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Conto de Meninas - UOL Blog



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BRASIL, Centro-Oeste, GOIANIA, Mulher, de 46 a 55 anos, Portuguese



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Conto de Meninas


Patrícia

Capítulo 40




 

Patrícia se dirigiu à guarita que dava acesso ao estacionamento privativo, identificou-se como funcionária e entrou.
––– Será que eles já desenvolveram um remédio para reverter TPM de chefe insuportável? É, porque deve ter um monte deles aí dentro também – perguntou Cíntia, mais pra si mesma do que para Patrícia que, pegando o gancho, continuou:
––– Ah, seria ótimo! Principalmente se fosse capaz de diminuir os sintomas da canalhice... Melhor nem pensar! Seria muito bom! OK, mas vamos ao que nos trouxe aqui.
No momento em que Patty estacionou e se preparava para descer do carro, Cíntia impediu-a momentaneamente, dizendo:
––– Patty, eu não te falei tudo o que aconteceu lá na sala do chefe.
––– Ai, ai, ai.... Espero que não seja nada que possa me estressar ainda mais!
––– Não, não é ... Muito pelo contrário, acho que você vai gostar de ouvir...
––– Não faz assim comigo, Cin... Fala logo antes que eu...
Ela parou de falar abruptamente quando ouviu a voz de Hélio Santiago vindo de algum lugar na mão de Cíntia.
“... eu abri a gaveta de Patricia, com a ajuda dos chaveiros, e hoje você presenciou aquele entrevero aqui. Muito bem. Chegou a hora de você decidir de que lado vai ficar.”
“––– Doutor, eu gostaria de aproveitar a oportunidade para...” 
“–
––... Pedir promoção? Pois foi justamente pra isso que eu te chamei aqui. A partir de agora você será a supervisora geral desse escritório.”

De repente, Patrícia se deu conta do que Cintia havia feito e não conteve a cara de espanto. A gargalhada veio naturalmente e alta. Imediatamente, Cíntia interrompeu a reprodução.
––– Como foi que você conseguiu gravar esta conversa, Cin? Quero saber tudo, tudo...
––– Sim, eu vou te contar, mas você precisa pensar muito bem antes de usar esta gravação. Isso aqui pode ter conseqüências muito sérias, Patty.
––– Você pode ter razão, Cín... Só que eu preciso ouvir tudo antes. A gente pode sair daqui pra ouvir com calma...
––– Primeiro, quero te dizer que não fiz esta gravação de propósito. Não era minha intenção. Confesso que um pouco antes eu estava justamente tentando achar um modo de te ajudar. Foi assim: Era perto do meio-dia e eu estava te ligando. Não me lembro mais o que é que eu ia te falar. Talvez eu apenas quisesse saber como você estava.
Patrícia ouvia atentamente. E Cíntia continuou:
––– De repente, ele abriu a porta de sua sala e me chamou lá, daquele jeito grosseiro que você conhece. Apertei algumas teclas na tentativa de desligar o celular para atendê-lo correndo. Foi aí que, sem querer, acionei o comando de gravação.
Patrícia ouviu toda a explicação sem tirar os olhos dos olhos de Cíntia. Ambas estavam excitadas com a descoberta e com a possibilidade de usar isso, ou não, para livrar Patty das acusações de Hélio.
––– Vamos ouvir aqui mesmo – decidiu Patty.
––– Ok! – Cíntia apertou a tecla de reprodução e durante os minutos seguintes as palavras duras, cínicas e doentias de Hélio inundaram o carro. A expressão no rosto de Patrícia passava do espanto para a raiva e do medo para o ódio, à medida que essas palavras lhe chegavam aos ouvidos e à compreensão.
Em seguida, o silêncio. Patrícia abaixou a cabeça sobre o volante e deixou rolar algumas lágrimas de revolta antes de erguer-se novamente, pronta para lutar.
––– Vamos lá, Cíntia.

Já caminhavam em direção à portaria e Patrícia seguia na frente, com passos rápidos e o rosto vermelho de raiva por tudo o que ouviu. Cíntia quase corria atrás dela.
––– Patty, me promete que só vamos usar essa gravação em último caso. Quando não tivermos mais alternativa...
Ofegante, Patrícia respondeu-lhe:
––– Ah, Cín, você me dá todas as provas da minha ‘inocência’, e quer me tirar o gostinho de usá-la contra quem está querendo acabar comigo? Eu não tenho sangue roubado, tipo o do pernilongo. O meu sangue é só meu, é original e é quente!
Cíntia então pegou o braço de Patrícia com força, fazendo com que ela parasse bruscamente.
––– Patty, eu não vou deixar você enlouquecer! De insano aqui basta ele! Você precisa manter seu eixo, mulher! E nós duas precisamos analisar as conseqüências que teremos de enfrentar se mostrarmos esta gravação! – Cíntia, apaixonada, mas bem centrada, buscava a melhor maneira de controlar a ansiedade de Patty.
A princípio, Patrícia quis se desvencilhar de suas mãos, mas Cíntia foi firme e só a soltou quando terminou de falar o que queria.

Chegaram ao balcão onde três recepcionistas monitoravam entrada e saída dos visitantes.
––– Boa tarde! Em que posso ajudá-las? – perguntou uma das moças.
––– Nós somos funcionárias – disse Patty já lhe entregando o crachá, onde constavam foto, nome, um número de documento e a lotação do funcionário.
––– Precisamos ir ao Depto. Jurídico – completou Cintia, também mostrando o seu crachá.
A mocinha analisou o que tinha em mãos e devolveu-lhes com “um sorrisinho que mais parecia uma careta de fome”, pensou Patrícia:
––– Neste horário, estão todos para o almoço. Voltem depois das 14H... A menos que queiram esperar lá...
Cíntia foi mais rápida do que Patty na resposta:
––– Obrigada, colega! A gente volta depois. Vamos, Patty!
A Patrícia não restou outra alternativa, senão seguir Cíntia, que havia se adiantado e recolhido os crachás da mão da recepcionista.
––– Você pode me explicar o que está acontecendo com você, Cíntia? Agora deu pra querer me governar? O que é que há, hein? – Patrícia estava furiosa.
––– Simples, Patty! Do jeito que você está, é bem capaz de ficar lá, sentada, e remoendo sua revolta até o pessoal voltar do almoço. E eu estou com fome! Bom, mas se quiser, pode ficar, porque eu vou procurar um lugar onde eu possa fazer um lanche, ou de preferência, almoçar.
Diante de tal argumento, Patty lembrou-se de que também não havia almoçado. E sim, estava com fome. Calada, seguiu Cíntia.

Encontraram uma panificadora perto dali e fizeram um lanche praticamente em silêncio. Ambas estavam exaltadas. Cíntia, de fome; Patrícia, de raiva por não poder agir como gostaria. Além do mais, lembrara-se agora de Iara e de suas palavras preconceituosas na conversa daquela manhã.

Passava um pouco das 14h30min quando as duas chegaram de novo à recepção. Sem desconfiar que o coração de Patty pulava de ansiedade, a mocinha as encaminhou para o 6º andar. Chegando lá, deram de cara com outra recepcionista, a menos de dois metros da porta do elevador.
––– Boa tarde – Patrícia e Cíntia cumprimentaram-na ao mesmo tempo, mas foi Cíntia quem falou: – somos funcionárias do Depto. Jurídico da sucursal e viemos falar com o doutor Sales.
––– Pois não! A sala dele é a 602, fica deste lado aqui. – disse ela, apontando para o lado direito do corredor.
Ficaram paradas em frente de uma enorme porta de vidro o tempo suficiente para que uma mulher do lado de dentro as visse e lhes fizesse sinal para entrarem.

 



Escrito por Maria Menina às 22h09
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Patrícia

Capítulo 39

Enquanto isso, Iara temperava a salada e a colocava em cima da mesa para almoçarem.
Seu Alcides, muito quieto, apenas a olhava, sem nada dizer.
––– O que foi, meu pai? Esse seu jeito de me olhar está me deixando sem graça...
––– Depois do almoço a gente conversa.
Nesse momento, Rodrigo voltou do quarto onde fora deixar seu material escolar.
––– Mãe, quando é que a gente vai buscar a Vera lá na casa do meu pai?
––– Oh, meu filho, temos que falar logo com ela, afinal é preciso cumprir aviso prévio e essas coisas todas que estão na lei, antes que ela possa vir em definitivo pra cá. Depois do almoço eu ligo pra ela...
A esposa do funcionário mais antigo de seu pai estava sempre por ali, ajudando numa coisa e noutra, mas, como não havia nenhum vínculo empregatício, Iara havia comentado com Rodrigo e com seu pai que pretendia trazer Vera pra trabalhar com eles. Até mesmo por uma questão de confiança.
Rodrigo já mudara seu foco e ria das brincadeiras do avô, que fazia caretas e apontava para Iara.
––– Sua mãe vive dizendo que vai resolver isso... Acho que a Vera só vem pra cá depois que você se casar.
––– E isso não vai demorar, Vovô, olha só como estou alto. Eu já cresci...
––– Sim e só tem tamanho! Sossega o facho e almoça...
Os dois começaram a rir, e ela entrou na dança. E o almoço transcorreu em paz.
Logo depois do almoço, em seu quarto, Iara se lembrou das palavras de seu filho. Sim, ele crescera muito em pouco tempo. Estava na pré-adolescência e daqui a pouco ela teria um rapaz namorador em casa. “E eu serei sogra! Poxa vida, como vamos adquirindo títulos ao longo da vida!” E então, ela ouviu uma batidinha na porta.
Era seu Alcides.
––– Entra aí, pai...
Ele entrou e sentou-se na cama de Rodrigo, de frente pra ela.
––– Minha filha, eu não vou ficar aqui fazendo papel de pai moderno. Você sabe que tenho pouco estudo, mas a escola da vida é que ensina e amansa burro brabo, e a gente acaba aprendendo a aceitar certas coisas.
––– Acho que sou bem grandinha pra ouvir sermão de pai...
––– Menina, o que está acontecendo com você? Vi aqui pra conversar e, se você me convencer que está certa, vou até te apoiar...  E você me diz isso?
––– Tá bom, pai... Desculpa... É que, no fundo, não sei se terei coragem de encarar as pessoas quando elas souberem da minha relação com Patty...
––– Ah, Iara... Será possível que você não enxerga que essa moça está mudando toda a vida dela? Ela vai sair capengando pra outra cidade, de mala e cuia, levando a mãe, que a essa altura só quer ficar quieta no seu canto.
––– Pai, mas pensa bem... Do jeito que as coisas estão se encaminhando, até os professores do Rô vão saber de mim...
Seu Alcides não conseguia mais falar baixo.
––– Outro dia mesmo, você deve se lembrar disso, eu te disse que se esse era o seu caminho, que você tratasse de percorrê-lo com dignidade, e não às escondidas! Pense bem e não brinque com os sentimentos das pessoas assim! Esse tipo de comportamento, sim, me deixaria envergonhado.
Falando isso, ele saiu deixando-a pensativa. 

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>  

Patrícia chegou ao restaurante vegetariano escolhido por Cíntia antes dela. Em dúvida se iria almoçar ou não, analisou as saladas que estavam expostas ao longo do trajeto até a mesa que o garçom lhe indicara. Quando Cíntia entrou, ela já estava com o cardápio na mão, escolhendo o que beber.
Sem se levantar, ouviu o pedido de desculpas de Cíntia e recebeu o beijo que a amiga lhe deu no rosto.
––– Você não se atrasou. Eu é que estava bem perto daqui. Está tudo bem... Mas me fale, quais são as novidades?
––– Posso ir direto ao ponto, ou você quer que eu entre em detalhes?
Patrícia riu da pergunta, apesar da ansiedade.
––– Aja como se fosse a Cíntia. – respondeu ela e foi a vez de Cíntia rir.
––– Então, vou direto: ele me ofereceu mundos e fundos para eu ficar contra você nessa armação toda.
––– E você, aceitou?
––– Estou aqui, não estou? O que você acha? – Cíntia a encarou.
––– Ok! Desculpe-me, mas hoje já recebi uma paulada nas costas de outra pessoa...
––– Patty, nunca me confunda com outra pessoa, por favor!!
––– Já pedi desculpas, Cin... Poxa, hoje está sendo um dia muito difícil. De repente, fico em dúvida e nem sei se devo fazer o que devo fazer!
––– Bom, deixa eu te localizar, então: ele me disse que depois do almoço irá ao escritório central resolver essa questão...
Patrícia a interrompeu se levantando e quase correndo pra porta:
––– Então tenho que chegar lá antes dele.. Beijo... Tchau!
––– Espera... – gritou Cíntia, praticamente correndo atrás dela.
Alcançou-a entrando no carro.
––– Posso ir com você?
––– Claro. Mas corre, entra aí.
––– Esqueci minha bolsa na mesa... Não saia daqui sem mim! Já volto!
Ela voltou ao restaurante e deixou Patrícia passando a mão nos cabelos, com impaciência. Ao mesmo tempo, Patty pensava: “A Iara não quer exposição, e a Cíntia quer se envolver ainda mais... Não sei o que pensar!”
Patrícia viu quando ela saiu pela porta, dirigiu-se ao seu carro, pegou alguma coisa e voltou. Já entrou ao lado de Patty falando:
––– Nem vou até em casa guardar o carro. Não quero te atrasar. Precisamos chegar lá antes dele...
––– Cíntia, você tem certeza que quer se envolver tanto assim? Você tem um emprego a preservar... Pensa be...
Cíntia falou de supetão, antes que ela concluísse a frase:
––– Eu pedi demissão.
––– Você é louca? – Surpresa, Patrícia quase se distraiu do volante – sua vida, sua luta, suas coisas! Você não pode abrir mão assim, sem um motivo forte, Cíntia!
––– Patrícia, - começou Cintia, bem devagar, - se eu estiver enganada, me corrija, mas eu acredito que você já conhece o amor...
Patty olhou-a em silêncio e, durante alguns minutos, dirigiu assim. Quando voltou a falar, foi pedindo desculpas.
––– Sinceramente, eu acho que não consigo enxergar a grandeza do seu sentimento... Gostaria que você me desculpasse por isso... Se possível... Mas deixa eu me preocupar contigo também, poxa? Isso que você fez é muito sério... Não posso deixar que você se prejudique tentando me ajudar, Cin...
––– OK, Patty, mas aos poucos eu vou resolvendo as questões práticas que envolvem um pedido de demissão.  Não sou o tipo de pessoa que agüenta assistir injustiças e ficar quieta.
––– Obrigada pelo apoio, Cín... Você é um anjo...
“Um anjo apaixonado,” Pensou Cíntia, com lágrimas nos olhos.
O resto do percurso foi tranqüilo, o trânsito fluía bem e em 45 minutos pegaram o acesso às principais ruas da capital.
O barulho infernal do vai-e-vem incessante de carros àquela hora do dia deixou-as assustadas, a ponto de Cíntia questionar Patty:
––– Você jura que é nesse lugar que você quer morar? Tua mãe vai sentir muita diferença, afinal vocês moram num bairro tão tranqüilo...
––– Aqui também tem bairros tranqüilos, Cíntia. – disse Patrícia de um modo meio brusco.
––– Ai, Patty! Como você está estressada!
––– Tá bom, Cin. Desculpa... Desculpa... Afff, até parece que minha sina é pedir desculpas para as mulheres da minha vida o tempo todo! – falou Patty, rindo.
Cíntia gostou da resposta, mas achou melhor não se iludir.
Depois de uma boa meia hora rodando devagar entre aqueles zilhões de carros nervosos, chegaram ao endereço onde estava localizado o imponente prédio do escritório da empresa. Numa coluna, na vertical, lia-se o nome da empresa: Shropov-Moyer Lab. Brasil.



Escrito por Maria Menina às 23h55
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