele que seria o seu primeiro réveillon após o divórcio. Justamente neste momento, ao juntar todos os caquinhos daquele ano que terminava, percebeu que havia muitas mágoas acumuladas, e era preciso desopilar. Portanto, ficar parada, quietinha num canto, ‘vendo o bonde ou a banda passar’ era a última coisa que ela faria. Definitivamente, para ela aquela noite não combinava com cantinho escuro no salão, revolvendo picuinhas internas.
Bom, assim que chegaram ao local da festa, se dirigiram a uma mesa bem localizada, onde as quatro mulheres ali sentadas já tomavam espumante. Eram Stella e Lola, juntas a mais tempo do que eram capazes de se lembrar, e Carolina e Renata, duas jovens que recém tinham se assumido diante dos amigos e da família. Vânia as cumprimentou e apresentou Iara como sua namorada. Enquanto respondia aos cumprimentos daquelas pessoas que faziam parte da vida de Vânia, Iara se surpreendeu analisando esse rótulo, já que elas haviam combinado que esta relação seria aberta e sem compromissos. Ou será que esse acordo quanto ao formato da relação só estava claro na sua cabeça e Vânia, na tentativa de conquistá-la acabou por aceitar esta condição que ela, Iara, deixara implícita? Ou seja, talvez Iara fosse a única a pensar nessa relação apenas como um caso: sem rótulos, sem cobranças, sem futuro, enfim.
Em poucos minutos chegou à conclusão de que o intuito de Vânia era aproximá-la do seu mundo. Sorridente, ela se deixou envolver e chegou a sentir-se feliz e à vontade naquela noite especial...
O casal Lola e Stella logo se incumbiu de deixá-la à vontade, enquanto Carolina e Renata estavam mais interessadas em namorar do que em interagir com as outras. Bem que tentaram trazê-las para o grupo fazendo algumas brincadeiras, as quais elas respondiam com sorrisos, sem se desgrudarem. Antes, durante e depois da contagem regressiva e do pipocar dos fogos de artifícios iluminando o ano novo, o grupo dançou, brincou, brindou e bebeu até altas horas. Desacostumada a sair em turma e a noitadas, Iara acabou fazendo confidências embriagadas à Lola, uma morena de personalidade muito tranqüila que lhe transmitiu muita confiança.

Agora, às onze da manhã, o espelho lhe mostrava um rosto cheio de marcas deixadas pelos inúmeros copos que esvaziou e pela noite mal dormida.
“Preciso de foco para aparar todas as arestas do ano passado, antes que se passe muito tempo e eu já não tenha muitas chances. Droga, eu nunca fui de beber tanto assim... O que será que deu em mim?... Quem sabe um café me ajuda agora...”
Saindo do banheiro, constatou que Vânia ainda dormia pesado. “Será que ela bebeu tanto quanto eu?... Ah, sei lá... Que diferença isso faz agora?”
Foi para a cozinha, preparou o café, sentou-se à mesa diante de uma xícara fumegante e repassou os detalhes do plano que havia arquitetado nos últimos dias. “Preciso fazer bem feito, pois pode ser minha última chance... Se não fosse feriado hoje, eu já iria partir pro ataque... mas com essa ressaca filha da mãe nem daria certo também...”
Vânia entrou de repente e não estava com a cara muito animada, apesar do cumprimento carinhoso:
___ Bom dia, gata incontrolável!
Iara levou um susto e quase derramou o café da xícara que, naquele momento levava aos lábios.
___ Putzzz! Droga, que susto!  Bom... Bom dia... – respondeu toda errada.
___Que houve com você, Iara? Aposto que estava pensando bobagens...  - Enquanto falava, Vânia fuzilou Iara com o olhar e, se sentando à sua frente, pegou uma caneca e também se serviu de café. – Como se não bastasse o monte de besteiras que você disse ontem à noite para as minhas amigas.
___ Besteiras! Que besteiras? Não se pode mais conversar e falar sobre a própria vida com quem a gente quiser? Afinal, a vida é minha... Qual é o problema? Tua amiga ficou me fazendo perguntas e eu fui respondendo e, por fim, fiz um resumo de tudo... Impossível não falar sobre Patrícia...
___ O problema, dona Iara, é que você usou a bebida como desculpa e se desmanchou toda falando sobre o que sente por ela! Eu fiquei com cara de trouxa! Vem cá, você me toma por idiota?
___ Eu pensei que você fosse mais compreensiva, Vânia! Sempre deixou claro que estava disposta a tudo pra ficar comigo e agora me cobra santidade? Não acho que eu tenha feito uma coisa tão séria assim!
___ Só você pode medir a seriedade do que fez! Sim, eu ainda estou disposta a muita coisa para pra ficar contigo, Iara, desde que você me respeite e não me faça de boba! Depois do que você falou pra Lola, a Stella veio me perguntar num tom bem “compreensivo” se eu tinha certeza de que queria entrar o ano novo com você...
___ Poxa!... Que pessoas vulgares você tem como amiga, hein?
___... e você sabe o que eu respondi? Claro que não sabe...
Vânia riu um riso amarelo e continuou:
___ Mas eu quero sim... eu ainda quero manter uma relação legal contigo... Quando é que você vai parar com essa mania horrorosa de julgar as pessoas, Iara? Vulgar foi você que saiu contando suas intimidades pra uma pessoa que mal conhece!
Iara se levantou e, sem que Vânia esperasse, puxou a toalha da mesa, derrubando tudo no chão. Correu para o quarto, gritando:
___ Não fico mais aqui! Chega de tudo isso! Vou dar um jeito na minha vida!!
___ Vai, mulher... Pode ir... Eu sei que você vai voltar...
Foi o que respondeu Vânia, com um sorriso.



Escrito por MariaN às 00h05
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Patrícia

Capítulo 78

Nos dias que sucederam ao pedido de casamento, Cíntia mal conseguia se segurar em meio a um frenesi íntimo que revolvia tudo  dentro de si. Parecia que tudo nela esbanjava felicidade. Cada gesto, cada olhar, cada sorriso... No seu primeiro réveillon como noiva de Patrícia, ela percebeu como a vida podia ser perfeita. A presença, o carinho e o sorriso de Patty demonstravam a todo instante que esta seria a sua realidade a partir de agora. Todas as datas seriam vividas cada vez mais intensamente.
Antes de se sentarem para a ceia especial que dona Marta e elas prepararam, Cíntia ligou para seus pais. Depois de falar por alguns minutos passou o telefone para Marta que passou para Patrícia: as três manifestaram e receberam os votos de feliz ano-novo, e no meio de todo o aquele blá-blá-bla de final de ano, os pais de Cíntia disseram que viriam visitá-la no próximo final de semana. Antigamente, ou não tão antigamente assim, ela teria ficado preocupada com esta visita, porque sempre que isto acontecia, eles lhe cobravam uma “mudança de comportamento”, como se sua homossexualidade tivesse algo a ver com uma escolha. Ao final da ligação as três sentaram-se à mesa, serviram-se e falaram dos planos para o ano que se iniciava. Dentre eles, o de viverem juntas. Dona Marta, a princípio, não entendeu bem quando Patty disse:
--- Mãe, Cin e eu resolvemos morar juntas... Embora a gente saiba que não será fácil encarar a família dela, temos a felicidade de contar com o teu apoio e isso vai nos ajudar muito, afinal, muitas coisas mudarão de lugar...
Dona Marta fez uma carinha de desamparo quando deixou os talheres de lado para tirar uma duvida:
--- Mas... Minha filha, você vai se mudar daqui? – perguntou com a voz vacilante.
Entre uma garfada e outra e com a voz bem tranqüila, Patty procurou acalmar o olhar aflito dela:
--- Relaxa, mãe... Ainda vamos conversar muito sobre isso... Mas acho que nós vamos nos mudar daqui, sim.
--- Como assim, vamos?
Levantando-se de sua cadeira, ela deu a volta à mesa e abraçou a mãe por sobre a cadeira.
--- Sim, minha mãe, você vai comigo aonde eu for... Ei, eu não vou te abandonar nunca... que idéia é essa? Nós ficaremos juntas até o fim... Não importa o que isto signifique!
--- Tá bom, filha... Agora vamos comemorar mais um ano que começamos com tantas promessas boas para nós três aqui... – Foi a resposta dela para disfarçar as lágrimas de emoção que brotavam em seus olhos.
Percebendo isso, Cíntia logo propôs um brinde à nova vida que se iniciava. Por sobre a borda de sua taça fitou os olhos de Patrícia e viu um agradecimento estampado neles. Passado esse momento de emoção, elas começaram a falar sobre os planos, os sonhos e as metas a serem conquistadas. Esta conversa adentrou a noite com cada uma querendo falar dos seus desejos e, mesmo enquanto lavavam a louça e tentavam deixar a casa em ordem para o dia seguinte, elas não pararam de falar. Já passava das quatro horas da madrugada quando Patty e Cíntia deram um beijo de boa noite em dona Marta e foram para o quarto. Pela primeira vez Cíntia dormiria na cama de Patrícia.
Uma de cada vez elas foram ao banheiro, botaram os pijamas, escovaram os dentes e se deitaram. Patrícia estendeu os braços para Cíntia e com um beijo apaixonado, lhe disse:
--- Seja bem-vinda à minha cama e à minha vida!
Depois do beijo, Cíntia sorriu e concluiu:
--- Já sei o que você vai dizer: “Desculpa, meu bem, mas agora nós só vamos dormir...”
Ambas sorriram e em poucos minutos dormiam profundamente.
Pela manhã, ao se levantar e passar pela porta aberta do quarto de Patrícia, dona Marta as viu. O abraço que as conduziu ao sono fora se desfazendo durante a noite e agora cada uma havia se virado para um lado da cama.“Acho que agora é de verdade. Eu tenho que me acostumar mesmo com essa realidade... Minha filha dorme na mesma cama com outra mulher... Deus sabe o que faz! Vou fazer o café, que daqui a pouco elas vão acordar com fome...” Pensou dona Marta e até conseguiu sorrir pra si mesma enquanto preparava o café da manhã para as três.


Continua...

 

 

 



Escrito por MariaN às 23h02
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Patrícia

Capítulo 77

Caía uma chuva fria e bem fininha quando ela desceu do carro no estacionamento do prédio de Cintia disposta a reassumir de vez as rédeas da sua história. Não permitiria que Iara continuasse a perturbá-la para sempre. Decidiu que era chegada a hora de admitir seu amor por Cíntia. O desejo puramente sexual e a curiosidade por vivenciá-lo fora aos poucos substituída por um carinho e uma ternura tão sinceros que, a cada dia, ela sentia-se inundada por um sentimento muito tranqüilo, calmo e relaxante. Percebia que a intensidade vinha aos poucos, nos momentos de extrema intimidade. No restante do tempo em que ficavam juntas era assolada por uma poderosa sensação de segurança e bem-estar. Sim, era amor. Pensando nisso tudo resolveu que ainda hoje faria uma proposta a ela. Ao passar pela portaria, só acenou para o porteiro e subiu direto, sem se anunciar. Sabia que ele avisaria Cintia e, como já acontecera outras vezes, a porta estaria aberta quando ela chegasse lá em cima.
Entrou, fechou a porta e ouviu a voz de Cíntia. Foi caminhando em direção a ela, que vinha lá da cozinha:
--- Venha até aqui, Minha Vida... Eu estava te esperando, mesmo sem saber se viria...
Patty sorriu ao ver que sua namorada estava parcialmente dentro da geladeira pegando alguma coisa e, diante dessa recepção tão amorosa, sentiu uma pontinha de remorso pelo encontro que acabara de ter com Iara. Sem se deixar abater por essa sensação ruim, abraçou-a por trás e tirou-a dali. Ela tinha um pote de doce na mão e um sorrisão imenso no rosto. E, deixando-se beijar e abraçar, ela dizia:
--- Que bom que você veio... Pensei que só fosse te ver amanhã...
Desvencilhando-se um pouco dos braços de Patty, ela pegou uma colher, dizendo:
--- Ando com uma vontade de comer doce.... vem aqui pra sala... senta aqui comigo...  – e olhando melhor para Patrícia, ela reparou que seus cabelos estavam úmidos - Nossa, onde foi que você achou chuva, meu amor? Pegue uma toalha lá no banheiro pra se secar, vai...
--- Que nada... É chuvinha de verão. Foram apenas algumas gotículas aqui nos braços...
--- Mesmo assim, é melhor se enxugar...
Patty obedeceu, apesar de saber que não havia tanta água assim. Aproveitou para olhar-se no espelho e gostou de constatar que omitir o ocorrido para Cíntia não a deixava bem consigo mesma. “Antes de ir embora eu vou contar tudo. Olha como é linda a minha amada... e que delícia vê-la assim, tão bem! Não quero que ela sofra por algo tão... tão desimportante... Nada é mais importante do que a minha paz, e esta eu encontrei foi aqui, ao lado dela... E a minha Cín não merece ser enganada...”
Voltando para a sala, sentou-se ao lado de Cíntia que, alheia aos conflitos de Patty, levava uma colherada de doce à boca.
---  Isso parece bom, mas tenho que me cuidar – foi o comentário de Patrícia.
--- Ah, que nada, pega só um pouquinho aqui, ó... – respondeu Cíntia toda sorridente, mostrando a pontinha da língua.
A partir daí foi uma sucessão de beijos, abraços... “Um pega aqui e acolá” que tornava impossível de determinar quem fazia o quê com quem. Felizes, riam e rolavam pelo tapete como duas crianças. Ou como duas mulheres apaixonadas.
De repente, Patty estava sentada no chão, com as costas apoiadas no sofá e com o rosto de Cíntia muito próximo ao seu. Fitou demoradamente os olhos da namorada, e bem baixinho, no seu ouvido, perguntou:
--- Você quer se casar comigo?
Cíntia parou de rir e ficou séria:
--- Você falou alguma coisa? – perguntou, virando a cabeça pra olhar nos olhos de Patty.
--- Sim, falei... e estou esperando uma resposta.
--- Repete, por favor...
--- Quer se casar comigo, namorada minha?
--- Como assim, casar? Você diz morar junto, acordar todos os dias grudadinhas e tal e coisa e coisa e tal?
Patrícia riu e concordou:
--- Sim, ficar sempre coladinhas uma na outra, dia e noite e noite e dia... Ou você pensou que pudesse chegar aqui, brincar de namorar, usar e abusar desse “corpitcho”, usurpar todos os meus “ais” e depois sair impune por aí? Nada disso, garota... Sou moça pra casar....
Ao invés de responder com um simples sim, Cíntia se levantou e começou a dançar pela sala. Patrícia, ainda sentada no chão, alcançou o controle do som, aumentou o volume da música e depois foi até ela. Com um pequeno movimento de braço e um toque de mão, a fez rodopiar. Em seguida, enlaçou-a pela cintura e a beijou com ardor.
--- Patty, meu amor, eu sempre quis ouvir qualquer palavra, por mais insignificante que fosse...
--- E por que eu te diria algo insignificante, Cín? – Brincou Patty.
--- É que você nunca me diz nada sobre sentimento... Eu pensava que você não quisesse nada comigo além de um namorico passageiro... daqueles do tipo “operação tapa-buraco”... Sei lá, todos os dias eu me preparava pra te perder ”praquela” outra lá, ou pra alguém interessante que surgisse...
--- Quer dizer que você tentou me perder de todas as maneiras, é, mocinha? – Patrícia brincou, mas logo mudou o tom de voz e continuou – Olha, nem vou levar a sério o que você acabou de dizer, pra não me sentir ofendida.
--- Ok, eu devo ser uma boba mesmo, porque preciso te falar tudo o que passei...
--- Ah, sua bobinha, relaxa.... Ainda estou esperando...
--- Desde que nós começamos a namorar, eu sempre me senti numa corda bamba. Sabia que eu tinha pesadelos em que você me dizia que estava indo embora? Puxa vida, agora você diz
claramente que quer ficar comigo... Nem sei como é acreditar nisso! É tão bom que nem sei o que pensar... Delícia saber que pra você eu sou algo real... Que tudo que vivemos juntas é importante pra você... Acho que estou falando demais...
Patrícia fez cara de quem compreendeu a confissão e, levantando o seu queixo, procurou seus olhos:
--- Olha pra mim... voce não está falando demais ... Cíntia tinha os olhos marejados e a emoção não permitiu que as palavras fossem ditas e, não sabendo como demonstrar sua felicidade, jogou-se sobre Patrícia e a beijou. E assim, entre beijos e sorrisos elas foram para o quarto e se entregaram voluptuosamente aos desejos que ardiam em seus corpos. E já era tarde da noite quando Patty foi pra sua casa, deixando uma Cíntia boba de tanta felicidade.



Escrito por MariaN às 21h06
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Patrícia

Capítulo 76

 

               

 

 

Chegou ao lugar marcado antes do horário. Ao entrar, cumprimentou a si mesma pelo bom-gosto. O estabelecimento era um café relativamente novo na cidade, localizado bem próximo à pequena Praça da Matriz, numa ruazinha bem charmosa, bastante arborizada e silenciosa. Certamente, logo seria descoberto e possivelmente se tornaria um ponto de encontro para os enamorados da cidade. Pensando nisso, sentou-se numa das cadeiras com espaldar de ripas e assentos acolchoados, forrados com um tecido vermelho que circundava uma pequena mesa redonda e pediu uma água ao garçom que imediatamente se aproximou.
Teve tempo de sobra para pensar, não apenas em sua vida amorosa, como também no futuro, na sua mãe e em todas as metas que pretendia alcançar em sua profissão. Definitivamente, não se enxergava neste mesmo cargo daqui a dez anos, executando uma função apenas para fins de sobrevivência. Sabia que só poderia chegar ao seu ápice profissional quando estivesse trabalhando em seu próprio escritório, estudando e se especializando cada vez mais na área do direito trabalhista. Teria que começar, pra valer, a planejar a sua vida daqui pra frente. O tempo passava inexoravelmente e havia todo um futuro esperando por ela. Talvez a vida não seja bem assim, porque ele só estaria a sua espera se fosse construído antes.
Nesse ponto, ao tentar se enxergar num tempo mais a frente do hoje, as divagações voaram até Cíntia e a mais uma noite passada em seus braços. Foram tantos os bons momentos juntas e, no entanto, ela jamais se declarou apaixonada pela namorada. “Cíntia... Cíntia... quanta dedicação, carinho e amor eu tenho recebido de você e mesmo assim não consegui dizer que te amo... Tenho ainda algumas incertezas... Ou serão apenas algumas dúvidas dentro das minhas certezas?”

Este foi apenas um pedaço de pensamento dentre os inúmeros que inundaram os momentos que antecederam à chegada de Iara. Passaram-se ainda vinte minutos até que a mulher por quem fora tão apaixonada entrasse no estabelecimento.
Patty acompanhou todos os seus passos, desde a porta até a mesa, com um olhar de admiração, pesar e expectativa. Usando um vestido florido e sandálias de salto baixo, Iara caminhava devagar. Devagar e sorridente. Havia esperança em cada passo. Quando ela se sentou ao seu lado foi com os olhos bem fechados que Patty recebeu o beijo que ela lhe deu no rosto. Em seguida estremeceu ao contemplar aquela pele que tantas vezes fizera incendiar. Quase sem fôlego esmiuçava com o olhar os detalhes daquele rosto bonito e do corpo maduro que se insinuava discretamente.
--- Obrigada por ter vindo, Patty!
Foi o que disse logo que se instalou.
--- Que nada! Eu também tenho um interesse muito especial nessa conversa.
Neste momento, o garçom se materializou na frente delas. Patrícia pediu um suco natural e Iara optou por um refrigerante.
--- Cheguei a cogitar um chope, mas bebida não combina com direção... – comentou Iara quando o garçom se afastou.
--- É... E responsabilidade, muitas vezes, implica abrir mão de pequenos prazeres. – concordou Patrícia.
--- É verdade. – disse Iara. Numa resposta típica de quem não tem o que dizer, ou quer mudar de assunto.
O período de silencio que se seguiu denotava a falta de intimidade que se instaurara entre elas. De repente Patty pensou: “Cadê aquelas duas mulheres tão fogosas e apaixonadas? Na cama tínhamos sexo quente, e na mesa, conversas ardentes... até mesmo as reclamações dela eram acaloradas. Então, o que estou fazendo aqui, afinal?”
Sacudiu discretamente a cabeça enquanto o garçom servia as bebidas e retomou a palavra, propondo um brinde:
--- Saúde!
Ao que Iara prontamente respondeu:
--- Saúde, sim! – e depois de um olhar – E a nós!
Patrícia apenas esboçou um sorriso, tomou um pouco do seu suco e, pousando o copo sobre a mesa, falou:
--- Eu vim aqui hoje, Iara...
--- E isso me fez muito feliz... – O olhar de Iara insinuava intenções contidas.
---... Apenas para atender a um pedido seu, para que nós duas possamos, finalmente, determinar o tipo de relação que teremos daqui pra frente.
--- Você diz isso de um jeito tão frio... Se qualquer outra pessoa te ouvisse agora poderia até acreditar que não sente nada por mim...
--- Mas eu não disse que não sinto nada por ti, Iara! Acontece que agora é diferente. Qualquer que seja a relação entre nós, ela não será tão... como dizer? ...voluptuosa como foi um dia.
Essa fase nós já vivemos... Já tivemos nossa cota de paixão...
--- Como é que você consegue ser tão fria comigo, Patty?
--- Fria, eu? Não, Iara... Você não imagina o quanto me custa fazer o papel da amiga que quer o seu bem e tenta abrir seus olhos e sua cabeça... Você precisa aceitar que novas relações estão começando em nossas vidas...
--- Mas do meu lado isso só está acontecendo porque você só queria ficar junto se fosse pra casar... Mesmo sabendo que eu lutava pra sair de um casamento infeliz... e a Vânia não me cobra casamento... Qual é o teu problema, Patty? Por que essa necessidade de morar junto? A gente poderia ter sido tão feliz não fosse essa sua exigência!
--- A nossa felicidade nunca esteve atrelada a isso, Iara! Nem vem... Tudo teria sido diferente se você não tivesse tanta vergonha de assumir a tua própria condição! A verdade é que nunca houve coração... Você só usou a razão, colocando as suas necessidades acima de tudo...
--- E o que eu deveria ter feito quando tudo se mostrava contra mim? E não esqueça que foi você quem me virou as costas no primeiro momento de dificuldade que surgiu. Você não lutou pra ficar comigo!
Patty mal acreditava no que ouvia.
--- Não vou entrar nesse jogo, Iara... Você pode até dizer que desisti muito rápido, que deveria ter insistido mais... Que deveria ter te ajudado a se assumir, mas há de concordar que nunca tivemos o mesmo tesão...
--- É óbvio que eu sentia tesão, sim... Que loucura é essa? Eu sempre me derreti com sua proximidade... e você sabe disso!
--- Estou falando de outro tesão. Aquele tesão para viver a mesma vida, os mesmos propósitos sem, no entanto, perder a individualidade, claro... Falo do tesão pra ser feliz, realizar sonhos, concretizar metas, enfrentar o dia a dia com a certeza de estar lutando com a pessoa certa ao seu lado.
--- Não me diga que você acredita mesmo que rotina seja sinônimo de tesão? Eu vivia isso quando nos conhecemos e sei que a rotina acaba com qualquer sentimento! Eu saí daquele casamento disposta a viver uma vida diferente... Não queria mais perder tempo com coisas pequenas, insignificantes ou que não me fizessem feliz...
--- Iara, pra começar, não confunda sentimento com relação. Outra coisa, você nunca amou o seu marido: só se casou pra não se assumir...
--- Você não sabe o que está dizendo! Só eu sei o que passei com aquele homem e você não me deu chance de sair do estado de choque pela minha separação... Eu só pedia um pouco mais de tempo pra me reformular, me reorganizar... Além de turrona, você é muito apressada...
--- É impressionante essa facilidade que você tem de me rotular, me ofender, magoar... Pensando bem, Iara, antes que a gente perca o respeito, vamos parar por aqui, porque você está se contradizendo muito. Fica difícil levar uma conversa desse jeito...  Além do mais, eu só te cobrava isso, porque quem ama tem pressa.
--- Não, quem ama é paciente, sabe esperar... não inferniza a vida da outra pessoa como você fazia comigo! Por isso, eu tenho dúvidas quanto a este amor. Ainda assim, estou tentando recuperar a nossa relação do mesmo ponto onde paramos...
--- Sem chance, Iara! Os arroubos de paixão que me levaram a desejar uma união de fato com você já não existem mais...
--- E a paixão também acabou assim, sem mais nem menos?
Patrícia apertou os olhos, antes de responder:
--- Eu diria que ela não passou no processo seletivo para ser promovida a amor.
Nessa hora Iara se revoltou e aumentou o tom de voz:
--- Ah, você é sempre muito contundente, senhora da razão, pouco se importando se vai machucar ou não! Pois saiba que, se pra você o nosso sentimento não significou nada, pra mim ele foi a força propulsora que me levou a tomar aquela decisão de sair de um casamento sem sentido e a acreditar na minha capacidade de ser feliz!
--- Fico contente por saber que a minha passagem pela tua vida não tenha sido em vão! Mas não sou senhora de nada, Iara! Tudo que vivemos foi muito intenso e talvez eu jamais volte a sentir por outra pessoa o que senti por você... E tudo que é vivido assim, tão visceralmente, acaba se gastando muito mais rápido...
--- Quanta besteira, Patty! Sério, você é mestra na arte de complicar o que de mais simples existe, que é o amor. Não vou mais insistir na possibilidade de reatar a nossa história. Você tem mais é que ficar com aquela bat-girl insossa, sem sal... sem açúcar... sem tempero nenhum. Vocês se merecem!
E, se levantando da mesa, continuou:
--- Só mais uma coisa, Patty: esquece que te pedi aquele último beijo. Já conheci melhores do que os seus...
Patrícia a olhava sem reação, enquanto ela se levantava pra ir embora.
--- Nunca pensei que a última frase que ouviria de você fosse algo assim, tão vulgar...
Esta frase foi dita pra ela mesma, porque a mulher por quem ela tanto lutara antes e que só existiu dentro de seu coração seguia com firmeza rumo à porta. E como fizera alguns minutos antes, Patty acompanhou os passos de Iara. Desta vez no sentido contrário. E teve certeza de que agora ela estava saindo da sua vida de uma vez por todas. Permaneceu ali por mais alguns minutos, como se estivesse alimentando a esperança de vê-la retornando para pedir desculpas pela grosseria. Como isto não aconteceu, ela chamou o garçom, pediu a conta, pagou e foi embora.

 



Escrito por MariaN às 17h12
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Patrícia

Capítulo 75

Não muito longe dali, Iara entrava na livraria, local de trabalho de Vânia. Haviam marcado um happy hour antes de irem para casa. No mais, tudo já havia sido encaminhado para que ela finalmente abrisse sua firma. O contador que ela contratara já cuidara de todos os trâmites e na próxima semana ela fecharia o contrato de aluguel do imóvel onde instalaria os equipamentos. Neste próximo ano muitas mudanças ocorreriam, porque ela estava deveras disposta a encarar uma nova etapa na sua vida. Abrir as portas de um novo negócio significaria para ela muito mais do que um simples trabalho: era uma vida sem Hélio, sem amarras e sem limites que começava agora. Os conselhos do pai a estavam ajudando muito, afinal ele sempre administrara bem sua pequena propriedade e, no que dependesse dele, a filha não cometeria nenhum grande erro no que ela agora se propunha a fazer. E Iara sabia que sempre poderia contar com este apoio. No entanto, sentia falta das opiniões de Patty. “Sinto falta é da presença dela, afinal não sei até que ponto suas opiniões me ajudariam... Gostaria muito de vê-la mais uma vez a sós... Espero que minha tentativa dê resultado desta vez...”
Desde o dia anterior, quando Vânia aparecera de surpresa para o almoço de Natal, ela decidira investir nesta relação, apesar da dificuldade de aceitar a idéia de ficar longe de Patty. A princípio, a situação já estava definida. Naquela manhã havia deixado o bilhete para Patrícia na esperança que ela atendesse ao seu apelo. Algo lhe dizia que, desta vez, Patrícia aceitaria um encontro. Não tinha a intenção de estragar aquele namoro sem graça que ela insistia em manter com aquela pirralha metidinha, mas tinha necessidade de sentir novamente aquele beijo. Pela última vez que fosse!
Vânia finalizava um atendimento quando Iara se aproximou:
––– Vai demorar muito pra sair hoje, Vânia?
Iara fingiu não perceber a ponta de agressividade na resposta dela:
––– Como assim, Iara? Você sabe que só saio daqui depois das sete da noite!
––– Eu sei... Mas bem que hoje, só hoje, você poderia sair mais cedo... Estou cheia de planos pra nós.
––– Sério... Me desculpa, mas não posso mesmo! Se quiser, pode me esperar lá em casa... Em duas horinhas eu chego lá...
––– Não, eu prefiro ficar por aí... Vou dar uma volta, resolver umas coisas... A gente se fala depois... Beijo...
Vânia deu de ombros e seguiu sua rotina. Iara entrou num café ali do lado, sentou-se e pediu um suco, que tomou com calma, saboreando o delicioso sabor de manga, sua fruta preferida. Ficou por ali nas duas horas que faltavam para Vânia sair do trabalho e, mesmo enquanto resolvia uma série de pequenas pendências, ela não desgrudou os olhos do celular, ansiosa pela ligação de Patty. Esta, porém, não aconteceu.

Naquela noite, quando Patty e Cíntia se encontraram, havia um misto de dor e de medo pairando sobre elas. Cíntia conhecia a dor do desprezo e da indiferença e sentiu pavor diante da iminência de passar novamente por isso.  Já Patrícia nunca administrou bem o medo de ficar sozinha, apesar de todo o tempo que passara na solidão. Esforçou-se muito para se realizar em outras áreas da vida, e isto a alimentava a tal ponto que aquele longo período sem ninguém, antes de conhecer Iara, fora apenas um hiato necessário. Agora, nos braços de Cíntia ela tinha certeza de que não queria resgatar a relação com Iara. Isto, no entanto, não a impediu de sentir vontade de testar seu sentimento.
Ao chegar ao apartamento de Cíntia e entrar pela porta que lhe era aberta, suas primeiras palavras não poderiam ser consideradas um cumprimento entre namoradas:
––– Sei que eu tenho essa cara de quem ‘pensa’ que sabe tudo e de quem ‘pensa’ que controla tudo na vida, mas não é nada disso!
Falou isso ainda de pé diante de Cíntia que, sem se conter, respondeu um tom acima do seu normal.
––– O que você quer dizer com isso, Patty? Ah, e antes que eu me esqueça dos bons modos: boa noite... seja bem-vinda!
––– Boa noite, Cin – deu um beijo de leve nos lábios dela e continuou - Alguma coisa nesse bilhetinho da Iara me fez repensar muita coisa...
Como Cíntia foi pega de surpresa com essa conversa logo na chegada, seu senso de defensa falou mais alto, e ela sequer tentou controlar as palavras que saíam aos borbotões:
––– Repensar? Patrícia você pode mudar tudo na tua vida, na hora que quiser! Não precisa vir me pedir autorização pra isso! Se você está repensando, vá até lá, conversa com a Iara! – Cíntia sentiu seus olhos cheios d’água, mas continuou – Só não me peça para ficar aqui, feito uma “Amélia”, toda submissa, aguardando você tomar decisões que vão afetar a minha vida também.
––– Calma, Cín... Espere eu terminar o meu raciocínio antes de me acertar com essa avalanche descontrolada de frases feitas! Para, mulher...
––– Você não tem a menor idéia de como eu passei a tarde toda! Tudo o que eu ouvia era esse “rinoceronte atrás da orelha” me incomodando sem trégua...  E agora você vem pedindo calma imediatamente após dizer a palavra repensar? Não sou idiota, Patty! Vai repensar a sua história com a Iara lá, do lado dela, e não do meu!
––– Cíntia, que descontrole é esse, mulher? Você sempre foi tão comedida... Não estou entendendo... Vim conversar contigo...
––– Descontrole? Eu estou é com muita raiva por ter deixado essa brecha pra Iara entrar de novo na sua vida! Ah, chega! Onde foi que eu errei, hein, Patty?
Realmente, Cíntia já estava quase gritando. Patrícia não esperava essa reação, por isso se aproximou pra concluir o que vinha tentando dizer:
––– Hei, minha Gatinha, não fica assim... Que idéia absurda é essa? Você não errou em nada... Entenda que eu só estou curiosa pra saber o que ela quer...
––– Ah, você não sabe o que ela quer? Não seja boba e não tente me fazer de idiota!
––– Vem cá, vamos conversar com calma... Senta aqui comigo...
Cíntia, ignorando o tom de apelo na voz de Patty, evitou a mão que quase a tocava, foi até a cozinha, pegou um copo d’água e voltou. Patty, que a esperava sentada no braço do sofá, pegou-a pela mão e puxou-a para si. Cíntia ainda se manteve rígida por um tempo, depois foi relaxando e permitiu que Patty a mantivesse assim, grudada nela. Deixando-se levar, Cíntia desvencilhou-se um pouco do abraço de Patty, esfregou os olhos com as costas da mão, respirou fundo e disse, se esforçando para baixar o tom de voz:
––– O que é que você pretende fazer? Acalmar o meu coração e me deixar aqui, sozinha enquanto vai ao encontro da outra?
Patty sorriu e respondeu, escorregando para o sofá e levando-a consigo:
––– Quer saber? Esta noite não está propícia para sair por aí me aventurando pelo meu passado! Vou ficar grudada em você até amanhã de manhã... Vem pra mim – disse. – Será nossa primeira noite a sós, depois de tantos dias e noites tomando cuidado para que nossos olhares, nossos sorrisos, nossos gestos e tudo o mais lá na casa de seus pais não revelassem nossos desejos.
––– Você promete que não vai sair correndo atrás da ex-mulher maravilha assim que eu me acalmar?
––– Agora não é hora de fazer promessas e sim, de fazer amor...
Cíntia fez um muxoxo, mas deu um meio sorriso e se derreteu com os carinhos de Patty. Os toques e o clima foram esquentando até ao irreversível e delicioso ponto da entrega total. Nesse momento, o desejo grita mais alto e todos os medos se rendem à intensidade das paixões. Todos os sentidos se unem na mesma freqüência e todas as incertezas se dissipam em prol do prazer.
Já era madrugada quando elas perceberam que, além de saciadas e cansadas, também sentiam fome e sede. Juntas foram para a cozinha prepararem “um prato de qualquer coisa”, como disseram entre beijos e sorrisos. Mas como tudo neste mundo tem um nome, devoraram com apetite redobrado aquela omelete improvisada e voltaram para cama, onde se abraçaram e dormiram até a manhã seguinte.
Logo cedo Patrícia despertou, olhou para o seu lado e admirou a namorada que ressonava com aquela conhecida expressão de felicidade. E apesar da conversa tumultuada e dos apelos de Cíntia na noite anterior, ela decidiu que iria ao encontro de Iara. Com leveza fez um carinho nela e pensou: “Espero que você me perdoe depois, mas agora eu preciso coroar minhas certezas...ou incertezas, sei lá”. Aconchegou-se a ela e voltou a dormir. Durante toda a manhã ficaram grudadas vivendo esse momento a duas, sem a presença de qualquer outra pessoa.
Cíntia sentia falta disso, já que estavam sempre com dona Marta pra lá e pra cá. Só que, por motivos óbvios, ela não dizia isso para Patty, afinal esta poderia levar ao comentário ao pé da letra e a confusão estaria armada. Para não fugir à rotina, Patty ligou pra mãe e combinou de buscá-la para almoçarem juntas. Depois do almoço, levou Cíntia em casa e foi embora com dona Marta.
E, no primeiro momento em que ficou sozinha, em casa, ela ligou pra Iara e marcou de se encontrarem ainda naquela tarde.



Escrito por MariaN às 23h06
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Patrícia

Capítulo 74

Mulheres como Patrícia, cuja luta pela sobrevivência e pelo respeito sempre começa muito cedo, aprendem a não dar importância para diz-que-diz-que, críticas em vão, falatórios ou a quaisquer palavras que possam desviar o seu foco da história que precisam escrever. E, Patty, ao escrever essa história em cada minuto vivido do seu dia a dia, não se preocupava nem um pouco com rimas bonitas ou palavras difíceis: sua vida era o que era, e ela apenas preenchia suas páginas com a disciplina de quem sabe como quer o seu próprio epílogo. Por este motivo, mesmo sabendo do preconceito e da rigidez de opinião dos familiares de Cíntia, se manteve firme e pronta para se defender caso alguém viesse com recriminações pra cima dela. Felizmente, ela não notara nenhuma situação difícil de ser contornada neste sentido. Enquanto saía da casa dos pais de Cíntia, ela pensava nisso. E pensava tão intensamente que não percebeu as lágrimas de emoção nos olhos da namorada.
Dona Marta foi a primeira a notar que a menina Cín se mantinha quieta e calada, mesmo já tendo se passado cinco minutos desde a saída.
––– O que houve, Pequena? Ficou emocionada com a despedida? É tão pertinho... Você pode vir todo final de semana, se quiser...
––– Não é isso, dona Marta...  É que, pela primeira vez, minha mãe me deu apoio... Ou me aceitou... Ou me entendeu... Sei lá... Não sei o que houve... Fiquei comovida com suas palavras enquanto a gente se abraçava, agora a pouco.
Patrícia que se mantinha atenta ao volante, olhou pra ela, curiosa:
––– O que foi que ela te disse? E quando foi?
––– Ela me pediu pra eu me esforçar pra ser feliz, independentemente do que ela e meu pai dizem... Ou, apesar deles... E ainda falou que você é uma boa moça...
Dona Marta sorriu ao se lembrar do comentário que fizera durante a ceia natalina e desviou o olhar ao perceber que Patty, sorrindo com carinho para Cíntia, lhe acariciava a mão. Cada uma ao seu modo, mas pelo mesmo motivo, as três estavam felizes naquele momento. A viagem foi tranquila e, ao chegarem à cidade, Patty deixou Cíntia em casa, e despediram-se com a promessa de se encontrarem mais tarde. Assim que ela estacionou na garagem do seu prédio, o porteiro se aproximou disposto a ajudá-las com a bagagem, que nem era tão volumosa assim. Elas aceitaram a gentileza, afinal, ele queria conversar.
––– Boa tarde, Dona Patrícia... Dona Marta... Ó, aquela moça esteve aqui procurando por vocês...
––– Moça, que moça? – perguntou Patty já adivinhando que só poderia ser Iara.
––– Aquela que vinha sempre aqui, a dona Iara... Ela até deixou um bilhete... – enfiando a mão no bolso da camisa, retirou e entregou a Patty um pedaço de papel.
A essa altura, já estavam chegando ao elevador, e ele voltou para a portaria.
––– O que será que ela quer, filha? Logo agora que você e a Cíntia estão se acertando direitinho... espero que você não perca a cabeça indo atrás dela de novo.
––– Relaxa, mãe. Está tudo bem... depois eu leio e te conto o que ela quer... – respondeu.
Minutos depois, em seu quarto, Patty leu o bilhete escrito com esferográfica preta com aquela caligrafia firme e peculiar, já que ela misturava letras de forma num estilo reto com outras bem arredondadas: “Patty, preciso te ver com urgência! Assim que voltar de viagem, por favor, me procure. A única coisa que quero agora é seguir minha vida, com ou sem você, mas antes, preciso de um beijo teu... Ass.: (ainda) Tua Iara”
A primeira coisa que Patty pensou foi: “Poxa, ela poderia pelo menos ter colocado esse papel dentro de um envelope! Aposto que o porteiro leu; agora eles vão ter assunto por um bom tempo!” em seguida ela esqueceu o insignificante detalhe da indiscrição cometida por Iara e sentiu um calafrio na espinha pelas lembranças que estas palavras entre parênteses lhe trouxeram de imediato. Percebeu que seus olhos se enchiam de lágrimas e deixou-se levar pela nostalgia. O momento era totalmente inoportuno, já que havia coisas a fazer, como separar e guardar roupas trazidas do passeio, enfiar as malas no maleiro do guarda-roupa, tomar banho e sair para providenciar um lanche para as duas. Apesar disso, ela simplesmente se jogou sobre cama e se entregou às lembranças.
Lembrou-se da noite e da maneira como conheceu Iara, das hipóteses loucas criadas como única chance real de cruzar com ela novamente, numa rua ou numa esquina dessa vida louca... Recordou as noites insones, quando se entregava aos devaneios, tecendo mil situações imaginárias, com direito a efeitos especiais, em que se veria novamente frente a frente com ela... Dias de intensa expectativa para o reencontro com aquela mulher, até então misteriosa... E ela quase pôde sentir tudo de novo. Todas as lutas, os sonhos quase se realizando, todas as vezes que fizeram amor, e também todas as palavras ditas e ouvidas nos muitos desentendimentos... de repente aquele fiapo constante de saudade adquiriu um novo formato, e ela sentiu vontade de repetir tudo com Iara. Embora estivesse tranquila ao lado de Cíntia, cedeu ao pedido contido no bilhetinho e pegou o telefone para ligar. No automático, apertou na tecla correspondente e com o coração aos pulos, esperou que ela atendesse:
––– (Oi, amor... já sentiu saudade?)
Era a voz de Cíntia. Imediatamente ela se deu conta que sua realidade a chamava de volta. E que, apesar de quase ter sucumbido a uma recaída, a sua verdade fez com que ela retornasse ao seu eixo. Por acreditar que nada acontece por acaso, ela entendeu que o lapso que a fizera apertar a tecla referente ao número de Cíntia significava que o seu momento nostálgico provocado pelas palavras de Iara era apenas isso: a recordação de uma vida que ficara lá no passado, junto com Iara e aquela paixão que perdera seu auge, sem se transformar em amor...
––– (Patty, tudo bem? Fala comigo!!)
Pega de surpresa porque estava viajando em seus pensamentos, e sem pensar duas vezes, Patty falou e falou tudo:
––– Cín, tinha um bilhete da Iara me esperando aqui... O porteiro me entregou assim que pisei no prédio... Ela quer me ver...
––– (Sei... e você quer vê-la?) Cíntia, do outro lado da linha, foi dominada por uma sensação tão grande de tristeza que precisou se sentar para continuar a conversa.
––– Estou em dúvida, eu confesso... Você me ajuda? Ah, sei lá... Nem sei porque te liguei...
Cíntia se jogou na cama: “Vai começar tudo de novo, meu Deus?”
––– (Patrícia, eu não posso te proibir e nem te incentivar... Como diz o ditado: tua cabeça é o teu guia. Decida e... Bom, claro que é besteira te pedir isto, mas ... me avisa... Seja qual for a tua decisão...)
Patty ficou calada por algum tempo, antes de dizer:
––– Quero te ver hoje.
––– (Tudo bem! Depois que terminar aqui, eu tomo um banho e te ligo para marcarmos o lugar...)
––– Não. Quando eu terminar de ajudar minha mãe aqui, EU tomo um banho e vou até sua casa. Beijo.
Ela desligou, deixando do outro lado uma mulher em lágrimas, segurando o celular no orelha, incapaz de acreditar que daqui a pouco sua namorada poderia por um fim nesta relação pela qual ela havia lutado tanto. O resto da tarde foi doloroso. Por mais que ela tentasse pensar de maneira positiva, tudo o que lhe vinha à mente era sua própria imagem jogada num canto, chorando e sofrendo por amor. Como fosse um filme, ela pode rever todos aqueles meses passados sob a torturante visão de Patty nos braços de Iara. Visualizou cada dia daquela época, que nem fazia tanto tempo assim. Ainda não tinham completado dois meses de namoro... Puxa, logo agora que Patty recobrava a naturalidade, e seus olhos já não padeciam de tanta aflição, Iara voltava à cena. Será que toda a segurança emocional que ela transmitia a Patty perdia o valor assim, num abrir e piscar de olhos?
Em sua casa, Patrícia também estava triste. Na verdade, nem ela sabia por que insistia em dar crédito ao bilhete de Iara. Era tão simples deixar pra lá, fazer de conta que nem havia lido aquelas palavras... estava tão claro que a intenção de Iara era perturbar sua paz tão arduamente conquistada com a presença e a ajuda de Cíntia... Mas o bichinho da tentação já se instalara em sua mente e, por maior que se esforçasse para não pensar sobre o beijo que Iara pedia, maior era a vontade de dar esse beijo. Será que ela também precisava esclarecer esta dúvida? Será que o sentimento por Iara estava realmente acabado e resolvido? Aqueles poucos meses em que ela estivera louca de paixão por ela haviam sido tão intensos, tão fortes e tão avidamente vividos, que Patty podia jurar que sugara plenamente cada um daqueles momentos. Porém, uma pontinha de desejo desabrochava dentro dela naquele instante. Aparentemente essa pontinha era tão insignificante que poderia residir dentro dela por toda a vida, sem que ela se desse conta, mas alimentada com a ração adequada poderia amplificar de tal modo que fatalmente a faria tomar atitudes das quais, certamente, se arrependeria depois.
––– Patty, o que está acontecendo que você não em ouve?
Surgida não se sabe de onde, ela viu a mãe, de pé, diante dela.
––– Hãn... Ah, mãe... está tudo bem... acabei me distraindo aqui...
––– Foi aquele bilhetinho da Iara, né?
Há muito tempo que ela deixara de tentar enrolar sua mãe. Era perda de tempo, porque esta sempre lhe fizera aquelas perguntas certeiras, cujas respostas já faziam parte delas. Então, para evitar aqueles dois trabalhos, que é o de mentir e o de dizer a verdade depois, ela aprendeu desde cedo a responder com a mais pura verdade.
––– Sim, mãe. A Iara quer me ver...
––– E você vai ao encontro dela? Oh, minha filha, sua vida anda tão tranquila... A Cíntia é tão boa companhia pra você...
––– Ela é bem mais do que uma simples companhia e tu sabe disso, mãe...
––– Então? Se você mesmo reconhece isso, porque é que vai caçar chifre em cabeça de cobra?
––– Mas eu não disse que vou me encontrar com ela?
––– E precisa dizer? Eu te conheço, menina... Você não estaria assim, tão pensativa, se não tivesse com minhocas na cabeça...



Escrito por MariaN às 20h52
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Patrícia

Capítulo 73


 


O dia de Natal foi tranquilamente vencido por Patty e Cíntia. Vencido, porque Cíntia passava o tempo toda sobressaltada, com receio de que a mãe ou o pai dissesse qualquer coisa que pudesse desagradar Patrícia. Depois do almoço, todos ficaram ali pela varanda conversando banalidades. Em certa altura, Carmen e Afonso começaram a falar sobre as intimidades da vida dos parentes. Assuntos como suicídio, divórcios da prima fulana, problemas financeiros do primo beltrano... Enfim, pessoas e peculiaridades que não faziam parte do dia-a-dia das pessoas ali presentes e que, portanto, não interessavam a nenhum deles. André e Cíntia tanto fizeram que conseguiram mudar rumo da conversa, falando sobre as viagens que fizeram e lembrando-se das pessoas que conheceram. 
Mas alguns minutos depois, Dona Marta alegou cansaço, pediu licença e foi descansar em seu quarto. Logo depois, Carmen e o marido fizeram o mesmo, deixando os dois filhos, Patrícia e Daysa numa conversa animada sobre as aventuras de cada um. Os dois filhos de André estavam por ali: o menor dormitava no carrinho e o maior sentara-se sobre as pernas e descobria os mistérios do robôzinho que ganhara do avô, desmontando-o inteirinho. Cíntia aproveitou a oportunidade para manifestar sua impaciência com certos assuntos dos pais:
––– André, eu já havia preparado a desculpa de visitar uma ex-colega pra sair daqui. Ninguém merece, viu? Coisas que aconteceram há tantos anos e eles não esquecem... Ficam montando e desmontando o passado como se, com isso, pudessem mudar os fatos!
––– Eu faço cara de paisagem e espero a primeira deixa... Aí, entro com uma pergunta, ou então com outra história nada a ver...
––– Mas falando nesse negócio de mudar de assunto – era Daysa que tomava a palavra e se dirigia a Cíntia - quando é que você vai nos visitar, hein? Bem que poderia ser neste verão, né?
––– Ah, nem me fala, viu... Ando louca pra sentir a areia sob meus pés e aquele marzão lindo à minha disposição... Acontece que só vou sair de férias em maio... Bom, isso se minha chefa não mudar tudo, né? – falou, olhando pra Patty, que apenas deu um sorriso e nada disse, aguardando o desfecho da conversa.
––– Por que vocês não vão passar o réveillon na praia, aqui pertinho mesmo? – perguntou Daysa – Não deve ser tão complicado...
Foi Patty quem respondeu:
––– A idéia é boa, mas não planejamos nada: não reservamos hotel, nem passagens... Nada!
Cíntia aproveitou a deixa e se animou:
––– Ah, Patty, não me diga que você nunca foi de carro? Não acredito! Já fiz tanto isso! A gente não leva mais do que sete horas na estrada...
––– OK! Mas e minha mãe? E hospedagem lá? Não gosto de fazer nada assim, sem planejamento...
––– Eu tenho uma barraca de camping... E a gente sempre arranja vaga nos campings! Ah, vamos, gata! Nós ainda temos uns cinco dias antes de voltarmos ao trabalho... – choramingou Cíntia, se esquecendo totalmente que o irmão e a cunhada estavam ali.
––– Precisamos analisar um pouco mais. Talvez até dê certo...
––– Tá bom, mas se vamos mesmo, temos que sair daqui ainda hoje! – completou Cíntia com os olhos brilhando.
––– Talvez você tenha razão, mas não gosto muito de mudar os planos assim, no meio da viagem...
––– É apenas uma idéia, Patty. Não se sinta na obrigação de aceitar – retrucou Cíntia de modo bem sério.
Daysa olhou para o marido como quem diz: “briga de casal”. Ele desviou o olhar porque, por mais que tentasse, ainda não conseguia encarar com tanta naturalidade a homossexualidade da irmã. Daysa ignorou sua reação e sugeriu:
––– Gurias pensem com calma sobre isso... Caso vocês se decidam, podem sair daqui hoje à tardinha, passam em casa pra pegar roupas de praia e aí pegam a estrada amanhã cedinho...
Patrícia discordou:
––– Não, se a gente se decidir mesmo, prefiro pegar o estradão hoje, ali pela meia-noite. Assim, amanhã pela manhã, estaremos chegando...
Olhou para Cíntia, deu uma piscadinha e, pedindo licença, saiu dali.
Assim que ela sumiu das vistas deles, Cíntia sorriu pra Daysa e agradeceu:
––– Obrigada, cunhadinha!! Acho que você conseguiu! Foi você quem a convenceu quando falou sobre o lado prático da viagem. Como ela tem que contestar tudo, acabou dando o horário que vamos sair e chegar lá.
André se distraiu com os filhos, e elas aproveitaram para tricotar um pouco sobre a vida de Cíntia. Durante uns dez minutos ficaram ali jogando conversa fora, até que Daysa se envolveu com os filhos, e Cíntia foi para seu quarto descansar um pouco. Não sem antes procurar em vão por Patrícia, que terminava de conversar com Marta sobre a possibilidade da viagem.
––– Filha, se você quiser mesmo ir, teremos que sair daqui mais cedo hoje... E não se preocupe comigo, porque posso ficar sozinha e bem por alguns dias – ela riu e continuou: - mas pense melhor pra não fazer nada na correria e se arrepender depois. Bom, essa é a opinião que você me pediu. Agora, pensa direitinho e me avisa pra eu organizar tudo aqui se tivermos que ir embora hoje.
Patrícia, deitada na cama ao lado, apenas assentiu com a cabeça e ficou quieta por alguns minutos. De repente, se levantou, dizendo:
––– Não, mãe, deixa tudo como está. Vamos continuar com os planos de antes. Vou procurar Cíntia... – deu um beijo na mãe saiu do quarto para falar com Cíntia.
Resolveu arriscar e bateu na porta do seu quarto, que ficava à esquerda do que ela ocupava com a mãe. Cíntia abriu e, ao se deparar com o rosto sorridente de Patty, também sorriu e, pegando-a pela mão, puxou-a para si num abraço e beijo esfomeados e, meio desajeitadamente, conseguiu chavear a porta.
––– Que saudade de te tocar, amor! – dizia ela entre toques, beijos e delícias.
Patrícia naturalmente se deixou envolver pelas carícias da namorada e se entregou ao momento com muita vontade e sem nenhuma frescura.
Depois de acalmarem os desejos, elas conversaram, entre beijos e carinhos suaves, sobre a possibilidade de irem para a praia imediatamente.
––– Imagino que você esteja mesmo disposta a se aventurar, Cín, mas pensei bem e não acho legal sairmos assim, sem planejamento... Vamos deixar para o próximo feriadão?
Cíntia fez cara de zangada, mas dentro do momento de intimidade, ela acabou concordando com os argumentos de Patty. E foi com a voz bem dengosa e quase sussurrante que ela disse, com a boca encostada no pescoço de Patrícia:
––– Se não fosse a realidade, que pode bater naquela porta a qualquer momento, eu não sairia daqui nem para a praia mais paradisíaca do mundo... Aliás, deixa eu ficar grudada em você pelo o resto da vida, Patty?
––– Deixo tudo o que você quiser, menos sair de perto de mim...
E novamente elas se entregaram aos carinhos mais íntimos. Só que dessa vez não demoraram muito, afinal as pessoas poderiam estranhar a falta delas. Patrícia deixou Cíntia e foi para seu quarto tomar um banho antes de se juntar aos outros. Ela encontrou-os todos na varanda próxima à cozinha, já preparados para o lanche da tarde. Carmen foi a primeira a falar com ela:
––– E aí, descansou bem?
––– Sim, o suficiente para acabar com aquela moleza de depois do almoço... Obrigada...
E, sentando-se perto da mãe, ela percebeu pelo seu olhar que era exatamente isso o que Marta havia dito para todos. Logo chegou Cíntia, usando uma sandália rasteirinha azul, um shortinho bege um pouco acima do joelho e uma regata também azul. Os cabelos molhados e o perfume suave encantaram Patrícia que, por pouco não deu bandeira, tamanha a intensidade do seu olhar. Cíntia foi direto até a mãe, deu-lhe um beijo e perguntou:
––– O que temos de gostoso aí, hein? Tou com uma fominha...
Carmen, olhando para todos em geral e para dona Marta, em particular, respondeu:
––– Eu te conheço, menina... Sabia que você viria toda cheia de dengos atrás de uma torta ou de um bolo... Desde criança ela é assim: come de tudo e não engorda.
––– Como não engordo, mãe? Olha só – disse apontando para seu quadril – como estou ficando redondinha...
Todos riram da piada e se dedicaram em seguida ao assunto principal: o farto lanche sobre a mesa.
O restante do dia transcorreu sem novidades ou situações dignas de menção. No dia seguinte, logo pela manhã, Marta já começou a organização de bolsas e mala pra a viagem de volta. Pouco depois do almoço, Patrícia e Cíntia ajeitaram a bagagem no carro e ficaram por conta de dona Marta. Ali pelas quatro da tarde ela as chamou para irem embora...
Marta abraçou Carmen demoradamente, agradeceu-a pelas “boas-vindas” e convidou-a para passar um final de semana com elas, assim que surgisse uma oportunidade. Repetiu o convite e as mesmas palavras de carinho e de agradecimento ao se despedir de Afonso, e foi simpática com André, a esposa e os filhos. Patrícia fez o mesmo caminho da mãe, abraçando e agradecendo a todos, e Cíntia demorou-se um pouco mais ao se despedir de cada um dos seus entes queridos. Depois de abraçar muito sua mãe, foram de mãos dadas até próximo ao carro e, antes que ela entrasse, Carmen a abraçou e beijou novamente. As últimas palavras que Cíntia ouviu da mãe antes de partir foram:
––– Filha, apesar de nós, continue lutando pela sua felicidade... Seja com quem for, mas... – fez um gesto com a cabeça na direção de Patty, e acrescentou – ela é uma boa moça...
Com os olhos lacrimejando, Cíntia deu um beijo nela e entrou ao lado de Patrícia.

 



Escrito por MariaN às 19h17
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Patrícia

Capítulo 72

Atendendo a um pedido do senhor Alcides, neste Natal não houve a tradicional ceia Natalina na noite do dia 24. Ele alegou que não suportaria a lembrança da mulher que, em ocasiões assim, fazia questão de cuidar de cada detalhe. Por isso, naquela noite, o jantar transcorreu de forma quase rotineira. Havia um ou outro enfeitezinho de Natal na mesa, mas jantaram cedo e logo foram para cama.
Agora, já no final da manhã do dia 25, Iara cuidava dos últimos preparativos para o almoço de Natal, com a ajuda da mulher de um dos funcionários do sítio. A mesma que a ajudava antes de Vera vir trabalhar com ela. Estava se servindo de um refrescante “suco de cevada” quando foi interrompida por Vera que, como convidada, acabara de chegar com seu filho de oito anos.
––– Eu queria ter vindo mais cedo, pra ajudar a senhora, dona Iara, mas a farra lá na casa da minha mãe foi até muito tarde e acabei dormindo demais...
––– Ah, não tem importância, Vera. Hoje você é nossa convidada e, além do mais, antes de ir embora anteontem, você deixou tudo praticamente pronto pra mim. Hoje foi só colocar no forno e cuidar das saladas... Leve seu filho lá pra conhecer o Rodrigo e volte aqui pra gente tomar um aperitivo juntas, antes de servirmos o almoço...
––– Tá bom, então...
Vera saiu, e Iara ficou pensando no quanto gostaria de ter uma companhia feminina no almoço de hoje. Mas não se referia a qualquer pessoa do gênero feminino. Lembrou-se de Patrícia e logo aquietou-se, porque ela estava fora de questão. “E Vânia... Bom, Vânia aprontou feio comigo. Não vou perdoar nunca! Será que minha sina é ficar sozinha? Não, não posso desanimar, porque afinal só conheci essas duas mulheres... por enquanto... Acho que ainda tenho muito chão pra caminhar até encontrar a mulher ideal... Aquela que vai me fazer feliz... Sim, porque eu quero ser feliz... Nesse ritmo, acho que vou ter que investir pesado e tentar conquistar a Vera... Acho que é minha última alternativa...”
––– Dona Iara... Dona Iara... Dona Iara...
Vera chamou 3 vezes até que ela voltasse do drama que estava criando com seus pensamentos.
––– Sim, Vera...
––– Tem uma moça lá fora querendo falar com a senhora...
Iara fez uma cara de surpresa, ao mesmo tempo em que ria do pensamento anterior, e se dirigiu ao portão. Passou pelo seu pai, que conversava com Hélio e com outras pessoas – eram, na maioria, ou funcionários do sítio, ou pessoas que ocasionalmente faziam algum tipo de trabalho pra ele.
Ao chegar próximo ao portão, avistou Vânia. Haviam se falado rapidamente na noite anterior, de forma um tanto fria, portanto, não houve nenhum convite para o almoço. Enquanto Iara vencia a distância que as separava, Vânia ficou admirando a mulher graciosa que vinha ao seu encontro e pensando no que aconteceria agora. Sabia que essa atitude intempestiva – de chegar sem avisar, como uma verdadeira ‘penetra’ - poderia não agradar a Iara, mas precisava arriscar. Passara a noite de Natal com seus pais, seus irmãos, suas cunhadas e vários sobrinhos. A única pessoa com que se dava bem era a irmã solteira, que felizmente estava presente e amenizou a chatice que era conviver com a maior parte das outras pessoas. Na verdade, a família nem levava tão a sério assim essa obrigatoriedade de passar os natais reunidos, porque não eram tão ligados, nem uns aos outros, nem às tradições. Eles usavam esta data apenas como pretexto para a reunião anual da família. Era a época em que havia os recessos, férias e tudo o mais que facilitava o entrosamento e a visitação entre as pessoas. O próximo encontro entre eles agora só aconteceria se houvesse algum enterro de parente, ou no próximo Natal. De qualquer forma, Vânia deu “Graças a Deus” quando se despediu de todos e se mandou de volta. Ela acabara de chegar de lá, vindo diretamente para a casa de Iara.
––– O que você está fazendo aqui, Vânia?
––– Resolvi quebrar o gelo e vim almoçar com você, mesmo sem ter sido convidada.
––– É muita cara-de-pau da sua parte. Quem te garante que vou te deixar entrar em minha casa? – Iara estava pasma com a audácia da mulher à sua frente.
––– O seu bom senso. – Vânia respondeu tranquilamente – Sabemos que você gosta de mim, e eu estou cada vez mais louca de paixão por você... Então, nada mais normal do que você abrir a porta da casa e também me apresentar para seu pai e seu filho como sua namorada.
Iara não conseguiu disfarçar o riso diante de tanta ousadia.
––– Você não vale nada mesmo, hein?
––– Não, não valho... Mas sou a única mulher que te ama atualmente...
––– E em algum momento eu tive mais de uma mulher apaixonada por mim?
––– Sim, você teve... Mas optou por mim, Graças às Deusas...
Iara não resistiu mais e a convidou para entrar.
––– Só que não posso apresentá-la como namorada... Nem invente moda!
––– OK! Vou me contentar com aquele ‘sem-gracissímo’: “Pai, essa é minha amiga Vânia...”
Iara deu-se por vencida e, rindo junto com ela da palhaçada, entraram na sala, onde as pessoas ainda conversavam e bebiam, alheias à possibilidade de qualquer mudança que pudesse acontecer naquele momento. E exceto pela cara feia de Hélio, realmente não houve mudança alguma.
As apresentações foram feitas de modo simples, porque ao ver Vânia de calça e casaco jeans, Iara quase se arrependeu de tê-la deixado entrar. Bom, mas de qualquer modo, sua família precisava conhecê-la. “Pena que ela tenha vindo assim, com essa roupa tão inadequada”, pensou ela, enquanto levava-a para a cozinha, para concluir os preparativos. O almoço estava bem animado, com muita conversa e risadas. Seu Alcides relaxou logo que começara, e até elogiou a roupa e o cabelo de Vera, que se sentara ao seu lado. Iara atentou para este fato e se sentiu aliviada por isso, pois finalmente via o pai menos triste desde a morte da mãe. Assim que todos se sentaram e começaram a comer, Iara observou que Hélio não tirava os olhos de Vânia. Após o almoço, ele a chamou para um lado e disse:
––– Pelo menos a outra lá é feminina... Pode até ser confundida com uma mulher, mas esta aí, Iara... Pelo amor de Deus, como é que você tem coragem de trazer essa figura para o meio da sua família, Iara?
––– Hélio, isso é problema meu e é bom que você não se intrometa tentando colocar o Rodrigo contra mim!
––– Não vou fazer nada contra você, Iara! Pode levar a vida que quiser! Agora, quem está feliz por ter se livrado do casamento sou eu! Sou livre e tenho bom gosto!
Dizendo isso, ele lhe desejou um Feliz Ano Novo e se afastou, indo para perto de Rodrigo e de seu Alcides. E em poucos minutos despediu-se e saiu dali.
Uma hora depois, quase todos já haviam se retirado. Seu Alcides estava na varanda se despedindo de dois rapazes que esporadicamente faziam trabalhos para ele, Rodrigo em seu quarto ensinava o filho de Vera a jogar vídeo game, Vera e Vânia ajudavam Iara na organização da cozinha. Em dado momento, Iara deixou Vera sozinha com o pretexto de mostrar o quintal para Vânia. Ao perceber que já não poderia ser ouvida, ela desabafou:
––– Será que você não poderia ter caprichado um pouco mais na roupa para vir até aqui?
–––Ah, qual é o seu problema, Iara? Você gosta de mim ou das roupas que uso? Qual a importância disso, afinal?
––– Não é nada disso! Apenas acho que você poderia ter usado uma blusa menos masculina e uma calça de tecido fino... Mas tudo bem!
Vânia aproveitou a chance para tentar mais uma vez:
––– E então, vai me aceitar de volta ou pretende entrar Ano Novo na solidão? Olha que os mais antigos diziam que você vai repetir tudo o que você fizer no primeiro dia do ano. Vai mesmo se arriscar a passar um ano inteiro secando lágrimas de saudade de mim?
––– Como você é engraçadinha, Vânia! Nem adianta usar desses truquezinhos aí, porque não vai me convencer...
––– Eu não preciso usar nada... Só quero te deixar com essa idéia na cabeça: ficar comigo ou “sem migo”... Pense e escolha o que for mais vantajoso. – Vânia tentava fazer uma cara séria, mas não conseguia.
––– Só se você me prometer que vai resistir àquela safada da sua ex, se ela aparecer de novo!
––– Prometo! Prometo tudo o que você quiser, mas, por favor, não me deixe sozinha por um ano inteirinho! Nesse momento, estavam sob uma grande mangueira, e Vânia puxou Iara contra si e beijou-lhe apaixonadamente, tentando, com isso, convencê-la de que não estava brincando.
Minutos depois, duas mulheres sorridentes entravam de volta na cozinha, mas Iara percebeu que seu pai conversava com Vera de uma maneira um tanto quanto íntima. Então ela pegou Vânia pela mão e saíram de fininho dali.



Escrito por MariaN às 21h40
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Patrícia

Capítulo 71

 

A viagem foi tranquila e, em menos de uma hora, Patty estacionou em frente à casa dos pais de Cíntia. Foram recebidas no portão, porque Cíntia os avisou quando entraram na cidade. Passava um pouco das dez da manhã. Cíntia desceu, abraçou o pai, a mãe e fez as apresentações:
––– Mãe... Pai... Esta é a Patrícia, minha chefa e sua mãe, dona Marta...
Tudo normal, sem exageros ou afetações, mas com alegria por parte de Carmen e Afonso que, além de educados, sempre gostaram de receber em casa. Logo André apareceu, e Cíntia se agarrou a ele, como sempre. Haviam sido muito grudados na infância e recuperaram essa união depois de adultos, já que na adolescência tiveram lá seus desentendimentos homéricos.
O próximo movimento foi de Afonso que, com a ajuda do filho, se ofereceu para levar as malas das senhoras para seus respectivos quartos. Patty e a mãe dividiriam o quarto de hóspede da casa, enquanto Cíntia ocuparia o seu próprio quarto. Da mesma forma faria André com a esposa e filhos, que já estavam usando o antigo quarto dele. No entanto, elas não foram direto para o quarto, claro. A manhã estava linda, e os anfitriões fizeram questão de servir um pequeno lanche com suco, café e bolinho de polvilho para as recém chegadas na varanda da cozinha.
––– Que maravilha uma cozinha assim, dona Carmen! Com todo esse espaço, o quintal logo ali... – admirou-se Marta, logo que se sentaram.
––– Ah, eu não conseguiria viver num lugar todo apertado, como um apartamento, em que a gente precisa medir cada móvel que compra pra ver se vai entrar... Nem! Não gosto disso não! Não sei como vocês conseguem! – antes que Marta pudesse continuar, ela ainda falou: - E, por favor, não me chame de dona, hein! Afinal, a gente deve ter a mesma idade...
––– Que isso, Carmen? Você deve ser bem mais jovem do que eu...
Respondeu Marta com sinceridade, sem saber que sim, elas tinham quase a mesma idade, sendo que Marta era apenas um ano mais velha. Mas o galanteio de Marta agradou muito a Carmen. Enfim, o entrosamento entre elas foi bem rápido. Dona Marta ficou encantada com a simpatia de Carmen que, por sua vez, logo notou a maneira carinhosa como Marta tratava Cíntia. Em pouco tempo estavam trocando receitas; não de tortas ou de bolo, mas de creme para a pele e para os cabelos. Definitivamente, Carmen, sempre muito vaidosa, não era o tipo de dona de casa com quem se troca receitas caseiras de biscoitos ou ponto de tricô. Na outra ponta da mesa, Patty conversava com o irmão e a cunhada de Cíntia. Falavam de profissão e ele dizia por que não poderia morar numa cidade longe do litoral.
––– Veja bem, sou oceanógrafo e, claro, o mar é o meu escritório...
––– É tudo uma questão de paixão mesmo, né? Eu sempre fui apaixonada por direito. Desde menina, eu dizia para minha mãe que queria ser advogada pra resolver todas as injustiças deste mundo. Depois de pouco tempo descobri que não é bem assim.
––– Pois é, você lida com as injustiças do homem contra seus semelhantes, e eu atuo na área de preservação ambiental. No caso, tento encontrar soluções e técnicas que possam amenizar a crueldade do ser humano contra aos animais marinhos e seu habitat natural.
Pouco depois, contava para Patrícia como conhecera a mulher, Daysa, que neste momento chegava com o filho menor nos braços e se sentava ao lado da sogra.
––– Ela é bióloga marinha, e eu conheci o tal amor à primeira vista no primeiro dia de trabalho dela no mesmo escritório que eu...
Todos riram e Patty deu continuidade à conversa:
––– Muito legal conhecer alguém assim e se apaixonar logo de cara, não é?
––– É verdade, Patrícia... E, segundo resultados recentes de uma pesquisa feita por um psicólogo e escritor, o relacionamento tende a ser duradouro quando o casal se conhece num ambiente mais restrito, como o familiar, um clube ou o trabalho.
Nesta hora Cíntia ficou animada:
––– André, me fala mais sobre isso. Afinal, eu também conheci alguém no trabalho... Poxa, gostei dessa pesquisa!
Riram e trocaram olhares, mas a partir daí passaram a participar da conversa que rolava na mesa entre os pais, Daysa e dona Marta. E, naquele momento, o assunto eram os filhos e a profissão escolhida por cada um deles. Dona Marta percebeu que evitaram falar sob outros aspectos de Cíntia, e ela respeitou isso.
Durante o resto do dia, de uma maneira ou de outra, todos eles ficaram envolvidos com os preparativos da ceia. Foi um corre-corre típico deste dia. Carmen desenrolava tudo com aquela rapidez esperada de uma dona de casa experiente, delegando tarefas e botando a mão na massa, quando necessário. Marta não ficou pra trás, acreditando que logo essas duas famílias estariam unidas com a união das filhas, participou de tudo com alegria e competência. Descobriu com isso que sentia falta de agitação familiar. Nos poucos momentos silenciosos, ela ficava observando a família de Cíntia. Sabia que mesmo sendo um dia atípico, muitas coisas poderiam ser notadas. Não houve um só grito ou discussão entre eles. Muito pelo contrário, o carinho partilhado nos olhares trocados ao longo do dia era algo lindo de se ver. Que bom que apesar de negarem a condição homossexual da filha, eles a tratavam com carinho. Ela não sabia se na época da descoberta, ou da conversa crucial entre eles, haviam ultrapassado a linha do respeito. Aparentemente, eles mantinham um acordo silencioso. Desses em que ninguém afronta ninguém e fica tudo hipocritamente bem.
Por causa do excesso de afazeres, o dia acabou passando rápido, mas de forma prazerosa. Muitas pessoas passaram pela casa durante toda aquela tarde. Como esta era uma cidade pequena, as portas ficavam abertas, e as pessoas simplesmente apeavam do seu cavalo, ou desciam de seus carros e entravam porta adentro, cumprimentavam todo mundo, tomavam uma bebidinha ou comiam uma rabanada e seguiam seu caminho. Toda essa visitação se devia ao fato de Afonso ser o único Médico da Terra residente na cidade. E por ser este agrônomo querido e respeitado, além de um ótimo profissional, ele conhecia todos os proprietários de terra da região. E quase todos que passavam pela cidade faziam questão de vir lhe dar um abraço de final de ano.
À noite, como se tivessem sido ligados ao botãozinho de automático, cada um encontrou o seu momento certo de tomar banho e se arrumar para o jantar. Marta e Patrícia estavam encantadas com a quantidade de pessoas que podiam caber dentro de uma casa. Sim, a casa era grande, mas o que chamava a atenção das duas eram os abraços e o carinho das pessoas que passavam apenas para partilharem sua alegria e desejarem Boas Festas aos donos da casa. Quando o relógio marcava pouco mais de vinte e três e trinta, Carmen convidou a todos para se sentarem à mesa. À exceção do lugar à ponta da mesa, sempre ocupado por Afonso, e o de Carmen, do seu lado direito, não havia lugares marcados. Automaticamente, todos se sentaram próximos aos seus respectivos pares. Além de Patrícia e dona Marta, dois casais amigos da família também estavam presentes. Assim que todos se acomodaram, Afonso pediu a palavra e fez uma oração de agradecimento a Deus, à sua família e às pessoas que se agregaram a eles nesta data tão importante:
––– ... E não querendo me alongar, já que posso ver a fome na cara de muitos aqui... – todos riram com a frase engraçadinha – eu desejo a todos um FELIZ NATAL e MUITA PAZ para todas as Famílias!
Terminado o coro de Feliz Natal, eles se entregaram à deliciosa tarefa de saborear toda aquela comida preparada com tanto carinho. Algum tempo depois da algazarra típica recheada dos pedidos comuns à mesa, quando todos se sentiram satisfeitos, eles se levantaram e juntos ajudaram a dona da casa a tirar a mesa. Instantes depois, todos voltavam da cozinha com a sobremesa. Desta vez, porém, ninguém se sentou à mesa. Ficaram por ali, se entregando àquelas delícias, e logo se dispersaram, formando grupinhos aleatórios. Andavam pela casa, bebiam ou apenas conversavam sentados a um canto, observando o movimento ao redor. Este último caso era protagonizado por dona Marta e Carmen, que acompanharam o momento em que, não muito longe delas, o bebê de seis meses, filho de André, acabava de acordar no carrinho. A Tia coruja e Patrícia disputavam quem iria pegá-lo nos braços primeiro. O grupinho perto da criança ainda contava com a presença da mãe do pimpolho, Daysa. Marta e Carmen, de onde estavam não podiam ouvir o que diziam, mas ficaram admirando de longe. Quem primeiro falou foi Carmen:
––– Mesmo sabendo que o André é mais velho do que Cíntia, eu esperava que fosse ela a primeira a me dar um neto... Eu sempre acreditei que neto vindo de filha é mais chegado na gente... Bom, mas eu nem sei se ela vai, um dia, pensar em fazer essa minha vontade...
––– Eu sempre quis muito um neto, claro... – falou Marta – e quando a Patty me falou que a vida dela seria bem diferente da que eu esperava, fiquei muito triste. Com o tempo fui aceitando... E eu sei que ela pode ter filhos, se quiser, mas nos últimos tempos ela tem falado mais em adotar, do que em dar um jeito de engravidar...
Carmen fez uma cara de quem acabava de entender tudo, disfarçou a descoberta e continuou:
––– É uma pena que eles nunca fazem como a gente quer... Não sei... Às vezes, eu me sinto confusa com certas coisas da minha filha, sabe...
––– Ela é uma menina muito doce, Carmen... Eu demorei a perceber que cada pessoa só pode ser feliz do seu jeito. E como eu sempre tive o respeito da minha filha, aprendi a respeitar a única maneira que ela tem de ser feliz.
Carmen analisou aquelas palavras um pouquinho e respondeu simplesmente:
––– É, talvez você tenha razão...
Dizendo isto, ela pediu licença a Marta e saiu para se aproximar de outras pessoas. Depois dessa conversa, muitas vezes Marta notou que ela ficava pensativa, observando Cíntia e Patrícia juntas. Como dizem que são as pessoas que fazem o ambiente, estas construíram um ambiente muito sereno. E o resto da noite transcorreu com alegria e tranqüilidade. Antes das três horas da madrugada todos já se encontravam em seus respectivos quartos. É verdade que a certa altura da noite, Patty fugiu e entrou no quarto de Cíntia, onde ficou até quase o amanhecer.

De manhã, os itens mais procurados na cozinha foram água e suco de laranja. Prevendo isso, Carmen já havia preparado dúzias de laranjas. Com a ajuda de Marta, ela fez suco e café da manhã para todos. Na mesa do café, ficaram por muito mais tempo do que o necessário, adiando assim, a preparação do almoço de Natal. O dia foi muito gostoso. Cíntia tirou um tempinho antes do almoço para levar Patty a conhecer as redondezas e os seus esconderijos de infância. Em todos os lugares discretos e desertos que chegavam, aproveitavam para trocarem beijos apaixonados. E foi num desses momentos que Patrícia chamou a atenção de Cíntia para uma coisa que ela observara:
––– Cín, desde hoje de manhã que tua mãe me olha de um jeito diferente...
––– Ela tem te tratado mal, Patty?
––– Não, de forma alguma! Só que ela está diferente. Observe depois... Você que a conhece bem...
––– Eu agora evito alimentar esperança quanto a alguma mudança da parte deles... Meu irmão ainda aceita, mas ainda assim não posso conversar de forma muito clara com ele. Percebo que eles querem o silêncio. Então, eles terão o silêncio.
Patrícia brincou com essa palavra:
––– Mas, por favor, não faça muito silêncio naquelas horas gostooosas, tá?
––– Então, da próxima vez, me leve para um lugar bem hermético, porque vou gritar tanto que você vai me pedir pra calar a boca...
E rindo muito das próprias brincadeiras, elas voltaram para casa.



Escrito por MariaN às 22h04
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Patrícia

Capítulo 70

 

A intenção inicial de Cintia era chegar à casa de seus pais com dois dias de antecedência do Natal. Chegando, inclusive a marcar a data com a mãe. No entanto, de última hora, Érica sugeriu brincarem de amigo oculto. Sugestão aceita, eles reservaram então a tarde do último dia de expediente do ano para a revelação e entrega dos presentes. Assim, em menos de três dias tudo foi primorosamente organizado por Érica, com a ajuda dos outros funcionários. E então, para evitar correria, Cíntia adiou a viagem para o dia seguinte. Sua mãe não gostou muito quando recebeu a ligação da filha, porque já havia preparado tudo para receber as visitas, mas acabou aceitando a mudança. Afinal, nesta época as pessoas querem mesmo confraternizar. Nesta tarde, um outro acontecimento marcou a ocasião. E este não tinha nenhuma ligação com esta ou com qualquer outra data comemorativa.

E aconteceu mais ou menos assim: por volta das quatro horas da tarde, todos se preparavam para iniciar a pequena troca de presentes na revelação do ‘amigo oculto’ no escritório. Patrícia estava em sua sala terminando de arrumar sua mesa, que entraria em recesso junto com ela, enquanto os outros funcionários, inclusive Cíntia, abriam embalagens de pratinhos e garfinhos descartáveis, distribuindo-os sobre uma das mesas. Nesse momento, chegou o rapaz da tele-entrega com a encomenda dos salgadinhos. Érica o atendeu e, quando se preparava para fechar a porta, Iara irrompeu sala adentro. Érica ainda tentou sinalizar para impedi-la de seguir em frente. Como estava com as mãos ocupadas, não o fez. Conseguiu apenas abrir a boca e dizer:
––– Com quem a senhora deseja falar?
Não obteve resposta e automaticamente olhou para Cíntia. Viu-a boquiaberta acompanhando os passos da mulher, que olhando de um para outro, sem nenhum sinal de cumprimento, se dirigiu à sala de Patty. A cara de espanto de Cíntia chamou a atenção de Vítor e também de Alfredo e Mariana, os novos estagiários, que se olharam sem entender nada.
Patrícia estava de costas para a porta, mas sentiu a entrada de alguém. E foi logo dizendo, enquanto se virava na direção de quem entrava:
––– Nem precisa me apressar, porque já estou terminando isso aqui... eu também estou com fome de presen... Iara? O que você está fazendo aqui?
Ante a surpresa, ela não imaginou outra pergunta, senão esta. Iara sequer abrira a boca para responder, e Cíntia apareceu na porta:
––– Quer que eu feche a porta, Patty?
Patty, meio desnorteada e já de pé, respondeu:
––– Sim, mas com você do lado de dentro!
Foi tudo muito rápido: Iara rodeou a mesa de Patty e a agarrou pelos ombros, chorando.
––– Por favor, me perdoa!
––– O que é isso, Iara? Que invasão é essa?
––– Prometo que vai ser diferente agora! Nenhuma outra mulher é tão carinhosa e compreensiva quanto você...
––– É, mas isso não foi suficiente pra você. Agora acabou, Iara. Volta pra sua namorada, pra sua vida...
––– Aquela namorada? Hum! Você nem imagina o que ela me fez!
––– Não, não imagino...
––– Ela me traiu, Patrícia! Eu a peguei com outra na cama? Pois é... E pensar que desconfiei de você...
Patrícia olhou para Cíntia, como se tivesse pedindo socorro, mas a impediu com um gesto quando ela tentou se aproximar. Era apenas uma cara de tédio que ela deixou escapar. Assumindo o controle, ela afastou Iara, que em nenhum momento parou de falar, e a conduziu para uma cadeira.
––– Vem cá... Sente-se aqui... Tenta se acalmar... Cíntia, por favor.... Pegue um copo d’água...
Cíntia voou lá pra fora e voltou com a água. E Iara continuava na mesma lengalenga, como ela diria depois.
Patrícia havia se sentado de frente pra Iara, do outro lado da mesa. Esperou que tomasse um pouco da água e perguntou, com muita serenidade:
––– E então, está mais calma?
Iara se empertigou na cadeira, jogou os ombros pra trás, secou as lágrimas com um lenço que Patty ofereceu e respondeu?
––– Estou mais calma, sim... É que muitas coisas estão acontecendo e eu preciso falar com alguém... sei lá... Falar com você...
Com um olhar sossegado, Patty respondeu:
––– Pode falar, Iara...
Olhando aquela cena, Cíntia fez menção de sair, mas foi impedida por Patty:
––– Fica, Cín....
Iara não gostou:
––– Quero falar a sós com você, Patrícia – disse, olhando para Cíntia com cara de poucos amigos.
-–– Ela fica, Iara! Eu prefiro que ela ouça tudo agora. Assim vai me poupar de contar tudo mais tarde...
Cíntia agradeceu o gesto de Patty, mas, obsequiosamente, saiu dali.
––– OK! Você conseguiu... Cíntia já saiu... Fale o que te trouxe aqui...
––– Poxa, é assim que você me trata depois de tudo o que passamos juntas?
––– Estou te tratando tão bem...
Iara fez uma pausa e continuou:
––– Vejo que perdi o meu tempo vindo aqui! Eu só queria poder voltar atrás em muitas coisas, sabe, Patrícia. Talvez nem saiba, mas tem sido difícil viver sem você...
––– É mesmo, Iara? Você só queria isso? Felizmente, é tarde demais para voltar atrás... Eu já me recuperei... Já reaprendi a viver sem você...
––– Não seja irônica, Patrícia... Eu não acredito que todo aquele amor acabou assim, de repente!
Patty fez uma pequena pausa antes de dizer:
––– Não, Iara, aquele amor se transformou, e te confesso que eu o prefiro nesse novo formato. E é isso aí: não tenho mais nada pra falar e nem pra ouvir sobre nós duas. Pra mim, acabou de vez...
––– E que formato ele tem agora? – Perguntou Iara.
––– Lembrança... Aquele amor agora, Iara, é apenas uma lembrança. Mas... Foi muito bom te ver de novo! Acho que eu precisava disso pra saber se o que sinto por você ainda pode me dominar...
––– E pode? O que você sente por mim agora, Patty?  - sua voz era pura esperança.
––– Não sei dar um nome. Mas sei que é algo que não me faria voltar atrás. Agora, por favor... Hoje é o dia em que vamos revelar o nosso amigo oculto aqui e não posso me demorar... Estão todos lá fora, só me esperando...
–––É, acho que você tem razão. Estou sobrando aqui... E, pelo jeito, não restou nem amizade, não é?
––– Sinceramente? Eu espero que um dia possamos ser amigas, mas isso terá que acontecer de forma natural... Agora, por favor... – disse, indicando a porta – Como eu já disse, estão me esperando na outra sala... Tenha um ótimo Natal com sua família... E até outro dia...
Levantou-se e abriu a porta, convidando-a a se retirar. Sem argumentos, Iara saiu calada. Passou por todos e ganhou a rua.  Diante do silêncio constrangedor que se abateu entre todos na sala, Patty resolveu abrir o jogo:
––– Bem, pessoal, se vocês querem saber... Quem acabou de passar por aqui foi o meu passado.
Todos disfarçaram a curiosidade e ela completou:
––– É um assunto particular e chato pra caramba! Portanto, vamos seguir com nossos planos... Acho que essa festinha vai me ajudar a desanuviar um pouco...
A partir daí, todos relaxaram lendo os bilhetinhos de amigo oculto, brincaram ao abrir cada lembrancinha e se divertiram tomando refrigerante e comendo salgadinhos dentro do espírito natalino que se propuseram a fazer.
Finalmente, loucos para encerrar o expediente e saírem para o tão esperado recesso até o segundo dia de janeiro, eles se despediram. 

Eram quase dezoito horas quando, todos juntos, saíram do prédio. Depois de trocarem mais abraços e mais votos de Feliz Natal e Feliz Ano Novo, cada um foi para o seu lado. Patty seguiu Cíntia até a casa desta, para que ela pegasse suas bolsas de viagem. Como queriam sair bem cedo na manhã seguinte, Cintia dormiria com Patricia. Decidiram viajar no carro de Patty, para que dona Marta ficasse mais à vontade na hora de carregar tudo o que ela achava indispensável. Cintia desceu até a garagem e Patty estacionou em frente ao prédio. Ficaram de se encontrar no elevador pra subirem juntas. Quando Patty passou pelo porteiro, que já a conhecia, ele a chamou:
––– Por favor, a senhora pode entregar isso aqui para a dona Cíntia?
Ela pegou em suas mãos um pacote em papel presente, com um envelope colado sobre uma fita vermelha. Agradeceu e foi para o elevador. Logo Cíntia chegou. Ela entrou e lhe deu o pacote, calada.
––– Outro presente, Vida? – perguntou Cíntia sorridente.
––– Não é meu. Foi o rapaz da portaria que me pediu para te entregar.
––– Ah, tá... – foi um comentário meio decepcionado. – vamos ver de quem é...
Abrindo o cartão, ela leu em silêncio, riu e passou à tarefa de abrir o pacote. Como estava chegando, esperou, abriu a porta de casa e, colocando tudo sobre a mesa, finalmente abriu o presente.
Patrícia, não se agüentando mais de tanta curiosidade, perguntou:
––– De quem é, Cín? Você só fica rindo e não fala nada...
––– É que não está assinado...
––– Que coisa estranha.... Um presente anônimo?
––– Médio...
––– Como assim, Cín? Fala logo, mulher...
––– Ué, Patty, mas se você não me deixa concluir uma frase sequer!
––– OK... Vou ficar quieta... Explica isso: não está assinado, mas não é anônimo?
––– Não, o presente é uma agenda, e quem mandou foi a Milene. Ela não assinou o cartão... Será que estava tentando fazer alguma brincadeira comigo? Ele sequer foi escrito à mão... Mas eu reconheceria esse estilo de escrever mesmo que se passassem cem anos. Afinal, eu vivi com ela tempo suficiente para conhecer algumas de suas peculiaridades... E o estilo de escrever é uma delas. Aliás, cada pessoa tem seu estilo...
––– Cíntia, você quer parar de tentar me enrolar com esse papo de estilo disso e daquilo? Que liberdade é essa que ela tem para ficar te mandando presentes? Será que ela é a única pessoa dessa cidade que não sabe que estamos juntas? Mas ela estava no dia do seu aniversário! Ela nos viu grudadas uma na outra...! O que ela está pretendendo?
––– Calma, Patty! Que ciúme fora de hora é esse, Vida? Você está lembrada que hoje a sua ex- mulher-maravilha foi atrás de você, e eu não reagi assim? A gente tem que saber separar as coisas, Patrícia...
––– Ah, mas ela não conta! A gente sabe que ela não serve de parâmetro pra nada! E a Milene sabe que estamos juntas!
––– A Iara também sabe de nós duas, mas isso não a impediu de vir atrás de você! OK? E a gente sabe também que a Milene está muito bem com a nova namorada e só me mandou um mimo, com votos de Feliz Natal! Nada demais também! Eu inclusive vou ligar para agradecer... Ou talvez eu retribua com outro mimo...
––– Ah, mas não vai mesmo!
––– Oh, vida minha... Deixa de ser encrenqueira, vai... - disse Cíntia, rindo da cara de bravinha de Patty. – Venha, vamos cuidar da vida... Vem, minha dengosinha ciumenta...
E, com muitos carinhos e beijos, ela acalmou Patty, a ponto de irem parar na cama antes de resolverem as coisas práticas.

Quando chegaram à casa de Patty, dona Marta já as esperava com um lanche leve. Sentaram-se à mesa, conversaram um pouco e logo foram dormir, já que de manhã sairiam para Rio Sem Fim.

 



Escrito por MariaN às 14h07
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