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Conto de Meninas - UOL Blog



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Conto de Meninas


Patrícia

Capítulo 71

 

A viagem foi tranquila e, em menos de uma hora, Patty estacionou em frente à casa dos pais de Cíntia. Foram recebidas no portão, porque Cíntia os avisou quando entraram na cidade. Passava um pouco das dez da manhã. Cíntia desceu, abraçou o pai, a mãe e fez as apresentações:
––– Mãe... Pai... Esta é a Patrícia, minha chefa e sua mãe, dona Marta...
Tudo normal, sem exageros ou afetações, mas com alegria por parte de Carmen e Afonso que, além de educados, sempre gostaram de receber em casa. Logo André apareceu, e Cíntia se agarrou a ele, como sempre. Haviam sido muito grudados na infância e recuperaram essa união depois de adultos, já que na adolescência tiveram lá seus desentendimentos homéricos.
O próximo movimento foi de Afonso que, com a ajuda do filho, se ofereceu para levar as malas das senhoras para seus respectivos quartos. Patty e a mãe dividiriam o quarto de hóspede da casa, enquanto Cíntia ocuparia o seu próprio quarto. Da mesma forma faria André com a esposa e filhos, que já estavam usando o antigo quarto dele. No entanto, elas não foram direto para o quarto, claro. A manhã estava linda, e os anfitriões fizeram questão de servir um pequeno lanche com suco, café e bolinho de polvilho para as recém chegadas na varanda da cozinha.
––– Que maravilha uma cozinha assim, dona Carmen! Com todo esse espaço, o quintal logo ali... – admirou-se Marta, logo que se sentaram.
––– Ah, eu não conseguiria viver num lugar todo apertado, como um apartamento, em que a gente precisa medir cada móvel que compra pra ver se vai entrar... Nem! Não gosto disso não! Não sei como vocês conseguem! – antes que Marta pudesse continuar, ela ainda falou: - E, por favor, não me chame de dona, hein! Afinal, a gente deve ter a mesma idade...
––– Que isso, Carmen? Você deve ser bem mais jovem do que eu...
Respondeu Marta com sinceridade, sem saber que sim, elas tinham quase a mesma idade, sendo que Marta era apenas um ano mais velha. Mas o galanteio de Marta agradou muito a Carmen. Enfim, o entrosamento entre elas foi bem rápido. Dona Marta ficou encantada com a simpatia de Carmen que, por sua vez, logo notou a maneira carinhosa como Marta tratava Cíntia. Em pouco tempo estavam trocando receitas; não de tortas ou de bolo, mas de creme para a pele e para os cabelos. Definitivamente, Carmen, sempre muito vaidosa, não era o tipo de dona de casa com quem se troca receitas caseiras de biscoitos ou ponto de tricô. Na outra ponta da mesa, Patty conversava com o irmão e a cunhada de Cíntia. Falavam de profissão e ele dizia por que não poderia morar numa cidade longe do litoral.
––– Veja bem, sou oceanógrafo e, claro, o mar é o meu escritório...
––– É tudo uma questão de paixão mesmo, né? Eu sempre fui apaixonada por direito. Desde menina, eu dizia para minha mãe que queria ser advogada pra resolver todas as injustiças deste mundo. Depois de pouco tempo descobri que não é bem assim.
––– Pois é, você lida com as injustiças do homem contra seus semelhantes, e eu atuo na área de preservação ambiental. No caso, tento encontrar soluções e técnicas que possam amenizar a crueldade do ser humano contra aos animais marinhos e seu habitat natural.
Pouco depois, contava para Patrícia como conhecera a mulher, Daysa, que neste momento chegava com o filho menor nos braços e se sentava ao lado da sogra.
––– Ela é bióloga marinha, e eu conheci o tal amor à primeira vista no primeiro dia de trabalho dela no mesmo escritório que eu...
Todos riram e Patty deu continuidade à conversa:
––– Muito legal conhecer alguém assim e se apaixonar logo de cara, não é?
––– É verdade, Patrícia... E, segundo resultados recentes de uma pesquisa feita por um psicólogo e escritor, o relacionamento tende a ser duradouro quando o casal se conhece num ambiente mais restrito, como o familiar, um clube ou o trabalho.
Nesta hora Cíntia ficou animada:
––– André, me fala mais sobre isso. Afinal, eu também conheci alguém no trabalho... Poxa, gostei dessa pesquisa!
Riram e trocaram olhares, mas a partir daí passaram a participar da conversa que rolava na mesa entre os pais, Daysa e dona Marta. E, naquele momento, o assunto eram os filhos e a profissão escolhida por cada um deles. Dona Marta percebeu que evitaram falar sob outros aspectos de Cíntia, e ela respeitou isso.
Durante o resto do dia, de uma maneira ou de outra, todos eles ficaram envolvidos com os preparativos da ceia. Foi um corre-corre típico deste dia. Carmen desenrolava tudo com aquela rapidez esperada de uma dona de casa experiente, delegando tarefas e botando a mão na massa, quando necessário. Marta não ficou pra trás, acreditando que logo essas duas famílias estariam unidas com a união das filhas, participou de tudo com alegria e competência. Descobriu com isso que sentia falta de agitação familiar. Nos poucos momentos silenciosos, ela ficava observando a família de Cíntia. Sabia que mesmo sendo um dia atípico, muitas coisas poderiam ser notadas. Não houve um só grito ou discussão entre eles. Muito pelo contrário, o carinho partilhado nos olhares trocados ao longo do dia era algo lindo de se ver. Que bom que apesar de negarem a condição homossexual da filha, eles a tratavam com carinho. Ela não sabia se na época da descoberta, ou da conversa crucial entre eles, haviam ultrapassado a linha do respeito. Aparentemente, eles mantinham um acordo silencioso. Desses em que ninguém afronta ninguém e fica tudo hipocritamente bem.
Por causa do excesso de afazeres, o dia acabou passando rápido, mas de forma prazerosa. Muitas pessoas passaram pela casa durante toda aquela tarde. Como esta era uma cidade pequena, as portas ficavam abertas, e as pessoas simplesmente apeavam do seu cavalo, ou desciam de seus carros e entravam porta adentro, cumprimentavam todo mundo, tomavam uma bebidinha ou comiam uma rabanada e seguiam seu caminho. Toda essa visitação se devia ao fato de Afonso ser o único Médico da Terra residente na cidade. E por ser este agrônomo querido e respeitado, além de um ótimo profissional, ele conhecia todos os proprietários de terra da região. E quase todos que passavam pela cidade faziam questão de vir lhe dar um abraço de final de ano.
À noite, como se tivessem sido ligados ao botãozinho de automático, cada um encontrou o seu momento certo de tomar banho e se arrumar para o jantar. Marta e Patrícia estavam encantadas com a quantidade de pessoas que podiam caber dentro de uma casa. Sim, a casa era grande, mas o que chamava a atenção das duas eram os abraços e o carinho das pessoas que passavam apenas para partilharem sua alegria e desejarem Boas Festas aos donos da casa. Quando o relógio marcava pouco mais de vinte e três e trinta, Carmen convidou a todos para se sentarem à mesa. À exceção do lugar à ponta da mesa, sempre ocupado por Afonso, e o de Carmen, do seu lado direito, não havia lugares marcados. Automaticamente, todos se sentaram próximos aos seus respectivos pares. Além de Patrícia e dona Marta, dois casais amigos da família também estavam presentes. Assim que todos se acomodaram, Afonso pediu a palavra e fez uma oração de agradecimento a Deus, à sua família e às pessoas que se agregaram a eles nesta data tão importante:
––– ... E não querendo me alongar, já que posso ver a fome na cara de muitos aqui... – todos riram com a frase engraçadinha – eu desejo a todos um FELIZ NATAL e MUITA PAZ para todas as Famílias!
Terminado o coro de Feliz Natal, eles se entregaram à deliciosa tarefa de saborear toda aquela comida preparada com tanto carinho. Algum tempo depois da algazarra típica recheada dos pedidos comuns à mesa, quando todos se sentiram satisfeitos, eles se levantaram e juntos ajudaram a dona da casa a tirar a mesa. Instantes depois, todos voltavam da cozinha com a sobremesa. Desta vez, porém, ninguém se sentou à mesa. Ficaram por ali, se entregando àquelas delícias, e logo se dispersaram, formando grupinhos aleatórios. Andavam pela casa, bebiam ou apenas conversavam sentados a um canto, observando o movimento ao redor. Este último caso era protagonizado por dona Marta e Carmen, que acompanharam o momento em que, não muito longe delas, o bebê de seis meses, filho de André, acabava de acordar no carrinho. A Tia coruja e Patrícia disputavam quem iria pegá-lo nos braços primeiro. O grupinho perto da criança ainda contava com a presença da mãe do pimpolho, Daysa. Marta e Carmen, de onde estavam não podiam ouvir o que diziam, mas ficaram admirando de longe. Quem primeiro falou foi Carmen:
––– Mesmo sabendo que o André é mais velho do que Cíntia, eu esperava que fosse ela a primeira a me dar um neto... Eu sempre acreditei que neto vindo de filha é mais chegado na gente... Bom, mas eu nem sei se ela vai, um dia, pensar em fazer essa minha vontade...
––– Eu sempre quis muito um neto, claro... – falou Marta – e quando a Patty me falou que a vida dela seria bem diferente da que eu esperava, fiquei muito triste. Com o tempo fui aceitando... E eu sei que ela pode ter filhos, se quiser, mas nos últimos tempos ela tem falado mais em adotar, do que em dar um jeito de engravidar...
Carmen fez uma cara de quem acabava de entender tudo, disfarçou a descoberta e continuou:
––– É uma pena que eles nunca fazem como a gente quer... Não sei... Às vezes, eu me sinto confusa com certas coisas da minha filha, sabe...
––– Ela é uma menina muito doce, Carmen... Eu demorei a perceber que cada pessoa só pode ser feliz do seu jeito. E como eu sempre tive o respeito da minha filha, aprendi a respeitar a única maneira que ela tem de ser feliz.
Carmen analisou aquelas palavras um pouquinho e respondeu simplesmente:
––– É, talvez você tenha razão...
Dizendo isto, ela pediu licença a Marta e saiu para se aproximar de outras pessoas. Depois dessa conversa, muitas vezes Marta notou que ela ficava pensativa, observando Cíntia e Patrícia juntas. Como dizem que são as pessoas que fazem o ambiente, estas construíram um ambiente muito sereno. E o resto da noite transcorreu com alegria e tranqüilidade. Antes das três horas da madrugada todos já se encontravam em seus respectivos quartos. É verdade que a certa altura da noite, Patty fugiu e entrou no quarto de Cíntia, onde ficou até quase o amanhecer.

De manhã, os itens mais procurados na cozinha foram água e suco de laranja. Prevendo isso, Carmen já havia preparado dúzias de laranjas. Com a ajuda de Marta, ela fez suco e café da manhã para todos. Na mesa do café, ficaram por muito mais tempo do que o necessário, adiando assim, a preparação do almoço de Natal. O dia foi muito gostoso. Cíntia tirou um tempinho antes do almoço para levar Patty a conhecer as redondezas e os seus esconderijos de infância. Em todos os lugares discretos e desertos que chegavam, aproveitavam para trocarem beijos apaixonados. E foi num desses momentos que Patrícia chamou a atenção de Cíntia para uma coisa que ela observara:
––– Cín, desde hoje de manhã que tua mãe me olha de um jeito diferente...
––– Ela tem te tratado mal, Patty?
––– Não, de forma alguma! Só que ela está diferente. Observe depois... Você que a conhece bem...
––– Eu agora evito alimentar esperança quanto a alguma mudança da parte deles... Meu irmão ainda aceita, mas ainda assim não posso conversar de forma muito clara com ele. Percebo que eles querem o silêncio. Então, eles terão o silêncio.
Patrícia brincou com essa palavra:
––– Mas, por favor, não faça muito silêncio naquelas horas gostooosas, tá?
––– Então, da próxima vez, me leve para um lugar bem hermético, porque vou gritar tanto que você vai me pedir pra calar a boca...
E rindo muito das próprias brincadeiras, elas voltaram para casa.



Escrito por MariaN às 22h04
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