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Conto de Meninas - UOL Blog



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Conto de Meninas


Patrícia

Capítulo 70

 

A intenção inicial de Cintia era chegar à casa de seus pais com dois dias de antecedência do Natal. Chegando, inclusive a marcar a data com a mãe. No entanto, de última hora, Érica sugeriu brincarem de amigo oculto. Sugestão aceita, eles reservaram então a tarde do último dia de expediente do ano para a revelação e entrega dos presentes. Assim, em menos de três dias tudo foi primorosamente organizado por Érica, com a ajuda dos outros funcionários. E então, para evitar correria, Cíntia adiou a viagem para o dia seguinte. Sua mãe não gostou muito quando recebeu a ligação da filha, porque já havia preparado tudo para receber as visitas, mas acabou aceitando a mudança. Afinal, nesta época as pessoas querem mesmo confraternizar. Nesta tarde, um outro acontecimento marcou a ocasião. E este não tinha nenhuma ligação com esta ou com qualquer outra data comemorativa.

E aconteceu mais ou menos assim: por volta das quatro horas da tarde, todos se preparavam para iniciar a pequena troca de presentes na revelação do ‘amigo oculto’ no escritório. Patrícia estava em sua sala terminando de arrumar sua mesa, que entraria em recesso junto com ela, enquanto os outros funcionários, inclusive Cíntia, abriam embalagens de pratinhos e garfinhos descartáveis, distribuindo-os sobre uma das mesas. Nesse momento, chegou o rapaz da tele-entrega com a encomenda dos salgadinhos. Érica o atendeu e, quando se preparava para fechar a porta, Iara irrompeu sala adentro. Érica ainda tentou sinalizar para impedi-la de seguir em frente. Como estava com as mãos ocupadas, não o fez. Conseguiu apenas abrir a boca e dizer:
––– Com quem a senhora deseja falar?
Não obteve resposta e automaticamente olhou para Cíntia. Viu-a boquiaberta acompanhando os passos da mulher, que olhando de um para outro, sem nenhum sinal de cumprimento, se dirigiu à sala de Patty. A cara de espanto de Cíntia chamou a atenção de Vítor e também de Alfredo e Mariana, os novos estagiários, que se olharam sem entender nada.
Patrícia estava de costas para a porta, mas sentiu a entrada de alguém. E foi logo dizendo, enquanto se virava na direção de quem entrava:
––– Nem precisa me apressar, porque já estou terminando isso aqui... eu também estou com fome de presen... Iara? O que você está fazendo aqui?
Ante a surpresa, ela não imaginou outra pergunta, senão esta. Iara sequer abrira a boca para responder, e Cíntia apareceu na porta:
––– Quer que eu feche a porta, Patty?
Patty, meio desnorteada e já de pé, respondeu:
––– Sim, mas com você do lado de dentro!
Foi tudo muito rápido: Iara rodeou a mesa de Patty e a agarrou pelos ombros, chorando.
––– Por favor, me perdoa!
––– O que é isso, Iara? Que invasão é essa?
––– Prometo que vai ser diferente agora! Nenhuma outra mulher é tão carinhosa e compreensiva quanto você...
––– É, mas isso não foi suficiente pra você. Agora acabou, Iara. Volta pra sua namorada, pra sua vida...
––– Aquela namorada? Hum! Você nem imagina o que ela me fez!
––– Não, não imagino...
––– Ela me traiu, Patrícia! Eu a peguei com outra na cama? Pois é... E pensar que desconfiei de você...
Patrícia olhou para Cíntia, como se tivesse pedindo socorro, mas a impediu com um gesto quando ela tentou se aproximar. Era apenas uma cara de tédio que ela deixou escapar. Assumindo o controle, ela afastou Iara, que em nenhum momento parou de falar, e a conduziu para uma cadeira.
––– Vem cá... Sente-se aqui... Tenta se acalmar... Cíntia, por favor.... Pegue um copo d’água...
Cíntia voou lá pra fora e voltou com a água. E Iara continuava na mesma lengalenga, como ela diria depois.
Patrícia havia se sentado de frente pra Iara, do outro lado da mesa. Esperou que tomasse um pouco da água e perguntou, com muita serenidade:
––– E então, está mais calma?
Iara se empertigou na cadeira, jogou os ombros pra trás, secou as lágrimas com um lenço que Patty ofereceu e respondeu?
––– Estou mais calma, sim... É que muitas coisas estão acontecendo e eu preciso falar com alguém... sei lá... Falar com você...
Com um olhar sossegado, Patty respondeu:
––– Pode falar, Iara...
Olhando aquela cena, Cíntia fez menção de sair, mas foi impedida por Patty:
––– Fica, Cín....
Iara não gostou:
––– Quero falar a sós com você, Patrícia – disse, olhando para Cíntia com cara de poucos amigos.
-–– Ela fica, Iara! Eu prefiro que ela ouça tudo agora. Assim vai me poupar de contar tudo mais tarde...
Cíntia agradeceu o gesto de Patty, mas, obsequiosamente, saiu dali.
––– OK! Você conseguiu... Cíntia já saiu... Fale o que te trouxe aqui...
––– Poxa, é assim que você me trata depois de tudo o que passamos juntas?
––– Estou te tratando tão bem...
Iara fez uma pausa e continuou:
––– Vejo que perdi o meu tempo vindo aqui! Eu só queria poder voltar atrás em muitas coisas, sabe, Patrícia. Talvez nem saiba, mas tem sido difícil viver sem você...
––– É mesmo, Iara? Você só queria isso? Felizmente, é tarde demais para voltar atrás... Eu já me recuperei... Já reaprendi a viver sem você...
––– Não seja irônica, Patrícia... Eu não acredito que todo aquele amor acabou assim, de repente!
Patty fez uma pequena pausa antes de dizer:
––– Não, Iara, aquele amor se transformou, e te confesso que eu o prefiro nesse novo formato. E é isso aí: não tenho mais nada pra falar e nem pra ouvir sobre nós duas. Pra mim, acabou de vez...
––– E que formato ele tem agora? – Perguntou Iara.
––– Lembrança... Aquele amor agora, Iara, é apenas uma lembrança. Mas... Foi muito bom te ver de novo! Acho que eu precisava disso pra saber se o que sinto por você ainda pode me dominar...
––– E pode? O que você sente por mim agora, Patty?  - sua voz era pura esperança.
––– Não sei dar um nome. Mas sei que é algo que não me faria voltar atrás. Agora, por favor... Hoje é o dia em que vamos revelar o nosso amigo oculto aqui e não posso me demorar... Estão todos lá fora, só me esperando...
–––É, acho que você tem razão. Estou sobrando aqui... E, pelo jeito, não restou nem amizade, não é?
––– Sinceramente? Eu espero que um dia possamos ser amigas, mas isso terá que acontecer de forma natural... Agora, por favor... – disse, indicando a porta – Como eu já disse, estão me esperando na outra sala... Tenha um ótimo Natal com sua família... E até outro dia...
Levantou-se e abriu a porta, convidando-a a se retirar. Sem argumentos, Iara saiu calada. Passou por todos e ganhou a rua.  Diante do silêncio constrangedor que se abateu entre todos na sala, Patty resolveu abrir o jogo:
––– Bem, pessoal, se vocês querem saber... Quem acabou de passar por aqui foi o meu passado.
Todos disfarçaram a curiosidade e ela completou:
––– É um assunto particular e chato pra caramba! Portanto, vamos seguir com nossos planos... Acho que essa festinha vai me ajudar a desanuviar um pouco...
A partir daí, todos relaxaram lendo os bilhetinhos de amigo oculto, brincaram ao abrir cada lembrancinha e se divertiram tomando refrigerante e comendo salgadinhos dentro do espírito natalino que se propuseram a fazer.
Finalmente, loucos para encerrar o expediente e saírem para o tão esperado recesso até o segundo dia de janeiro, eles se despediram. 

Eram quase dezoito horas quando, todos juntos, saíram do prédio. Depois de trocarem mais abraços e mais votos de Feliz Natal e Feliz Ano Novo, cada um foi para o seu lado. Patty seguiu Cíntia até a casa desta, para que ela pegasse suas bolsas de viagem. Como queriam sair bem cedo na manhã seguinte, Cintia dormiria com Patricia. Decidiram viajar no carro de Patty, para que dona Marta ficasse mais à vontade na hora de carregar tudo o que ela achava indispensável. Cintia desceu até a garagem e Patty estacionou em frente ao prédio. Ficaram de se encontrar no elevador pra subirem juntas. Quando Patty passou pelo porteiro, que já a conhecia, ele a chamou:
––– Por favor, a senhora pode entregar isso aqui para a dona Cíntia?
Ela pegou em suas mãos um pacote em papel presente, com um envelope colado sobre uma fita vermelha. Agradeceu e foi para o elevador. Logo Cíntia chegou. Ela entrou e lhe deu o pacote, calada.
––– Outro presente, Vida? – perguntou Cíntia sorridente.
––– Não é meu. Foi o rapaz da portaria que me pediu para te entregar.
––– Ah, tá... – foi um comentário meio decepcionado. – vamos ver de quem é...
Abrindo o cartão, ela leu em silêncio, riu e passou à tarefa de abrir o pacote. Como estava chegando, esperou, abriu a porta de casa e, colocando tudo sobre a mesa, finalmente abriu o presente.
Patrícia, não se agüentando mais de tanta curiosidade, perguntou:
––– De quem é, Cín? Você só fica rindo e não fala nada...
––– É que não está assinado...
––– Que coisa estranha.... Um presente anônimo?
––– Médio...
––– Como assim, Cín? Fala logo, mulher...
––– Ué, Patty, mas se você não me deixa concluir uma frase sequer!
––– OK... Vou ficar quieta... Explica isso: não está assinado, mas não é anônimo?
––– Não, o presente é uma agenda, e quem mandou foi a Milene. Ela não assinou o cartão... Será que estava tentando fazer alguma brincadeira comigo? Ele sequer foi escrito à mão... Mas eu reconheceria esse estilo de escrever mesmo que se passassem cem anos. Afinal, eu vivi com ela tempo suficiente para conhecer algumas de suas peculiaridades... E o estilo de escrever é uma delas. Aliás, cada pessoa tem seu estilo...
––– Cíntia, você quer parar de tentar me enrolar com esse papo de estilo disso e daquilo? Que liberdade é essa que ela tem para ficar te mandando presentes? Será que ela é a única pessoa dessa cidade que não sabe que estamos juntas? Mas ela estava no dia do seu aniversário! Ela nos viu grudadas uma na outra...! O que ela está pretendendo?
––– Calma, Patty! Que ciúme fora de hora é esse, Vida? Você está lembrada que hoje a sua ex- mulher-maravilha foi atrás de você, e eu não reagi assim? A gente tem que saber separar as coisas, Patrícia...
––– Ah, mas ela não conta! A gente sabe que ela não serve de parâmetro pra nada! E a Milene sabe que estamos juntas!
––– A Iara também sabe de nós duas, mas isso não a impediu de vir atrás de você! OK? E a gente sabe também que a Milene está muito bem com a nova namorada e só me mandou um mimo, com votos de Feliz Natal! Nada demais também! Eu inclusive vou ligar para agradecer... Ou talvez eu retribua com outro mimo...
––– Ah, mas não vai mesmo!
––– Oh, vida minha... Deixa de ser encrenqueira, vai... - disse Cíntia, rindo da cara de bravinha de Patty. – Venha, vamos cuidar da vida... Vem, minha dengosinha ciumenta...
E, com muitos carinhos e beijos, ela acalmou Patty, a ponto de irem parar na cama antes de resolverem as coisas práticas.

Quando chegaram à casa de Patty, dona Marta já as esperava com um lanche leve. Sentaram-se à mesa, conversaram um pouco e logo foram dormir, já que de manhã sairiam para Rio Sem Fim.

 



Escrito por MariaN às 14h07
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