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Conto de Meninas - UOL Blog



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BRASIL, Centro-Oeste, GOIANIA, Mulher, de 46 a 55 anos, Portuguese



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Conto de Meninas


Patrícia

Capítulo 45

 

Patrícia e Cíntia entraram sorridentes no restaurante indicado pelo recepcionista do hotel. Após o mal-entendido inicial, quando Cíntia se mostrou incrédula e arredia, Patty mudou sua maneira de agir, mostrando-se um pouco menos petulante e convencida. Essa Patricia simples, meiga e risonha agradava muito a Cíntia. Sempre tomando cuidado para não se iludir com essa mudança, Cíntia relaxou um pouco e resolveu que nada poderia impedi-la de curtir a noite de forma agradável, apesar de saber que a presença de Iara pairaria entre elas o tempo todo.No restaurante havia um pequeno palco com um piano ao canto e uma cantora fazia uma performance de Joanna. Não chegava a ser uma cover, mas cantava suas músicas mais românticas em um tom bem semelhante a ela. Quando Cíntia elogiou, Patty disse que seu gosto musical era, no mínimo, discutível, porém não chegaram a brigar por isso, porque Cíntia foi firme em sua própria defesa. Concordaram que a melhor sugestão da casa era um filé grelhado com saladas e, juntas, escolheram um bom vinho Cabernet para acompanhar. Até a meia-noite, horário em que chegaram de volta ao hotel, elas conversaram muito a respeito do problema que as trouxe até a capital. Mesmo assim, brincaram, riram muito com as próprias palhaçadas e analisaram os rumos que a vida tomava. Inclusive combinaram de abrir um escritório em sociedade, agora que estavam praticamente desempregadas, uma vez que Cíntia pedira demissão, e Patrícia já se sentia com um pé fora do escritório. Na verdade, elas não tinham a menor idéia do que poderia acontecer na reunião da manhã seguinte. Foram dormir, cada uma no seu apartamento, desconhecendo totalmente que num futuro bem próximo muitas mudanças ocorreriam.

Na manhã seguinte, elas chegaram pontualmente às nove horas na frente de Salete, a recepcionista do Dr. Salles. Mal a cumprimentaram, viram que Hélio também chegava. Antes de responder ao ‘bom-dia’ seco que ele lhes dirigia, Cíntia percebeu que ele agora usava um terno escuro, ao invés do cinza claro do dia anterior: “Será que ele comprou um terno novo especialmente para a ocasião, ou sempre carrega um na maletinha de primeiros socorros do carro? Ah, e o que é que eu tenho com isso?” pensou. Pelo olhar que Patty trocou com ela, entendeu que pensara algo parecido.Em seguida, foram anunciados e encaminhados à sala de Salles. Ainda estavam nos cumprimentos, quando a moça do cafezinho entrou trazendo água e café para todos. Apesar de terem acabado de tomar café no hotel, Patty e Cíntia aceitaram. Havia outro personagem presente na sala, além dos quatro da reunião anterior. Era uma mulher alta, de óculos, cabelos curtos e aparentando uns cinqüenta anos. Usava um tailleur azul clarinho, sapatos pretos de bico fino e salto baixo. Foi apresentada a todos como Dra. Helena Sampaio, supervisora geral da empresa no Brasil. Ela apenas meneou a cabeça enquanto eles diziam “muito prazer”. Hélio foi pego de surpresa e demonstrou um espanto genuíno ao saber da novidade. Há uns seis meses atrás, almoçara com todos os executivos da empresa durante a visita de alguns representantes da matriz e o Supervisor Nacional de então era um homem de bastante presença.Como ninguém o comunicou dessa mudança? Afinal, ele era o chefe do departamento jurídico da sucursal!! Este mundo está merecendo cada vez menos crédito! Onde já se viu uma mulher no comando de uma empresa tão monstruosamente grande quanto esta?Salles percebeu sua cara de desagrado, mas, com um risinho de canto, não disse nada.Talvez pela presença da Dra. Helena Sampaio, Dr. Salles iniciou a reunião com um ar mais solene do que no dia anterior, ocasião em que a conversa acabou se transformando num ringue de luta - livre.
––– Bem, meus caros, diante da gravidade do assunto que temos em mãos, eu senti necessidade de levá-lo até as esferas superiores. Geralmente resolver problemas de mal-estar ou ‘disse me disse’ entre funcionários é algo relativamente fácil. No entanto, esse problema que você me trouxe, Santiago, é extremamente delicado e passível de complicações judiciais.
Todos o ouviam num silêncio pesado. E Santiago, por ter tido seu nome mencionado, de repente se empertigou na cadeira, todo confiante e abriu a boca para falar alguma coisa. Recuou ante a mão de Salles, que fez sinal para que ficasse quieto.
––– Portanto, vamos direto ao ponto dessa reunião. Apesar de já ter feito um resumo de tudo o que aconteceu aqui ontem, eu gostaria que você, Santiago, relatasse para a Dra. Helena, as provas de que Dra Patrícia seria traficante de drogas e dependente química.
––– Salles, será que você não percebe que por ser mulher ela certamente ficará do lado da Patrícia nesta sujeira toda? – foi a infeliz frase de Hélio.
Quem se manifestou na resposta foi a própria Dra. Helena:
––– Dr. Hélio Santiago, não tome os outros pelas suas próprias atitudes. Se o senhor resolve as questões da nossa empresa baseando-se principalmente no gênero das pessoas envolvidas, devo supor que os homens ganham todas as causas e, conseqüentemente, todas as mulheres as perdem.
––– Desculpe-me! Não foi bem isso o que eu quis dizer. Preciso que vocês me compreendam, afinal tenho passado por situações complicadas nos últimos tempos.
––
– O que não justifica algumas ações que ficaram muito claras na gravação que ouvi. Mas agora eu quero ouvir o que a Dra Patrícia tem a dizer, porque precisamos resolver esse assunto ainda hoje.
Patrícia que até então, juntamente com Cíntia,
apenas ouvia, olhando de um para outro, esperando a vez de falar, se ajeitou melhor na cadeira e começou a falar:
––– Eu não tenho nada de novo para acrescentar. Apenas repito que o Dr. Santiago começou a me perseguir dentro do escritório quando descobriu que sou lésbica e...Mais uma vez Hélio a interrompeu:
––– Pare de falar besteiras, Patrícia! Eu não tenho nada a ver com suas preferências sexuais!
––– Ele nunca me deixa falar! – explodiu Patty, e virando-se pra ele, completou, fazendo um esforço enorme para não parecer irônica - Será que está com medo que eu revele algum segredo? A discussão novamente começou a ficar acalorada, pois Hélio, aumentando ainda mais o volume da voz, revidou:
––– Não tenho medo de você, sua fedelha irresponsável! Esse seu problema aí não me atinge! Só que não vou aceitar pouca vergonha dentro do meu escritório! Helena e Salles se olharam e, silenciosamente, decidiram interferir. E foi a mulher quem tomou a palavra dizendo, com um olhar desafiador:
––– Isto ao que o senhor se refere como um ‘problema dela’, Dr. Santiago, é a minha realidade. Portanto, precisamos entrar num acordo pra saber até que ponto o senhor está disposto a ir com essa farsa! Talvez o ideal seja que o senhor tire umas férias com a família, passe um tempo longe do escritório, pondere sobre todas esses acontecimentos e, ao voltar, tente ser mais compreensivo.
––– Vocês estão me tomando por um doente, louco ou coisa assim? Eu lhes trago provas de que uma funcionária está traficando drogas, e eu é que sou punido? E mais: eu não estou cansado, nem estressado, como querem me fazer crer... Além do mais, vocês sabem que não posso deixar o escritório às moscas. Lá eu não tenho nenhum funcionário que possa levar adiante os trabalhos, sem mim.

––– Este é um problema que será resolvido por nós, Santiago – disse Salles – O fato mais claro que temos aqui é a sua necessidade de férias.
Hélio estava bufando de raiva. Na conversa que tivera a sós com Salles, na tarde de ontem, ele jurava que havia convencido o chefe de que estava certo. Ficara quieto e calado quando Cíntia e Patricia voltaram à sala, só porque Salles havia lhe dito que ele “deveria se manter calmo e que ficasse quieto quando elas entrassem, para que não configurasse provocação. E que tudo seria resolvido de forma que os inocentes e justos fossem compreendidos e premiados.” Ao contrário de Hélio, que adorava se fazer de importante, elas não faziam caras  e bocas.Demonstrando indiferença às palavras de Hélio, Dra. Helena dirigiu-se a Patrícia.
––– Aqui ninguém tem o poder de julgar ninguém, Patricia, mas eu gostaria de ouvir de você tudo que achar importante para que solucionemos o problema.
––– O que eu tenho a dizer, Dra, é que a partir do momento que o Dr. Santiago descobriu que sou lésbica, começou  a me perseguir e...Mais uma vez Hélio interrompia Patty.
––– É só o que ela sabe dizer! Vive se repetindo!Calmamente Helena voltou se para ele e perguntou:
––– Santiago, você continua afirmando que encontrou provas contra a Dra Patricia dentro a sua gaveta no escritório?
––– Sim, eu considero isso muito pior do que esse problema aí de homossexualidade dela...
––– Eu ouvi a gravação e ela não atesta a veracidade dessa história. Continuo sugerindo que o senhor tire alguns dias de licença. Tenho certeza que um tempo de descanso mental lhe fará muito bem...Nesse momento, Cíntia, que até agora ficara bem calada, apenas ouvindo e pensando, resolveu interferir. Levantou a mão, sinalizando que queria falar, como o fazem as crianças quando querem chamar a atenção da professora pra si. Foi atendida pela Dra. Helena:
––– Pois não, Dra. Cíntia. Pode falar. 
Hélio arregalou os olhos e esperou. Patrícia também ficou espantada, mas acreditou que Cíntia apenas contaria como fizera a gravação.
––– Observei, juntamente com os senhores, que sempre que a Patrícia tenta falar algo, o Dr. Santiago a interrompe. – todos a olhavam, na expectativa – Eu conheço o caráter de Patrícia e posso afirmar que ela jamais diria coisa alguma que pudesse causar constrangimento em alguém. Ainda que essa pessoa esteja fazendo absolutamente tudo para prejudicá-la.
Todos aguardavam um pouco mais, mas foi Hélio quem se precipitou mais uma vez:
––– Você só está defendendo essa sapatão aí, porque deve ter um cacho com ela! – explodiu ele.
Cíntia fuzilou-o com o olhar e respondeu, imediatamente:
––– Sou apaixonada por ela, sim! Mas ela tem caso é com sua ex-mulher, e o senhor sabe disso! Pronto! Falei!

 



Escrito por MariaN às 09h03
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Patrícia

Capítulo 44

 

Em casa, Iara estava pronta para o encontro com Bia. Ah, sair um pouco sozinha, sem Patrícia, podia ser uma boa pedida. Uma coisa ela sempre deixara bem claro: não havia saído do casamento por causa da paixão por Patty. Então, nada demais sair e se encontrar com uma velha amiga. Ainda que esta velha amiga tivesse sido a sua primeira experiência homossexual. “Ah, nada a ver também, né? Ela agora tem a Paula e parece até que são felizes... Já desperdicei a chance que tive com ela, fico agora com o consolo de ter sua amizade.” A ansiedade por este encontro, ela explicava a si mesma, era por causa das respostas de que tanto precisava. Resposta que, mal sabia Iara, só encontraria no seu íntimo. Iludia-se acreditando que Bia pudesse ajudá-la só por ser psicóloga. Na verdade, a última coisa que pensava era em ajuda profissional. No final das contas o que ela queria mesmo era um afago.
Despediu-se de seu pai, do seu filho e se foi.

Chegou cedo ao barzinho combinado. No inicio, ficou meio perdida; afinal, não estava habituada a se sentar sozinha num bar. No entanto, algo soprava em seus ouvidos que, nesse momento de transição, o ideal seria mesmo não se apegar a ninguém. “Sou capaz de ficar sozinha por opção. Preciso me conhecer melhor, sem uma sombra me induzindo, me conduzindo... Será que estou ficando louca? Minha paixão por Patty é real... estamos fazendo tantos planos juntas... Juntas? Será que esses planos são mesmo os meus planos, ou eu estou apenas me deixando incluir nos planos dela? Mas isto não seria como ‘sair do espeto e cair na brasa’?”
Nisso o garçom se aproximou, e ela lhe disse que aguardava umas amigas, mas resolveu se arriscar e pediu um choop. Antes que ele voltasse com o seu chopp, ela avistou Paula e Bia. Sorridentes, elas a cumprimentaram e se sentaram de frente pra Iara. Bia foi a primeira a falar:
––– E aí, já pediu alguma coisa?
Iara, meio sem jeito, respondeu:
––– Sim, pedi um choop... E vocês, o que tomam?
––– Eu te acompanho Iara – disse Paula e, sorrindo, virou-se para Bia: – Vida, hoje você toma seu uísque sozinha.
É sabido por todos que Paula só toma cerveja e Bia é adepta do uísque.
Iara esperou que o garçom trouxesse as bebidas delas, para brindar e tomar o primeiro gole.
––– E aí, moça, o que contas? Porque estás sozinha e perdida nesta bela noite de luar? – perguntou Bia.
––– Fale-me primeiro de vocês... Por onde andaram durante o dia? Mas acho que posso adivinhar, porque eu aposto, Paula, que a Bia te levou pra conhecer aquela linda cachoeira do rio, onde ela aprendeu a nadar quando menina, não foi?
––– Sim – Paula respondeu – E ainda me contou algumas das aventuras que protagonizou no tempo em que morava aqui.
––– Relaxa, Iara, porque a nossa aventura eu já havia contado bem antes. Afinal, foi uma das minhas primeiras transas completas... – completou Bia.
––– Você continua com seu excesso de franqueza, Bia? Isso pode machucar as pessoas e é muito desagradável, sabia?
Foi Paula quem deu continuidade à conversa:
––– E olha que ela melhorou muito, hein? Quando nos conhecemos ela parecia bicho do mato... e não tinha muito tato comigo...
Bia deu um basta antes que elas se empolgassem:
––– Ok, meninas, mas vamos parar de criticar quem está ausente e não pode se defender? – disse, e todas riram da brincadeira.
––– Vou tentar resumir tudo o que aconteceu desde ontem à noite, quando nos vimos... Meu Deus! Parece que faz tanto tempo! Talvez por ter acontecido tanta coisa de lá pra cá...
Iara ficou pensativa por alguns segundos e continuou:
––– Mas vamos ao que interessa... Preciso de ajuda...
E Iara disse tudo o que havia acontecido desde a noite anterior. Inclusive o detalhe, insignificante segundo ela, que era o seu medo de se expor diante das pessoas. Também não se esqueceu de mencionar o sermão que recebera do pai logo depois do almoço.
Bia ouviu tudo atentamente. E foi sacudindo a cabeça que falou:
––– Iara, quando nos conhecemos, lá atrás, nós éramos duas jovens recém saídas da adolescência. E eu já sabia exatamente a quem eu dedicaria o amor romântico durante minha vida. Nunca tive dúvidas quanto à minha sexualidade. Agora, você era a própria personificação da dúvida. Quando te reencontrei aqui, acompanhada da Patrícia, eu poderia jurar que você finalmente havia se encontrado.
––– Bia, esse seu tom de voz está me cheirando a sermão...
––– Nada disso! Você deve estar impressionada com isso, ou acha que está merecendo, mas não pretendo te dar sermão, mesmo porque não tenho cacife pra isso – Bia riu – mas eu gostaria de saber... O que você quer pra sua vida daqui pra frente?...
––– Pois é, é o que eu tenho pensado o tempo todo, desde o meu divórcio. O meu pai me chamou a atenção pra o fato de que Patrícia está mudando toda a vida dela para ficar comigo. A verdade é que eu não sei se estou preparada para um novo casamento, como ela quer.
Paula falou antes que Iara pudesse responder:
––– Desculpe-me pela intromissão, mas, você a está incentivando a fazer tudo isto ou já deixou claro que não pretende assumir uma nova relação?
––– Eu já tentei de várias formas desestimular este seu plano, mas ela faz questão de não me ouvir...
Bia com convicção, disse:
––– Pare de se esconder, Iara! Não tenha medo de ser franca com Patrícia, talvez seja a atitude correta a tomar, antes que você se veja novamente numa relação indesejada. Neste caso, as suas incertezas podem fazer vocês duas infelizes! Principalmente se os sentimentos não possuírem a mesma intensidade, ou se os objetivos forem diferentes!
––– As pessoas têm direito a dúvidas, meu amor! Ninguém é igual a ninguém, e você sabe disso! – Falou Paula tirando o copo dos lábios.
Bia retrucou com bom humor as palavras de Paula:
––– O que é uma lástima! Seria muito bom se em alguns pontos, as mulheres fossem assim, digamos...  Iguais a mim, por exemplo!
––– É, mas nós duas sempre fomos muito diferentes, Bia. –disse Iara. – e eu queria sua ajuda como amiga e como psicóloga, porque...
Mas Bia nem deixou que ela fosse muito longe. Falou mansa, mas categoricamente acabando com suas ilusões a respeito:
––– Como amiga eu posso te ouvir, mas como psicóloga não posso fazer nada por você. A ética não me permitiria agir como sua terapeuta. Eu acabaria sendo tendenciosa e isso atrapalharia muito mais que ajudaria. Além do mais, uma terapia não consiste em duas ou três conversas. Acho, sim, que voce deveria fazer uma terapia, já que precisa se localizar e, parece que sozinha, está tendo dificuldade. Eu até poderia te indicar alguém, mas não conheço os profissionais daqui.
Foi interrompida pela chegada do garçom com mais bebidas e o aperitivo escolhido por Paula. Assim que ele saiu, Bia continuou:
––– Eu poderia te dizer várias frases de efeito que a fariam acordar um pouco, ou, pelo menos analisar certas atitudes suas, mas acho melhor apenas te indicar um ótimo livro. Lendo-o com atenção e carinho, você poderá até receber ajuda para os seus problemas.
Bia anotou o nome do livro em um guardanapo, entregou para Iara e, olhando bem em seus olhos, propôs um brinde:
––– E então, Iara, nós devemos brindar a sua nova vida? Ao amor e às escolhas que você certamente fará de agora em diante, ou à sua coragem de dar voz à mulher que sempre esteve aí dentro e só você não ouvia?
O que Iara respondeu:
––– A essa altura, brindar a mim mesma já é alguma coisa, independente dos questionamentos.
Brindaram, beberam e Bia concluiu, em voz alta, um pensamento iniciado antes do brinde:
––– Como eu ia dizendo antes, estamos indo embora amanhã à tarde.
––– Que pena! Sabe, eu me sinto muito sozinha... Na verdade, sempre me senti assim...
––– Não é de se estranhar, porque você nunca quis se compartilhar com ninguém.
Iara olhou bem pra ela e, de repente, entendeu tudo o que ela quis dizer.

A partir daí Iara deu uma travada nos seus assuntos e a conversa desviou-se para as poucas mudanças ocorridas na cidade... Falaram sobre quem foi embora pra capital ou pra outras cidades, quem nasceu e, principalmente quem morreu...
E no final da noite Iara foi pra casa com a certeza de que continuava sozinha. Que a solidão passara a ser uma característica e não um estado. Deitou-se e ainda esperou uma ligação que não aconteceu. Acabou vencida pelo sono. Dormiu e sonhou...

 



Escrito por Maria Menina às 19h18
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