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Patrícia Capítulo 10  Os estagiários chegaram logo no início da manhã. O rapaz, Vítor, de 24 anos, era loiro e alto, mas não podia ser considerado um cara bonito; no máximo interessante. E a moça, Érica, 23 anos, negra e com um sorriso encantador, era de uma beleza agressiva. E atraente. Ambos demonstravam muito nervosismo e aquela timidez típica de iniciantes que serão postos à prova o tempo todo. Poucas pessoas se sentem à vontade durante o período em que passam por avaliações. Atendendo a uma ordem do Dr. Santiago eles foram anunciados e encaminhados a sua sala assim que chegaram. Minutos depois ele chamou Patrícia e Cíntia e os apresentou oficialmente a elas. ––– Agora é com vocês. Dêem-lhes as orientações necessárias e decidam entre si aquele que melhor se adapta ao estilo de trabalho de cada uma. Podem ir. Obrigado!
Os quatro conversaram por uns dez minutos e, assim que ficaram a sós, Cíntia tentou impor-se como namorada, fazendo uma exigência: ––– Patty, por motivos óbvios a Érica deve trabalhar comigo. ––– Motivos óbvios? Você poderia enumerá-los, por que EU não os vejo, Cíntia. – Patrícia, sem entender nada, respondeu com seu inimitável olhar desafiador. ––– Ela é muito bonita e não quero correr riscos desnecessários. ––– Que absurdo, Cíntia! Não faça com que eu me arrependa do que houve entre nós. Não vamos misturar as estações, por favor. Sejamos profissionais. Eu tenho a solução. Vamos lá! Cíntia olhou-a com ressentimento, mas a seguiu. ––– Nos primeiros quinze dias deste mês você, Vítor, ficará com a doutora Cíntia e a Érica comigo. E nos últimos faremos a troca. Assim vocês poderão se inteirar de todos os processos em andamento no escritório. Ao final do período voltamos a nos reunir. Assim está bom pra você, doutora Cíntia? Após lançar-lhe um olhar de reprovação, mas impedida de falar o que sentia, Cíntia concordou. Os estagiários foram acomodados em seus respectivos lugares, elas delegaram-lhes as tarefas e voltaram ao trabalho. Entretanto, o ambiente pesou. Patrícia sentia o olhar de Cíntia e evitou enfrentá-lo. Por alguns instantes se deixou conduzir pela lembrança da noite anterior. Sim, fora maravilhoso. Apenas isso. Não levaria adiante essa relação. A menos que... não reencontrasse Iara. No entanto, seria muita cafajestagem de sua parte condicionar uma relação desta forma. “Iara, preciso te encontrar”, pensou de repente. >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>> Era inútil tentar evitar o desejo de rever Patrícia. Não lutaria mais contra a ansiedade que crescia em seu peito. Iara deixou o filho no colégio e incumbiu Vera de buscá-lo à saída. Em seguida, ligou para o marido avisando que faria os exames pedidos pelo médico naquela manhã, e não poderia determinar ao certo o horário em que estaria em casa. Raramente Hélio almoçava com a família. E era nesse período que Iara cuidava dela e de suas coisas sem a interferência dele. Olhou para o relógio. Era quase meio-dia. Sim, faria novamente aquele papelão. Chegou a frente ao prédio onde Patty trabalhava, estacionou do outro lado da rua, posicionou o retrovisor para poder acompanhar a movimentação à saída do prédio, e esperou.
Patrícia pegou a bolsa e estava saindo para almoçar quando Cíntia a interrompeu. ––– Vou com você, Patrícia. Conheço um restaurante ótimo. Quer almoçar comigo? ––– Cíntia, eu prometi à minha mãe que almoçaria em casa hoje. Marcamos pra outro dia, tudo bem? ––– Fazer o que, né? Mas vou pegar uma carona com você no elevador. Despediram-se dos estagiários e saíram. ––– Patty, não pense que me contentei só com aqueles momentos de ontem. Vou lutar por você. Tenha certeza disso! – disse Cíntia enquanto caminhavam até o elevador. ––– Vamos com calma, Cíntia. Pressionando assim, o máximo que você vai conseguir é minha indiferença. – respondeu Patrícia no mesmo tom. ––– Com esta eu já aprendi a conviver. Agora quero desaprender. Não aceitarei mais a sua indiferença, Patty... Qualquer outro sentimento, menos esse. E Patrícia pensou: “e indiferença é sentimento? Ok. que seja assim...” ––– Melhor não brincarmos com as coisas do coração, Cíntia. Conversamos depois. Desceram do elevador sob um clima pesado e insustentável. Despediram-se e cada uma seguiu seu caminho. Cíntia não se conformaria em ser apenas uma transa para Patrícia, mas ponderou e achou melhor não discutir isso agora. Desde que viera trabalhar nesta empresa, há quase três anos, ela se sentira atraída pela colega. No entanto, vivia uma relação tranqüila com Milene, e isto a impediu de investir numa tentativa de conquista. Passou a observar a rotina de Patrícia e não foi difícil descobrir que esta era tão entendida quanto ela e não tinha compromisso com nenhuma mulher. Aliás, tinha sim, com a mãe. Resolveu dar tempo ao tempo. Quando Milene foi embora, ela se viu livre para arriscar, mas Patrícia parecia uma rocha de frieza e jamais lhe dedicara sequer um olhar de incentivo. “Será que um dia conseguirei pular ou derrubar este muro que ela construiu diante de si?”, pensava ela nos momentos em que seu olhar devorava Patrícia durante o trabalho. De onde estava, Iara acompanhou a chegada das duas mulheres. “Essa outra não desgruda nunca!! Que coisa desagradável!”, pensou e fez mil conjecturas antes de notar que elas se despediam e tomavam rumos diferentes. Esperou que o carro de Patrícia virasse a esquina e foi atrás dela. As mãos sobre o volante, trêmulas, denunciavam o nervosismo e a ansiedade. Por mais que tentasse disfarçar para si mesma, não podia deixar de se sentir como uma adolescente quando se apaixona pela primeira vez. “Meu Deus, que loucura! O que direi a ela? Coincidências não acontecem todo dia... Eu vou ‘na cara dura’ mesmo! Preciso tirar essa mulher dos meus pensamentos. Ou não.” Enquanto estavam pelas ruas do centro, com todo aquele trânsito frenético, Iara manteve uma distância segura. Porém, assim que pegaram uma avenida mais larga, de trânsito mais rápido e se aproximaram de um grande shopping, Iara acelerou como se fosse ultrapassar, mas diminuiu a velocidade e emparelhou seu carro com o de Patrícia. Tentou parecer natural quando deu um pequeno toque na buzina e acenou-lhe com um tchauzinho casual. “Seja o que Deus quiser agora”, pensou.
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Patrícia pensava nas palavras de Cíntia. “Não prometi nada a ela e não permitirei que se sinta minha dona com direito a cenas de ciúmes. Reconheço que errei ao ceder ao seu desejo por mim... Ah, o que a carência não faz! É, mas que foi um erro muito gostoso, lá isso foi!” pensou. Distraída, ela não viu o carro que chegava perto demais. Assustou-se com o som da buzina e virou o rosto, pronta pra dar uns berros com o motorista... E... Viu Iara. Devolveu-lhe o sorriso e o aceno, mas toda errada, sem graça. Fora pega de surpresa. Iara sentiu o rosto rubro ao ver a reação estranha de Patty. Em segundos seu coração disparou. Ela teve vontade de fugir dali e acelerou. E Patrícia, vendo que a mulher a ultrapassava demonstrando que seguiria seu destino sem olhar pra trás, afundou o pé e impediu a ultrapassagem. Buzinou e acenou-lhe, ao mesmo tempo em que dizia: ––– Siga-me. Sinalizou e entrou no estacionamento do shopping. “Se ela me seguir será desnecessário usar palavras para justificar o meu convite...” pensou e olhou pelo retrovisor. E lá estava Iara. Rodou um pouquinho e encontrou duas vagas juntas.
Estacionou e esperou.
Escrito por Maria Menina às 17h49
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Patrícia Capítulo 09 
Patrícia passou a mão pelos cabelos procurando dentro de si um modo elegante de afastar Cíntia sem magoá-la. Ela tinha consciência de que seu temperamento forte atraia as mulheres. O problema é que nem sempre atraia a mulher que lhe interessava. ––– Olha pra mim... – começou sem saber bem as palavras que usar – Acabamos de nos conhecer melhor e não quero te magoar, mas... Cíntia a interrompeu: ––– Mas... Você tem outra pessoa, está apaixonada e é muito feliz? – ironizou Cíntia. ––– Não é bem assim. Apenas fui pega de surpresa. Jamais desconfiei dos seus sentimentos por mim e eu não estaria sendo justa se me deixasse seduzir. Justa com você, entende? ––– Patrícia, eu sei que você está sozinha há séculos! Conheço seus hábitos, sua rotina... Eu decorei você inteira! ––– Sério? Em que mundo eu vivo que não vi nada disso acontecendo a minha volta? – a entonação de sua voz era amena, porém firme. Ela tinha certeza que Cíntia falava apenas de atração. Por mais que tentasse, não conseguia enxergar paixão em suas atitudes. Cíntia sacudiu a cabeça deu um belo sorriso e decretou, ‘jogando a toalha’: ––– Ok! Vamos tomar mais uma taça de vinho e discutir sobre o trabalho. E não se fala mais nisso. Afinal, o trabalho é o único elo possível entre nós, certo? Amanhã teremos um dia cheio de novidades. Esqueça tudo o que eu te disse e tudo voltará ao normal. ––– Já desistiu da guerra antes da primeira batalha? – incitou-a Patrícia. ––– Não desisti. Vou esperar pelo inimigo atrás da trincheira. Já descobri que sou a única a ter uma visão ampla da luta que se aproxima. Eu já disse que conheço seus passos... ––– É assim que você administra um Não? – provocou Patty. ––– Neste caso específico, sim. Dizendo isso ela se debruçou sobre a mesinha para pegar mais vinho. Patrícia acompanhou todos os seus gestos, calada e pensativa. De repente, teve receio de que esse envolvimento pudesse ser algo mais que apenas sexo casual, mas correria o risco. Quando Cíntia lhe entregou a taça, ela pegou, mas imediatamente recolocou-a sobre a mesa. ––– Não quer mais vinho? ––– Não agora... Cintia me ouça... Eu tenho medo de me arrepender se nos envolvermos agora... Eu estou sozinha há um bom tempo, mas não costumo agir com irresponsabilidade. “Não precisei ir à caça, me caçaram”, Patty pensou e sorriu pra si mesma. Ajoelhou-se sobre o sofá e foi em direção a Cíntia e, mesmo sem tocá-la, empurrou-a e se deitou sobre ela. Ao sentir o corpo trêmulo sob o seu, não hesitou e beijou-a com desejo. A própria excitação cuidou para que o encaixe fosse perfeito. Cíntia se remexia a cada toque e, quando Patty tirou sua blusa, encontrou seus seios já arrepiados de prazer, gemeu alto e prendeu-a entre suas pernas. Fizeram um sexo urgente, sedento; faminto e prazeroso. A carência de Patrícia se sobrepôs a sua racionalidade e ela se deu inteira. O jeitinho meio moleque de Cíntia atingiu sua libido e a levou a um gozo torrencial. ––– Valeu à pena esperar tanto tempo. Você é demais, mulher! – falou Cíntia quando descansavam uma nos braços da outra depois de tantas sensações Patrícia, satisfeita, se enroscou nela e acabaram dormindo assim.
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>> Em casa, Hélio, inquieto e nervoso reclamava da demora da mulher. ––– Que raio de consulta é essa em uma hora tão fora dos padrões, Iara? – foi logo perguntando quando esta entrou em casa. ––– Eu te disse que não estava me sentindo bem, lembra? Então, esse era o único horário em que ele podia me atender. ––– Você deveria ter me ligado para avisar, e não sair assim, deixando um recado com essa incompetente! Ela não soube responder nenhuma das minhas perguntas! ––– Hélio, eu já estou aqui. O que mais você quer? Um relatório completo? – Iara sempre se sentia pressionada com o estilo controlador de Hélio. Ao perceber que o filho olhava de um para outro cada vez que eles falavam, ele se controlou e amansou a voz. ––– Não, apenas me diga como foi a consulta. ––– Foi tudo bem. Farei alguns exames esta semana e retornarei com os resultados. Podemos jantar agora? O restante da noite foi tranqüilo. Mais uma vez conseguiu manter uma distância segura do marido. Aparentemente a situação estava sob controle, mas a todo o momento vinha-lhe a mente a imagem de Patrícia entrando naquele prédio residencial com a moça. E esse pensamento a levou ao seu passado. Seus pais nunca lhe disseram nada, mas ela tinha certeza que eles sabiam do envolvimento dela com a colega de trabalho. A insistência deles para que ela se casasse, não era pelos motivos que faziam questão de frisar sempre. Naquela época de descobertas, ela descobriu-se nos braços de Beatriz, uma estudante de psicologia que conseguiu um estágio no departamento de Recursos Humanos da concessionária, onde Iara trabalhava como vendedora. Bia tentou de todas as formas, e usando quase todos os argumentos que conhecia, evitar o casamento. Mais velha que Iara, Bia já sabia o que queria para si. Iara, porém, era indecisa e submissa aos pais. Por algum tempo depois de casada, e já definitivamente afastada de Bia, que havia se mudado para Brasília, Iara teve certeza que fizera a escolha certa. Passara anos sem se lembrar disso, conformada com sua vida. Agora, depois do segundo encontro com Patrícia, voltou a sentir aquela quentura no coração e no corpo. Nos últimos três dias, armou tudo para se esbarrarem de novo e, quanta decepção! Ela tinha outra. Não sabia há quanto tempo estava sozinha na varanda, pensando. Acabou cedendo ao sono, ali mesmo, na poltrona. Acordou assustada. Olhou para o relógio. Passava muito da meia-noite. Levantou-se e foi para seu quarto. Deitou-se e dormiu em seguida. Hélio não acordou quando ela se deitou ao seu lado.
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>> Patty acordou sem saber onde estava. Olhou para o lado e viu Cíntia. “Ai, meu Deus, o que foi que eu fiz?”, pensou. Passou a mão pelos cabelos (era mania mesmo) e se sentou na cama. ––– Patty, volta aqui. – Cíntia, acordada, a puxava pela mão. ––– Preciso ir embora. Minha mãe deve estar preocupada. ––– Não vou te deixar sair daqui sem um beijo. – Cíntia se insinuava. Patty sorriu, meio sem jeito. ––– Claro que não,Cíntia. Nem eu faria isso. Ainda ficaram ali por alguns minutos, até que Patrícia se levantou, tomou um banho rápido e foi embora. Entrou em casa depois de uma hora da manhã. Sua mãe a esperava, cochilando no sofá. ––– Filha, você demorou muito. Fiquei preocupada. ––– Está tudo bem, mãe. Agora vamos dormir. ––– Não vai nem contar o motivo dessa saída em plena segunda-feira? Não te entendo, passou o final de semana todo trancada em casa e sai pra noite logo hoje! Patrícia não conteve o riso e contou para a mãe sobre as novidades do trabalho, a promoção e a comemoração com a colega. Omitindo alguns fatos, claro. Conversaram um pouquinho mais e foram dormir. O sono de Dona Marta foi pro espaço. A felicidade pelo sucesso da filha foi agradecida através de orações até quase o amanhecer. Se Deus quisesse levá-la agora, ela estava pronta, a filha estava encaminhada na vida. E ela tinha certeza que Patty não arranjava ninguém por causa dela. “Oh, Senhor, se o Senhor a fez assim, então faça também com que ela seja feliz e encontre uma pessoa que lhe dê o valor que ela merece! Tá bom, Meu Deus, eu não preciso morrer pra minha filha ser feliz. Prometo aceitar as suas decisões” – ela rezava e ria das coisas que conversava com Deus.
Escrito por Maria Menina às 00h31
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Patrícia Capítulo 08 
Iara viveu um final de semana agitado. No sábado pela manhã levou o filho pra casa de seus pais e foi para o clube com Hélio, conforme ele havia predeterminado. Enquanto ele jogava, ela tentava conversar com Malu, mulher de Antunes. Uma perua deslumbrada, cujos únicos assuntos eram sobre sua cadelinha, compras e sua última viagem a Nova Iorque. Iara adotou uma cara de paisagem e fingiu estar adorando aquela lengalenga. Ao voltarem pra casa, depois do almoço, tiveram uma discussão acalorada, porque Iara não permitiu que ele se aproximasse. Não aceitou fazer sexo, como usualmente aceitava. Isso provocou um clima de insatisfação e espanto no marido, pois ele não estava acostumado com rejeição. Ela o deixou falando sozinho, e foi ao sítio dos pais buscar Rodrigo, que não quis voltar pra casa. Afinal o avô lhe prometera um passeio a cavalo no dia seguinte. Iara voltou e, percebendo que Hélio não estava, dormiu no quarto do Rodrigo. Depois poderia dizer que pegou no sono sem querer. Não viu a hora em que o marido chegou. O dia seguinte, domingo, foi tenso e difícil. Eles ficaram sozinhos a maior parte da manhã, quando foram para casa de seus pais. Ficou mais tempo com mãe, evitando a proximidade de Hélio que conversava com seu pai sobre os negócios que lhes interessavam. Dona Alice percebeu que a filha não estava muito à vontade naquele dia, mas Iara desconversou quando ela tentou descobrir o motivo. À noite viu-se obrigada a pedir desculpas a Hélio, porque ainda se sentia despreparada para uma conversa definitiva, que culminaria no divórcio. Disse que não era nada contra ele, que ela é que não estava se sentindo bem, que procuraria um médico... Enfim, enganou o marido e a si mesma com essa desculpa esfarrapada e tudo ficou aparentemente bem outra vez. Pelo menos pra ele. A semana começou no ritmo habitual e na segunda-feira, ao entardecer, ela pediu a Vera que avisasse ao marido que estava indo ao médico e saiu. Passava um pouco das 19h quando ela viu Patrícia saindo do prédio, acompanhada de outra moça. Havia arquitetado um plano para provocar um encontro, mas desistiu ao ver que as duas mulheres combinavam alguma coisa, e Patrícia seguiu a outra com seu carro. Mantendo uma distância segura, Iara as seguiu. Viu quando desceram, trocaram algumas palavras, fecharam os carros e subiram juntas. “Será que ela mora aqui? Ou será que elas moram juntas aqui?”, pensou. “Não, juntas não, porque não teria sentido usarem dois carros para irem trabalhar. Ou não. A outra deve trabalhar em outro lugar e só passou por lá para virem juntas pra casa. Tem alguma coisa aí... Por que os carros ficaram na rua? Vou esperar um pouco...” Aguardou por uns vinte minutos e concluiu que estava fazendo papel de idiota. Foi pra casa na esperança de encontrar Hélio vendo TV ou lendo... Ou qualquer coisa que o valha. O que ela menos queria era enfrentar mais uma discussão cansativa como tantas outras. >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>> Após alguns minutos Patrícia notou que estavam se dirigindo a uma zona residencial. “Bom, a moda agora são essas biroscas escondidinhas... Que seja, já que eu abri mão de sugerir...”, pensou. Quando Cíntia parou, ela fez o mesmo. ––– Não estou vendo nada aqui, Cíntia. Que lugar é esse? ––– Você disse que quer um lugar tranqüilo... Então, não conheço tranqüilidade maior do que a minha casa. Venha!
Patty, que nos últimos tempos andava com a libido a mil, logo se pôs em alerta. O apartamento pequeno, e decorado com leveza e simplicidade, agradou a Patrícia. ––– Você mora sozinha, Cíntia? - perguntou, se lembrando que pouco ou nada sabia sobre sua colega de trabalho. ––– Sim, desde que comecei a trabalhar. Nunca me dei muito bem com meus pais, por ser muito avançadinha para os padrões deles, então a solução foi sair de casa antes que a convivência se tornasse insuportável. ––– E agora, como é a relação entre vocês? ––– Muito boa! É a velha história do filho pródigo. – disse, sorrindo – aos domingos almoço com eles e... A vida é bela! ––– E você transmite sempre essa mensagem de felicidade, sabia? Por isso é bom trabalhar com você. Cíntia não agradeceu, apenas sorriu e abriu uma garrafa de vinho. ––– Então, brindemos a nós! – TIM-TIM!- disse. ––– A nossa promoção por merecimento! – completou Patty. ––– Quer ouvir alguma música específica ou posso escolher também? ––– Pode escolher. Cíntia pegou um cd de música latina romântica e se sentou ao lado dela no sofá. ––– Você já foi casada, Cíntia? – Patrícia estava cada vez mais curiosa. ––– Sim, por dois anos. – tomou um gole e continuou - E acabou há dois anos também. Desde então estou tentando conquistar uma pessoa que nunca olhou duas vezes pra minha cara. ––– E por que você insiste? ––– Porque tenho esperanças. ––– É... Esse cara deve ser meio tapado ou cego... – Arriscou Patrícia, reticente, meio que desconfiando sobre o que viria. ––– Não é tapado... Não é cego... E não é ele: é ela. Ou melhor, é você... Cíntia já não sorria. Em seu olhar Patty viu uma ansiedade e um alívio imenso. Afinal há muito tempo ela guardava isso sem se manifestar! Para não deixá-la constrangida, Patty falou com um meio sorriso: ––– Eu nunca notei nada. E isto quer dizer que eu sou tapada e cega, então? ––– Não, não é. O problema é que você vive num mundo muito restrito e nunca me deu abertura para falar sobre coisas pessoais... ––– Nunca foi minha intenção afastar as pessoas. ––– Eu sei que não. Sei da sua dedicação à sua mãe, e que são apenas vocês duas. Você e sua mãe... Sua mãe e você... Bom, a menos que exista alguém muito bem escondido aí. ––– Não, Cíntia, eu não tenho ninguém na minha vida. Cíntia serviu-a com mais uma taça. Após um minuto de silêncio, aproximou-se um pouco mais, já que em nenhum momento Patty dissera algo que pudesse desencorajá-la. ––– Fica comigo hoje? Patrícia afastou-se, foi até o aparelho de som, diminuiu o volume e voltou. ––– Você é muito corajosa. Minha reação poderia ter sido outra... ––– Sim, eu sou... Ninguém pode me condenar por estar aproveitando a única oportunidade que tive para tentar conquistar a mulher que eu quero! – Cíntia estava mesmo decidida. – E sua reação, por mais negativa que fosse não passaria de um sonoro NÃO. E eu já tenho idade suficiente para administrar um Não. E Patrícia admirou-a por isto.
Escrito por Maria Menina às 20h24
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