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Conto de Meninas - UOL Blog



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Conto de Meninas


Patrícia

Capítulo 59

Discretamente e com um pretexto qualquer, Cíntia pediu licença e entrou na sala. Mesmo Patty  tendo disfarçado, Cíntia viu uma lágrima no cantinho dos olhos dela.
––– Pois não, Cíntia. Senta aí...
––– Patty, não quero me aproveitar da situação... A situação de ser sua amiga, sabe como é né?
Patrícia respondeu sorrindo:
––– Ai, Cín, para com isso! Fala logo o que você quer, porque eu quero ir embora daqui a pouco.
––– Primeiro, eu quero te perguntar se você permite que esta inocente, e mentirosa criatura que vos fala, te ajude a transformar esta sala em um ambiente digno de uma mulher bonita?
––– Cín, você não está pensando em encher esta mesa de vasos com flores, avencas e samambaias de todos os tamanhos, cores e modelos, não, né?
Perguntou, fazendo um gesto expansivo com as mãos.
––– Não, mas que isto aqui está precisando de um toque feminino, ah, isso está!
Patty olhou para os lados, analisando cada canto sem graça da sala, sem nenhum objeto de decoração, e concluiu que Cíntia estava certa.
––– Isso aqui precisa mesmo de um toque, de uma ajeitadinha aqui e ali. Mas por favor, não exagere no cor-de-rosa, viu?
Riram da piadinha, e Cíntia aproveitou para pedir uma outra coisinha:
––– Sim, mas nada é de graça nesta vida, sabia?
––– Ah, eu devia ter imaginado... O que você quer em troca dos seus serviços de decoradora?
––– Quero uma folga na próxima sexta-feira.
––– Ah, Cíntia, tinha que ser logo numa sexta? Não serve durante a semana?
––– Não, Patty... – e Cíntia ficou séria – é que exatamente nesse dia é meu aniversário e eu gostaria de ganhar este presente.
––– Por que você nunca me disse que seu aniversário estava tão perto?
––– Patty, ninguém fica de contagem regressiva às vésperas do próprio aniversário! Contando pra todo mundo quantos dias faltam... Bom, pelo menos, não depois dos dezoito anos... A gente faz isso quando é o dia de alguém que a gente ama... Esse tipo de agrado que as pessoas apaixonadas sabem fazer, como ninguém. Você deve saber como funciona isso...
Cíntia percebeu que o olhar de Patty se distanciou momentaneamente, mas deu continuidade ao assunto.
–––... Meu pai, por exemplo, sempre que se aproxima o dia do aniversário da minha mãe, ele começa a preparar a surpresa... Ela sempre sabe que alguma coisa ele vai aprontar, mas sempre faz a mesma cara de espanto e demonstra ter sido pega de surpresa, como se fosse a primeira vez... Acho que, se algum dia ele se esquecer, ela morre de desgosto, porque durante toda a vida deles foi assim, sabe...
Patrícia já não a ouvia com a devida atenção, mas absorvia cada palavra e pensava:
“Como é bom conversar com ela... Sempre tem algo pra contar e pra me deixar leve e relaxada... quanta diferença de Iara, que está sempre fazendo aquele papel de mulher séria e nunca se dá o direito de rir e brincar... Melhor parar de fazer comparações... Não seria justo com ninguém, muito menos comigo...” e Cíntia completou o que falava:
–––... É por isso que eu quero almoçar com meus pais, porque sempre ficam muito felizes quando eu compartilho com eles um pouco desse dia.
––– É evidente que você tem direito a esse dia de folga... Aliás, vamos instituir que a partir de agora todos nós tiraremos folga no dia do aniversário. Ao mesmo tempo eu proíbo a todo mundo aqui de fazer aniversário mais de uma vez por ano, hein? Olha o abuso! – Ainda brincou antes de pegar a bolsa pra ir embora.
Despediu-se e saiu. Logo depois todos saíram também.
Ela seguia pensando: “Pronto, encerrei o primeiro dia de trabalho na nova função e, fazendo um balanço de perdas e ganhos, acho que me saí bem, porque o dia foi bem produtivo.”
Decidiu que sempre se dedicaria inteiramente ao trabalho enquanto estivesse no horário de expediente. Não daria tempo para as lembranças atrapalharem sua vida. Na manhã do dia seguinte iria à cidade de Rio Sem Fim e, a partir daí, outros compromissos viriam. Assim, não teria tempo para chorar.
Chegou em casa, contou as novidades do escritório para a mãe durante o jantar; depois, leu um pouco e foi pra cama...
No dia seguinte, passou no escritório apenas para pegar a planta da obra e os documentos referentes à mesma, saindo em seguida. Antes, porém, deixou claro que:
––– Se eu resolver tudo ainda hoje, voltarei aqui antes de vocês encerrarem o expediente. Do contrário, até amanhã... e tomem conta de tudo direitinho, tá? – deu uma piscadela pra Cíntia e se foi.
Apenas Cíntia sabia que o astral de Patty andava “ao nível do rodapé”, porque ela disfarçava muito bem. Érica, logo pela manhã, já se mostrara mais simpática, e Vítor conseguiu chegar na hora certa, talvez pela primeira vez na vida. Assim que Patrícia se foi, Érica se aproximou de Cíntia, pedindo explicações sobre algumas coisas, e Vítor se concentrou na atualização dos dados no sistema. Antes de sair para o almoço, Cíntia olhou bem ao redor e gostou do clima que começava a se formar no ambiente de trabalho. Avisou aos garotos que se atrasaria um pouco e saiu.
Ao abrir a porta do seu carro para entrar, ouviu o seu nome. Olhou na direção de onde vinha, e se surpreendeu com a presença de Iara já chegando ao seu lado.
––– Pois não! Você me chamou?
––– Sim, eu gostaria de trocar algumas palavrinhas contigo.
––– Você me desculpa, mas eu não consigo me lembrar de nada que eu queira te falar...
Cíntia foi enfática.
––– É sobre Patty – interrompeu-a Iara, de forma meio brusca.
––– Sim, imagino que sim... Estou saindo pra almoçar e não tenho muito tempo... Você pode falar aqui mesmo...
––– Cinco minutos, por favor... Não preciso de mais do que isso.
––– OK, então entre aqui.
Iara deu a volta e Cíntia franziu a testa tentando adivinhar o que ela poderia querer. “Bom, já - já ficarei sabendo”.
Iara mal esperou que fechassem as portas para falar:
––– Eu quero te pedir que me ajude a reconquistar Patrícia...
Cíntia quase soltou uma gargalhada diante do absurdo que acabava de ouvir e, sem sentir, ria de nervoso:
–––Isso só pode ser gozação! Você e eu jamais trocamos mais que duas palavras, e agora você vem aqui e resolve me promover a cupido?
Apesar da escancarada ironia de Cíntia, Iara não retrocedeu e parecia muito certa do que estava fazendo:
––– Eu não vejo nada de errado nisso; afinal, vocês trabalham juntas, e nós duas sabemos que ela me ama, mas é muito orgulhosa para voltar atrás numa decisão. Não te custaria nada ajudá-la a enxergar que eu sou a melhor opção dela.
––– Pára com isso, Iara! Você, tanto quanto Deus, sabe que eu sou apaixonada por ela... Que eu a amo... E eu seria, no mínimo, estúpida e louca se fizesse o que você está me pedindo! Seria o mesmo que lutar contra a minha felicidade!
A expressão impassível no rosto de Iara assustava Cíntia.
––– Eu sei que você gosta dela, mas é a mim que ela ama. E tem mais: eu me divorciei para ficar com ela e agora ela vem impondo condições, dizendo que só fica comigo se eu assumir um compromisso de morar junto... Essas coisas pelas quais eu lutei para me livrar...
Cíntia decidiu não dar ouvidos àquela mulher que dizia tantas sandices:
––– Sabe, até agora eu me mantive quieta, respeitando esse momento, ouvindo alguns dos seus desabafos, sem jamais ter dito qualquer coisa contra você. Mas agora, eu também vou entrar na briga e vou mostrá-la o quanto ela pode ser feliz comigo. Nem acredito que estou te falando isso... Que loucura! Saia do meu carro, por favor! Você deve ser louca para me fazer uma proposta indecente dessas!!
––– Eu saio daqui, mas não desisto dela. Até mais.
Cíntia não acreditava nesse episódio que acabara de protagonizar. “Que petulante! Que mulherzinha arrogante! A Patty devia estar cega quando se apaixonou por essa coisa”. Tentando se acalmar e se perguntando se aproveitara bem a situação, ela foi pra casa. Comeria uma “massa à bolonhesa” que havia feito na noite anterior, e depois iria ao Shopping para comprar alguns objetos de decoração para a sala de Patrícia...
O relógio já marcava mais de 14h30min quando ela chegou ao escritório. Do estacionamento,  ligou para Vítor, pedindo-lhe que descesse e a ajudasse a subir com um vaso de planta um bocado pesado. Depois ela voltou sozinha para buscar os objetos mais leves, que couberam numa caixa: eram dois porta-retratos, duas violetas floridas e um vaso solitário com uma rosa artificial, que ela trataria de substituir por uma natural logo na manhã seguinte. Colocou tudo em lugares estratégicos, analisou a mudança e gostou do resultado. Agora, precisava ligar pra dona Marta e pedir duas fotos de Patty, uma sozinha e outra com a mãe. Combinou que passaria lá mais tarde para pegá-las e voltou ao trabalho. A todo o momento, a abordagem de Iara vinha-lhe à mente. E sempre que pensava no caso, aumentava a sua revolta com a petulância da outra.
No final do expediente, como havia combinado, passou na casa de dona Marta e pegou as fotos.  Cíntia ficou ali um pouquinho, conversando com Marta e soube que Patty ligara dizendo que só viria no dia seguinte. Logo depois disso, ela foi pra casa.
No dia seguinte, Patrícia só chegou ao escritório depois do almoço. Reuniu-se com os três, para conversar sobre os problemas e progressos do dia anterior e logo depois ficou sozinha com Cíntia.
––– Cín, eu gostei muito das mudanças que você fez aqui! Mas acho que não sou tão narcisista a ponto de ter duas fotos minhas ao lado do telefone – disse sorrindo.
––– OK... Pequei pelo exagero, mas quem sabe um dia você não coloca a foto de alguém especial num deles? A gente tem que pensar no futuro, gata...
Patrícia riu.
––– E esta rosa amarela, a minha preferida, está aqui desde ontem?
––– Não, eu trouxe hoje de manhã, ainda em botão. Você gostou?
––– Sim, muito! Obrigada.
––– Prometi a mim mesma que nunca deixaria esse vaso solitário. Agora, acho que me arrependi, porque vou acabar indo à falência.
Ambas ririam das brincadeiras, mas Cíntia se levantou para ir trabalhar. Mas antes resolveu contar pra Patty sobre Iara.
––– Patty, eu quero conversar um assunto muito desagradável com você. Só que não pode ser aqui. A gente pode tomar um choop depois do expediente?
––– Tudo bem, Cín... A gente faz isso... Mas você está bem? É algum problema? – preocupou-se.
––– Está tudo bem... Depois falamos sobre isso.
O resto da tarde passou voando, porque eles tinham muito trabalho. Ao saírem dali, foram para um barzinho simples, mas bem charmoso ali perto e, assim que se sentaram e pediram o choop, Cíntia foi direta:
––– Patty, sua “mulher-maravilha” me procurou.
Patty levou um susto e perguntou já irritada:
––– Como assim? O que ela queria com você, Cín?
Antes de responder, Cíntia não pôde disfarçar o riso de canto:
––– Veio pedir minha ajuda para te reconquistar. É mole?
Patrícia estava boquiaberta. Sem entender nada.
––– Olha... Eu sou mulher e tenho o maior orgulho de ser, mas eu não consigo entender as mulheres... Sério, vou tentar me colocar de lado agora para te perguntar: Vocês gostam de nos enlouquecer, é isso?
Antes que Cíntia pudesse responder, ela continuou:
––– Ela não quer uma relação estável e tranquila comigo... Ela, pelo que entendi está em plena fase do “ficar”... E agora vem procurar logo você para pedir ajuda? Mas me conta tudo... Estou pasma com isso...
E Cíntia relatou os fatos assim como sucederam. Essa conversa abriu para Patty a chance de contar tudo o que havia acontecido no sábado. Conversaram muito até as 21h, quando foram cada uma para sua casa.
Agora, muito mais do que antes, Cíntia estava decidida a lutar por Patrícia.



Escrito por MariaN às 09h30
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Patrícia

Capítulo 58

Segunda-Feira. Novembro. Nova semana. Novo mês. Natal se aproximando. As pessoas já começavam a fazer planos e o comércio investia alto em propagandas visando lucros ainda maiores do que no ano anterior. No trânsito parado, Patrícia ouvia uma música romântica no rádio do carro e segurava outra lágrima que teimava em cair. Não permitiria que a dor e o sofrimento atrapalhassem seu trabalho. Durante o final de semana de reclusão concluíra que, já que parecia ser impossível ter tudo ao mesmo tempo, se dedicaria ao máximo para continuar merecedora do cargo que alcançara. Sabia que tinha méritos, mas o cargo só lhe chegara às mãos agora, graças aos preconceitos do seu antecessor. Se Hélio Santiago não tivesse metido os pés pelas mãos no afã de prejudicá-la, tudo estaria igual ao ano passado, nesta época do ano. O trânsito voltou a fluir devagar, mas ela não se desesperou. Ainda era cedo. Chegaria antes de todo mundo. Como queria.
Ao estacionar, o flanelinha já veio cumprimentá-la bem disposto.
––– Bom dia, doutora! “Vamo dá uma lavadinha no possante hoje?”
E ela respondeu no mesmo tom:
––– Hoje não, seu Dé. Acho que vou pegar a estrada esta semana... Nem compensa... Quando eu voltar o senhor dá um trato nele pra mim, tá bom?
Antes de entrar no prédio, foi à Banca de Revistas da esquina e comprou um jornal. Voltou, entrou no saguão, pegou o elevador, desceu no seu andar, abriu a porta do escritório com sua chave e foi direto para sua nova sala. Sentou-se e, ao abrir o jornal, se deu conta de que nada havia mudado. Apenas ela estava diferente. Hoje seria o primeiro dia de uma série de outros sem Iara na sua rotina. “Será mesmo que está tudo acabado? Foi tão intenso enquanto durou que não posso acreditar que chegou ao fim. Foram quase quatro meses... e eu pensava que fosse pra sempre.” Sentiu os olhos lacrimejarem e sacudiu a cabeça na intenção de espantar a tristeza. Conseguiu finalmente se interessar por uma notícia sobre mais um escândalo do governo e logo depois os outros funcionários foram chegando. Isto a despertou para o fato de que precisava conversar com Cíntia sobre vários assuntos, inclusive sobre a efetivação ou não de Érica. Em seguida, lembrou-se de outro compromisso. Largou o jornal, pegou a agenda e começou a anotar as coisas que deveriam ser feitas. Ficou em dúvida entre fazer uma reunião com os três ao mesmo tempo, ou se deveria conversar com cada um individualmente. Optou pela segunda alternativa e ainda listava os próximos compromissos na agenda, quando bateram à porta e, ao seu consentimento, Cíntia entrou. Ao olhar pra ela, a primeira lembrança que lhe veio, foi a de sábado à noite, quando se deitou com ela na cama. E em respeito a esse momento, resolveu não lhe contar os detalhes do seu encontro naquele dia, pela manhã, quando saiu do seu apartamento correndo pra ver Iara.
––– Bom dia, chefa – cumprimentou-a uma sorridente Cíntia – chegou cedo hoje?
––– Bom dia, Cín. É... você sabe como são as manhãs de segunda-feira. Pra evitar um estresse desnecessário, saí de casa mais cedo do que o horário de costume. E como foi o seu fim de semana?
Patrícia estava demonstrando uma falsa normalidade. E Cíntia sabia disso. Não sabia exatamente o que era, mas que tinha alguma coisa errada, lá isso tinha.
––– Ah, foi bem normalzinho... Sem grandes alegrias, mas sem grandes tristezas também...
Nessa hora, o celular de Patrícia tocou. Ela olhou, viu que era Iara e não atendeu. Cíntia ficou quieta. E Patty nada disse a respeito. Muito pelo contrário, tratou logo de introduzir um assunto de trabalho no silêncio que se formou, para evitar qualquer pergunta de Cíntia. Se bem que ela não era do tipo intrometida e Patty sabia disso. Mas enfim, agora era hora de trabalhar.
––– Cíntia, eu preciso da sua opinião sobre os garotos.
–––Não me diga que você está pensando em efetivar os dois? O Vítor até que trabalha direitinho. Acho que com algum estímulo ele pode melhorar muito. Quanto à Érica eu não sei... Bom, mesmo sem esperar pelas perguntas, acho que já respondi o que penso.
Patrícia a olhava mexendo com uma caneta entre os dedos. E foi com um olhar novo para Cíntia, que ela disse:
––– Quanto ao rapaz, eu concordo com você, Cín... A moça, porém, precisa muito mais de uma prova de confiança do que simplesmente de um estímulo.
––– Patty, mas ela é pura inveja! Já se esqueceu de como ela te tratou, durante o episódio desagradável que você viveu com o doutor Santiago?
––– Pensa comigo, Cíntia. Talvez ela tenha sido tratada desta forma desde que se entende por gente. Imagina ouvir todos os dias a mesma expressão, ver as mesmas caras e não ter força para mudar tudo que a rodeia? Posso até me arrepender depois, mas eu espero estar certa ao dar essa oportunidade para ela. Acho que se nós mudarmos o modo de tratá-la, ela também poderá mudar. Eu quero tentar...
––– Bom, é você quem manda... Pode contar comigo. Você quer que eu faça alguma coisa pra você agora, ou posso ir tomar um café?
––– Ah, também estou louca por um cafezinho... Mas eu vou depois... Manda o Vítor vir aqui, daqui a cinco minutos, por favor?
Cíntia saiu e Patty se entregou aos pensamentos. O rosto de Iara não saía da sua lembrança. Havia analisado aquela última conversa diversas vezes, e não viu em nenhum momento uma chance real de reconciliação. O coração doía muito, mas a cabeça lhe mostrava a realidade da verdadeira Iara. Ao ouvir batidas na porta, autorizou a entrada e apressou-se em pegar o celular e colocar no modo “silencioso”. Assim, não passaria pela tensão da escolha, sempre que ela ligasse. Era Vítor, atendendo ao seu chamado:
––– Bom dia, doutora. A senhora mandou me chamar?
––– Sim, mandei te chamar para falarmos a respeito do seu trabalho aqui. Mas antes vamos esclarecer uma coisa. Eu não quero que vocês mudem o modo de tratamento para comigo. Continue a me chamar Patrícia e de você, certo?
––– Ufa, que alívio, Patrícia –ele se soltou um pouco mais – acho que excesso de formalidade até atrapalha o trabalho da gente.
––– Talvez você tenha razão. Mas vamos ao que interessa agora. Eu quero te fazer uma pergunta: você tem interesse em continuar trabalhando conosco?
––– Nossa! Que pergunta, Patrícia! Claro que eu quero continuar aqui! Eu aprendo todos os dias com essas idas ao Fórum e a possibilidade de sempre estar conhecendo pessoas novas lá dentro... E aqui também, né, afinal vocês são gente fina e me ensinam muito...
Patrícia deu um sorriso e prosseguiu:
––– Então, Vítor, eu vou providenciar para que você seja efetivado como funcionário o mais rápido possível, porque assim poderemos contratar um novo estagiário para te ajudar. A atualização do nosso banco de dados no sistema está andando muito devagar e vamos ter que acelerar isso. Posso contar com você, então?
Bastava olhar para o enorme sorriso dele para constatar sua felicidade
––– Eu estou muito contente, Patrícia! E vou trabalhar muito melhor, você vai ver...
––– Ótimo, Vítor! Agora, por favor, peça a Érica para vir aqui?
Ele saiu radiante e logo depois Érica batia à porta. Assim que ela colocou a cabeça para dentro, Patty interrompeu sua entrada, pedindo, com um sorriso:
––– Érica, por favor, traz um cafezinho bem fumegante pra gente.
Érica retornou minutos depois com uma bandeja, xícaras e café.
Serviram-se e Patty fez sinal para que ela se sentasse:
––– E aí, pegou muito trânsito hoje, vindo pra cá hoje? – foi assim que Patty começou a conversa.
––– Ah, você sabe... Eu sou pobre... Venho de ônibus e, quando tenho a sorte de vir sentada, nem presto atenção, porque aproveito para dormir mais um pouquinho...
Patrícia ficou séria, de repente, mas contou até três para não dar uma bela resposta nela. Porém, foi bastante firme no que disse, olhando-a bem dentro dos olhos.
––– Eu não sou rica só porque venho de carro, porque ainda pago as prestações todos os meses. Tenho a sorte de vir sentada, mas não posso dormir. O que você acha disso?
––– Ah, me desculpa, doutora Patrícia.... Pensei que estivesse zoando de mim...
––– Não, eu não estava te zoando... Apenas quis começar uma conversa de modo civilizado com você... Será que isto é possível entre nós duas?
Érica ficou sem graça e se desculpou mais uma vez, mas ficou ainda mais reticente.
––– Bom, eu acho que sim... Não sei... Na verdade, tem acontecido tanta coisa aqui que fica difícil saber quando estão me tratando bem, ou estão me gozando...
––– Ah, Érica, você está subestimando uma de nós duas aqui, espero que não seja eu. Por isso, vou direto ao motivo pelo qual eu te chamei aqui. Você acha que existe alguma possibilidade de você continuar trabalhando conosco? Eu te pergunto assim, por causa da saída do doutor Santiago...  Por causa da relação que você tinha com ele, você sabe...
Nesse momento, Érica acordou para o que estava acontecendo e resolveu levar a conversa com a seriedade que ela exigia:
––– Não apenas vejo esta possibilidade, como vou lutar por ela, doutora Patrícia. Sei que cometi alguns deslizes aqui dentro, inclusive com você, mas pretendo me redimir, se tiver chance.
––– Muito bem, Érica, eu vou pedir à Cíntia que te passe todas as funções dela para que você vá se familiarizando, principalmente com a análise e finalização dos processos, que é de extrema importância. Qualquer erro que deixamos passar pode causar prejuízos pelos quais não seremos perdoados. A partir de hoje estaremos começando um novo tempo aqui. Você estará recebendo mais responsabilidades agora. Por isso, precisará trabalhar de acordo com a equipe e com comprometimento. Se houver falha de qualquer um de nós, todos os outros sofrerão as conseqüências, então, vamos ter que nos esforçar muito.
––– Pode deixar, que eu vou me empenhar muito! Obrigada, doutora Patrícia... A senhora não vai se arrepender...
––– E como eu disse para o Vítor: eu continuo sendo Patrícia e vocês, por favor, continuem a me chamar de você. A forma de tratamento nem sempre significa menos ou mais respeito. Pode ir. Obrigada!
Quando Érica fechou a porta, Patrícia se levantou, foi até porta e, abrindo-a, disse para todos:
––– A partir de hoje esta porta ficará sempre aberta. Só será fechada em circunstâncias especiais.
Todos a olharam com admiração e ela pediu a Cíntia que entrasse.
Quando se sentaram, ela falou baixinho:
––– Sem você eu não sei se vou conseguir conduzir isso aqui, Cíntia...
––– Opa! E porque ficaria sem mim aqui?
––– Foi apenas força de expressão... E você sabe disso.... – riu Patty
––– Pois eu acho que você está se saindo muitíssimo bem. Quais são as próximas providências?
––– Foi bom você falar nisso... Primeiro, quero que saiba que a Érica vai continuar com a gente e você vai tomar conta dela. – Cíntia fez uma careta bem-humorada, o que provocou um sorriso em Patty – e também preciso que você me coloque em contato com a pessoa responsável pela obra em Rio Sem Fim. Quero ir até lá o mais rápido possível e...
A partir daí, conversaram sobre vários aspectos técnicos e rotineiros do trabalho e o dia foi passando. Somente na hora do almoço, Patrícia decidiu olhar para o celular. Iara ligara várias vezes. Resolveu que, se ela voltasse a ligar, ela a atenderia. Retornou o celular para o modo normal e almoçou com tranqüilidade. Dona Marta sabia que a filha não estava bem, mas não quis se intrometer, pensando: “Quando as coisas apertarem, ela me conta, mas enquanto ela puder carregar sozinha, ela vai carregar! Eita, menina teimosa!”.
Quase ao final do expediente daquele dia de trabalho, foi que Iara ligou outra vez. Cíntia estava em sua mesa, mas ouviu uma parte da conversa. É claro que não saberia dizer exatamente sobre o que falaram. Enfim, ouviu uma coisa aqui e outra ali das palavras de Patrícia:
––– Oi, Iara! (...) Eu estava muito ocupada, não pude atender. (...) (...) Não pretendo sair hoje à noite... (...) Se eu for ao seu encontro, você vai me dizer que quer abraçar uma vida em comum comigo? (...) Sim, mas eu sei que tenho razão e não abro mão disso. (...) Ok... Um beijo pra você também! Tchau!

 



Escrito por MariaN às 10h24
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