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Patrícia Capítulo 54

Ao olhar para os lados na intenção de chamar o garçom, Cíntia deu de cara com Iara, que entrava com outra mulher. As duas eram precedidas por um garçom que as levava para uma mesa vazia, ali perto. Olhando um pouquinho mais atrás da cabeça de Iara, Cíntia viu Patty toda sorridente, por já tê-la visto. Cíntia percebeu que a cor fugia-lhe do rosto. Iara a viu, mas passou sem cumprimentá-la, e Patty se aproximou e deu-lhe um beijo no rosto, sem ver Iara, que seguia na frente de Vânia. ––– Que cara é essa, Cín? Não ficou contente em me ver? – perguntou Patrícia depois de ter cumprimentado Marilza. ––– Nada... Não é nada... – Cíntia ficou em dúvida se deveria ou não dizer à Patty que Iara acabara de entrar também. Patrícia se sentou de costas para a mesa de Iara. Ficou de frente para Cíntia, com Marilza, que também tinha visto tudo, à sua direita. Logo depois, divertiu-se muito com Marilza, que havia lhe contado sobre o que falara a respeito delas duas para Cíntia, pouco antes de Patty chegar: –––... sim, porque já que vocês são duas gatas que vivem grudadas uma na outra, vou providenciar outro pires. Não vou deixar que briguem por um motivo tão torpe, que é um golinho de leite no pratinho... ––– É, você tem razão... Mas nós já fomos mais grudadinhas, né, Cín? Como Cíntia continuava estranha, com cara de quem esconde alguma coisa, Patty cutucou-a mais um pouquinho: ––– Cín, você quer me fazer o favor de dizer o que é que está te incomodando? Será que atrapalhei alguma coisa entre vocês? Por que não me disseram logo? O que parecia ser apenas uma vaga preocupação com o comportamento de Cíntia, de repente se transformou numa inquietante sensação para Patrícia, que não gostava de insistir muito, mas não via outro modo de descobrir o que se passava! Quem salvou Cíntia foi Marilza: ––– Patrícia, eu entendo a Cíntia. Ela não quer se beneficiar da situação... ––– Que situação, pelo amor de Deus? Não estou entendendo nada! – A curiosidade de Patty aumentava a cada palavra. Cíntia se manifestou, afinal: ––– Patty e Marilza, o que vocês acham de irmos embora daqui. Há tantos lugares legais na cidade! Não precisamos ficar aqui! Vamos? – em pensamento, Cíntia sabia que não havia tantas opções de lazer, quanto queria acreditar. Marilza resolveu acabar com o mistério: ––– Patty, você deve ter notado que, pra chegar aqui na mesa, você pegou muito trânsito de pessoas que entravam também, né? Patrícia estava cada vez mais intrigada, porque notou que Marilza estava enrolando, procurando a melhor maneira de contar alguma coisa. E tinha razão. Finalmente, porém, Marilza disse o que precisava ser dito numa única frase. ––– Patty, você e a Iara entraram juntas... Ela vinha logo na sua frente... Cíntia não quis te falar, porque Iara está acompanhada. Patty não ouvia mais nada. Ficou olhando de um lado para outro, tentando avistar Iara. No entanto, talvez devido ao estado de ansiedade que tomou conta dela, não a viu. Cíntia, depois de olhar com cara de poucos amigos pra Marilza, tentou amenizar o problema insistindo no mesmo argumento: ––– Vamos sair daqui, Patty! Depois você conversa com ela... Não vale a pena arrumar uma confusão em público! Você nunca gostou disso! Nesse momento, Patty já estava de pé, olhando para todos os lados. Cíntia se apressou em puxá-la pela mão, obrigando-a a se sentar: ––– Fica quieta... Vou te dizer em que mesa elas estão... Mas, por favor... ––– Cín, você está me dando a oportunidade de acabar com a palhaçada que está acabando com a nossa relação. E se tiver que ser assim, assim será! Fica tranquila... Não vou fazer escândalos... ––– Ok! Ela está de costas numa mesa logo atrás de você... ––– Obrigada – disse Patty, já recuperando seu jeito altivo de ser. – Eu vou até lá... De qualquer modo, eu ligo mais tarde pra você. E então, ela se levantou e foi diretamente para a mesa de Iara. ....................................................................................... Vânia notou que havia algo errado alguns minutos depois de se sentarem, porque Iara passou a responder com monossílabos a todos os seus comentários a respeito da vida, ou sobre este local onde estavam. Isto a levou a desconfiar que o problema estivesse ali, em alguma das mesas em volta delas. Deu uma olhada em volta, tentando adivinhar o que poderia ter deixado Iara tão desconfortável. Evidentemente não encontrou nada, já que não sabia exatamente o que procurar. O único jeito de saber seria perguntando. E assim ela o fez: ––– O que aconteceu? Você não gostou daqui? Podemos ir pra outro lugar, se você quiser. Apesar de ter acabado de conhecê-la, percebeu que Iara forçou uma naturalidade inexistente ao responder: ––– Poxa, eu quis tanto vir pra cá, não é? Há tempos eu não vinha aqui...! Estou arrependida, sabia? O ambiente lá naquele outro barzinho estava bem melhor! Vânia pensou, com seus botões: “Aí tem coisa! Mas é agora que vou descobrir presente, passado e futuro desta mulher! Ah, se vou!” Não teria dado tempo de ‘sentir’ o ambiente. Decidiu não fazer joguinho com Iara. Sempre fora muito direta e franca em seus relacionamentos, e se houvesse alguma chance desse encontro se transformar em uma relação, teria que mostrar logo toda a sua transparência e autenticidade. ––– Qual é o problema, Iara? Você viu alguém que não queria, é isso? Se assim for, a única saída agora é nos apresentar e pagar pra ver! ––– Como você perguntou de uma forma tão direta, vou te responder da mesma forma: quando viemos pra esta mesa, passamos por outra, onde está uma guria que não sai do meu caminho. É impressionante como ela sempre está nos lugares aonde vou! ––– A questão é mais séria do que eu imaginava, então... Quem é essa pessoa? Pode me mostrar? ––– É a loirinha, de cabelos meio curtos que está na terceira mesa aqui atrás de mim... Vânia olhou discretamente e perguntou: ––– Ah, tá... Numa mesa que tem três mulheres... Mas qual é o problema com ela? Como o garçom chegava, elas fizeram os pedidos e esperaram que ele se afastasse. ––– Não, havia apenas duas mulheres lá: ela e outra. Deixe-me ver... – Então Iara se virou um pouquinho, o suficiente para dar uma olhadela e empalideceu ao reconhecer Patrícia que, inocente, ria de alguma coisa que Marilza havia dito. - Eu não acredito no que estou vendo! – Vânia, curiosa e intrigada com tantas expressões, caras e bocas da mulher que a acompanhava, não a poupou: ––– Você quer me fazer o favor de explicar a situação, Iara? Estou começando a achar que você está me fazendo de palhaça, porque nós estávamos num lugar super light, sem aporrinhações... E você cismou de vir aqui! Agora fica dando pití o tempo todo! Iara se assustou um pouco com o tom ríspido de Vânia, mas concluiu que ela devia ter razão, já que desde que ali chegaram, ela, Iara, não parara de reclamar. ––– Tudo bem, Vânia... Você tem toda razão. Vou resumir a história pra você. Em menos de dez minutos Iara contou quase toda a sua vida, passando pelo casamento... o encontro com Patty no estacionamento do supermercado... o divórcio, a morte da mãe e o fato de seu marido ser o chefe de Patrícia, o que provocou todo esse problema recente. –––... enfim, eu não acredito que elas tenham passado uma noite juntas, em outra cidade, e nada tenha acontecido. A Cíntia não faz a menor questão de disfarçar que é louca por Patrícia. E esta adora o poder que tem sobre a outra... ––– Iara me diga com toda sinceridade: você a ama mesmo? – seu olhar se fixava com intensidade nos olhos de Iara - Não sei se você tem esta resposta, mas eu preciso dela pra saber onde estou pisando! Iara olhou intrigada para a mulher que não escolhia palavras para manifestar suas opiniões, e deu a única resposta que sabia ser verdadeira: ––– Eu não sei, Vânia... Ultimamente tenho estado muito confusa com tudo isso. É como se de repente a minha ficha tivesse caído e... Os drinques chegaram e Iara aguardou o afastamento do garçom para continuar. Antes que ela tomasse a iniciativa de concluir o pensamento, porém, Vânia perguntou? ––– E?... Iara olhou novamente para a mesa das meninas antes de responder: ––– E... Eu não soubesse o que fazer com a conclusão a que cheguei. Vânia ficou em silêncio, porque neste instante Patricia se levantava.
Escrito por MariaN às 18h28
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Patrícia Capítulo 53 
Depois do almoço, Iara deixou o filho no curso, entrou numa farmácia pra comprar um analgésico e foi até a livraria. O que a movia até lá não poderia ser chamado de loucura por livros. Afinal, nem gostava tanto de ler! Sabia que deveria ter lido mais na vida, mas ainda havia tempo e ela tentaria recuperar o tempo perdido, já que pretendia estudar e ainda ter uma profissão. Mas foi até a livraria. “Ou será que deveria ir primeiro ao Sebo? Vou arriscar...” - pensou, ao entrar pela porta de vidro. Caminhou por entre as gôndolas de livros de olho nos funcionários, pra ver se via Vânia. Como não a viu e não foi abordada por nenhum outro, resolveu ir à luta. Foi até um atendente, perguntou o preço de um ou dois livros, agradeceu e saiu. O Sebo ficava a três esquinas dali. Decidiu ir a pé. Lembrou-se de que há muito tempo não fazia uma caminhada. Desconfiava até que estivesse um pouco mais cheinha no quadril. Nada sério, mas melhor não brincar com isso, apesar de preferir manter distância da magreza exagerada... Com essas coisas na cabeça, logo chegou ao seu destino. Não era uma loja tão grande, quanto a livraria. Havia uma mocinha num caixa logo na entrada, dois corredores cheios de livros velhos em prateleiras meio empoeiradas e só. Lá no fundo da loja, mexendo nuns papéis, viu Vânia. Disfarçou um pouco pegando um ou outro livro e seguiu em sua direção. Conseguiria fingir que tinha vindo ali mais pra vê-la, do que para comprar qualquer livro? Nem precisou se esforçar muito nesse sentido, porque quando percebeu a mulher já estava ao seu lado, sorrindo e dizendo: ––– Ora, ora, se não é a moça cuja preocupação maior é o estado de conservação do livro! ––– Oi, boa tarde! – respondeu Iara sorrindo – É claro que isso é importante! Imagine se compro um livro que esteja faltando páginas? ––– OK! Você me convenceu! – dizendo isso ela foi até uma bancada ao lado e pegou o livro para Iara. – Aqui está seu livro. Eu o reservei pra você. Como não veio ontem, imaginei que talvez nem viesse mais. Iara nem olhou para o livro em suas mãos. ––– Eu queria ter vindo de manhã, mas sabe como é... A gente acaba se envolvendo com mil outras coisas e dificilmente faz a nossa vontade... ––– Que bom que você veio agora, porque de manhã não me encontraria aqui. Esse comentário deixou Iara sem graça, procurando a palavra certa pra dizer, e o que conseguiu foi só: ––– Eu vou levar o livro. ––– Mas você nem o olhou! Vai levar assim mesmo? – Disse, rindo da cara de espanto de Iara. ––– Eu não acredito que você seja capaz de me enganar numa coisa tão simples... Vânia suspirou e achando coragem, fez uma cara de quem arrisca tudo numa cartada só: ––– Eu não te enganaria em nenhuma situação... Ambas ficaram sérias olhando firmemente nos olhos uma da outra. Iara não articulou nada pra responder, e ela continuou: ––– Vamos tomar um café mais tarde? Prometo que te contarei muitas coisas a respeito deste e de outros livros do mesmo estilo... E de mim também. Sem responder, Iara virou as costas para ir embora, porém a mulher a pegou pelo braço. Ela ia se desvencilhar, mas notou que ela queria apenas colocar, em sua mão, um cartão do Sebo, com seu celular atrás. ––– Calma... Pense e me ligue depois. Se quiser. Iara saiu quase correndo dali. “Não posso fazer isso com Patrícia. Eu sei que ela foi cachorra e desleal comigo, mas eu não vou devolver na mesma moeda.” Pensando em Patty e nas discussões que tiveram, ela chegou ao carro. Para não ter que ir até em casa e voltar daqui a pouco para pegar o filho, ela decidiu esperar no estacionamento do cursinho. Meia hora depois, ele apareceu, ela destravou a porta, ele entrou e se acomodou ao seu lado. ––– Não vai dar um beijo na mamãe? ––– Ih, mãe, não vou pagar esse mico na frente dos meus colegas... Ela riu e, brincando, o agarrou e deu muitos beijinhos em seu rosto. Ele ficou vermelho, mas ela não se importou com isso. Em casa, ele foi logo atrás do avô. Estava cada vez mais apegado ao seu Alcides, que por seu lado, também se recuperava aos poucos da falta de dona Alice. A presença do neto ajudava-o muito nesse ponto. Estavam conversando, trocando as experiências do dia, quando Iara os interrompeu. ––– Pai, eu vou sair agora à noite, mas vou providenciar tudo para o jantar de vocês dois, tá bom? ––– Tá bom, filha... Mas a gente também sabe se virar na cozinha, né, Rodrigo? – piscou com cumplicidade para o neto, que adorava ser tratado assim, como adulto. ––– Isso é muito bom! – disse Iara e foi se afastando deles. Pegou o telefone e ligou pra Vânia. Quando ela atendeu, Iara foi direta: ––– Eu aceito o seu convite. (...) Quantas mulheres você convidou pra tomar café hoje? (...) OK! Onde e quando a gente se encontra? (...) Combinado. Um abraço! Desligou, foi pra cozinha, beliscou alguma coisa e entrou no banho, em seguida. ............................................................
Ao entrar em casa, Cíntia ligou para os pais. Como combinara de almoçar com eles neste final de semana e, posteriormente, havia mudado de idéia, achou melhor avisar. Já aproveitava pra contar as novidades do trabalho. Sem muitos detalhes, óbvio. Bastava dizer que houvera uma mudança de chefia. Então, a mãe certamente perguntaria se ela conhecia a pessoa, se era gente boa e blá-blá-blá... Como os pais não estavam em casa, ela deixou recado com a Zezé, que trabalhava há tanto tempo com sua mãe, que era considerada pessoa da família. Disse que ligaria no dia seguinte, porque estava saindo agora e não sabia a hora em que iria voltar. Dizendo isso eliminava a possibilidade do pai retornar a ligação, já que ele era um tremendo pão-duro e jamais ligaria em seu celular. Acreditando que Patrícia já estivesse nos braços de Iara - o que era de se esperar, por não ter aceitado a sua companhia - ela decidiu ligar pra dona Marta, apenas para desejar boa noite. Não era a primeira e nem seria a última vez que fazia isso. Já haviam batido longos papos em momentos que Patty não estava em casa, e dona Marta sempre fora muito agradável com ela. Fez questão de não perguntar por Patrícia. Ainda assim, soube que ela estava no banho e imaginou que deveria estar se embonecando pra Iara. “Não faz mal... Mas sinto que estou começando a me acostumar sem ela... e não é isso o que eu quero!” - pensou, enquanto se despedia de dona Marta. Para não ficar em casa sozinha, se lamuriando por Patty, ela decidiu entrar em contato com Marilza. Não deixaria uma noite de sexta-feira passar impune assim. Foi rápida. Logo que combinaram a hora em que a pegaria na porta do seu hotel, desligou. Iriam a uma casa de eventos que, em noites livres dos mesmos, se transformava em um agradável e sofisticado ambiente. Apenas uma vez Cíntia havia ido lá. Por ser afastado da cidade, se tornara um local de pouco movimento. Por isso, os freqüentadores se sentiam privilegiados com o atendimento personalizado. Pagava-se caro por isso, mas valia à pena. Cíntia achou que hoje era o dia certo pra fazer essa extravagância. Pela quantidade de carros estacionados, Cíntia reparou que muitas pessoas tinham tido a mesma idéia, porque o local estava lotado! Ao se sentarem, Marilza logo a avisou de algumas mudanças em seus planos recentes: ––– Foi muito bom você me ligar hoje, porque estou indo embora amanhã pela manhã... ––– Sério? Mas que pena... Cheguei a pensar que nos veríamos neste fim de semana! – exclamou Cíntia. ––– Já concluí a primeira parte do meu trabalho aqui. Vou agora passar alguns dias em casa e, claro, conversar com meus superiores sobre os estudos que fiz aqui. Devo voltar logo para dar andamento aos trabalhos. Aí, então, devo passar bem mais que alguns meses aqui – concluiu cheia de segundas intenções. Nesse momento, o celular de Cíntia tocou. Pedindo mil desculpas, ela o atendeu. Era Patrícia. ––– Alô! (...) Sim, mas quando liguei eu não podia saber... (...) Estou com uma amiga (...) sim, você a conhece, é a Marilza. (...) Você não aceitou, quando eu te convidei (...). Por favor, não me pergunte se eu quero que você venha. Pergunte-se se você quer vir e faça a sua vontade, Patty. (...) Tá bom! Estou naquela casa de eventos, aqui na BR. Tchau! Marilza apenas a olhou com aquela cara de “Já entendi tudo”. E Cíntia, novamente se desculpou: ––– Geralmente, eu desligo o celular. Hoje eu me esqueci de fazer isso... Sinceramente! E me desculpa também por não ter conseguido dizer não para Patty, que está vindo aí. ––– Vocês precisam parar de brincar de “gata e rata” e assumir logo essa paixão! - foi a resposta de Marilza. ––– Que nada!... Ela não sente nada disso por mim. É apaixonada por Iara, isto sim! –––Vocês duas estão cegas e, por isso, não enxergam a eletricidade que passa de uma pra outra. Eu observei isso da primeira vez que as vi juntas. ––– Não, Marilza! Lamento te informar que estás enganada! Ela só me vê como amiga. ––– OK! Não digo mais nada. Mas um dia você vai me contar o final dessa história – disse já conformada com a impossibilidade de ter uma relação mais íntima com Cíntia – e agora só nos resta esperar pela chegada dela. ––– Sim, mas ela é ótima companhia, Marilza, não fica acanhada com a presença dela. ––– Já me acostumei com a presença dela, Cíntia. Acho que nunca te vi, sem que ela estivesse por perto. Já que são “gêmeas siamesas”, providenciarei mais um pratinho – concluiu sorrindo da própria piada. A partir daí, só falaram a respeito do trabalho de Marilza. E Cíntia estava tão ansiosa com a chegada de Patrícia, que ouvia sem muito opinar, apenas fazendo uma ou outra interrogação sem importância. “Patty não devia demorar a chegar, porque já se passaram vinte minutos desde a sua ligação!” Sentia a mesma expectativa que se sente às vésperas de um primeiro encontro. “Por que será que ela está demorando tanto?” Ela contava todos os minutos, como sempre! Até quando ia para o trabalho ela se sentia assim, ansiosa, só por estar prestes a vê-la.
Escrito por MariaN às 18h23
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Patrícia Capítulo 52 
Meia hora depois, doutor Salles passou pelos estagiários, despediu-se e saiu. Oficialmente, o expediente do dia começava agora. Cíntia e Patty também saíram da sala onde estavam. Cada uma foi para sua mesa, como se nada tivesse mudado. Pegaram as chaves nas bolsas e saíram. Érica tentou trocar um olhar com Vítor, mas ele estava tão entretido no computador, que ela teve que se contentar em fazer uma careta sozinha. Alguns minutos depois,as duas entravam conversando e carregando uma caixa pequena. Eram as coisas de Patty que Cíntia havia retirado das gavetas no início da semana e deixado no porta-malas. ––– Não, Cín, hoje só vou organizar minhas coisas aqui. Como já é sexta-feira, mal vou conseguir dar início às mudanças autorizadas. O grosso do trabalho e a rotina braba, só mesmo na segunda-feira. Aí, sim, vamos ver que tipo de mudanças nós faremos. ––– Muito bom saber que amanhã já é sábado. Que semana complicada, né? - falou Cíntia com um ar de quem está recordando cenas passadas, já com o pé no final de semana. ––– E de mudanças. Precisamos comemorar, Cin... – completou Patty - mas antes de qualquer coisa... tchan-tchan-tchan, vou ligar pra dona Marta, a minha super heroína! E hoje ela não me escapa! Vou convencê-la a sair com a gente pra jantar! Não! Pra almoçar.... Você aceita, Cín? Cíntia aceitou, e ela fez a ligação. Érica apenas filmava tudo isso, com uma ponta de raiva e outra de medo. Quando o telefone tocou, dona Marta estava conversando com dona Nice, sua colaboradora semanal. ––– Pois é, Nice... Agora eu não sei como vai ser o futuro da minha filha quando esse homem voltar pro trabalho. Ela me disse que devo ficar tranqüila... Que tudo vai acabar bem... Mas olha só, quem lutou igual a uma louca pra ver a menina formada e com um bom trabalho, fui eu. Não fico sossegada enquanto tudo isso não acabar... ––– Alô... (...) Sou eu, minha filha... (...) repete tudo, porque você está falando muito rápido... (...) Você agora é a chefa do escritório? (...) Tá bom, Patty... Graças a Deus! (...) Tchau!! ................................................................................................... Nesse momento, Hélio colocava duas maletas no carro e saía de casa. Deixara um cheque com Vera, como pagamento pelo último mês de trabalho dela. Sabia que teria de complementar a quantia depois que o contador refizesse os cálculos, mas pelo menos a mulher poderia arcar com seus compromissos financeiros e seguir a vida até ele voltar de viagem. Antes de pegar a estrada teria que passar em dois lugares. Ligou para o celular do filho antes de entrar no carro. Como este não atendeu, devia estar em aula, ele ligou para o de Iara. ––– Iara sou eu, Hélio. (...) sim, eu gostaria de falar com você e com o Rodrigo. (...) É que eu preciso fazer uma viagem, mas quero dar um beijo nele antes. (...) E em que restaurante você pretende almoçar com ele? (...) OK, eu estarei lá também. Até mais!
Todos se surpreenderam um pouco quando ele entrou pela porta do escritório. Foi exatamente no momento em que Patrícia se despedia da mãe, ao telefone. ––– Bom dia a todos – ele disse. Todos responderam em uníssono. E ele, sem toda aquela empáfia, disse a que veio: ––– Eu preciso pegar algumas coisas pessoais na minha ex-sala, doutora Patrícia... Eu poderia fazer isso agora? ––– Claro que sim, doutor ! Fique à vontade! Se precisar de ajuda, pode contar com qualquer um de nós – respondeu Patty. ––– Érica... Você pode me ajudar aqui? ––– Sim... – respondeu ela, baixinho. Ele fechou a porta atrás deles e por lá ficaram uns dez minutos. Então, ela saiu, pegou algumas sacolas no banheiro e voltou a entrar. Quando apareceram de novo, ela carregava duas sacolas, que colocou num cantinho perto da sua mesa e ele, apenas uma pasta. ––– Então é isso... Tenham um bom dia de trabalho! E assim, ele saiu sem olhar pra trás. Patty e Cín trocaram mais um de seus famosos olhares e nada disseram. Érica logo justificou as sacolas no chão, perto da mesa: ––– Ele me pediu pra entregar lá na casa dele. Farei isso na hora do almoço. – disse, meio sem graça. Ninguém disse mais nada, e elas voltaram a falar de trabalho. ....................................................................................................................... Hélio chegou ao restaurante e já encontrou Iara e Rodrigo à sua espera, tomavam água e suco, respectivamente. Cumprimentou Iara sem tocá-la e deu um beijo no filho. ––– Vocês já fizeram os pedidos? – perguntou, já olhando o cardápio e sabendo que a resposta seria negativa. ––– Pai, minha mãe disse que você vai viajar... Por que não espera pelas minhas férias, pra eu poder ir junto? ––– É uma viagem de trabalho, meu filho. Mas, quando você estiver de férias, vai ganhar uma bela viagem... Você quer ir pra onde? Iara resolveu intervir nessa hora: ––– Hélio, não promete nada, por favor.... Depois você não cumpre, e eu é que agüento! ––– Desta vez é muito sério, Iara. Vou dar este presente pro meu filhão. E aí, tá indo bem na escola? A conversa se estendeu por vários campos, enquanto eles almoçavam. Rodrigo ganhou a viagem para Disney, com direito a levar a mãe como acompanhante e, no final, ele contou o que acontecera. Resumindo: ––– Sua amiga me tomou ‘também’ o lugar no escritório. Agora tenho que esperar a finalização da obra em Rio sem Fim, onde fui lotado. Como ainda vai demorar uns dois ou três meses, vou fazer essa viagem, botar a cabeça no lugar e depois devo trabalhar um tempo no escritório central. E é isso. E com você, tudo bem? Alguma novidade? A princípio, Iara estranhou a pergunta feita de forma tão natural. Pelo jeito, Hélio havia mudado muito. Estava falando devagar, num tom tranqüilo. Não era aquele homem raivoso dos últimos encontros. Por isso, Iara respeitou esse momento dele: ––– Aconteceu assim porque tinha que ser, Hélio. Tenho percebido que a vida dá mais voltas do que eu imaginava. E quase nunca as coisas são como a gente gostaria que fossem. Sim, comigo está tudo indo bem... Muitas mudanças, mas logo tudo se encaixa de novo. E eu vou ficar aqui, torcendo pra que tudo dê certo pra você também na sua nova vida. De coração... Ele respondeu todo reticente: ––– Obrigado, Iara... Apesar de todas as nossas desavenças, do divórcio e tudo o mais, eu tenho que te agradecer sempre por este filho maravilhoso que você me deu... Iara não acreditava na transformação do ex-marido. Ela quase podia ver o rapaz com quem se casara. Naquela época, ele era assim, mais doce, menos arrogante... Rodrigo aproveitou o silêncio que fizeram, pra dar uma idéia genial: ––– Por que vocês não se casam de novo? Todos riram, mas coube à Iara a tarefa de tirar isso da sua cabeça: ––– Não dá mais certo, meu filho... Como amigos a gente até consegue sorrir... Antes era muito complicado, você deve se lembrar... ––– É, eu lembro... Então, deixa assim, né, pai? O restante do almoço transcorreu com essa mesma paz. Não muito longe dali, três sorridentes mulheres também brindavam a um novo tempo que, elas acreditavam, seria de muita paz. Patrícia, apesar de estar muito contente com a promoção e tudo o que a acompanhava, como o aumento de salário e outros benefícios, não se sentia totalmente feliz. Sua mãe e Cíntia sabiam disso. E foi dona Marta quem falou, assim que percebeu que o olhar de Patty como que viajou um pouco, antes de sorrir para as duas. ––– Você já ligou para a Iara pra contar sobre a sua promoção? ––– Ainda não, mãe... E nem sei se vou fazer isso hoje. Tem tempo... Cíntia continuou calada, apenas comendo o peixe com alcaparras e legumes no vapor que o garçom acabara de lhe servir. ––– É, eu sei, minha filha. Mas algumas coisas a gente precisa criar coragem e resolver logo, por mais que machuque o peito da gente – disse com sabedoria. A partir desse ponto, não mais falaram nada que pudesse desencavar lembranças desagradáveis. Ao final, Patty levou a mãe pra casa e voltou pro trabalho com Cintia ao seu lado. ––– Cíntia, eu te confesso que fico um pouco assustada quando penso na rapidez com que muitas coisas aconteceram na minha vida. ––– Nossa, mas você lutou tanto e trabalhou muito para receber esse reconhecimento! Não foi assim, tão rápido... ––– Nesse ponto eu até concordo com você. Mesmo sabendo que sou muito nova ainda pra já estar no cargo que alcancei hoje. ––– O que importa é a competência, Patty. Do contrário, eles teriam trazido alguém lá da Central pra ocupar o lugar do Hélio... Ou teriam simplesmente te demitido. ––– Pode ser, Cín... Pode ser... E Patrícia continuou com o olhar vago. Cíntia não entendeu que ela falava da vida pessoal também. “É, parece que ela não se interessa mais por mim... Ela só está vendo o trabalho...” pensou, já chegando à rua onde se localizava o escritório. O resto do dia passou sem outras novidades e, saindo dali, Patty foi pra casa. Cíntia ainda a convidou para um happy-hour, mas ela não se sentiu à vontade pra aceitar. Precisava conversar com Iara. Portanto, achou melhor ir para casa tentar contato. Estava muito confusa. Tinha receio que essa crise não fosse apenas isso. Ao mesmo tempo, preparava-se para encarar qualquer reação que viesse de Iara. Aquelas duas discussões do dia anterior ainda a estavam perturbando muito. Ao terminar o banho, estava decidida a ligar para Iara. E assim o fez. Passava um pouco das sete da noite, ela deveria estar em casa e, se bem conhecia seus hábitos, também saindo do banho. Depois de vários toques, Iara atendeu. Havia um burburinho em volta dificultando a ligação. ––– Sim, sou eu, Iara. (...) Mas como? Não aparece o meu nome no visor, quando eu ligo? Onde é que você está? (...) Tudo bem, entendi... Quando você puder e se ainda quiser, me liga! Patrícia desligou o telefone com raiva e o jogou em cima da cama. “Se arrependimento matasse! Ontem eu disse que iria esperar que ela me ligasse, quando quisesse conversar e, agora, faço uma palhaçada dessas! Tomou bem no meio da lata, sua idiota!!” Enfurecida e sem querer acreditar nessa história de que Iara estivesse com “uma amiga”, ela foi pra sala, sentou-se no sofá ao lado da mãe e ficou quieta, com cara de emburrada. Dona marta conhecia bem a filha. Ficou calada por um tempo e depois disse como se fosse casualmente: ––– Quando você estava no banho, a Cíntia ligou aqui em casa e falou comigo... Patrícia olhou pra ela, esperando que ela fosse dar algum recado. Mas... –––... contou que estava doida pra contar aos pais sobre as mudanças no trabalho, mas como não conseguiu falar com eles, se lembrou de mim. Ela está bem alegre, né, filha? – Sem esperar resposta, ela continuou – Aquela menina tem um coração tão bom! Eu gosto muito dela... ––– Ela não deixou recado pra eu ligar, mãe? ––– Não... Ela disse que estava indo se encontrar com uma amiga pra comemorar. Isso é o que ela disse... Patrícia fez uma cara de quem comeu e não gostou, e dona Marta pensou, divertindo-se: “Consegui o que eu queria. Não dou nem dois minutos e ela vai ligar”. Dito e feito. Logo Patty se levantou e foi para o quarto.
Escrito por MariaN às 22h59
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