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Capítulo 05 
Durante mais de uma semana, em dias alternados, Patrícia passava por aquele supermercado. Estava obcecada por aquela mulher. Tinha consciência do quanto estava sendo ridícula, mas algo a impelia. Rodava pelo estacionamento, olhando para todos os lados, na esperança de ver ‘aquele’ carro vermelho. E o pior é que, de uma hora pra outra, todos os carros da cidade ficaram vermelhos. Mas nenhum deles era o dela, da mulher dos olhos cor de mel que a enfeitiçara com poucas palavras de agradecimento. “Ah, se eu soubesse teria anotado a placa, marca, modelo, ano, chassis e até o estado dos pneus”, pensou Patrícia, exagerando. Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, portanto ela não procurava um milagre. Apenas acreditava que as pessoas costumam adquirir hábitos e um deles era o de comprar sempre no mesmo supermercado. “Será que fui possuída por alguma espécie de fixação, obsessão... ou sei lá que nome dar pra essa loucura que é a vontade de rever aquela mulher? Ah, mas que importância tem a palavra apropriada para definir o que estou sentindo?” A consciência da dificuldade que seria voltar a ver a mulher é o que a empurrava rumo a ela. Sempre gostou de desafios. Não foi do nada que ela superara todos os obstáculos para estar ali, exercendo a profissão dos seus sonhos e proporcionando à sua mãe uma vida mais tranquila, depois de tantos anos de luta. A sensatez tentava trazê-la de volta ao mundo real, porém a paixão a fazia acreditar que veria aqueles olhos novamente. “Ela tem cara de mulher bem casada, de dona de casa... Mãe de família realizada... Talvez seja melhor eu me controlar e encerrar essa procura. Isso não vai dar em nada.” Em casa, dava pouca atenção à mãe, que notara a filha mais introspectiva. Dona Marta decidira, no entanto, ficar quieta. Sempre a deixara à vontade para desabafar. Quando o problema apertasse, ela certamente se abriria. No trabalho, seu desempenho era elogiado por colegas e até pelo chefe sisudo e insuportável, mas dia após dia sentia aumentar dentro de si a necessidade de se envolver afetivamente com alguém. A determinação em não mais se entregar a qualquer mulher apenas pelo prazer perdia forças e, por isso, decidira que naquela noite voltaria aos lugares onde pudesse achar alguém apenas para “uma noite de sexo casual”. Ao arrancar a folha do mês anterior do calendário sobre sua mesa, reparou que já se passara mais de um mês desde o encontro no supermercado. Foi então que decidiu dar um basta em seus sonhos de um reencontro. Preparava-se para ir embora ao final do expediente quando o chefe a chamou em sua sala. ––– Patrícia, preciso que você conclua a análise desse processo ainda hoje. Consegue fazer isso em uma hora? É o tempo que disponho. – a entonação de sua voz não lhe deu a menor chance de negar. ––– Sem problemas, doutor Santiago. Em uma hora estará em suas mãos. Voltou para sua mesa e falou baixinho pra Cíntia: ––– Logo hoje que eu tinha um compromisso! E agora? ––– Quem manda ser a mais competente? – riu a colega que ao se despedir ainda disse: ––– Liga pra ele e diga que vai se atrasar um pouquinho. Byeeee... ––– É, boa idéia. Tchau! “Ele. Que ele que nada! E ela sabe disso! Só falou assim pra me provocar... pra ver se entrego o ouro.” Parou de pensar nas palavras de Cíntia, ligou para sua mãe avisando que chegaria mais tarde, e se entregou ao trabalho. No prazo determinado levou o processo devidamente analisando e concluído para “O Insuportável”. Despediu-se e saiu dali o mais rápido possível, antes que ele inventasse mais algum empecilho. Eram quase nove horas da noite e por isso desistiu de sair à caça esta noite. Ia direto pra casa e amanhã, sim, estaria pronta pro crime. Ao chegar ao estacionamento viu que seu carro estava bloqueado por outro. Entrou e antes de meter a mão na buzina, pensou: “Que tipo de pessoa irresponsável é essa que prende o carro dos outros assim?”! “Hoje não é o meu dia! Ou minha noite, sei lá!” “Que saco isso!!! Pelo retrovisor viu uma mão que se aproximava acenando e ouviu uma voz que pedia calma: ––– Mil desculpas... Um momento aí... Calma, já vou tirar o carro...
Capítulo 04 Iara acordou em cima da hora com o despertador gritando no seu ouvido. Diariamente ela acordava antes de todo mundo para preparar o café e levar o filho ao colégio. Tinha empregada em tempo integral, porém o marido fazia questão que o café da manhã fosse preparado por ela, assim como o jantar. Ele dizia sempre: ––– No almoço vocês podem comer qualquer gororoba que essa empregada incompetente faz, mas a minha comida é você, como minha mulher, quem deve preparar! E Iara o odiava cada vez que ele proferia palavras de ordem iguais a essas. Ele não sabia, mas na maioria das vezes era Vera quem fazia o jantar. Havia um acordo entre elas: quando ele chegasse, Vera deveria sumir pro seu quarto, e ela assumia o comando do fogão. Ah, como era fácil enganar os homens. Se eles soubessem! Há anos elas mantinham essa cumplicidade. Foi a muito custo que ele aceitara a contratação de uma empregada: precisou que ela jogasse o ‘jogo da vantagem masculina’, dizendo-lhe que só assim ela estaria disposta, linda e cheirosa sempre que ele chegasse. ––– Hélio, se você quer chegar e me encontrar pronta pra atender suas vontades, tem que ser assim. Do contrário, irá me ver sempre com roupas feias, sem maquiagem, com os cabelos descuidados... Você escolhe. Ele pensou um pouquinho antes de responder: ––– Tudo bem, Iara, mas desde que eu não veja essa pessoa estranha perambulando pra lá e pra cá o tempo todo, pode contratar. E assim, por indicação de uma amiga de sua mãe, ela contratou Vera. Enquanto servia a mesa e o esperava já pronto para ir trabalhar, ela analisava seu casamento. Arrependia-se amargamente do momento em que se deixara convencer pelos pais a se casar com Hélio, então um advogado ainda em ascensão, que certamente poderia lhe dar o conforto que eles nunca puderam. Os primeiros anos, como sempre, foram muito bons. Ela até se esquecera de suas aventuras nos tempos de solteira. O caminho que se lhe apresentava então era árduo. Além da rigidez de seus pais, principalmente de sua mãe, que jamais lhe permitiria viver a vida como ela queria; e como seu coração pedia. A maior preocupação deles é que ela virasse uma beata velha dentro de casa, afinal quando se casou já contava seus 26 anos de idade... A chegada dos homens da casa interrompeu suas lembranças. Serviu o café de ambos, trocaram algumas palavras durante o desjejum, em seguida se despediram e ela saiu com o filho para o colégio. Avisou a Vera que não voltaria para o almoço. Enquanto o filho estivesse em aula, ela daria um trato nos cabelos, na pele... Enfim, uma geral na sua vaidade. E assim o fez. Passou toda a manhã no salão de beleza, onde pôde dar boas risadas ouvindo as fofocas típicas do local. Saindo dali, com o cabelo um pouco mais curto e mais claro, pegou o filho no colégio e fizeram um lanche rápido antes de deixá-lo no curso de Inglês. À tarde, resolveu assistir a um filme muito recomendado pela crítica, que estava estreando num dos cinco cinemas da cidade. Às cinco horas pegou o filho e voltou pra casa a tempo de se preparar para receber o marido. ––– Dona Iara, tá tudo encaminhado aí. Se a senhora precisar de alguma coisa é só me chamar lá dentro. Estou terminando de guardar umas roupas e depois vou pro meu quarto antes que o doutor Hélio chegue. ––– Ótimo, Vera, e obrigada por tudo, viu? Nem imagino minha vida sem você... – disse, sorrindo para a empregada que ficou toda “cheia de vida” com o elogio. ––– Que isso, senhora, só faço minha obrigação. Quando Hélio entrou e viu que tudo estava como ele gostava, ficou satisfeito! Jantaram e conversaram um pouco sobre o seu trabalho e sobre o desempenho do filho na escola. Quase não falavam nada sobre ela, afinal, na cabeça dele, ela estava sempre bem. Ela foi até o quarto de Rodrigo, ajeitá-lo na cama e depois foi para o seu quarto, onde ele a esperava ansioso, sentado na cama. Ela sabia que hoje teria que fingir mais uma vez. Já se acostumara a representar o papel de esposa dedicada e de amante sempre bem disposta. Deitaram-se e em menos de cinco minutos ele a penetrou, gozou dentro dela, perguntou se havia sido bom pra ela também e caiu num sono profundo. Essa situação era humilhante e revoltante! Até quando ela teria que se submeter às vontades e exigências desse homem? Levantou-se, foi ao banheiro se livrar de qualquer resquício dele e, chorando, desceu para fumar um cigarro na varanda da cozinha.
Escrito por Maria Menina às 22h00
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Patrícia Capitulo 03 Patrícia estacionou na vaga deixada pela mulher apressada e distraída, e entrou no supermercado. Conferiu a lista feita pela mãe, tomando o cuidado para não levar a marca errada de cada item, efetuou a compra e saiu. Enfrentou um pouco de trânsito, mas não ficou nervosa ou agitada, como normalmente acontecia. Por alguma razão não tirava o rosto da mulher do seu pensamento. Havia um que de mistério naquele olhar. Sim, devia ser casada, e muito bem casada. Pela postura e pelo carro que dirigia, dava pra ver que tinha uma vida estabilizada. Se bem que vida estabilizada não tinha nada a ver com casamento... Mas aquele jeito de olhar... “Patty, Patty... sossega esse fogo, mulher! Foi apenas uma coincidência, você nunca mais voltará a vê-la.”, pensou. Ao entrar no apartamento encontrou a mãe cochilando no sofá, jurando que estava vendo a novela. Riu e foi pra cozinha. ––– É você Filha?? – perguntou dona Marta assustada com o barulho da porta. ––– Claro, mãe... Aposto que estava tão empolgada com as cenas de romantismo aí, que nem me viu chegar... – brincou. ––– Pois você bem que podia me fazer companhia pra ver novela. Está cada dia melhor! ––– Oh, imagino! Mas agora vou tomar meu banho e jantar, tá? Olha, trouxe as coisas que a senhora pediu. ––– Eu não pedi nada, filha... Que coisas? – a memória já não estava boa. E não era por causa da idade, afinal, Dona Marta ainda não chegara aos 60 anos. ––– Depois a senhora vê, tá bom? – respondeu e foi para seu banho. “Tenho que levá-la ao médico o mais rápido possível! Ela está cada dia mais aérea. Marcarei para a próxima semana, sem que ela saiba. Será que toda mãe é assim, resistente a médico?”, pensou enquanto o sabonete deslizava pela sua pele morena. Pelo espelho colocado estrategicamente dentro do box, ela admirou seu próprio corpo. “É, estou muito bem, depois de ter emagrecido aqueles cinco quilos que me deixavam balofa... Pena que ninguém me enxerga.” Pensando nisso, lavou os cabelos castanhos escuros, lisos e longos. Já cogitara cortá-los mais curto, mas a mãe foi contra. E ela tinha razão. Eram bonitos, sim. E sempre bem cuidados. Terminou o banho e, enquanto secava os cabelos, admirou-se no espelho. Gostava do seu rosto com leves traços orientais, apesar de não possuir nenhuma ascendência. O pai era bisneto de índios e a mãe era uma mulher miúda, de rosto fino e pele muito clara. Talvez viesse daí essa mistura que deu certo. “E de onde mais teria vindo essa mistura, ô, Patrícia? Será que estou ficando convencida?” Enrolou-se na toalha e foi se trocar no seu quarto. Quando se mudaram, ela fez questão de instalar a mãe na suíte para que ela tivesse mais conforto. A lei da vida se aplicava de forma natural. E agora era ela quem cuidava da mãe. Ligava várias vezes durante o dia pra saber se ela estava bem, se precisava de alguma coisa, se havia desligado o gás. Tinha uma diarista que aparecia uma vez por semana, mas no restante do tempo dona Marta ficava sozinha.
––– Mãe, eu vou dormir. Vá pro o seu quarto também. Fica aí, dormindo na frente da TV... ––– E você não vai comer nada, menina? – perguntou, sem saber que Patrícia já havia assaltado a geladeira e devorado um pratão de salada. ––– Já comi, mãe... Venha, vamos pra caminha, dona Marta. Depois de ajudar a mãe a se acomodar entrou em seu quarto e se preparou pra dormir também. Seu dia começava cedo. Ao ficar só, o pensamento naquela mulher voltou a incomodar. Com muito esforço e depois de muito revirar-se na cama, conseguiu pegar no sono.
No dia seguinte ao chegar ao trabalho, encontrou seu chefe nervoso e intratável, como sempre. Cíntia, a colega da mesa ao lado, foi logo dizendo: ––– Patty vai devagar, porque o homem hoje está com a macaca! ––– Espero que ele saiba separar as coisas, porque os processos pendentes dependem de um mínimo de bom-senso e muita calma. Não tenho opção. Tenho que incomodá-lo – disse Patrícia indo em direção à sala do chefe. ––– Boa sorte! – desejou-lhe Cíntia. Patrícia bateu de leve e, ao ouvir o consentimento, entrou na sala. ––– Bom dia, Dr. Santiago! Trouxe a documentação que faltava naquele processo trabalhista, cuja audiência será hoje. ––– O dia está péssimo hoje e esse processo pode esperar até mais tarde. Volta depois do almoço. Agora quero ficar sozinho – respondera de forma ríspida. ––– Doutor desculpe-me a insistência, mas temos uma audiência na Justiça do Trabalho às 14h. Não teremos tempo hábil para decidir os pormenores se não anexarmos todos os papeis referentes à nossa defesa agora. ––– Menina, você começou outro dia aqui e não sabe como funciona essa burocracia! Basta um telefonema meu e mudamos esta audiência para amanhã. ––– Tudo bem, doutor... Voltarei a procurá-lo após o almoço. Com licença! – virou as costas e saiu da sala. Jogou-se em sua cadeira desanimada. Preparara-se tanto para esta defesa de hoje e, de repente, por causa dos chiliques de um chefe arrogante, teria que adiar todo o seu trabalho. ––– Eu te avisei Patrícia – disse a colega – quando ele chega desse jeito, é melhor sair de perto. ––– Isso é regime de quartel, Cíntia! Não agüento mais essa exigência: “Sim, senhor. Não senhor”... Quem ele pensa que é? Um general? Só falta exigir que a gente preste continência ao passar por ele! – desabafou Patty. Cíntia sorriu e continuou analisando os papeis que estavam sobre sua mesa. Patrícia se dedicou a outros processos menos urgentes. Só assim poderia adiantar o serviço. Fez algumas pesquisas pela Internet atenta para os casos de jurisprudência em relação às causas nas quais estava trabalhando e anotou tudo que achou relevante.
“Eu que tenho todos os motivos para estar com os nervos à flor da pele estou aqui, linda, morena e sorridente. Só eu sei o quanto me aflige essa solidão.” Há quase um ano sem namorada, e cansada de freqüentar os mesmos ambientes à procura de companhia, ela se entregara totalmente ao trabalho. As últimas garotas que conhecera só queriam brincar ou dar uma transa medíocre. E Patrícia já vencera essa etapa. Foram anos de muita curtição, muitas paqueras inconseqüentes e passageiras. Sentia que estava na hora de conhecer uma mulher de verdade, com a qual pudesse compartilhar o amor, a vida, o dia a dia... E, por que não, a felicidade até que a morte as separe? Mas quanta ironia em um só pensamento! Onde e como encontrar esta mulher, se não se arriscava mais, se não ia aos locais onde as mulheres solteiras também praticavam a caça? Aquela manhã foi ao mesmo tempo proveitosa e perdida. Nada aconteceu de acordo com o previsto em relação ao trabalho, mas ela chegara a um acordo consigo mesma. Sim, voltaria a freqüentar os guetos homossexuais da cidade. Ou passaria a ir mais vezes à capital, cuja distância era de pouco mais do que 60 km. Pela lei da probabilidade, lá as chances de encontrar alguém eram bem maiores. Ou seria melhor ir à missa todo domingo? Entre as beatas de plantão poderia estar a sua alma gêmea. Riu do próprio pensamento e foi pra casa almoçar com a mãe. Morar em uma cidade relativamente pequena tinha lá suas vantagens. Numa cidade maior, dificilmente poderia almoçar em casa, como fazia muitas vezes na semana. O chefe, após o almoço, estava menos nervosinho, e puderam confabular sobre o processo com tranqüilidade. Ficou decidido que ela representaria a empresa no dia seguinte pela manhã, como combinado anteriormente. Ao voltar pra casa no final do dia, automaticamente passou próximo ao supermercado onde cruzara com a mulher que não dava sossego aos seus pensamentos. “Como sou estúpida!! Ela não viria dois dias seguidos no mesmo local!” retornou ali mesmo no estacionamento e seguiu para sua rotina noturna junto à sua mãe. A diferença dessa noite foi que sua mãe percebeu que algo a incomodava e arriscou um palpite. ––– Filha, você está tão taciturna assim é por que está sozinha? – indagou dona Marta ao ver Patrícia jogar a bolsa sobre um móvel e se sentar no sofá em silêncio. ––– Não, mãe, são problemas no trabalho. Amanhã tudo volta ao normal. ––– Eu te conheço, menina. Sabe... Eu fiquei pensando... Você pode até brigar comigo, mas... Já que é tão difícil assim arranjar uma namorada, por que então você não tenta um namorado? Bonita do jeito que você é, aposto que não faltam pretendentes. ––– Mãe, eu já lhe expliquei sobre isso. O fato de eu só me interessar por mulheres não é uma escolha minha! Não posso resolver de um momento pra outro que agora quero um homem pra casar, ter filhos e essas coisas todas que a senhora sabe muito bem. ––– Mas eu vi uma psicóloga falando num programa de televisão que isso é uma opção sexual. Se for assim, qualquer um pode escolher, ara! ––– Não é opção, mãe. É orientação sexual – diante da cara de espanto da mãe ela se apressou a dizer - Orientação não significa que os pais orientaram os filhos para que fossem assim! Isso nasceu comigo, mãe. E ninguém em sã consciência optaria por ser discriminado, enxovalhado em praça pública, ser chamado de sapatão ou viado. Portanto não temos escolha, entendeu? ––– Entendi, mas não me conformo de te ver assim, tão sozinha, sempre cuidando de mim... De casa pro trabalho, do trabalho pra casa... Você precisa de diversão, filha! ––– Obrigada, mãe, vou tentar resolver isso. Agora vou tomar um banho e dormir. Boa noite. – deu-lhe um beijo e saiu. ––– Boa noite, filha.
Escrito por Maria Menina às 23h52
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Meninas, Estou reeditando o conto Patrícia, que foi parcialmente publicado no Xana in Box. Como a página do XinB foi retirada do ar, bem no momento em que concluí a história, decidi criar este blog para publicá-lo. Pretendo postar um ou dois capítulos a cada três dias. DeniseM 
Capitulo 02Iara saía do supermercado apressada. Eram quase oito horas da noite e seu marido já devia estar em casa reclamando sua ausência. Ela sabia que não era por saudade ou algo parecido, mas por se sentir seu dono e achar que ela deveria ficar à sua disposição para ouvir os detalhes maçantes do seu dia de trabalho. “Oh, homem pra ter história pra contar, viu?” pensava ela enquanto colocava as compras no porta-malas. Estavam casados há quatorze anos, tinham um filho lindo de doze anos, um cachorro, dois gatos, casa própria e dois carros na garagem. Por exigência de Hélio Ela abandonara o trabalho numa grande concessionária, onde era uma excelente vendedora, e deixou para trás todos os sonhos de realização profissional, para dedicar-se exclusivamente ao lar, a ele e ao filho. Qualquer pessoa que a conhecesse poderia achar sua vida maravilhosa. Porém, só ela sabia o quanto foi difícil largar tudo para exercer a função exigida por ele. Amava o filho acima de tudo nesta vida e apenas esperava que ele se tornasse mais independente para voltar à ativa. Sempre que tentava conversar com Hélio sobre esta possibilidade, ele tinha um ataque de machismo. “Na hora certa eu dou o pulo do gato, me aguarde”, pensava ela. Com a cabeça a mil e na pressa de ajeitar as coisas no carro, deixou cair uma sacola e não percebeu. Entrou no carro e, quando ia ligar, ouviu uma voz: ––– Hei, esta sacola é sua? – uma moça perguntava lhe entregando a mesma. ––– Ah, acho que deixei cair na correria. Obrigada! – Agradeceu – ainda bem que você viu, porque eu só daria por falta dela quando fosse guardar as compras. A jovem sorriu dizendo: ––– É que eu estava aqui atrás aguardando a sua vaga. Mas antes de sentir falta do produto você o teria esmagado ao dar marcha ré. Seja o que for, teria virado farofa. ––– Obrigada novamente. Preciso ir... Tchau! ––– Tchau! Até a próxima! – respondeu a moça. Iara deu partida e se foi pensando: “Próxima? Que próxima? Será que ela acha que eu tenho o hábito de sair por aí deixando sacolas caídas atrás de mim? E que ela estará sempre por perto, pronta para me socorrer! É cada uma!!! E ainda tenta fazer gracinha! Eu mereço!” Evitando as ruas de maior movimento, fez o percurso até sua casa em menos de cinco minutos, já totalmente esquecida do incidente. E lá estava Hélio, nervoso e carrancudo. ––– Puxa vida! Cheguei há mais de uma hora e você na rua, Iara! Que mulher é essa que não espera o marido chegar cansado do trabalho para lhe dar apoio, carinho, atenção? Já tomei meu banho e nem vi as panelas sobre o fogão! Não tem comida nesta casa hoje? ––– Ao invés de ficar resmungando aí, venha me ajudar com essas compras! Eu trouxe uma comida congelada. Em poucos minutos seu jantar estará na mesa. ––– Bem que você poderia ter feito essas compras mais cedo! Você me conhece e sabe que não gosto de chegar e não te ver aqui! E ainda tenho q eu comer essas porcarias congeladas... ––– Você está é muito mal acostumado, isto sim! Que vida é essa, homem de Deus? Preciso de uma folga. Não suporto mais você no meu pé dia e noite! – Explodiu ela sem pensar. ––– Ah, não está satisfeita com nossa vida, com nosso casamento? Trabalho feito um louco pra não faltar nada pra você e pro nosso filho e é assim que você me agradece? Vire-se com as compras! Não quero saber de jantar. Vou ver TV e não venha me incomodar com suas reclamações de sempre. – Dizendo isso ele foi para o quarto e por lá ficou até dormir. Com fome. “Ah, se ele está pensando que vou adular, está muito enganado. Cansei disso”, pensou enquanto guardava cada produto em seu devido lugar. Foi ao quarto do filho e lá estava ele, jogando vídeo games alheio a tudo o que acontecia ao seu redor. ––– Oi, mãe! O que foi que você trouxe pra mim? – foi logo perguntando. ––– Oi, filhote, tudo bem? Mamãe não trouxe nada pra você, mas já estou preparando uma lasanha. Sei que você adora... ––– Ih, mãe já comi um saquinho de batata frita. Nem estou com fome. ––– Ok, então eu vou comer sozinha... Se mudar de idéia, marque meia hora e venha pra mesa. Ela saiu rindo do quarto de Rodrigo. Sabia que em menos de vinte minutos ele estaria na cozinha. E assim aconteceu. Devoraram aquela lasanha em minutos, enquanto ele lhe contava as últimas novidades dos jogos eletrônicos que estavam chegando às lojas, sem sequer perguntar pelo pai. ––– Tá bom, mocinho, eu já entendi o recado. Agora vamos nos preparar para dormir? ––– Antes vou assistir a um DVD, posso mãe? ––– Claro que sim. Mas lá no seu quarto, porque vou ajeitar essa bagunça que fizemos aqui. Depois vou lá te dar um beijo. Ele saiu todo serelepe, e ela ficou ajeitando a louça na pia, pensando no dia de hoje. Um dia como outro qualquer, sem novidades, sem perspectivas...
Escrito por Maria Menina às 20h28
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