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Patrícia Capítulo 64 
Era o velho e bom reduto de tantas farras para Cíntia, porém um ambiente relativamente novo para Patty. Algumas meninas, Márcia, Ana, Tatiana, Tânia e Milena, que Cíntia e Patty conheciam já haviam chegado. Disseram que esperavam outras amigas, porque a noite prometia, e muito! Depois de receber o abraço de cada uma ali, Cíntia pegou Patty pela mão e, pedindo licença levou-a para um canto. Ela se encostou à parede e segurando Patty pela cintura, puxou-a para si e deu-lhe um beijo de tirar o fôlego. Patrícia, sem resistência, apertou o seu corpo contra o (ou a favor do) dela e correspondeu ao beijo, como se fosse este o seu ideal de vida. Sem interromper os beijos, Patty conseguiu falar: ––– Uau!! Passiva agressiva... Não brinque assim comigo... Eu estou muito carente... E quando estou assim, não me responsabilizo pelos meus atos. Cíntia não deixou por menos: ––– Pode relaxar que eu assumo os nossos atos daqui pra frente! Eu queria este presente hoje! Com dificuldade elas se soltaram e voltaram à mesa. Sentaram-se no lugar que alguém determinou, e Cíntia continuou segurando a mão de Patty sobre a perna. Durante o resto da noite ela deixou claro que falara muito sério. Patrícia apenas se deixou levar, pois, mesmo sem que nada fosse dito, sabia que estava num caminho seguro. A noite foi animada. Ao todo, doze mulheres passaram por ali. Nem todas se sentaram ou ficaram, mas a maioria conhecia Cíntia e fez questão de parabenizá-la. Logo no início da noite, Cíntia viu Vânia numa mesa do canto com uma mulher e comentou com Patrícia. ––– Não é a mulher que estava com a mulher-maravilha aquele noite? ––– Sim, é ela. Bom, mas não temos nada a ver com isso. Melhor fazer de conta que não vimos nada. Mesmo sentadas, elas continuavam de mãos dadas. E a presença de Vânia ali não impediu Patty de ficar cada vez mais próxima de Cíntia, que volta e meia precisava se levantar para receber o abraço de alguém. Apesar da fartura de bebidas na mesa, já que cada pessoa pedia uma diferente, Patty evitou misturar. Elegeu o vinho como a bebida da vez e não provou nenhuma outra. Cíntia, ainda que tomasse cerveja, arriscou um ou outro gole de uísque com Márcia. Em determinado momento, Patty deu-lhe um toque, pedindo-lhe carinhosamente que se controlasse pra não ficar de porre. E Márcia, assim que teve chance, aproveitou-a para provocá-la em relação à Patrícia: ––– E então, vai grudar na mulher, ou vai deixá-la solta de novo? Se eu fosse você não arriscaria, viu, porque, cá pra nós, ela é tudo de ‘bão’... Ao que Cíntia comentou seriamente, apesar do sorriso bobo: ––– Pois vá cantar de galinha em outro quintal, porque agora que estou reconquistando minha morena, ninguém tasca mais! ––– Calma, amiga... Brincadeirinha... Eu estou acompanhada, ó...- disse apontando Aninha que alheia a tudo isso, conversava com outra menina na mesa. E assim, a noite foi passando. Já era bem tarde quando a atenção de Patty foi atraída para uma mesa do outro lado do salão. Era Iara que acabava de chegar e se sentava com Vânia. Patrícia não entendeu nada, porque ainda há pouco havia outra mulher ali, mas disfarçou. Achou melhor nem comentar com Cíntia. Mas ficou contrariada com a situação e, naturalmente se viu procurando justificativas para o final da relação entre elas. “Cruzar com as duas logo na primeira noite? Bom, mas eu também estou aqui com a Cíntia. E está bem claro pra quem quiser ver, que estamos nos entendendo. Ah, mas eu sabia que elas estavam juntas, e a Iara com aquele papo de liberdade, de não querer se comprometer e, principalmente, com aquele ciúme bobo de Cíntia... Quem tem coragem de fazer costuma acusar quem não faz, só pra tirar a atenção dos seus atos... Ainda bem que não banquei a boba... Olha só a cara de satisfação dela! E na rua até essa hora... comigo tinha que chegar cedo em casa, por causa do pai, do filho, do cachorro, do gato... e de não-sei-mais-quem! É bom pra eu saber como funciona... Vou fingir que não vi nada, nem ninguém. Afinal, a última coisa que eu faria seria estragar a noite da Cín." Cíntia brincava e se divertia sem, no entanto, se afastar de Patty, que a todo instante colocava a mão sobre sua perna ou mexia em seus cabelos, tocava seu rosto... Não poderia desejar uma comemoração melhor para o dia em que completava trinta anos de idade. De repente, do nada, Cíntia viu Iara. A primeira sensação foi de medo. Medo que ela estragasse seu momento com Patty. Medo de que Patty tivesse uma recaída... Por isso, olhou para Patrícia, que estava toda risonha ao seu lado, e isso a tranqüilizou. Ela não parecia mexida com a presença da outra. Mas... Será que ela já a vira? Ante seu olhar interrogativo, Patty, adivinhando o motivo, respondeu: ––– Sim, eu já vi... Está tudo bem, Cín... ––– E ela, já te viu? ––– Bom, se não viu, a outra já contou... Além do mais, eu não estou escondida. Ela sabe que eu tenho o direito de estar aqui, fazendo o que estou fazendo, sem culpa... ––– Entendi... Quer dizer que vocês brigaram... ––– Sim, mas não foi uma briga qualquer... ––– Quer dizer que foi pra valer? Que você rompeu aquela relação inócua com ela? ––– Sim, Cíntia, nós rompemos. Do contrário eu não estaria aqui contigo. Você se esqueceu de como é que eu sou? Eu não gosto de traição. ––– É, mas você já quis “cometer adultério” comigo e não foi apenas uma vez, lembra disso? Patrícia usou uma expressão brincalhona pra dizer a verdade: ––– É que você é irresistível, Cín! ––– Engraçadinha... Mas te confesso que andei pensando e mudei de idéia... Agora eu aceitaria ficar com você, mesmo que ainda não tivesse resolvido sua vida com ela. Patrícia ficou pensativa por alguns segundos, antes de responder: ––– Sabe, apesar do sentimento que eu acredito existir dentro de mim, acho que durante esses meses com Iara eu acabei traindo foi a mim mesma... Aceitei ser tratada friamente, coisa que nunca suportei; Aceitei que me chamassem de infantil... E isso é complicado quando trazemos lembranças tão difíceis da infância.... Enfim, eu traí algumas das minhas certezas... Deixei a submissão tomar conta de mim... Bom, mas não vou me lamuriar agora. Hoje é teu aniversário e temos que festejar. Cíntia não ficou feliz ao ouvir sobre sentimento pela outra, mas se sentiu bem por merecer a confiança de Patty nesse desabafo com jeito de confidência. Por isso, confessou: ––– Pois, mesmo sabendo que você ainda sente “isso aí” por ela, eu vou arriscar, Patty! Não pretendo te deixar escapar de mim outra vez! ––– Eu te proíbo de me abandonar, me deixando à deriva – brincou seriamente Patrícia – tente e verá! Aí é que vou me agarrar a você de vez! Os olhos de Cíntia brilhavam de felicidade. Mesmo em sonhos, nunca conseguira tantas declarações de Patty, quanto nesse momento. Ambas viram quando Iara se levantou e veio em direção a elas. Quieta e tranquila, Patty esperou que ela se aproximasse. Iara deu a volta à mesa e postou-se por trás e, abaixando-se para ficar no meio das duas, falou entre dentes: ––– Agora eu entendi o porquê do rompimento entre nós. Você queria cair na farra com ela... Patrícia a interrompeu, tentando manter a voz baixa, mas não foi muito eficaz na tentativa e todas as pessoas da mesa se calaram diante do entrevero que se anunciava: ––– Podemos conversar em qualquer outro lugar, em qualquer outra hora, mas não aqui! Não agora! Não vou admitir isso, Iara! Nisso, Vânia chegou perto de Iara e sem pestanejar, e nem dar importância para a platéia, falou em alto e bom tom: ––– Que papelão, hein, dona Iara! Venha! Vamos embora daqui! – a voz alta e ríspida não deixou margem para qualquer dúvida: elas estavam juntas. Vânia não admitiu a falta de respeito de Iara, por isso, pegou-a pela mão e tirou-a dali, sem sequer olhar para os lados. Patrícia ficou pasma, sem saber pra que lado olhar, talvez procurando onde se esconder. Nunca havia acontecido em sua vida qualquer deste tipo. Sempre fizera questão de se manter íntegra, o que incluía a maneira como entrava e saía dos lugares. Na única vez em que saiu embriagada de um bar, por ocasião do divórcio de Iara, quase morreu de vergonha. Hoje, porém, não ficaria com ressaca moral, a pior de todas, porque se sentia livre das amarras de Iara. Aconchegou-se a Cíntia, que lhe deu um abraço discreto, na tentativa de consolar seu coração que se sentiu pequenininho, apesar de forte. Esse incidente causou o maior frisson entre os freqüentadores do local, composto basicamente de mulheres. Mesmo depois de elas saírem e de tudo adquirir uma aparente normalidade, havia uma certa tensão no ar. Todas ficaram meio sem graça, mas ainda continuaram a farra por uma meia hora. Depois de enfrentarem uma mini fila no caixa para pagarem suas despesas e de se despedirem, cada uma tomou um rumo diferente. Cíntia e Patrícia ficaram ali, na calçada do bar, esperando por um táxi que se aproximava. Já passava das duas da madrugada e Cíntia, um pouco mais do que Patty, estava um pouco tonta. Assim que entraram, Cíntia deu o endereço de Patrícia. ––– Não, moço! Ela se enganou. Siga para o bairro Jardim Vermelho. Era o bairro de Cíntia. ––– Assim o táxi vai dar uma volta, Patty. Sua casa fica no caminho para a minha... ––– Eu não vou pra minha casa hoje... Cíntia segurou a mão de Patty e seus olhos brilharam mais uma vez. A presença do motorista segurou a impetuosidade de Cíntia que, não fosse isso, teria se atirado nos braços de Patrícia. Para não ficar naquele silêncio delator, Cíntia tentou puxar qualquer assunto: ––– Tudo bem, Patty... O que você achou da noite e das pessoas? Só que Patrícia não pensava igual, por isso falou outra coisa: ––– Você acha que ela vai continuar me perturbando, como fez hoje na mesa? ––– Se a Vânia não der um jeito de controlar a situação, vai sim. Conheço o tipo. ––– Conhece, é? E como funciona esse tipo? – Patty não evitou o riso. ––– Agem dessa maneira, assim, duronas, como se não se importassem com o que a gente sente; se é amor, paixão, essas coisas... Aí, quando não agüentamos mais e botamos um fim, elas vêm pra cima com tudo, dizendo que não foram compreendidas, que precisam de outra chance e tal e coisa e coisa e tal... ––– Uau, quanta experiência! – comentou Patty meio que debochando – e eu, pertenço a esse tipo? Cíntia foi rápida na resposta: ––– Não, você faz parte do tipo que quando percebe que está perdendo a atenção e a ex-apaixonada está quase partindo pra outra, vem correndo, tentando nos segurar... Ambas ririam e, indiferente à presença do motorista, Patty deu um beijo de leve nos lábios de Cíntia. Por fim, chegaram. Patty, já com ares de dona da casa, logo decretou: ––– Cín, eu vou tomar um banho pra me livrar daquele cheiro de boteco... Só que não trouxe roupa pra dormir... ––– Vai ligando o chuveiro que eu já levo roupas pra nós duas... Se bem que nem vamos precisar delas por enquanto... Fazendo-lhe um carinho, Patty falou: ––– Ah, sua safadinha... Já é madrugada, melhor irmos dormir pra acordarmos cedo e aproveitarmos o sábado... ––– Não me importo de aproveitá-lo na cama, com você... Patrícia riu e entrou no banho. Logo Cíntia juntou-se a ela e, silenciosamente, amaram-se debaixo do chuveiro. As palavras foram dispensadas. Apenas os gemidos, sussurros e as respirações ofegantes eram ouvidos. Como amantes relativas, elas se entregaram uma a outra sem necessidade de definir papéis... Quando a posição incômoda tornou-se insuportável, Cíntia conduziu Patty para sua cama e o amor se fez macio, escorregadio e calmo até que os primeiros raios de sol inundassem o quarto. Esgotadas com tanto gozo e felizes por tanto amor, elas dormiram abraçadas, como a dizer que não mais temiam a separação. Antes de se entregar ao sono pesado, Patty ainda falou: ––– Como pude esquecer a maravilha que é fazer amor com você? Em resposta, Cíntia apertou-a em seu abraço sorrindo. E assim dormiram até quase ao meio-dia.
Escrito por MariaN às 22h25
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