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Conto de Meninas - UOL Blog



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BRASIL, Centro-Oeste, GOIANIA, Mulher, de 46 a 55 anos, Portuguese



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Conto de Meninas


Patrícia

Capítulo 57



Patrícia ainda a olhava sem entender nada, mas decidiu se antecipar a ela e tocar logo no assunto que certamente as trouxera ali. Fosse o que fosse que ela tivesse pra dizer, teria primeiro que ouvir. 
––– Iara, tudo o que falamos ontem à noite foi muito sério. Não acho que tomarmos um belo café da manhã juntas, sem um bom diálogo, seja suficiente para apagar o que aconteceu.
Iara se aproximou devagar:
––– Quero te pedir perdão, Patty. Dormi muito mal esta noite. Pensei demais na gente e concluí que fui uma louca insensível ontem. Eu menti quando disse que só amava o que você representa... Eu te quero comigo... Desculpa a minha falta de jeito, por favor...
Patrícia a olhou sem vê-la. O que via em sua frente eram palavras soltas formando a frase mais odiosa que ela ouviu daquela boca que tanto desejara. Ela não conseguia esquecer que Iara falara em amor de momento... Esta mesma mulher que agora se aproximava, implorando perdão... Esta mulher que a envolvia com maestria e lhe beijava o pescoço, dava pequenos chupões na sua orelha e nos seus ombros... Respirava junto a sua pele deixando-a vesga de tanto tesão. De repente, ela já estava deitada com Iara por cima dela, mas os pensamentos voejantes não permitiam a entrega total e sem restrições, como sempre fora: “Amanhã ela vai fazer tudo de novo: desprezar os meus planos de ficarmos juntas, dizer que adora ficar do meu lado e fazer amor comigo, mas não pode assumir uma relação... Também não pode morar junto por causa do pai e do filho e do espírito santo, amém... Vai voltar a me chamar de infantil, quando eu quiser sua companhia apenas para tomar um sorvete... Vai me tratar com frieza e até com ironia quando eu perguntar se ela me ama... e vai exigir que eu peça desculpas o tempo todo quando algo não lhe agradar...”
A essa altura as roupas de Patty já estavam jogadas pelo chão, Iara beijava sua barriga e descia...
––– Chega, Iara – Foi quase um sussurro, mas o tom de voz espantou Iara, que a olhou sem entender nada e estancou de chofre.
––– O que houve Patty? Você nunca foi de dar chiliques nesta hora?
––– Isto não é um chilique! Eu simplesmente não quero mais!
––– Como assim, não quer mais? Ainda ontem chorou quando nós chegamos ao ponto de quase rompermos! Sinceramente, não estou te entendendo!
Patrícia se levantou rapidamente, quase batendo a perna no rosto de Iara que ainda estava na mesma posição, apanhou suas roupas no chão e as vestiu, enquanto desabafava.
––– Sabe por que eu não deixei que você fosse me buscar em casa agora, quando você ligou?
––– Não. E que importância tem isso?
––– Tem muita importância pra mim... já que eu quero continuar te mostrando a Patrícia verdadeira... Fiz questão de vir ao seu encontro, porque eu estava na casa da Cíntia na hora em que você ligou. Eu dormi na casa dela esta noite.
O rosto de Iara adquiriu a cor de um tomate maduro e seus olhos praticamente soltaram fogo:
––– Então você confessa que me traía com ela este tempo todo!
––– Não. Eu nunca te traí com ela e nem com ninguém, Iara! Ontem, depois que você me deixou lá, chorando feito uma desesperada, ela veio me dar uma força... Queria me levar pra minha casa, mas eu achei melhor não deixar minha mãe me ver com os olhos inchados de chorar por sua causa.
––– Agora é que eu não acredito mesmo em você! – gritou Iara.
Patrícia, muito controlada, revidou:
––– Você pode continuar não acreditando, mas esta noite, sim, eu me aconcheguei nela... Mas foi apenas para conseguir dormir sossegada e pra aquecer minha alma, já que ontem você me tirou toda a paz de espírito. Agora eu te confesso, sem medo do seu julgamento, que só não transei com a Cíntia esta noite, porque ela fingiu que estava dormindo quando eu deitei ao seu lado...
––– E ainda tem coragem de se passar por santinha!
––– Santinha ou ‘capetinha’, sei que estou sendo muito verdadeira com você! Aliás, como sempre fui! – deu uma pequena pausa e perguntou - E se você nunca acreditou em mim, por que ficou comigo todos esses meses?
––– Por que eu acreditava quando você me dizia que me amava!
–––Esta é a grande diferença entre nós duas. Eu fiquei com você por que EU te amava! E não porque VOCÊ me amava! Ou será que eu me enganei, e o que eu sentia era apenas excesso de carência?
Iara, apesar das palavras de Patty, estava louca para fazer as pazes e voltar à segurança amorosa de antes. Por isso, mudou de tática na intenção de reconquistar a mulher que, de repente, teimava em se mostrar irônica.
––– Patrícia, você só está querendo se vingar de mim... Venha cá, vamos parar com isso... Vamos retomar nossos planos...
––– Que planos, Iara? Você nunca planejou nada comigo! Hoje eu sei que eu vivi sozinha todo esse sentimento... Você apenas deitava e rolava na certeza de que era amada por mim...
––– Patrícia, ouça-me, por favor... Eu quero tentar de novo... Você não quer me dar uma outra chance?
––– Tá certo, Iara. Vou te dar essa chance... Hoje é sábado, temos o dia todo. Podemos tomar o nosso maravilhoso café... Depois vamos fazer amor como duas desvairadas... Você está pronta para finalmente assumir comigo “os nossos planos”?
––– Claro, meu amor. Por isso eu vim te pedir perdão.
––– Então, ficamos combinadas assim: depois do décimo orgasmo e de dez minutos de descanso, a gente toma banho, se arruma e vai direto para uma imobiliária procurar um apartamento. Sim, porque se você quer mesmo vivenciar comigo os meus planos de ter uma vida feliz, saiba que morar junto é um deles.
Iara empalideceu. Sentiu as pernas tremerem e não era de tesão. As palavras saíram meio emboladas:
––– Espera, Patty... Va-vamos com calma... Vamos primeiro curtir este momento, depois a gente pensa nessas coisas práticas.
Patrícia apenas olhou para Iara e pensou: “Eu já sabia! Ela já está tentando me enrolar de novo! será que ela ainda não entendeu que eu sou moça pra casar” riu-se pra não chorar do próprio pensamento. Imediatamente, engrossou a voz e praticamente gritou:
––– Iara, eu sou uma mulher séria, tenho sentimentos sérios... Não brinca assim comigo! Você acabou de dizer que quer retomar os nossos planos? Por falar nisso... Quais são os planos que VOCÊ TEM COMIGO? Você se vê ao meu lado daqui a cinco anos? Tenta me responder algo de forma bem prática, sem rodeios.
––– Lá vem você mais uma vez querendo antecipar às coisas... Podemos resolver tudo isso sem tanta pressão...
Patrícia, porém, estava decidida e deu-lhe um ultimato:
––– Pensa nisso e me procura depois! Mas eu não vou esperar por muito tempo, porque quero construir minha vida com amor, casamento, filhos... Quero tudo a que tenho direito...
––– Ah, você está delirando... Por que tanta exigência, de repente?
––– Iara, quer saber? Pra mim, chega! Faz o seguinte: nem me procure, porque eu já sei a sua resposta. Agora eu vou sair daqui e não quero ninguém atrás de mim. Não entre “numas” de ficar preocupada, porque eu sei me cuidar muito bem sozinha!
Dizendo isso, Patty encaminhou-se para a porta, Iara, porém a impediu:
––– Patty, não faz assim... Vamos tomar nosso café e conversar com calma...
Quando ela viu que Patrícia não lhe dava ouvidos e já abria a porta para sair, ainda gritou:
––– Tá bom, Patty, mas deixa eu te levar de volta ao lugar onde te peguei, não seja tão turrona... Espere por mim...
Patrícia saiu pelo portão do motel sem dar atenção ao recepcionista, que tentava lhe dar o recado de Iara:
––– Senhorita, sua amiga pede que a espere. Ela está acertando a conta para sair...
Patty ignorou-o totalmente. Chegando à rua, virou à esquerda e começou a caminhar atenta para o possível surgimento de um táxi. Depois de uns três minutos avistou um e fez sinal. Em menos de cinco minutos estava dentro do seu carro, indo pra casa. Dona Marta quis saber o que se passara pra ela ter dormido fora de casa, e ela respondeu a verdade, dizendo que havia se encontrado com Iara por acaso e tiveram uma conversa desagradável. Por esse motivo, ela preferiu ficar conversando com a Cíntia. A mãe fez cara de quem não acreditou muito, mas deixou por isso mesmo.
Nesse mesmo dia, Cíntia foi buscar seu carro no estacionamento do hotel. Encontrou dentro um bilhete de Marilza lhe desejando boa sorte com Patrícia. Iara jantou com Vânia, mas não lhe contou do encontro com Patty naquela manhã. Patrícia locou dois filmes e passou todo o restante do final de semana sem sair de casa.

 



Escrito por MariaN às 21h55
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Patrícia 

Capítulo 56

 

Algum tempo depois que Patty e Iara passaram por ela, Cíntia não conseguiu esconder o nervosismo. Abriu-se com Marilza e recebeu o apoio que precisava.
––– Talvez elas até já tenham ido embora para conversar em outro lugar, mas eu preciso saber se Patty precisa de mim.
––– E se elas ainda estiverem aqui, o que você vai fazer? – perguntou Marilza, disposta ajudá-la.
––– Ainda não sei, mas preciso estar por perto... Eu tenho uma idéia: vou lá fora procurar por Patty. Se eu não voltar, você vai embora com o meu carro. Deixe-o no estacionamento do seu hotel, que eu dou um jeito de buscar amanhã.
––– Combinado. Vai à luta pelo seu amor, moça!
Cíntia deu-lhe um beijo no rosto e saiu dali para resgatar a mulher amada. Pelo menos, era isso que ela pensava ao sair de perto de Marilza. Quando chegou ao estacionamento, começou a andar entre as fileiras de carros, procurando o de Patrícia. Nesse momento, ela viu um vulto a umas três fileiras de onde estava. Olhou melhor e reconheceu Iara, que se dirigia a outro ponto do estacionamento. Deduziu que Patty estava ali, de onde ela havia saído, e foi até lá.
Patrícia estava com a cabeça apoiada no volante e não viu que ela se aproximava. Então, Cíntia abriu a porta, que há pouco fora fechada por Iara, e se sentou ao seu lado. Ela levantou a cabeça ao mesmo tempo em que dizia:
––– Não quero ouvir... – calou-se ao ver Cíntia do seu lado e recomeçou a chorar, mantendo o olhar baixo.
Ajeitando-se melhor para ficar de frente para ela, Cíntia estendeu-lhe as duas mãos.
––– Vem, deixa eu te ajudar a sair dessa, Patty...
Entregando-lhe uma mão, que Cíntia acolheu entre as suas, ela disse, entre lágrimas:
––– Por que ela brincou assim comigo, Cín? Aquela mulher não tem coração... – e voltou a chorar copiosamente.
Cíntia envolveu-a em seus braços e deixou que ela chorasse por alguns minutos.
––– Deixa eu te levar pra casa... Em segurança e deitadinha na sua cama você vai se sentir melhor.
Patty, com a cabeça em seu ombro, não se mexeu. Cíntia sentia as lágrimas que ela derramava molhando sua blusa. Esperou mais um tempo e insistiu:
––– Vamos, Patty... Eu dou a volta, e você vem pra esse lado, tá bom? – foi se soltando dela e saiu para entrar pela outra porta e assumir a direção. Quando chegou do outro lado, Patty estava do mesmo jeito: imóvel e chorando. “Acho que vou ter que carregar essa mulher”, pensou. Mas foi com palavras e muita delicadeza que conseguiu fazer com que ela se movesse.
––– Vamos, gata... Senta lá... Eu vou te levar pra casa... Não podemos ficar aqui no estacionamento a noite toda... Além do mais, está esfriando muito... Vamos?
Finalmente, Patty secou um pouco as lágrimas do rosto com um lenço de papel e mudou de banco no carro. Assim, Cíntia pode entrar e sentar-se atrás do volante e colocar o carro em movimento. Patrícia seguia calada, mas ao chegarem a determinado ponto do caminho, ela fez um pedido:
––– Cín, não quero ir pra casa. Minha mãe vai fazer muitas perguntas e eu não estou com muito saco pra responder... Quero ir pra sua casa... Você me leva?
Cíntia se surpreendeu, mas concordou imediatamente.
––– Sim, eu te levo... Mas chegando lá eu ligo pra dona Marta, só pra ela não ficar preocupada, ok?
Patrícia apenas assentiu com um balançar de cabeça e voltou ao seu mundo de lágrimas silenciosas.
Cíntia guardou o carro de Patty na vaga do seu e subiram em silêncio. Ela entrou na frente e foi para o quarto, ao mesmo tempo em que dizia:
––– Fique à vontade, Patty. Vou pegar um pijama meu pra você usar, lençóis para você se ajeitar aqui no sofá e uma toalha...
Ao olhar pra trás, viu que Patrícia já estava toda encolhida no sofá. Não resistiu e foi até lá. Ajoelhou-se no chão de frente pra ela e, passando a mão em seu rosto, sugeriu:
––– Hei, menina, venha tomar um banho antes de se jogar assim... A gente estava num lugar cheio de pessoas fumando... Vem, vamos tirar essa inhaca... – completou sorrindo.
Infelizmente, isso não fez Patty reagir. Cíntia achou melhor dar-lhe um tempo. Foi então para o banheiro e tomou um banho rápido. Voltou já de pijama, pensando em ligar pra dona Marta. Antes de fazer isso, porém, viu que Patty estava virando uma lata de cerveja. Foi até ela e, com muita calma, tirou-a de suas mãos.
––– Patty, você pode até encher a cara, se quiser, mas não agora. Amanhã, depois que passar essa raiva inicial, você decide qual caminho tomar: ou você vai lutar para esquecê-la, ou para reconquistá-la. Venha, depois de um banho a gente sempre se sente melhor...
––– Ah, Cín, me deixa fazer o que eu quiser! Foi justamente por este motivo que eu não quis ir pra casa: para não ter que agüentar encheção de saco de ninguém. Eu quero sofrer, entendeu? Você pode me deixar sofrer, por favor!
A agressividade de Patrícia fez Cíntia recuar e desistir de tentar ajudá-la. Se ela queria assim, então seria assim.
–––Tudo bem, Patty! Faça o que você quiser. Eu vou pra cama. Antes disso, porém, vou ligar pra sua mãe. Deixei roupa e toalha no banheiro. Fique à vontade! Boa noite!
E assim ela fez! A ligação foi rápida e logo tudo ficou silencioso. Ela percebeu que Patty colocara música bem baixinha e logo depois ouviu o barulho de uma lata sendo aberta. Aos poucos, ela relaxou e deixou de ouvir qualquer movimento de Patrícia na sala. Finalmente dormiu. Despertou algum tempo depois, sentindo a presença de Patty na cama. Ela se deitou ao seu lado e se aproximou abraçando Cíntia por trás, bem devagarzinho. Cíntia fingiu dormir e sentiu que aos poucos o corpo de Patty esquentava com o calor do seu. Mesmo por sobre o pijama que Patty usava, Cíntia pôde sentir novamente o contado de sua pele, e sentiu todo o amor e tesão que sentia por ela se acenderem novamente, tornando-se ainda mais vivos do que antes. Não demorou muito e notou que Patrícia adormecera, por causa da mudança de ritmo em sua respiração. Com um sorriso nos lábios, Cíntia também dormiu.
Ela acordou com o som distante da voz de Patty, que falava ao telefone.
Desde a noite anterior, Patrícia deixara o celular no modo vibra call. Ao se deitar, levara-o consigo. Por isso, sentiu quando ele tocou. Para não acordar Cíntia, ela se levantou e atendeu Iara na sala.
––– Você deve estar brincando comigo, Iara! Espera, porque eu preciso repetir o que você disse, pra ver se consigo digerir melhor. Quer que eu vá tomar café da manhã com você, para que possa se desculpar pelo que me falou ontem à noite? Acho que você pirou de vez! Eu não vou! (...) (...) (...) Não adianta insistir, porque eu não vou me prestar a esse papelão. Você teve chance de falar o que queria ontem. (...) (...) (...) Ah, não sei, Iara... (...) Você fica insistindo... Eu não quero ir... (...) (...) Não, não precisa vir me pegar em casa... (...) Eu vou ao seu encontro... Tá, daqui a meia hora...
Em seguida Patty entrou no banho, tomou uma ducha em tempo recorde, vestiu a roupa, foi ao quarto, olhou carinhosamente para Cíntia, que fingia dormir e saiu.
Sem poder se controlar, Cíntia sentiu lágrimas deslizarem pelo seu rosto. Teve a mulher amada em sua cama por uma noite inteira e respeitou o seu momento de dor, agora a outra liga e ela sai correndo. “Será que vai começar tudo de novo? Será que estou disposta a cumprir o papel de amiguinha para todo o sempre, amém?” E ela pensava na resposta, enquanto se levantava e ia pra cozinha preparar o seu café solitário.

Patrícia chegou ao estacionamento do maior shopping da cidade, e Iara já estava à sua espera. Como ainda era muito cedo, e o shopping ainda não abrira suas portas ao público, Iara conseguiu duas vagas juntas, como da primeira vez em que estiveram ali, só que em posições invertidas. Patty parou ao seu lado, Iara fez sinal para que viesse até ela. Patrícia desceu do seu carro e entrou no dela, sem contestar.
––– Bom dia...
––– Bom dia... Obrigada por ter vindo – respondeu, dando-lhe um beijo de leve, nos lábios. – trancou seu carro? – diante da resposta negativa, ela disse: - Então, tranque, porque vou te levar pra tomar um belo café da manhã.
Patrícia não disse nada. Apenas fez o que ela pedira. Sentia seu coração franzino, triste devido aos últimos acontecimentos e gangorreando “entre o quero e o não queria”. De repente, várias dúvidas assaltaram-na e ela não sabia mais se esta mulher ao seu lado era a mesma pela qual o seu coração já batera tão forte. Algo estava errado. “Ou muito certo, finalmente” pensou, enquanto Iara entrava no melhor motel da cidade. Nada disse até que estivessem dentro do apartamento.
––– Iara, – disse se sentando na cama – por que você me trouxe até aqui?
––– Espere e verá – respondeu uma Iara sorridente, e certa de estar fazendo a coisa certa, com romantismo e dedicação, pegou o interfone e pediu:
––– Por favor, me traga o mais completo café da manhã do cardápio de vocês. (...) em quanto tempo? Quinze minutos? Obrigada!



Escrito por MariaN às 23h37
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Patrícia

Capítulo 55

Com passos firmes, mas graciosos, Patty caminhou em direção à mesa delas. Com um semblante determinado de quem sabe o que vai fazer, aproximou-se e, educadamente, cumprimentou ambas. Não esperou resposta ao seu cumprimento e já foi dizendo tudo o que queria de uma vez só:
––– Boa noite! Boa noite, Iara, tudo bem? Quero conversar com você e este é o momento certo. Se o deixarmos passar, corremos o risco de acumularmos muitas mágoas, o que tornaria qualquer diálogo inviável.
Iara recuperou-se do choque inicial tentando parecer natural:
––– Ah, deixe-me apresentar vocês duas: Vânia, Patty/Patty, Vânia...
As duas apenas balançaram a cabeça em sinal uma pra outra, sem qualquer desejo de dizer a famosa expressão ‘muito prazer’.
––– Podemos ir lá fora, Iara, ou prefere que eu me sente aqui com vocês?
––– Você me chama lá pra fora, como se estivesse chamando pra briga! Que coisa infantil!
––– Infantil é o seu comportamento! Se quiser ficar “de mal”, fique! Mas antes encare a situação. Vou te esperar lá fora!
Virou as costas e saiu. Passou por Cíntia sem olhar e seguiu seu caminho.
Na mesa, Iara pedia desculpas a Vânia:
–– -  Espero que você me entenda, mas eu preciso ir lá. Prometo não me demorar, tá bom?
––– Vamos fazer diferente: você me procura depois... Eu acerto a conta aqui e vou pra casa... Essa conversa entre vocês não será tão rapidinha como você pensa.
––– Promete não ficar chateada comigo por causa dessa confusão toda? – perguntou Iara. E seu receio era sincero. Ela havia gostado mesmo do jeito franco e decidido de Vânia.
––– Só posso te prometer que vou pensar nisso quando você me procurar com boas notícias. Agora, vai lá, que ela está te esperando. Tenha uma boa noite!
–– Sim, eu vou... Obrigada e me desculpe por isso... – E Iara se levantou e foi saindo devagar, como se carregasse um mundo de culpas em suas costas.
Patrícia a esperava, sentada num pequeno banco de madeira junto ao estacionamento. Como havia homens de uma empresa de segurança transitando constantemente e a iluminação era intensa, não havia motivos para preocupação com abordagens inconvenientes. Iara sentou-se ao seu lado e acendeu um cigarro ainda em silêncio. Patrícia, que enquanto a esperava não atinou de se preparar para a conversa, permaneceu calada, aguardando que Iara desse início ao diálogo. Como isso não aconteceu nos dois minutos seguintes e o silêncio pesado começava a incomodá-la, Patty deu início àquela que talvez fosse a conversa mais definitiva entre as duas. Começou devagar e com calma, escolhendo bem as palavras:
––– Quando eu te conheci, eu tive certeza de que a partir dali eu viveria os momentos mais apaixonados e apaixonantes da minha vida. Agora, depois de alguns meses, eu já não sei o que pensar...
––– Claro que não sabe, porque não sabe o que quer! - Iara a interrompeu sem pedir licença. - Só porque eu disse que não queria me expor diante dos chefes do meu ex-marido, rapidinho você providenciou uma substituta pra mim!
––– Iara, eu estou tentando chegar ao ponto em que nossa relação descarrilou e se transformou nesse trem desgovernado que é hoje... Eu acredito que, chegando neste determinado ponto, nós duas juntas vamos recuperar o fio da meada e, igual ao super-homem, poderemos mudar o rumo da nossa história. Tente entender que eu não preciso te pedir desculpas por absolutamente nada! Eu volto a afirmar que nunca te traí!
Como se não tivesse ouvido, Iara continuou na mesma tecla:
––– Isso significa que a errada nessa história sou eu? Você me trai com aquelazinha lá, e eu é que preciso pedir perdão? – gritou Iara.
––– Por que será que você só pega o lado negativo do que eu digo? Não deu a menor importância quando eu disse que quero refazer o caminho de volta pra ver onde erramos, pra tentarmos corrigir...
––– Lá vem você fazendo o papel de boa moça, de certinha... Eu não estou agüentando mais isso! – explodiu Iara. Perdendo a paciência, Patty respondeu, quase gritando também, enquanto se levantava:
––– Venha comigo até o carro, porque desse jeito não será mesmo possível ter uma conversa civilizada com você! Lá dentro você pode gritar à vontade! “Espero que a gente não exagere nos gritos, porque senão os guardas podem nos ouvir e isso não vai ser legal”, pensou Patty enquanto chegava ao carro.
Quando Iara pensou em negar esta ordem, já era tarde, porque Patty ia longe. Sem outra opção, ela a seguiu. Quando ambas já estavam sentadas e acomodadas no carro, Patty foi a primeira a falar, regulando o tom de voz para o volume mais baixo que podia, dentro do estresse da situação:
––– Iara me diga... Quem é aquela mulher e como você a conheceu?
Iara respondeu no mesmo tom:
––– Trabalha numa livraria... Eu a conheci lá, quando fui comprar um livro... Mas ela é só uma amiga... Nada demais...  – a partir deste ponto, ela levantou o volume e aumentou a rispidez da voz. - Acho que posso ter uma amiga... Ou não? Você já está pensando que tenho um caso com ela? Acho que ela nem é igual a você e suas amiguinhas!
––– Claro que sim! Todos nós podemos ter amigos... Igual “a mim e as minhas amigas”?? Como assim, Iara? Não entendi... Repete, por favor! Como é que eu fui tão cega pra não perceber o quanto você é preconceituosa? Você está querendo dizer que nós somos homossexuais, mas você não é? Ah, me economiza, Iara!
Iara fez a cara mais inocente do mundo antes de falar:
––– Acho que ela nem é homossexual! O que eu sei é que preciso de uma amiga com quem conversar, e ela chegou na hora certa!
Patrícia deu uma gargalhada e respondeu ironicamente:
––– Hei, acorda!! Se ela não for lésbica, o papa não é católico... Tá bom assim pra você, darling? – e continuou – e tem mais, Iara... Você não é tão inocente, quanto quer que eu acredite... Na nossa quase primeira vez você me interrompeu no melhor da festa pra dizer que não queria trair o teu marido, certo? – sem esperar resposta, ela prosseguiu – Ok... Mas a mim você trai... é isso? Eu significo bem menos que seu marido pra você? E pensar que ouvi você dizer que me amava e que nunca amou o Santiago...
Patrícia balançava a cabeça tristemente enquanto constatava cada um desses detalhes. Iara teimava em negar que estivesse cometendo uma traição. E o que disse em seguida tirou o chão de Patty:
––– Naquele momento eu te amava, sim!
––– Naquele momento? Como assim? Não me ama mais, Iara? Quer saber? Acho que você não sabe o que é amor! Deve achar que é só uma sensação de bem-estar... Algo bem passageiro que não deixa marcas, que não machuca quando é tão mal interpretado... Que não mata quando é desprezado, como você está fazendo comigo agora... Seja verdadeira e fale a verdade de uma vez!
––– O que eu sinto é de verdade, Patrícia! Eu amo, sim! Amo tudo o que te rodeia, todas as suas atitudes... Admiro a sua autenticidade, sua coragem em dar “a cara à tapa” se mostrando de forma natural pra quem quiser ver! Eu amo, sim!
Patrícia a olhava sem querer acreditar no que ouvia. “Esta mulher nunca me amou!”, pensou, mas resolveu falar:
––– Você nunca gostou de mim, Iara! Nunca respeitou meu sentimento! Nunca desejou o meu bem! Eu devo ter sido útil pra você, agora não precisa mais de mim! Já conseguiu o divórcio, a liberdade que tanto queria! Já pode sair voando por aí, conhecendo outras bocas, outras sensações...
––– Não é isso o que eu quero, Patty! Eu quero você...
––– Pra quê? Pra ter uma pessoa de verdade ao seu lado? Porque eu sou de verdade, Iara! Eu amo de verdade! Eu choro e sofro de verdade! Eu me entrego inteira em tudo a que faço! Não vou pela metade, como você!
––– Eu também sinto tudo de forma verdadeira! E te agradeço muito por tudo o que fez por mim... Você me deu tanta força quando eu precisava...
Patrícia, num rompante, bateu com as mãos no volante e gritou:
––– Saia da minha frente! Vai embora! Me deixa em paz! Não quero sua gratidão! Se você não pode retribuir o que sinto por você, saia daqui!
––– Mas eu não estou te entendendo, Patty... Você me pediu a verdade! Agora não quer mais ouvir?
Patrícia começou a chorar e num sussurro implorou:
––– Pelo amor de Deus, vá embora...
Em silêncio, Iara abriu a porta e saiu devagar. Não ficaria dando murro em ponta de faca à-toa. “Ela não quer me entender... Não posso fazer nada... Espero que não me procure chorando depois...” Bateu a porta do carro e saiu dali. Foi direto para o local onde deixara seu carro estacionado. “A essa altura Vânia já deve ter ido de táxi pra casa”, pensou, antes de avistá-la. Estava encostada displicentemente no carro de Iara. Esperando.
––– E então, fizeram as pazes? – foi sua pergunta, objetiva como sempre.
Iara foi lacônica na resposta:
––– Não. Agora acabou de vez. Vamos! Eu te levo em casa e amanhã a gente conversa. Hoje está bem complicado pra mim.
––– Você está bem? Quer que eu dirija?
Iara respondeu:
––– Sim, estou bem... Consigo dirigir, sim, obrigada.
––– Podemos jantar juntas amanhã? – perguntou Vânia, tentando já deixar o encontro marcado.
––– Não sei. Eu ligo amanhã...
Seguiram em silêncio até a casa de Vânia. Despediram-se apenas com uma “boa noite e até amanhã’ e Iara foi pra casa.

 

 



Escrito por MariaN às 09h39
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