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Conto de Meninas - UOL Blog



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BRASIL, Centro-Oeste, GOIANIA, Mulher, de 46 a 55 anos, Portuguese



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Conto de Meninas


Patrícia

Capítulo 30

 

 

O Senhor Alcides, percebendo que a filha ficara envergonhada, respeitou por alguns minutos o seu silêncio. Depois, num gesto incomum, já que nunca fora dado a manifestações explícitas de carinho, estendeu-lhe a mão. Iara levantou os olhos e praticamente agarrou-se àquela mão que, diante de toda a dor que sentia, lhe pareceu um bálsamo, uma salvação.
––– Filha, olha pra mim. Eu não quero te deixar constrangida, nem pretendo te perguntar detalhes da sua relação com essa moça. Nós te criamos com todos os princípios de dignidade; é assim que eu espero vê-la conduzindo a sua vida daqui pra frente...
––– Pai, eu juro que tentei ser a mulher que vocês gostariam que eu fosse. Quando me casei, eu sabia que não seria feliz... Eu não escolhi. Acontece que eu sou assim. Mas saiba que jamais farei qualquer coisa que possa envergonhá-lo...
A essa altura, as lágrimas corriam pelo seu rosto de forma abundante e foi o seu pai, homem de pouco estudo, mas de muita sabedoria, quem a interrompeu e deu-lhe uma lição de vida sobre sua atitude e suas palavras naquele momento:
––– Iara, você está sendo preconceituosa com você mesma. Quero te pedir que jamais tente justificar o seu modo de ser pra quem quer que seja. No que depender de mim, te ajudarei a criar seu filho e estarei presente na vida de vocês até que Deus me leve pra junto de sua mãe.
Iara levantou-se e abraçou o pai.
––– Pai, eu não sei como te agradecer por esse apoio...
Senhor Alcides a acolheu em seu abraço, dizendo:
––– Sabe, sim, filha. Seja feliz a qualquer preço, contra tudo e contra todos. É assim que eu quero te ver daqui pra frente, e não quieta pelos cantos da casa, se escondendo de mim ou de qualquer outra pessoa. Estamos combinados assim?
Sorrindo entre lágrimas, Iara concordou com a cabeça.
––– Agora, vamos cuidar da vida, que é o melhor que temos a fazer.
––– Tudo bem, pai... vou ver se o Rodrigo tá bem...
––– Ah, aproveita e liga pra aquela moça, a Patrícia. Diz pra ela que não precisa mais ficar sem graça na minha presença.  Bom, a menos que ela te faça sofrer... aí vou me sentir no direito de puxar as orelhas dela também.
Respondeu sorrindo.

Em seu quarto, ainda surpresa e aliviada pela conversa que tivera com seu pai, Iara pensava em tudo o que lhe acontecera nos últimos tempos: o primeiro encontro com Patrícia, o fim do seu casamento, a morte da mãe...
Agora os mesmos planos seriam novamente adiados. Definitivamente não deixaria seu pai sozinho na casa em que ele vivera com sua mãe por tanto tempo. O problema é que ele sequer cogitava a idéia de se mudar para a cidade, embora soubesse que não podia ficar ali sozinho. Depois do enterro da mãe, nas pequenas conversas do dia a dia, ela sempre dizia que o ideal seria se todos se mudassem juntos pra cidade.
––– Pai, já está na hora do senhor parar de trabalhar aqui. É um serviço braçal, pesado... O senhor precisa descansar um pouco...
––– Descansar antes de morrer? Pra que, Iara, se quando morrer eu vou ter toda a eternidade pra descansar? Eu construí essa casa, essa horta e esse pomar aqui... E agora você quer que jogue tudo pro alto? Se eu botar à venda, ninguém vai me pagar o que vale!
––– Tudo bem, meu pai, vamos ter que encontrar uma solução, porque eu não posso morar aqui. É perto da cidade, mas para os compromissos que eu tenho lá, acaba ficando desgastante ir e vir mais de uma vez por dia.
Durante esses diálogos ambos usaram os mesmos argumentos. Por amor ele não sairia dali. E pelo mesmo motivo, Iara deixou claro que não o deixaria morando sozinho. Ela acabou cedendo um pouco mais...
Interrompeu seus pensamentos para ligar pra Patty e contar o que havia acontecido enquanto elas estavam namorando no motel.
––– Apesar da baixaria e das palavras de baixo calão que o Hélio usou, meu pai se manteve firme e me defendeu.
––– Você vai notar a diferença na vida da gente depois que recebemos este apoio. É como se todas as pessoas à nossa volta soubessem que somos aceitas pela família. 
––– É, eu imagino. Pena que não vou poder contar com minha mãe – lamentou Iara.
––– Minha vida, nada de tristeza agora. Temos muitas providências a tomar, pra que a gente possa ficar junto de verdade.
––– Patty, nós já falamos sobre isso...
––– Calma... Eu não estou te cobrando nada. Acontece que qualquer passo que dermos daqui pra frente será em direção a isso. Certo, minha vida?
Iara riu e se desculpou.
––– Você está certa. Precisamos cuidar da nossa vida, mas não podemos esquecer o Hélio. Quando será que esse homem vai se conformar, meu Deus??
––– Conformado ele já está, Iara. O problema é que o machismo dele o faz pensar que certidão de casamento é uma escritura pública que faz de você um bem dele.
Iara caiu na risada e entrou na brincadeira.
––– Quer dizer que a averbação do divórcio é um documento de compra e venda?
––– Se ele pensasse assim, seria mais fácil. Mas, meu amor, nós vamos resolver isso também. O que importa é que estamos juntas e eu te amo!
––– Eu também te amo, Patty!
................................................

O tempo passava rápido e já se aproximava o dia de Patty retornar ao trabalho, quando soube que havia, finalmente, conseguido a tão sonhada transferência ao ligar para o escritório da capital. Imediatamente ligou para Cíntia e combinou que iria buscar suas coisas em uma hora em que Hélio não estivesse. Queria adiar o confronto que cedo ou tarde aconteceria. Cíntia ajudou-a  prontificando-se a empacotar todos os seus objetos e a levá-los até sua casa, se ela quisesse.
––– Patty, eu posso levar suas coisas aí, se você quiser... Aproveito para dar um abraço em sua mãe...
––– Claro, Cin, ela também vai gostar de te ver. De qualquer modo terei que ir ao escritório assinar os papéis... Quer vir aqui hoje?
––– Não, já tenho um compromisso pra hoje à noite...
––– Novo amor rondando esse coraçãozinho?
––– Meu coração não é assim, tão volúvel. Infelizmente. “Ah, Patty, se você soubesse o quanto eu te amo”, pensou Cíntia com certa tristeza.
Combinaram para o dia seguinte e se despediram. 

Patrícia ligou para Iara e colocou-a a par dos últimos acontecimentos: a resposta ao seu pedido de transferência, a conversa com Cíntia, a decisão de ir ao escritório no dia seguinte  para assinar os papeis e resolver as pendências...
––– Ué, mas você acabou de me dizer que a Cintia vai até sua casa levar seus objetos pessoais... Não estou entendendo...
––– Estou falando do confronto com o meu ex-chefe, ou seu ex-marido... Não sei com qual das roupas ele me receberá. Ou melhor, que papel ele vai representar comigo.
––– É óbvio que ele vai te receber como um ex-marido rancoroso e irritado. Eu gostaria que você não aceitasse as provocações dele. Não vale a pena, meu amor...
––– Ah, Iara, mas não levo desaforo pra casa. Você tá em dizendo que devo me calar e deixar aquele grosso me ofender à vontade?
––– Não é nada disso, Patty... Eu só espero que você aja com maturidade, porque ele se torna muito infantil quando as coisas não saem como ele quer. E nem sempre é fácil lidar com uma pessoa assim...
––– Obrigada por me ajudar a cuidar de mim, meu amor... Mas agora me conta como foi o seu dia.
Conversaram mais alguns minutos e se despediram.

Patrícia já havia convencido sua mãe a se mudarem para a capital. Consciente de que esta mudança não aconteceria de um momento para outro, Marta se manteve tranquila a espera de novos fatos. Além do mais, ela teria mesmo que acompanhar a filha aonde quer que ela fosse.



Escrito por Maria Menina às 18h11
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Patrícia

Capítulo 29


Quinze dias depois do enterro, sabendo que Iara havia saído para levar o filho ao colégio, Hélio chegou à casa do senhor Alcides. De cara fechada e, com ar muito sério, chamou o ex-sogro até o alpendre para conversarem.
E foi direto ao assunto.
––– O senhor sabe que sempre o respeitei muito... Sabe também que se sua filha é uma mulher divorciada hoje, não foi por minha culpa. Ela quis assim.
 
––– Eu sei, Hélio... Alice e eu fizemos tudo para tirar essa idéia maluca da cabeça dela, mas não teve jeito...
 
––– Agora isso já não importa mais, porque ela tinha um motivo muito forte pra querer o divórcio...
––– Do que você está falando, Hélio? Aqui mesmo nesta casa você me garantiu que não havia feito nada e que não sabia o motivo da separação... Que era um bom pai, um bom marido...
Hélio o interrompeu.
––– Não mudo o meu discurso, senhor Alcides. Continuo afirmando tudo isso. Vim aqui hoje para esclarecer de uma vez essa história.
––– Fala logo, porque já estou ficando nervoso.
De maneira impiedosa e cínica, Hélio perguntou:
––– O senhor já sabia que sua filha era lésbica quando ela se casou comigo?
––– O que é que você está falando, meu rapaz?
––– Vou repetir: O senhor se empenhou tanto para ver sua filha casada comigo por que sabia que ela era lésbica?
O velho homem, ainda magoado com a perda da esposa, sentiu-se ultrajado pelas palavras de Hélio.
––– É assim que você me respeita? Vem até minha casa caluniar a minha filha só porque ela não te quis mais?
––– Ora, veja só! O senhor ainda a defende? Ela abandona o lar pra ficar se esfregando em outra mulher, e o senhor fica contra mim? Que absurdo!
––– Hélio, a nossa conversa acaba aqui... Pode voltar para o lugar de onde você veio, porque esse assunto eu vou conversar com a minha filha! Tenha um bom dia!
Seu Alcides entrou em sua sala mal ouvindo o que seu ex-genro dizia:
––– Vocês queriam se ver livre de uma sapatão e a empurraram pra mim! Não vou deixar isso barato! Vou tirar o meu filho dela! Vocês não perdem por esperar...
E saiu pisando duro e jurando vingança...

>>>>>>>>>>>>>>>

Do outro lado da cidade Iara e Patrícia entravam num motel. Os encontros tornaram-se ainda mais furtivos. Iara sentia-se na obrigação de dar satisfações para o pai sobre tudo o que fazia e, com isto, ela via sua liberdade cada vez mais tolhida. 
Nos braços de Patrícia, dentro de um abraço quente e protetor, ela podia se soltar e derramar todas as suas lágrimas de tristeza e revolta, além de despejar todo o seu gozo de amor e tesão. 
Fizeram amor com saudade e urgência. Em cada toque, Patrícia deixava um pouco de si e levava um pouco de Iara. As energias trocadas jamais seriam esquecidas.
No meio de um beijo, Iara começou a se culpar.
––– Você perdeu todas as suas férias comigo... Não viajou, não descansou... Estou me sentindo culpada...
Patrícia, feliz por tê-la novamente em seus braços depois de tanto tempo, não permitiu que ela concluísse.
––– Você é a minha vida, Iara... Não me vejo mais respirando se você não estiver por perto. Por isso, pare de se culpar por estar me dando os melhores momentos da minha existência.
Iara abraçou-a mais forte e se entregou mais uma vez.
Almoçaram ali mesmo, enquanto conversavam sobre suas vidas de agora em diante.
Nesse momento, Patty dizia, de forma carinhosa, mas firme:
––– Já está na hora de você seguir em frente. O que aconteceu foi muito triste, mas seu pai também deve continuar a vida dele, sem você.
Iara não entendeu as palavras de Patty e retrucou:
––– Você acha que devo abandonar o meu pai logo agora? Ele precisa de mim e do neto por perto...
––– Não, o que estou dizendo é que você deve colocar em prática os seus planos de vida... Ou pretende viver o resto da sua vida lá na chácara com ele?
––– Quanta insensibilidade, Patty! Nós acabamos de perder a minha mãe e...
Patty, interrompeu-a:
––– Insensível, eu? Pois se você mesma acabou de me dizer o quanto fui compreensiva e presente nesses últimos acontecimentos! Eu apenas me preocupo com você, que saiu de um casamento castrador toda cheia de vontade de recomeçar sua vida, de estudar, de trabalhar...
––– Tudo aconteceu rápido demais, Patty, e em pouco tempo... eu agora preciso me acostumar com a nova situação do meu pai. Eu me preocupo com ele e não o deixarei sozinho agora... Por favor, me entenda...
––– Iara, você sabe que pode contar comigo. Sempre. Só não posso tomar as decisões por você... Quando quiser, é só me chamar. – Patrícia ficou triste com a reação de Iara.
––– Tá, eu sei que você quer me ajudar e participar de tudo, mas entenda que algumas decisões a serem tomadas devem partir de mim.

Recostado no sofá, Senhor Alcides pensava em tudo o que Hélio lhe dissera sobre Iara. No primeiro momento, sua reação foi a correta: defendeu a filha.Defendeu-a, apesar de estar se sentindo traído por ela, que deveria ter confiado a ele o verdadeiro motivo da separação. Não, ele não ficaria contra ela. Agora que ela se mostrava tão dedicada e amorosa, ainda mais do que antes. Durante muitos anos fora feliz com a mulher e, apesar de não aprovarem todos os atos de Iara, sempre tiveram nela a melhor filha do mundo. A felicidade dela agora era o que mais importava. Então, que ela fosse feliz com quem quisesse, desde que não cometesse nenhuma negligência em relação ao seu neto. Sim, estava decidido a apoiar Iara contra Hélio e contra o mundo, se preciso fosse.
Ele estava terminando de passar um café, quando Iara entrou com Rodrigo.
––– Oi, vovô! Hoje aprendi uma nova brincadeira na escola... Quer que eu te ensine depois?
Todo sorridente, o avô abraçou o neto.
––– O vovô quer aprender tudo com você, meu filho!
––– Tudo, não, né, vovô? O senhor sabe muito mais que eu...
––– A vida funciona assim, Rodrigo: os mais velhos sabem algumas coisas e os mais novos sabem outras coisas. E é por isso que precisamos estar sempre juntos, só assim todos nós aprendemos o tempo todo. Agora, vai lá dentro guardar o seu material, que eu preciso conversar com sua mãe.
Iara, que ficara quieta ouvindo a conversa entre seus dois homens, esperou que o filho saísse para perguntar:
––– Algum problema, pai?
––– É você quem vai me responder isso, Iara. Algum problema ou... Bom, vou direto ao ponto: Tem alguma coisa que eu preciso saber a seu respeito que você ainda não me disse?
Ela se serviu de uma xícara de café e sentou-se em frente ao pai, já desconfiando do assunto. Ainda assim, resolveu responder com outra pergunta. Coisa que não gostava de fazer. No entanto, esta foi a maneira que encontrou de se preparar para o que poderia vir em seguida.
––– O Hélio esteve aqui?
––– Esteve.
––– E com certeza fez a minha caveira pro senhor...
O pai a interrompeu.
––– Iara há pouca coisa sobre os filhos que os pais não sabem. Eu diria que não sabemos apenas dos atos que são praticados quando estamos longe. As atitudes, nós sabemos todas. Muitas vezes fingimos não perceber, na esperança que cheguem até nós e abram seus corações. Infelizmente você não confiou em nós, e foi necessário que uma pessoa revoltada e despeitada viesse me falar de assuntos seus que eu e sua mãe, que Deus a tenha, já sabíamos há muito tempo.
Iara não teve coragem de encarar o pai. Não por medo, mas de vergonha por não ter confiado nele. Agora ela sabia, pelo tom que ele falava que se tivesse aberto o seu coração na época certa, muitos problemas poderiam ter sido evitados.

 



Escrito por Maria Menina às 22h29
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