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Conto de Meninas - UOL Blog



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BRASIL, Centro-Oeste, GOIANIA, Mulher, de 46 a 55 anos, Portuguese



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Conto de Meninas


Patrícia

Capítulo 61

Iara esperou pela chegada de Vânia com ansiedade. Certamente ela entenderia os seus motivos, porque não era tão insegura quanto Patrícia. Muito pelo contrário; ela nunca lhe falara de amor ou paixão, essas pieguices românticas. O que ela demonstrava sentir mesmo era tesão, puro e bom.
Não demorou muito e Vânia sentou-se de frente pra ela na pequena mesa. E então, Iara pôde contar tudo o que acontecera, dando a ela a versão definitiva do seu rompimento com Patty, concluindo assim a sua narrativa:
––– ... E nosso rompimento só aconteceu por causa das cobranças dela. Eu estou saindo de um casamento e ela quer entrar em um, portanto, não conte comigo. No início foi muito gostoso ficar com ela... Eu gostava muito daquele seu jeitinho de me cuidar com carinho, pois naquele momento eu me sentia muito carente, já que o meu marido nunca foi carinhoso. No máximo, atencioso, mas quando isto lhe convinha. Por isso ela me cativou... Você vai me dar razão... Vai entender porque não está sendo assim, digamos, tão fácil aceitar o fim.  Infelizmente, ou felizmente, sei lá, nunca consegui corresponder com igual intensidade... E então, você acha que estou errada?
Perguntou, esperando o apoio de Vânia.
––– Dentro do seu ponto de vista, onde é possível enxergar um pouco de egoísmo, você está coberta de razão. Agora, resta saber se as pessoas que se relacionam com você estão dispostas a fazer todas as suas vontades...
––– O que você quer dizer com isso? – Iara não esperava tanta crueza na resposta.
Vânia acendeu um cigarro e continuou:
––– Em nenhum momento você falou de amor. Você mencionou que amava a companhia dela e o modo carinhoso como ela te tratava exatamente por ser de um modo tão diferente do seu ex-marido... Você não falou dos seus sentimentos... Por isso, eu te pergunto: você tem disponibilidade para amar a alguém, além do teu pai e do teu filho?
Essa pergunta calou fundo no coração de Iara! De tal forma a surpreendeu, que ela não conseguiu responder de imediato. Tanto tempo ela desejara se livrar do casamento que a sufocava, que não pensou em sentimentos, além do amor-próprio. Mas não daria a Vânia o prazer de vê-la constrangida.
––– É evidente que estou disponível para o amor! E sou capaz de amar, de me apaixonar, sim! Do contrário eu não estaria aqui, tentando te conhecer melhor a cada dia!
Vânia chegou a semicerrar os olhos no momento em que dizia:
––– E você acha que o amor pode surgir assim, da convivência, tipo quanto mais tempo eu conviver com a pessoa, mais chance eu terei de conseguir amá-la? Há alguns anos isso era o comum, porque os casamentos eram arranjados e os pais convenciam as filhas de que esse método funcionava... Pois eu tenho uma sugestão melhor do que esta...
––– Meus pais disseram tanto isso, que acabei por acreditar que pudesse ser possível, sim. Mas não no nosso caso aqui. E qual é a sugestão?
––– Simples: a gente não fala em amor. Você está saindo dessa história com Patrícia, eu estou sozinha já há algum tempo... Então, podemos ver no que vai dar a junção da minha carência com sua raiva do mundo...
––– Puxa, como você consegue agir tão friamente no que me parece um pedido de namoro?
––– Você está o tempo todo reclamando do romantismo da outra, pensei que quisesse assim, dessa maneira bem crua. Afinal, não sei se você já se deu conta, mas como moramos numa cidade pequena, não somos muitas... Não é fácil arranjar uma mulher aqui... Além do mais, eu decidi que vou ter você. E pode ser relacionamento aberto, se isso te faz bem...
Iara não pode deixar de rir nessa hora. Mais por constatar a praticidade de Vânia do que por achar engraçada a proposta dela:
––– OK, vamos ver no que vai dar!
E passaram o resto do tempo em que ficaram ali, falando um pouco mais sobre cada uma. Vânia contou que estava sozinha há seis meses, desde que rompera a relação com uma mulher da capital. A distância entre elas, apesar de pequena, propiciava o surgimento de outras pessoas na vida de ambas. O período de sofrimento pelo fim já acabara, agora ela estava disposta a investir em outra relação.
Quando saíram dali foram para a casa de Vânia e transaram alucinadamente. Iara não alimentou sentimento de culpa. Muito pelo contrário, sentiu-se vingada de Patrícia. E foi bem feliz que entrou em casa, já passando da meia-noite. Seu pai estava acordado, mas não falou nada. Apenas desejou-lhe boa noite e foi pra cama, pensativo.

Nessa hora, Patrícia dormia um sono bem pesado
e sonhava com construção. O apartamento estava em obras, e ela tinha dificuldade para chegar a seu quarto ou ao da mãe. De repente, via a mãe morando em uma espécie de sítio, e ali era acompanhada por várias pessoas que usavam enormes jalecos brancos... Sentada sob uma frondosa árvore, ela lhe dizia que não se preocupasse, porque enquanto durasse a construção ela ficaria ali, e estava muito bem...
–––... E você, minha filha, fique no apartamento da Cíntia, porque é o único lugar onde eu sei que você será bem tratada...
Ela acordou nesse ponto, sem entender lhufas. Levantou-se e foi até ao quarto da mãe. Viu que ela dormia profundamente, foi à cozinha, tomou um copo d’água e tornou a se deitar Como o sono demorava a chegar outra vez, ela ficou se lembrando do que fizera depois de deixar Iara, naquela noite.
Ao caminhar pela galeria comercial na intenção de pegar o carro que ficara do outro lado, ela se sentiu atraída por uma loja de produtos esotéricos. A vendedora já recolhia os penduricalhos do lado de fora da porta, para fechar, quando foi interrompida pela chegada de Patrícia, que gostou de uma mandala, um pouco menor do que um antigo disco de vinil. Pensou em presentear Cíntia logo que viu o objeto, pois sabia que ela gostava de coisas do gênero, e lembrou-se de um cantinho nu na parede da sua sala: “Hum, aquele cantinho lá vai receber muito bem essa mandala!”. Fechou negócio e em seguida entrou numa loja de CD’s. Comprou dois lançamentos, inclusive o que trazia a música que ela mencionara para Iara. A caminho de cassa, ouvindo os recém adquiridos CD’s, havia chorado um pouco. Entrou com os olhos um pouco vermelhos, e tentara esconder da mãe. Evidentemente não conseguira:
––– Filha, você chorou? – perguntou-lhe dona Marta, olhando-a bem de perto.
––– Ah, mãe, não foi nada...
––– Você não acha que está na hora de me contar o que vem acontecendo entre você e a Iara?
Diante da pergunta tão direta, ela não teve outra alternativa, senão contar tudo.
––– Tudo bem, mãe, mas não me peça detalhes... Ela rompeu comigo... Ou eu rompi com ela, não sei... Bom, nós rompemos e é isso. E antes que a senhora pergunte... Sim, eu acho que é definitivo.
Dona Marta ficou calada por um tempo, apenas analisando a nova situação.
––– Tá certo, Patty, eu não pergunto mais nada...
––– Ah, mãe, mudando de assunto: tu estás lembrando que amanhã é o aniversário da Cíntia?
––– Claro que me lembro! Vou até fazer um bolinho pra ela... O que é que você acha?
Patrícia já respondeu indo para o quarto. A voz foi ficando longe...
––– Só espero que ela tenha um tempinho para vir aqui comer esse bolo... Mas a idéia é bem legal...
Ali, deitada no escuro, com os pensamentos indo do sonho estranho para as lembranças do início da noite, ela se lembrou de Cíntia:
“Que horas são? Quase uma da manhã... Já sei o que vou fazer... será que devo?” Decidiu-se e, pegando o celular, ligou para a aniversariante.
––– Alô... – atendeu uma sonolenta Cíntia, com a voz rouca, molinha e meio perdida – Que horas são? Quem é?
––– Feliz aniversáriiioooooooo! E nem vou pedir desculpas pelo adiantado da hora – riu Patty.
Cíntia riu também, com o coração dando pulos de alegria.
––– Patty, assim você me deixa emocionada... Obrigada... e que delícia! Bem que eu gostaria de ser acordada assim, todas as madrugadas...
Conversaram mais dois minutinhos e Patty se despediu, se ajeitando no travesseiro e dormindo em seguida.

De manhã, Cíntia colocou seu gato, o Sagu, na gaiolinha, ajeitou-o direitinho no banco de trás do carro e pegou a estrada para a casa dos pais.
Desde o momento de sua chegada até a hora de ir embora, ali pelas três da tarde, tudo foi muito gostoso. Ela foi o centro das atenções de toda a família, inclusive avós, tias e tios. Mas como sempre, ninguém lhe perguntou sobre sua vida amorosa. Este assunto era tabu entre eles, já que ninguém, exceto uma tia mais aberta, entendia como uma moça tão feminina e bonita não se interessava por rapazes! Cíntia já se acostumara com essa restrição nas conversas de família. Antes, o sofrimento fora quase insuportável. Houve ocasião em que ela chegara a pensar que jamais poderia ser feliz sem o apoio dos pais. Finalmente, aprendera a administrar a falta que eles lhe faziam e passou a se sentir melhor. A vantagem é que não havia intromissão em sua vida, de forma alguma; a desvantagem é que também não tinha ombro de pai ou de mãe para chorar quando as desilusões machucavam além da conta. Pensava tudo isso durante o trajeto de volta pra casa. Algumas amigas ligaram durante o almoço, todas queriam marcar alguma bebemoração pra logo mais à noite. Sem motivos para se negar, ela aceitou e marcaram naquele velho e bom reduto em que a turma sempre se divertia, e onde todas se encontravam.
Quando entrou em casa o telefone estava tocando. Atendeu correndo. Era dona Marta.
––– Feliz aniversário, pequena! Ah, por que não me contou? ... Eu teria preparado uma bela surpresa pra você! – disse ela, rindo.
––– Muito obrigada, dona Marta. Assim a senhora me deixa sem graça...
––– Ah, não precisa ficar sem graça por ser querida... Vamos combinar uma coisa? Você vem jantar com a gente hoje aí eu te dou um abraço!
––– Oh, que pena... Mas eu já combinei com umas amigas antes... Mas faço o seguinte: quando sair de casa, eu passo aí pra ganhar o teu abraço, pode ser?
––– Então eu te espero, pequena... Você é sempre bem-vinda! Um beijo... Tchau!
Cíntia desligou, pensando: “ ela é uma gracinha de pessoa...”

 



Escrito por MariaN às 21h28
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