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Patrícia Capítulo 66  A força do olhar de Cíntia acordou Patty, que abriu os olhos já sorrindo para a mulher que a admirava: ––– Cín, eu fiz alguma coisa da qual eu possa me arrepender? – perguntou com uma carinha sapeca. ––– Sim, Patty, você fez de mim a mulher mais feliz deste mundão de meu Deus! – quase gritou Cíntia. Mas se conteve para concluir: - e sim, você pode se arrepender muito se não repetir a dose pelo menos duas vezes por dia, daqui pra frente... ––– Acho que algo afetou minha memória, Cín, porque não me lembro de nada... ––– Vem cá que eu vou refrescar sua memória... E num único movimento se posicionou sobre o corpo de Patty de tal maneira que podia sentir na sua pele cada poro do corpo da mulher amada. E isto a levava ao êxtase. Deliciada com a competência das carícias, Patrícia se entregou sem reservas a mais uma sessão ímpar de amor nos braços ardentes de Cíntia. Quase uma hora depois, Patrícia se soltava da boca de Cíntia, mais uma vez totalmente saciada. Foi a contragosto que ela se levantou para pegar o celular e ligar para a mãe: havia se lembrado que não tinha avisado que dormiria fora. Ligou meio apreensiva. Marta, entretanto, a recebeu muito bem, pois imaginava mesmo que ela não voltaria pra dormir em casa, por isso ficou tranquila. E como elas foram de táxi, nem teve motivos para preocupações. ––– Ah, mãe, que bom! É que chegamos tão tarde... Com certeza eu te acordaria se tivesse ligado... Peraí, mãe, que a Cíntia está falando alguma coisa aqui... ––– Veja se ela aceita o convite pra almoçarmos juntas... – Cíntia, deitada sobre as pernas de Patty, sentia-se a mulher mais feliz do mundo. Patrícia fez o que ela pediu, desligou o telefone, trocaram muitos carinhos, dos mais simples aos mais ousados e bem depois foram para o banho. Almoçaram juntas, como Cíntia sugeriu, e dona Marta observou o quanto Patty estava com a aparência mais leve... Os olhos mais calmos, o sorriso mais fácil... Ainda bem que aquelas rugas de tensão sumiram de sua testa. Pensou em tocar no nome de Iara, mas se conteve para não aborrecer as duas moças. Ao invés disso, ela deu uma idéia: ––– Filha, você vive me dizendo que preciso sair um pouco, me divertir, essas coisas... Eu estava pensando: que tal se a gente fosse dar uma volta pelos arredores da cidade, numa cachoeira, ou coisa assim? Patrícia olhou para Cíntia na expectativa de uma resposta. E esta veio na forma que dona Marta queria: ––– Eu acho uma ótima idéia! Que tal amanhã? A gente poderia fazer um piquenique, com direito a toalha xadrez, cestas de vime e tudo o mais... Todas ririam e combinaram que fariam o tal passeio. Marta reservou aquela tarde de sábado para fazer bolo, uma torta e sanduíches que levariam para o passeio. Patrícia ficou encarregada das compras, desde que alguém fizesse a lista, claro; à Cíntia coube a arrumação e a organização de tudo. Para facilitar a saída no dia seguinte, segundo dona Marta, Cíntia deveria dormir com elas naquela noite, porque assim, nada poderia atrasar a partida, logo de manhãzinha. E assim foi feito, para a alegria de Cíntia que estreou a cama de Patty. Fizeram amor devagarzinho, silenciosamente e, entre beijos e sussurros, ficou decidido que trocariam a cama por uma maior na semana seguinte. Antes de dormir, naquele último segundo de lucidez antes de ser laçada pelo sono, Patrícia conseguiu dizer: ––– Cín... ––– Hum... ––– Com você eu estou conhecendo a paz... Boa noite... Cíntia respondeu com as palavras dentro de um beijo: ––– Eu te amo... Boa noite, minha vida... Vencida pelo cansaço da “silenciosidade’’ dos gozos sucessivos, Cíntia aconchegou-se à mulher amada e entregou-se aos sonhos. Antes das oito estavam na estrada. Em pouco mais de uma hora de viagem, chegaram a uma cidadezinha muito famosa por suas festas religiosas, cuja arquitetura do século XIX era responsável pelo grande número de turistas que basicamente moviam a sua economia durante todo o ano. Claro que dona Marta aproveitou para visitar pelos menos três igrejas. As meninas, porém, não a acompanharam em todas. Na última, elas ficaram comprando lembrancinhas nas barriquinhas ali de fora. Terminando a via sacra de Marta, lá se foram para os arredores da cidade à procura de um lugar à sombra de uma grande árvore onde pudessem estender a toalha xadrez. Havia outras pessoas por ali aproveitando o dia de sol, mas todos mantinham uma distância educada umas das outras. A paisagem bucólica em torno desta cidadezinha rodeada de pequenas cachoeiras e tão próxima a duas grandes cidades transformou-a em um retiro onde as pessoas esqueciam seus problemas de cidade grande, por algumas horas que fosse. Cíntia e Patty trouxeram roupas de banho, por isso, mal esvaziaram o porta-malas, deixaram Marta cuidando da arrumação e caíram na piscina natural formada pela queda d’água de cinco metros de altura. Na água cristalina elas brincaram, feito duas crianças que há muito não viam tão de perto a natureza na sua simplicidade. Dali a pouco, Marta se aproximou e, sentando-se numa pedra com os pés na água, começou a contar casos vividos por ela quando era criança. As duas moças ririam muito quando ela disse que ela e os dois irmãos, que Deus os tenha, roubavam milho e melancia na roça dos vizinhos. Sim, e por isso, uma vez ela ganhara uma surra do pai que jamais esquecera. Ah, como era bom recordar dessa época em que a vida se resumia em ir pra escola rural e correr pelos campos sem preocupações com o futuro ou com o presente. Bom, mas agora tudo estava diferente e algumas crianças da cidade sequer sabiam como era um pé de melancia ou de milho. ––– Fico pensando, sabe, são tantas boas recordações de quando eu tinha meus pais e irmãos... Agora somos só nós duas, não é, minha filha? – concluiu meio choramingona. ––– É, mãe, mas estamos bem... Por favor, não fique triste com essas lembranças. Dizendo isso, Patty voltou a dar umas braçadas, e se afastou nadando, em direção a Cíntia. ––– Tá bom! Nada de tristezas! Vamos tomar um suco, gurias! Depois vocês voltam para cá e eu vou andar um pouco por aí. Cíntia e Patty acompanharam-na até a “mesa”, já posta e organizada. Enroladas em cangas, elas se sentaram no chão e se serviram de suco e ficaram conversando. Conversa vai, conversa vem elas acabaram chegando ao assunto de como alguns pais aceitam a orientação sexual dos filhos, e outros não. Nesse ponto, Cíntia acabou desabafando: ––– Eu seria muito feliz se conseguisse aceitar os meus pais como eles são. Ou seja, lá na minha casa, há uma espécie de acordo: eles não me aceitam e eu não os aceito. Como se já não bastasse todo o conflito que enfrentei dentro de mim quando me descobri homossexual. Talvez eles jamais tenham pensando em como foi difícil pra mim essa aceitação. Não que eu tenha pensado em cogitar qualquer tipo de negação... É que na época, o meu sofrimento e o meu conflito foram muito maiores do que os deles hoje e sempre. Afinal, quem vai conviver com o preconceito sou eu, e não eles! Foi então que dona Marta e Patty contaram a ela como havia sido quando Patricia resolveu se abrir. No final, a mãe de Patrícia até se ofereceu para conversar com os pais de Cíntia: ––– Quem sabe ouvindo de outra mãe eles consigam abrir um pouco o coração? ––– Ah, mãe, tu nem sabes como eles são! Vai que resolvem brigar contigo também! ––– Não, Patty! Tua mãe tem razão! Meus pais não convivem com nenhuma outra família que tenha um homossexual! ––– Então, pensa nisso, pequena! Talvez eu nem diga muita coisa, mas eles vão saber que existem algumas mães e pais nesse mundo que aceitam seus filhos como eles são e isso pode mudar um pouco a cabecinha deles... ––– Ah, dona Marta, vou pensar num jeito de promover um encontro entre vocês. E não é só por isso, não, hein? É porque a senhora é uma pessoa maravilhosa e, mesmo que não dê em nada e a gente não consiga falar com eles nesse assunto, vai valer a pena pra eles conhecerem a senhora. E assim o domingo foi se acabando dentro de muita alegria, troca e desejo de perpetuar este momento. E dia foi mesmo maravilhoso. Ou, como diria Cíntia: perfeito. Já era noite quando voltaram. Descarregaram tudo na casa de Patty, ajudaram Marta em algumas arrumações e Patty levou Cíntia até sua casa, ficando lá por tempo suficiente para matarem a saudade dos beijos longos e intensos. Sim, porque perto de Marta elas não se acarinham. Patty aprendeu que um dos segredos para manter a mãe ao seu lado era primar pelo respeito. E mesmo se namorasse um rapaz, agiria da mesma forma. Não tinha necessidade de mostrar para sua mãe como duas pessoas se beijam ou fazem amor. Ela já sabia. E além do mais, sempre que via uma cena dessas muito escrachadas na TV, a primeira coisa que dizia era “o mundo está perdido com essa pouca vergonha tão escancarada dentro da casa da gente”. Naquela noite, Patty sentiu falta de Cíntia em sua cama, e Cíntia se sentiu solitária em seu quarto. Mas ambas dormiram rapidamente por causa do agito no final de semana.
Escrito por MariaN às 23h52
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Patrícia Capítulo 65

Horário do almoço. Iara, à volta da mesa, servia ao seu pai e ao seu filho. Havia interrogações no ar. Ela sabia que o pai iria querer a verdade, afinal ela chegara em casa já pela manhã. Tivera sorte que, ao entrar, ele estivesse na pequena sala, que ele chamava de escritório, anotando algumas coisas num livro grosso e preto. E estava tão entretido que ela agradeceu aos céus e foi direto para seu quarto. O filho já havia se levantando e ela correu para trocar de roupa, antes que ele a visse. Besteira, já que ele vira a ausência dela a noite toda no quarto que dividiam. Falaria com o pai. Estava na hora de Rodrigo ter seu próprio quarto. Não seria problema, afinal tinha mais um quarto na casa e estava vazio. Na próxima semana, pediria a Vera que fizesse uma limpeza lá e faria uma pequena reforma. Boa idéia: Rodrigo ganharia um quarto novinho em folha. Andou pela casa até achar seu filho. Estava próximo aos animais, conversando com os cavalos. Deu-lhe um beijo e voltou para dentro, indo direto ver o que Vera tinha deixado adiantado para o almoço de sábado. Havia uma lasanha congelada e salada já lavada. Retirou a lasanha do freezer, decorou uma travessa com a salada, acrescentando algumas conservas e decidiu fazer um pouco de arroz. Enquanto dava andamento ao almoço, pensava na noite mal dormida. Por um lado, com algum arrependimento; por outro, com muito prazer. Ao chegar ao encontro com Vânia, depois de horas tentando falar com ela por telefone, a primeira pessoa que vira foi Patrícia, toda serelepe com aquela bat-girl da Cíntia. Deixou as duas de lado para ouvir de Vânia toda a saga com Rosa no início da noite... Inclusive, ela disse, tinham estado naquele mesmo bar. Ela só tinha saído dali pelo tempo suficiente para despachar Rosa na Rodoviária, onde ela pegou o último ônibus para a capital. E este foi o motivo pelo qual não atendera as ligações. Afinal, Rosa era perigosa. Só Vânia sabia do que Rosa é capaz: ––– Poderia ter pegado o telefone em minhas mãos para te falar horrores... Mesmo sem te conhecer ela saberia como te ofender, porque não tem papas na língua. Eu conheço aquela peça rara. ––– E como é que você pôde se envolver com uma mulher tão vulgar? ––– Iara, a gente só percebe essas características com o passar do tempo. E, de mais a mais, todas nós somos capazes de cometer coisas desse tipo em algum momento da vida. ––– E essa farra aí, faz tempo que começou? – perguntou Iara, curiosa com a presença de Patty. ––– Ah, sei lá... Foram chegando aos poucos... Para quem já terminou a relação, você está muito interessada nos passos da moça... E olha só, mesmo que a gente esteja num relacionamento aberto, como já foi dito, é preciso seguir certas regras, e ficar de galho em galho ou de olho em ex não faz parte do jogo. Aliás, Iara, eu não admito gracinhas. ––– Não vejo problema, poxa vida, afinal, ainda estou bem mexida com o rompimento, que é ainda muito recente... E pelo que você me disse, quando propôs um novo modo de relação, achei que valia tudo! ––– Eu não acredito que você tenha levado a sério o que eu disse! Chifres é um enfeite que não combina comigo! Acorda, mulher! Se eu gostasse de dividir mulher minha, não teria rompido com Rosângela! ––– Eu estou vendo que palavra é uma coisa para a qual você não dá muito valor! Depois conversaremos sobre isso. Já não sei se me interessa ficar com você. ––– Iara, você não é mais uma adolescente, cuja formação psicológica ainda está incompleta, que vive por aí,fazendo coisas sem noção de responsabilidade! Você acredita mesmo que as pessoas aceitem essa vida de aventuras o tempo todo? Pois se não conseguiu isso com a Patrícia, que é bem mais nova do que eu, não será comigo que vai aprontar! Acho melhor sairmos daqui! Vamos conversar em minha casa! Ela não gostara do tom de Vânia. E de repente, sentiu que tudo estava contra ela. Antes era Patty com aquela mania de cuidar o tempo todo, agora Vânia com esse jeito de mandona pra cima dela! Decidiu que resolveria os problemas com Vânia depois. Agora queria se dedicar a perturbar Patrícia. Estava com raiva e não deixaria por isso mesmo. Enfim, uma junção de fatores provocou nela o desejo de ir até lá só pra provocar. Só queria dizer que não era trouxa... ou qualquer outra coisa que tirasse do seu rosto aquele sorriso idiota, como estava agora. Sentiu muita raiva ao ver que Patrícia se divertia logo no dia seguinte ao rompimento, como se nada tivesse acontecido. Aquela bat-girl tanto fez, que conquistou Patrícia de novo. Ah, mas ela não fora enganada! Ela sabia o tempo todo! Não faria escândalos. E também queria, entre outras coisas, se vingar de Vânia, que preferiu dar atenção e posar de anfitriã para a ex, do que atendê-la quando ela queria. Agora mais essa novidade! Porque tudo bem que ela houvesse concordado com uma relação aberta, mas não esperava ser traída logo na primeira noite de namoro... digamos assim, oficial... E Patrícia também não tinha o direito de ficar de agarramento com a outra na sua frente. Aquilo era falta de respeito com ela! Por isso, foi até a mesa da aniversariante: precisava se vingar das duas. Vânia e Patty deviam ter se unido para desmoralizá-la. Afinal, todas as pessoas da mesa em que elas estavam as tinham visto juntas em determinada ocasião. E por que Vânia fizera questão de permanecer ali? Ela sugeriu irem para outro lugar, mas não, ela tinha que provocar! Quando Vânia praticamente a arrastou para fora do bar àquela hora, ela ficara com muita raiva. Discutiram, berraram e gritaram uma com a outra, mas Vânia não lhe deu tréguas e decretou que, ou ela assumia o romance entre elas, ou acabava ali o que mal havia começado! E ficar sozinha era a última coisa que Iara queria agora. Apesar daquele papo de liberdade com Patty, ela sabia que se ficasse sozinha agora, poderia fazer alguma besteira, tipo correr atrás de Patty rebaixando-se com pedidos humilhantes de desculpas... O principal motivo, porém, era que não se preparara para ficar só. Este último pensamento provocara um arrepio em Iara: dera-se conta de que nunca havia se preparado para nenhuma das duas coisas: nem para assumir qualquer uma de suas relações, nem para ficar só. Mas não era hora de ficar remoendo suas frustrações, por isso direcionou novamente sua atenção para as sensações da noite anterior, o que a levou a perceber como era exageradamente nítida a diferença entre Vânia e Patrícia. Esta era suave, apesar de determinada; aquela transpirava segurança, não gostava de pieguices, mas era um tanto quanto rígida, e até mesmo grosseira no trato diário. Patrícia era bastante maleável e, apesar de sempre esperar dela uma atitude, também a ajudava a enfrentar seus medos, suas inseguranças. Vânia sequer lhe dava tempo de respirar: queria mais do que respostas, exigia atitudes imediatas! Para Vânia não havia meio termo, mais ou menos, talvez, quem sabe... Não! Com ela as coisas eram ou não eram e ponto final. Naquela noite, Iara provou do seu real sabor e sentiu saudade de Patty, sempre tão romântica e carinhosa. Pôde sentir também que aqui ela não teria chances de dominar a relação. Vânia fazia o tipo ativo intransigente e logo de cara Iara percebeu que nesta relação ela voltaria à antiga posição submissa que conhecia tão bem, dos tempos de Hélio. O sexo com Vânia era louco e selvagem, sem muito tempo para carinhos. Aliás, pensava ela, Vânia era muito envolvente, porém, muito prática. Acostumada a morar sozinha, às vezes agia com um quê de egoísmo. Antes ela morava com os pais na capital, mas quando surgiu a oportunidade de se transferir com uma promoção, não pensara duas vezes. Aqui na livraria, ela era a ‘big boss’, lá era apenas mais uma. Em nome disso, abrira mão até da convivência com Rosângela. E deu no que deu. Iara foi a primeira mulher que a interessara nesta cidade. Algumas dessas coisas Iara soubera naquela noite, entre as brigas e o sexo. O almoço seguia um pouco silencioso. Havia cobranças no ar. Rodrigo foi o primeiro a falar. O assunto girou em torno da viagem que o pai lhe dera de presente no último encontro que tiveram. ––– Mãe, a gente pode ir agora nas férias de dezembro, né? ––– Não, Rodrigo, nós iremos em Julho. Tenho muitas coisas para resolver agora. E também está muito em cima da hora. ––– Ah, mãe , mas eu quero ir agora! Julho está muito longe! – disse fazendo cara de birra. ––– Você não é mais tão criança assim, que não possa entender como as coisas funcionam. ––– Sua mãe tem razão, Rodrigo. Você pode esperar um pouco mais. Quando crescer e for independente, você pode ir e vir do jeito que quiser. Mas agora tem que obedecer. Seu Alcides se meteu no assunto para que Iara não tivesse problemas mais tarde. E Rodrigo aceitou calado sua intromissão. Terminado o almoço, Iara foi pra cozinha e ficou juntando a louça sobre a pia. Ela sabia que mais cedo ou mais tarde seu pai viria falar com ela. E assim foi. Ele chegou de mansinho, sentou-se por ali, pigarreou e começou a falar: ––– Iara, eu não vou dar bronca e nem passar sermão. Assim como teu filho, você também já tem idade para saber como as coisas devem funcionar para que o respeito entre as pessoas não se acabe. Teu filho não é mais uma criança e logo vai querer saber detalhes da sua vida, inclusive onde e com quem você costuma passar as noites. ––– É, pai, eu sei. Só não sei se devo abrir o jogo com ele de cara. Tenho medo da sua reação, sei lá... ––– Não precisa abrir o jogo dizendo coisas que ele ainda não pode entender. Apenas dê-lhe satisfações quando precisar passar a noite fora de casa. Aos poucos, à medida que ele for crescendo, você vai se abrindo. – fez uma pausa e continuou - Esta noite ele acordou e, quando não te viu na cama, veio me perguntar por você. Eu disse que você tinha ido visitar uma amiga... ––– Ai, meu pai, eu preciso resolver isso... e o que foi que ele disse? ––– Perguntou se era a Patrícia. Não minta pra ele, mas também não diga a verdade de uma maneira muito crua. ––– Obrigada pelo apoio, pai. Vou achar uma maneira de contar tudo... ––– Agora... Eu quero saber: quem é a pessoa com quem você tem passado tanto tempo? ––– Pai, o nome dela é Vânia e ela é gerente de uma livraria lá no centro. ––– Já esqueceu a Patrícia? Fico desnorteado com a facilidade com que o amor de vocês muda de direção... vai assim, ao sabor do vento... Hoje é uma... amanhã é outra... depois de amanhã eu tenho até medo de saber... Falando isso, ele saiu dali, deixando-a sem saber o que pensar. Ela não era assim, tão promíscua como ele acreditava. Ah, isso não! Agora, ela não tinha culpa se não tinha dado certo com a Patrícia! Poxa, essas coisas acontecem! As pessoas não precisam ficar juntas toda a vida, só porque seu pai acha que é certo. Pensando nisso, chegou a sentir o perfume de Patrícia ali perto dela. Sim, agora acabou mesmo. “Será que eu tive alguma culpa no fim? Claro que não! Ela que é muito exigente e quer tudo do seu jeito! É, mas a Vânia também é assim. E talvez até mais do que Patty. Ah, vou parar de pensar nela, porque tenho mais o que fazer!” Mas o que ela fez foi apenas mudar de protagonista. Encostou-se à mesa e lembrou-se de Vânia e de como era maravilhoso transar com ela. Se era amor, ela só saberia depois. E nem queria pensar nisso agora. Ficou parada por um bom tempo, recordando a noite anterior. Depois da briga que tiveram por causa da sua atitude inconseqüente de abordar Patty na mesa, elas foram pra cama e transaram de um modo muito louco, sem medida e sem pudores. Pois que assim fosse sempre que brigassem. Não perderia nenhum dos bons e ardentes momentos que pudesse viver com Vânia. O futuro a Deus pertence, e ela não perderia tempo pensando nele.
Escrito por MariaN às 00h26
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