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Meninas Estou reeditando o conto Patrícia, que foi parcialmente publicado no Xana in Box. Como o Xana foi retirado do ar, bem no momento em que concluí a história, decidi criar este blog para publicá-lo. Pretendo postar um ou dois capítulos a cada três dias. DeniseM
Escrito por Maria Menina às 23h02
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Patrícia
Primeira parte Capítulo 01 Ao ver seu nome entre os aprovados no vestibular para Direito da Universidade Estadual, Patrícia Borges deu um pulo de alegria e abraçou a todos que ali estavam pelo mesmo motivo: conferir aquela lista. Aos dezenove anos, depois de quatro tentativas, finalmente conseguira sua vaga. O cursinho foi pago com muita dificuldade, trabalhando como recepcionista de um consultório odontológico. Sua mãe, Marta, dona de casa e bordadeira muito dedicada, sempre cuidara da filha única com muito carinho, dando-lhe o essencial que a pouca grana de seus bordados permitia e, talvez para suprir a falta constante do pai, que vivia bêbado pelos botecos do bairro, não poupava esforços para vê-la feliz. Marta sempre a protegera para que a filha não passasse pelas mesmas agruras que ela. E enfim ali estava ela às vésperas de se matricular na faculdade. Ligou para a mãe aos gritos e Dona Marta bateu os joelhos no chão em agradecimento ao bom Deus por não tê-las abandonado jamais. Agora teriam que economizar ainda mais para este investimento. Os livros são caros, a condução idem... Isto sem contar com força de vontade para não desistir no meio do caminho. E assim foram cinco anos de uma batalha constante. Com a ajuda do seu chefe, Dr. Walter, que aceitou que ela trabalhasse apenas meio período sem diminuir o salário, ela concluiu o curso na faculdade pública. Agora, aos 32 anos de idade, embora aparentasse bem menos, e sentada à sua mesa na sucursal do departamento jurídico de uma multinacional, localizado num complexo empresarial no centro da cidade, ela recordava cada detalhe desse período difícil da sua vida. Lembrou-se da morte do pai, quando viu alívio nos olhos da mãe. Um peso a menos, um espaço a mais dentro da casa e do peito daquela mulher que tanto sofrera com o marido inconseqüente. Uma semana após a missa de sétimo dia do pai, ela criou coragem para conversar com a mãe sobre sua sexualidade. Estava então com vinte e quatro anos e nunca havia suportado o pai lhe cobrando um namorado honesto e ambicioso com quem ela deveria se casar, porque mulher sozinha jamais vencia na vida segundo ele. Dona Marta olhava com desdém para o marido pensando que, se fosse pra filha arrumar um homem igual a ele, melhor ficar sozinha. Normalmente ela respondia que não tinha tempo pra namorar, por causa do estudo e que tinha uma meta a alcançar na vida... Depois pensaria nisso... A mãe a apoiava nesse sentido. Quando, porém, chamou Dona Marta para se revelar sua reação não foi nada boa. A mãe se revoltou e disse-lhe palavras duras: que isto é uma safadeza e não aceitaria sem-vergonhice dentro da sua casa. Além do mais tinha o sonho de ser avó... E todas aquelas coisas que uma mãe diz quando descobre que a filha única jamais poderia realizar o seu sonho. ––– Isto não me impede de ser mãe. Há métodos científicos muito avançados nesse sentido. E eu também posso adotar uma criança que será sua neta do mesmo jeito! Sei que estou exigindo muito da senhora, mãe, só que não posso levar uma vida de mentiras. Entenda isso, por favor! Não me falte agora, mãe. A senhora sempre me disse que nunca ia me abandonar! – Patty e sua mãe choravam, mas ambas sabiam que esse assunto não poderia ser escondido debaixo do tapete. ––– Filha, eu não vou te abandonar... Quero que você seja feliz, mas é uma grande decepção! Preciso pensar sobre tudo isso!- e foi para o quarto chorar. Passaram uma semana sob um clima chato em casa, quase não conversavam e ela percebia que a mãe chorava mais que o normal. Com o passar dos dias e percebendo que a filha não mudava de opinião, Dona Marta se reaproximou dela cheia de curiosidades sobre o assunto. “Sim, mãe, eu já tive duas namoradinhas”, “Não, mãe, ainda não perdi minha virgindade”, “Tudo bem, Mãe, quando eu conhecer alguém que valha a pena eu vou trazê-la aqui”. Quando completou vinte e sete anos de idade, já formada e trabalhando numa empresa de cobrança, ela levou Carla até sua casa. Estavam juntas há quase um ano e só se encontravam na casa desta, ou nos guetos de homossexuais espalhados pela cidade. ––– Mãe, esta é Carla. Já lhe falei sobre ela, lembra? – apresentou-a assim para evitar as perguntas diretas da mãe. ––––Oi, menina, tudo bem? – Perguntou sem querer saber a resposta e se afastou rumo à cozinha, onde estava preparando o jantar. ––––Não esquenta, Carlinha, minha mãe tem muito ciúme de mim. Ela não se conforma em me dividir com outra pessoa... E é a primeira vez que trago alguém aqui. ––––Fico “grilada” não, Patty... Vai me mostrar seu quarto agora? Quero fazer amor com você lá. ––––De jeito nenhum! Aqui não funciona assim! Minha mãe vai ter um treco se eu ficar lá dentro com você por mais de 5 minutos. – Retrucou Patty, com os olhos arregalados – Pirou, é? Jantaram em silêncio. Dona Marta evitava olhar para qualquer uma das duas. Quando Carla foi embora, ela chamou a filha pronta para dar bronca. ––– Filha, como é que você tem coragem de se envolver com uma garota estranha desse jeito, toda cheia desses brincos pendurados no nariz, na boca e com esses desenhos esquisitos pelo braço inteiro? ––––Mãe, é apenas um estilo. Isto não significa que ela seja marginal. É uma pessoa maravilhosa, já concluiu a faculdade também e trabalha como designer em uma confecção de moda masculina. Nenhum argumento foi capaz de demolir da mãe o preconceito em relação à Carla e a qualquer uma das outras duas que apresentou a ela. Finalmente desistiu de fazer isso. Resolveu namorar sempre longe de casa. Hoje estava assim, sozinha por opção. A mais recente experiência amorosa durou apenas dois meses. O suficiente para descobrir o quanto Aline era imatura e emocionalmente instável, apesar dos seus quase trinta anos de idade. Em compensação, Patrícia se considerava bem encaminhada profissionalmente. Enfim, vendera a casinha em que moravam na periferia e deu de entrada num apartamento mais centralizado, financiando o restante. Além disso, ainda pagava as prestações do carro. No mais, a vida seguia bem. Havia sempre a possibilidade de crescer na profissão. Trabalhar numa grande empresa tinha lá suas vantagens. Bom, já era noite e sua mãe a esperava sempre para o jantar. Pegou a bolsa, ajeitou as coisas na gaveta e saiu do escritório.
Escrito por Maria Menina às 23h00
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