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Patrícia Capítulo 63 
Em sua casa, Vânia travava uma batalha com Rosângela, sua ex. Como vinha acontecendo regularmente, mais uma vez ela viera pedir-lhe que voltasse atrás na decisão de romper a relação entre elas. Depois das frases usuais de cumprimentos, Rosângela abordou o motivo da visita, e Vânia não foi nada condescendente com ela. Foi bem objetiva no intuito de deixar bem claro que não havia mais a menor possibilidade de retorno. ––– Nós já falamos tudo o que tínhamos pra falar. Acabou, Rosângela! –––Só porque moramos longe não significa que eu tenha outras mulheres! – gritava a mulher, descontrolada. –––Realmente, não significa, mas você me traiu até não agüentar mais! E eu me cansei disso! Mulher, até quando você vai ficar insistindo nisso? ––– Até você voltar atrás nessa decisão estúpida... ––– Sempre que algo dá errado lá, com suas conquistas, você vem correndo tentar me convencer que devemos retomar a relação... Chega desse vai-e-vem!! Enquanto isso, o telefone tocava sem parar. Vânia olhava e via o nome de Iara no visor do seu celular, mas não podia atender. Conhecia bem Rosângela e sabia do que ela era capaz. Em muitas situações a reação dela até beirava à vulgaridade. Ou a extrapolava. ––– Quem é a mulher que você não quer atender? Se estiver com medo, deixa que eu atendo e digo que a tua mulher chegou e você não vai mais galinhar por aí! Vânia, não suportando mais tanta pressão, pegou Rosângela pelo braço e levou-a até a porta. ––– Vá embora daqui antes que eu perca a cabeça, Rosa! Deixou-a entre a porta de entrada e o portão, e voltou para dentro. Toda a relação delas havia sido assim, aos trancos e barrancos. Quando Vânia rompeu com ela, por não suportar mais tantas histórias de casinhos aqui e acolá, passou por um mau bocado, até se recuperar. Agora que encontrara Iara e estava disposta a ser feliz – sim, porque é preciso disposição para construir a felicidade a cada dia – ela aparecia outra vez. Pensava nisso, quando ouviu as batidas fortes na porta da frente e os gritos de Rosângela. ––– Se você não abrir esta porta eu vou ficar aqui, gritando a noite inteira, até que os vizinhos chamem a polícia! Você é quem decide! Diante das ameaças que ela poderia cumprir, Vânia abriu a porta e ela tornou a entrar. Mas desta vez seria diferente, pensou Vânia, ela não cairia nos braços de Rosa no final da briga, como sempre acontecia quando elas se encontravam. A discussão voltou a esquentar, só que agora Vânia decidiu adotar outra estratégia, para evitar que a história se repetisse. ––– Rosa, me dá um tempo, por favor! Preciso de um banho e depois vamos sair pra comer alguma coisa antes de você ir embora. ––– Você está me convidando pra jantar? Nossa, que romântico... Eu aceito, sim... Eu vou tomar banho com você, como nos nossos velhos tempos... Tentando dar a voz um tom de suavidade, ela mudou de idéia, como se fosse para ganhar tempo e ficarem mais algum tempo juntas. ––– Pensando bem, vou deixar o banho para quando for dormir... Podemos ir agora mesmo, senão você pode perder o último ônibus pra casa... ––– Não quero ir embora hoje... Deixa eu ficar aqui... Deixa eu dormir com você.. Por favor, vai... Vânia, apesar do dengo da outra, perdeu a paciência de novo e, louca pra se ver livre de Rosângela, foi dura na resposta: ––– Comigo, dentro de casa, você não dorme! E vamos logo, antes que eu mude de idéia! ....................<<<>>>................ Patty entrou em casa com um sorriso nos lábios. Uma idéia tomara forma em sua cabeça e ela faria de tudo para botá-la em prática. Entrou, mal cumprimentou a mãe, que estava às voltas com o bolo de Cíntia, e foi para o banho. Do pequeno corredor ainda gritou: ––– Mãe, se a Cíntia chegar e não puder me esperar sair do banho, diz pra ela deixar o endereço de onde vai rolar a comemoração pra mim, tá? Dona Marta ouviu, mas nem respondeu, já que ela não ouviria a resposta. Terminou de espalhar a cobertura de chocolate no pequeno bolo, lavou as mãos e o colocou sobre a mesa. Agora era só esperar que ela chegasse. Cantariam os “Parabéns pra Você”, fariam aquelas brincadeiras típicas da ocasião e pronto. E assim foi feito. Cíntia só chegou meia hora depois. Patrícia terminava de se vestir quando ela bateu à porta do seu quarto, convidando-a para comer um pedaço de bolo. Aproveitando o momento, Patty deu-lhe um super abraço de corpo inteiro parabenizando-a pelo dia especial e foram para a sala, onde Dona Marta já arrumara a mesa. Brindaram com espumante, Patty e Marta entregaram-lhe “as lembrancinhas”, Cíntia abriu e agradeceu pelos “presentes”. Como sempre, tudo depende do lado em que se está. As três mulheres, em total harmonia, riram e se sentiram à vontade nos quarenta minutos que durou a comemoração. ––– Bom, dona Marta, muito obrigada pela festa, mas tenho que ir ao encontro de outras amigas que também querem me abraçar. Juro que se eu não tivesse combinado com elas, ficaria aqui a noite toda. É sempre muito agradável a companhia de vocês! ––– Você é que é uma menina muito doce e simpática. Vai lá, que suas amigas estão esperando. Eu é que agradeço por você ter dedicado um pouquinho desse seu dia pra ficar com a gente aqui. Cíntia aproveitou para brincar com a amiga: ––– Eu só não convido a senhora pra ir comigo, porque tenho umas amigas muito mal comportadas que não saberiam respeitar a sua presença... ––– Ah, não tem problema, pequena... Já ‘tou’ me acostumando com essas coisas modernas... só não vou porque tenho um compromisso com o José Mayer na novela. Nossa! E já vai começar! Vou ligar a TV... Todas riram, e Cíntia, fazendo os movimentos de despedida, pegou sua bolsa sobre o sofá e chamou Patty: ––– Vamos? Ou ainda não está pronta? ––– Preciso de dois minutinhos e já venho. – sumiu lá pra dentro, e elas ficaram num abraço apertado. Marta repetindo os desejos de que em sua vida acontecessem mil coisas maravilhosas pra ela, não apenas nesta data, mas em todos os dias da sua existência. Cíntia só se desvencilhou do abraço quando Patty chamou seu nome, já ao seu lado. ––– Cín, eu vou com você e volto de táxi, tá bom? ––– Claro! E é bem mais seguro assim. Dona Marta, que terminava de tirar a mesa, entrou no assunto: ––– Por que não vão as duas de táxi? Vocês sabem que com essa nova lei aí, eles estão pegando até quem bebe uma xícara de álcool... Sugestão aceita, elas ligaram pedindo um táxi e desceram. Antes de sair, porém, Patty fez um arranjo com o porteiro do prédio pra que ele cuidasse do carro de Cíntia. Elas entraram no táxi, Cíntia deu o endereço e se foram. Cíntia vestia uma calça de tecido leve, cor caramelo e uma blusa branca rajada nos tons bege e lilás. O perfume que a rodeava era algo indescritível e irresistível. Patty admirou-a desde que chegara em sua casa, mas só agora pôde se deliciar tendo-a tão perto do seu corpo, no banco traseiro do táxi. “Isso perturba o juízo de qualquer cristã, imagine o meu que anda escasso!”, pensou ela e, em seguida, lembrou-se de um detalhe: ––– Cín, eu acabei de me tocar que em nenhum momento você me convidou para a sua comemoração... Aliás, nunca tocamos no assunto... Então, como foi que eu vim parar aqui? Ao que Cíntia naturalmente respondeu: ––– Simples: você não é mais convidada em minha vida. Você já é parte dela. Automaticamente seus olhares se cruzaram, e o de Cíntia demonstrou uma intensidade que Patrícia já conhecia. Não falaram mais até chegarem ao bar.
Escrito por MariaN às 10h38
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Patrícia Capítulo 62 
No escritório, logo pela manhã, Patty já havia informado aos outros que era o aniversário de Cíntia, por isso ela não viera trabalhar. Com o passar das horas, percebeu o quanto sentia falta dela ali. A presença forte e envolvente de Cíntia sempre fizera a diferença e só agora ela acordava para isso. “Sinto-me dividida, pela primeira vez nessa história toda. Acho que dividida não é bem o termo, já que o namoro com Iara foi interrompido... será que vou agüentar? Será que as pessoas costumam romper uma relação só porque uma não é tão romântica quanto a outra? Eu não preciso ser igual às outras pessoas! ...Tem a ver com bem-estar e ao seu lado eu já não me sentia tão bem... Nunca podia agir com naturalidade... cansei! Vou ligar pra Cín pra saber se ela tem algum plano pra hoje... Claro que deve ter... E se eu a convidasse para jantar... entregaria a lembrancinha que comprei... Ah, preciso também ligar para o doutor Salles. Tenho que saber se já efetivaram a Érica e o Vítor e também se já posso ligar para a empresa que seleciona estagiários...eles me avisariam caso isso tivesse acontecido...” Milhares de outras coisas disputaram espaço nos seus pensamentos e, volta e meia, algo lhe chamava à atenção em relação à Cíntia. Lembrou-se também do dia em que Érica e Vítor começaram a trabalhar ali, e da inesquecível comemoração entre elas. Sentiu um arrepio por todo o corpo ao se lembrar das sensações que Cín era capaz de lhe provocar e sentiu saudade... Diante de lembranças tão quentes, achou melhor mudar o foco. Sacudiu a cabeça e ligou para sua mãe, apenas para saber como estava o seu dia. E então ela lhe contou sobre o convite que fizera a Cíntia. ––– Ih, mãe, a senhora desviou o rumo dela, porque com certeza deve ter combinado uma farra com as amigas! ––– Pois é... Então, já que eu não sou ‘entrona e nem oferecida’ pra me convidar pro programa com as amigas, achei um jeito de dar um abraço nela, ara... Patrícia riu da solução encontrada pela mãe e desligou o telefone, ansiosa para chegar a hora de ir embora. Ela também queria dar um abraço na aniversariante. Daria até mais do que um simples abraço, não fosse o pouco de juízo que ainda conservava... “Ah, isso não tem nada a ver com juízo! Preciso parar de me policiar e passar a agir com mais naturalidade, afinal é na Cintia que estou pensando e não na Iara... Estranho pensar assim, de repente... Com a Cíntia eu sempre pude tudo... Mesmo quando não sabia do que ela sentia por mim, sempre me senti à vontade perto dela, aqui no escritório... Será que ainda tenho chance com ela? Ah, mas tenho que pensar bem, porque... Poxa vida, não posso ser tão volúvel assim...”. E essas interrogações do tipo: “como, quando e com quem fazer o que?” tomaram conta da sua cabeça por um bom tempo, enquanto trabalhava e via a noite chegar. Esperou que Vítor e Érica saíssem para fechar o escritório e ir embora encarar o final de semana. Não fez planos, mas sabia que queria ver Cíntia naquela noite. Em outro ponto um pouco afastado da cidade, no sítio do senhor Alcides, Iara e Vera conversavam, enquanto a última concluía o serviço do dia: ––– Dona Iara, lá na sua outra casa eu tinha folga a cada quinze dias... e aqui, como vai ser? É, porque nós nem conversamos ainda, desde que eu cheguei aqui... ––– Vera, você pode ir pra casa toda sexta à tardinha, tipo nesse horário agora, e voltar na segunda de manhã... Neste momento, Iara ouve a voz do pai: ––– Minha filha, eu quero conversar com você. Pode vir aqui? Fazendo um sinal para Vera que depois conversariam mais, ela foi até ele. Encontrou-o sentado numa cadeira de balanço na varanda olhando para o imenso pomar, que começava logo ali, à direita da casa, e se estendia por uns quinhentos metros até o final do terreno. Nesse ponto o pomar encontrava um riacho. Logo adiante, a grande horta onde seu Alcides plantava e cultivava o sustento da família por várias décadas fazia o caminho inverso, circundando o lado esquerdo da casa. ––– Oi, pai... – disse Iara se sentando numa cadeira ao seu lado. ––– Faz dias que eu quero falar com você, Iara... Ela sentiu que o pai não estava nos seus melhores dias e se arrependeu por não tido ainda a coragem de sair dali com seu filho. Por causa desse pensamento, ela acabou respondendo num tom que não o agradou: ––– Espero que não seja bronca e nem sermão... Afinal, eu estou bem grandinha! ––– Não, eu só queria saber o que tem acontecido na sua vida... Faz tempo que não ouço o nome da Patrícia, mas você continua saindo quase todas as noites... Então, se não é com ela, deduzi que você resolveu começar a estudar, né? E assim ele tocou em todos os assuntos que queria de uma vez só. Iara decidiu que seria melhor acabar com essa conversa logo, portanto, foi direto ao ponto: ––– Pai, a Patty e eu rompemos. Passamos por uns problemas inconciliáveis. Ela quer morar junto e tal, e eu tenho meu filho pra criar e, pra isso, preciso fazer dinheiro. Seu Alcides reagiu de maneira natural, como era de se esperar: ––– Tudo bem, Iara... Só acho uma pena, porque ela é uma boa moça... Espero que vocês tenham tido a decência de continuarem amigas, pelo menos. Mas me diga o que está pretendendo fazer da sua vida agora? – perguntou, mudando de assunto e tirando de Iara a obrigação de ficar se explicando indefinidamente. ––– Pois é, eu estou pensando seriamente em me preparar para abrir um pequeno negócio. Preciso fazer um levantamento pra descobrir que tipo de comércio ou de serviços a cidade está necessitando. A partir daí, é só me adequar a ele e começar a trabalhar. ––– Tem que tomar muito cuidado para não perder dinheiro. Comércio é uma faca de dois gumes, se a gente não souber administrar, acaba abrindo falência em pouco tempo. ––– É, eu sei, pai... E também não tenho nenhuma fortuna. Muito pelo contrário, são minhas poucas economias que eu pretendo investir nesta empreitada, por isso é necessário procurar os órgãos de apoio aos pequenos empreendedores. Lá eles me darão suporte pra fazer o que quero com mais segurança. ––– Eu te desejo muita sorte, minha filha, porque isso é uma coisa que não depende da gente. Agora, o que depende de você é a preparação, a disposição pra trabalhar dia e noite. Quando a gente trabalha por conta própria não tem feriado, fim de semana... ––– Obrigada pelo apoio, pai... Eu estou disposta, sim... Agora, como eu disse antes, preciso ver em que área eu vou investir meu tempo e dinheiro... A conversa entre eles foi longe. Afinal, o seu Alcides tinha muito que ensinar à filha sobre como conduzir um negócio, já que sempre tivera o seu. Ao final, Iara pediu licença ao pai e foi pro banho. Antes, porém, por várias vezes ligou em vão para Vânia, que não atendeu a nenhuma das ligações. “Deve estar no banho também... quando estiver quase pronta pra sair, eu ligo de novo.”
Escrito por MariaN às 22h21
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