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Conto de Meninas - UOL Blog



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Conto de Meninas


Patrícia

Capítulo 60

Durante o resto da semana não houve grandes novidades. Iara ligava pelo menos uma vez por dia, e Patty, na última vez que atendeu, deixara bem claro que iria ao seu encontro para uma conversa verdadeiramente definitiva. Foi no final da tarde de quinta-feira, num Bistrô bem simpático num bairro central da cidade, que Patty resolveu marcar com Iara. Ainda era cedo na noite. Pessoas cansadas do trabalho se reuniam para entrar no ritmo do final de semana. Num palco pequeno, quase escondido, uma cantora interpretava músicas diversas, atuais e da Bossa Nova, com um violão bem afinado. Esse detalhe do ambiente agradou Patty, que andava meio desanimada e, ultimamente, descobrira-se ainda mais fã de músicas românticas. E mesmo estando sofrendo em cada momento sem Iara, Patrícia foi muito clara em suas palavras, demonstrando que realmente queria colocar um fim na relação:
––– Iara, eu já estou me acostumando sem você. Por isso, se não vai me falar nenhuma novidade, por favor, pare de me ligar.
––– Será que você não entende que estou arrependida e quero recomeçar? Poxa, eu preciso de uma chance para aprender a cuidar dessa relação...
––– Eu entendo e aceito que você recomece, mas não comigo. Pelo menos, não mais... Porque eu quero mudar tudo, Iara. Estou sofrendo muito por não ter conseguido me realizar com você, como gostaria. Mas se não é possível casar nossos ideais de vida, decidi que não vou passar o resto da vida escorregando no mesmo limo: por isso, vou alterar a minha rota, e o meu destino não será você, como antes.
––– Poxa, por que você esperou tanto tempo pra me dizer isso tão claramente? Eu jurava que você ainda me queria e estava sofrendo pra me reconquistar...
––– Ah, faz-me rir, Iara. Acho que você promoveu uma inversão de papeis aí...  Eu não tenho que te reconquistar. Eu queria muito ter ficado com você, mas já que tem outros planos, então, é melhor rompermos por aqui...
––– Eu juro pra você que estou morrendo de saudade de nós duas... Lembra como é bom quando a gente faz amor? Como é perfeito o nosso encaixe?
––– Sim, eu me lembro, sim! E também me lembrei de um detalhe: você só fica alegre e sorridente comigo nesses momentos. Depois que saímos da cama, você se transforma, ficando agressiva, entediada, irritadiça... Eu não quero uma mulher ao meu lado só pra me realizar na cama, Iara! Eu quero uma companheira, uma parceira...
––– Você não pode fazer isso comigo, Patty! Eu me acostumei tanto com seu apoio, seu colo... com seu tudo! Aposto que é aquela ‘bat-girl’ da Cíntia que fez sua cabeça contra mim... Sim, talvez eu tenha errado em pedir a ajuda dela pra te trazer de volta...
Patrícia estava mesmo decidida:
––– Não é difícil arranjar outra idiota e se acostumar com ela também, Iara... Vai à luta! E nem tente botar em outras pessoas as culpas que são apenas nossas...
––– Como você sabe ser cruel, Patty... Será que não entende o quanto é difícil pra mim toda essa mudança?
Patty, ao invés de responder, adotou um olhar nostálgico e começou a recordar momentos passados:
––– Iara, eu estou me lembrando do nosso primeiro encontro... Lembra, no estacionamento do supermercado? Depois daquela noite, eu te procurei feito uma desesperada... Eu podia jurar que havia encontrado o amor da minha vida...
Algumas lágrimas queimavam seu rosto. Iara, ao perceber a emoção nos olhos dela, também se sentiu balançada, quase comovida. No entanto, sem a mesma intensidade.
––– Engraçado que logo em seguida eu me esqueci daquele encontro... Só voltei a me lembrar dele quando te vi saindo do trabalho naquela noite em que fui buscar o Hélio... Só ali entendi o teu olhar...
Patty a interrompeu:
––– Eu me lembro que neste dia você usava um vestido azul... E estava tão linda, tão leve... Ali eu me apaixonei...
E Iara continuou:
––– Mas foi só depois da nossa primeira vez no motel, que adquiri coragem para pedir o divórcio... Era a única maneira que eu tinha de me dar por inteiro... Eu estava encantada com você...
––– O que foi que mudou desde então, Iara? Por que você mudou tanto? Eu fico buscando nas lembranças o momento exato em que tudo se transformou... Que pena que a minha história de amor perfeita tenha se perdido assim... Hoje ouvi uma música chamada Migalhas... Ela quase me fez chorar, porque me lembra a nossa situação... Ah, não sei, viu... tá tão difícil aceitar essa decepção...
––– Eu não mudei em nada, Patty... Você precisa compreender esse meu momento... Pra quem acaba de sair de um casamento, não é tão fácil entrar em outro... Eu preciso de um tempo pra descobrir quais são os meus sonhos... Preciso conhecer a liberdade. Só depois de desvendar cada mistério dela, vou saber o que fazer com esse novo estado... O que é mais complicado ainda é que nunca fui livre: quando era solteira, meus pais me controlavam o tempo todo; depois de casada, era o marido... Agora tenho a chance de me conhecer sozinha... Saiba que eu nunca tive a intenção de decepcionar você...
––– É, mas falando em decepção... Ninguém tem intenção de decepcionar, porque ninguém pode controlar essa sensação na outra pessoa. Fui eu que sonhei demais, esperei demais... Enfim, fantasiei demais. Você tem todo o direito de viver sua liberdade... A verdade é que, em nome do que eu sinto por você, eu passei a exigir mais e mais... Talvez porque eu esteja livre há muito tempo... Sei lá...
Iara, a muito custo, deu um sorrisinho:
––– Sim, é verdade, você está me cobrando um comportamento que não é o meu. E como você nunca foi casada, não sabe do que estou falando... Não sabe o que é se sentir estafada numa relação desgastada e infeliz... Conviver não é fácil, Patty. Pode ser um ideal romântico, mas não é fácil!
––– Certo, Iara, mas eu tenho direito à minha própria experiência, à minha fatia de convivência desgastada, de romantismo exacerbado...
––– Sim, você tem! E eu lamento muito que não possa ser comigo. Não agora, pelo menos... Eu sinto muito.
––– Tudo bem, Iara, mais uma vez eu posso ser compreensiva, mas desta vez não vou abrir mão do meu sonho romântico.
––– Ok, Patrícia... Pena que o amor que você tanto pregou e gritou que sentia por mim, de repente perdeu as forças e provou que não era tão grande assim...
––– A gente pode se enganar até com os próprios sentimentos, Iara. E eu não me sinto na obrigação de quantificar os meus. Na verdade, não chegamos a este ponto da relação apenas por essa incompatibilidade de planos. E agora, pensando melhor, acho que conviver com você não seria assim, tão maravilhoso.
––– Você sempre acha ruim quando eu digo que você não sabe o que quer... Olha isso, acabou de mudar de opinião, de foco...
––– Iara, você já viveu com alguém que passa a maior parte do tempo te criticando, te corrigindo, te dizendo o quanto está errada em tudo? É assim que me sinto com você, por isso é mesmo melhor acabar com nossa relação enquanto ainda resta um pouco de respeito entre nós. Talvez assim a gente possa, no futuro, se sentir à vontade na presença uma da outra. Agora eu já não estou mais suportando o peso deste momento.  Além do mais, você precisa se encontrar... E encontrar coragem de assumir a sua homossexualidade...
––– É, Patty, a verdade é que você é tão teimosa quanto eu... E depois dessa conversa aqui, eu também estou enxergando claramente que não teríamos uma convivência muito pacífica. Tenho que dar a mão à palmatória, porque agora eu vejo que a nossa relação não teria futuro. Eu vou viver... Vou me descobrir... Vou cuidar de mim sem ninguém ao meu lado me fazendo cobranças... Mas tenho que te agradecer por ter me aberto os olhos para uma porção de coisas ao meu redor...
Patrícia chorava silenciosamente, enquanto ouvia Iara decretando o final da relação de uma maneira tão fria. “Pelo menos eu estava triste enquanto tentava romper... acho que nem iria tão longe nesse propósito... e agora ela me parece tão tranquila ao terminar tudo comigo... Talvez ela tenha razão, e eu não saiba mesmo o que eu quero pra mim.” Deixou de lado os pensamentos e concluiu que ambas já não se importavam mais se estavam agindo corretamente, ou não; se estavam sendo duras demais ou não. Elas simplesmente não queriam mais ser uma da outra. Iara, por causa da sua ânsia por liberdade; Patrícia, por não abrir mão dos planos de amor que alimentava desde sempre. Assim, Patty encerrou a conversa:
––– Acho que chega... E você está certa, Iara. Aliás, nós duas estamos com a razão, mas daqui pra frente eu vou preferir ser feliz, e não apenas ter razão... Antes que fique pior, Iara, eu vou indo... Ainda tenho que comprar um presente de aniversário... Procure ficar em paz... Tchau!
E Patty saiu de uma vez, deixando Iara fervendo de raiva por não ter tido a chance de dar a última palavra.
Ela ficou ali parada por alguns minutos, depois pediu o primeiro chopp, porque antes estava tomando suco e ligou para Vânia. Quando ela atendeu, Iara perguntou se ainda poderiam se ver naquela noite. Diante da resposta afirmativa, ela deu o endereço de onde estava e desligou.

 

MIGALHAS
De Erasmo Carlos

Sinto muito
Mas não vou medir palavras
Não se assuste
Com as verdades que eu disser
Quem não percebeu
A dor do meu silêncio
Não conhece
O coração de uma mulher
Eu não quero mais ser
Da sua vida
Nem um pouco do muito
De um prazer ao seu dispor
Quero ser feliz
Não quero migalhas
Do seu amor…
Do seu amor…

Quem começa
Um caminho pelo fim
Perde a glória
Do aplauso na chegada
Como pode
Alguém querer cuidar de mim
Se de afeto
Esse alguém não entende nada
Eu não quero mais ser
Da sua vida
Nem um pouco do muito
De um prazer ao seu dispor
Quero ser feliz
Não quero migalhas
Do seu amor…
Do seu amor…

Não foi esse o mundo
Que você me prometeu 
Que mundo tão sem graça
Mais confuso do que o meu
Não adianta nem tentar
Maquiar antigas falhas
Se todo o amor
Que você tem pra me oferecer
São migalhas, migalhas...
Eu não quero mais ser
Da sua vida
Nem um pouco do muito
De um prazer ao seu dispor
Quero ser feliz
Não quero migalhas
Do seu amor…
Do seu amor…
Sinto muito
Mas não vou medir palavras
Sinto muito…

 



Escrito por MariaN às 20h11
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