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Patrícia Capítulo 73 
O dia de Natal foi tranquilamente vencido por Patty e Cíntia. Vencido, porque Cíntia passava o tempo toda sobressaltada, com receio de que a mãe ou o pai dissesse qualquer coisa que pudesse desagradar Patrícia. Depois do almoço, todos ficaram ali pela varanda conversando banalidades. Em certa altura, Carmen e Afonso começaram a falar sobre as intimidades da vida dos parentes. Assuntos como suicídio, divórcios da prima fulana, problemas financeiros do primo beltrano... Enfim, pessoas e peculiaridades que não faziam parte do dia-a-dia das pessoas ali presentes e que, portanto, não interessavam a nenhum deles. André e Cíntia tanto fizeram que conseguiram mudar rumo da conversa, falando sobre as viagens que fizeram e lembrando-se das pessoas que conheceram. Mas alguns minutos depois, Dona Marta alegou cansaço, pediu licença e foi descansar em seu quarto. Logo depois, Carmen e o marido fizeram o mesmo, deixando os dois filhos, Patrícia e Daysa numa conversa animada sobre as aventuras de cada um. Os dois filhos de André estavam por ali: o menor dormitava no carrinho e o maior sentara-se sobre as pernas e descobria os mistérios do robôzinho que ganhara do avô, desmontando-o inteirinho. Cíntia aproveitou a oportunidade para manifestar sua impaciência com certos assuntos dos pais: ––– André, eu já havia preparado a desculpa de visitar uma ex-colega pra sair daqui. Ninguém merece, viu? Coisas que aconteceram há tantos anos e eles não esquecem... Ficam montando e desmontando o passado como se, com isso, pudessem mudar os fatos! ––– Eu faço cara de paisagem e espero a primeira deixa... Aí, entro com uma pergunta, ou então com outra história nada a ver... ––– Mas falando nesse negócio de mudar de assunto – era Daysa que tomava a palavra e se dirigia a Cíntia - quando é que você vai nos visitar, hein? Bem que poderia ser neste verão, né? ––– Ah, nem me fala, viu... Ando louca pra sentir a areia sob meus pés e aquele marzão lindo à minha disposição... Acontece que só vou sair de férias em maio... Bom, isso se minha chefa não mudar tudo, né? – falou, olhando pra Patty, que apenas deu um sorriso e nada disse, aguardando o desfecho da conversa. ––– Por que vocês não vão passar o réveillon na praia, aqui pertinho mesmo? – perguntou Daysa – Não deve ser tão complicado... Foi Patty quem respondeu: ––– A idéia é boa, mas não planejamos nada: não reservamos hotel, nem passagens... Nada! Cíntia aproveitou a deixa e se animou: ––– Ah, Patty, não me diga que você nunca foi de carro? Não acredito! Já fiz tanto isso! A gente não leva mais do que sete horas na estrada... ––– OK! Mas e minha mãe? E hospedagem lá? Não gosto de fazer nada assim, sem planejamento... ––– Eu tenho uma barraca de camping... E a gente sempre arranja vaga nos campings! Ah, vamos, gata! Nós ainda temos uns cinco dias antes de voltarmos ao trabalho... – choramingou Cíntia, se esquecendo totalmente que o irmão e a cunhada estavam ali. ––– Precisamos analisar um pouco mais. Talvez até dê certo... ––– Tá bom, mas se vamos mesmo, temos que sair daqui ainda hoje! – completou Cíntia com os olhos brilhando. ––– Talvez você tenha razão, mas não gosto muito de mudar os planos assim, no meio da viagem... ––– É apenas uma idéia, Patty. Não se sinta na obrigação de aceitar – retrucou Cíntia de modo bem sério. Daysa olhou para o marido como quem diz: “briga de casal”. Ele desviou o olhar porque, por mais que tentasse, ainda não conseguia encarar com tanta naturalidade a homossexualidade da irmã. Daysa ignorou sua reação e sugeriu: ––– Gurias pensem com calma sobre isso... Caso vocês se decidam, podem sair daqui hoje à tardinha, passam em casa pra pegar roupas de praia e aí pegam a estrada amanhã cedinho... Patrícia discordou: ––– Não, se a gente se decidir mesmo, prefiro pegar o estradão hoje, ali pela meia-noite. Assim, amanhã pela manhã, estaremos chegando... Olhou para Cíntia, deu uma piscadinha e, pedindo licença, saiu dali. Assim que ela sumiu das vistas deles, Cíntia sorriu pra Daysa e agradeceu: ––– Obrigada, cunhadinha!! Acho que você conseguiu! Foi você quem a convenceu quando falou sobre o lado prático da viagem. Como ela tem que contestar tudo, acabou dando o horário que vamos sair e chegar lá. André se distraiu com os filhos, e elas aproveitaram para tricotar um pouco sobre a vida de Cíntia. Durante uns dez minutos ficaram ali jogando conversa fora, até que Daysa se envolveu com os filhos, e Cíntia foi para seu quarto descansar um pouco. Não sem antes procurar em vão por Patrícia, que terminava de conversar com Marta sobre a possibilidade da viagem. ––– Filha, se você quiser mesmo ir, teremos que sair daqui mais cedo hoje... E não se preocupe comigo, porque posso ficar sozinha e bem por alguns dias – ela riu e continuou: - mas pense melhor pra não fazer nada na correria e se arrepender depois. Bom, essa é a opinião que você me pediu. Agora, pensa direitinho e me avisa pra eu organizar tudo aqui se tivermos que ir embora hoje. Patrícia, deitada na cama ao lado, apenas assentiu com a cabeça e ficou quieta por alguns minutos. De repente, se levantou, dizendo: ––– Não, mãe, deixa tudo como está. Vamos continuar com os planos de antes. Vou procurar Cíntia... – deu um beijo na mãe saiu do quarto para falar com Cíntia. Resolveu arriscar e bateu na porta do seu quarto, que ficava à esquerda do que ela ocupava com a mãe. Cíntia abriu e, ao se deparar com o rosto sorridente de Patty, também sorriu e, pegando-a pela mão, puxou-a para si num abraço e beijo esfomeados e, meio desajeitadamente, conseguiu chavear a porta. ––– Que saudade de te tocar, amor! – dizia ela entre toques, beijos e delícias. Patrícia naturalmente se deixou envolver pelas carícias da namorada e se entregou ao momento com muita vontade e sem nenhuma frescura. Depois de acalmarem os desejos, elas conversaram, entre beijos e carinhos suaves, sobre a possibilidade de irem para a praia imediatamente. ––– Imagino que você esteja mesmo disposta a se aventurar, Cín, mas pensei bem e não acho legal sairmos assim, sem planejamento... Vamos deixar para o próximo feriadão? Cíntia fez cara de zangada, mas dentro do momento de intimidade, ela acabou concordando com os argumentos de Patty. E foi com a voz bem dengosa e quase sussurrante que ela disse, com a boca encostada no pescoço de Patrícia: ––– Se não fosse a realidade, que pode bater naquela porta a qualquer momento, eu não sairia daqui nem para a praia mais paradisíaca do mundo... Aliás, deixa eu ficar grudada em você pelo o resto da vida, Patty? ––– Deixo tudo o que você quiser, menos sair de perto de mim... E novamente elas se entregaram aos carinhos mais íntimos. Só que dessa vez não demoraram muito, afinal as pessoas poderiam estranhar a falta delas. Patrícia deixou Cíntia e foi para seu quarto tomar um banho antes de se juntar aos outros. Ela encontrou-os todos na varanda próxima à cozinha, já preparados para o lanche da tarde. Carmen foi a primeira a falar com ela: ––– E aí, descansou bem? ––– Sim, o suficiente para acabar com aquela moleza de depois do almoço... Obrigada... E, sentando-se perto da mãe, ela percebeu pelo seu olhar que era exatamente isso o que Marta havia dito para todos. Logo chegou Cíntia, usando uma sandália rasteirinha azul, um shortinho bege um pouco acima do joelho e uma regata também azul. Os cabelos molhados e o perfume suave encantaram Patrícia que, por pouco não deu bandeira, tamanha a intensidade do seu olhar. Cíntia foi direto até a mãe, deu-lhe um beijo e perguntou: ––– O que temos de gostoso aí, hein? Tou com uma fominha... Carmen, olhando para todos em geral e para dona Marta, em particular, respondeu: ––– Eu te conheço, menina... Sabia que você viria toda cheia de dengos atrás de uma torta ou de um bolo... Desde criança ela é assim: come de tudo e não engorda. ––– Como não engordo, mãe? Olha só – disse apontando para seu quadril – como estou ficando redondinha... Todos riram da piada e se dedicaram em seguida ao assunto principal: o farto lanche sobre a mesa. O restante do dia transcorreu sem novidades ou situações dignas de menção. No dia seguinte, logo pela manhã, Marta já começou a organização de bolsas e mala pra a viagem de volta. Pouco depois do almoço, Patrícia e Cíntia ajeitaram a bagagem no carro e ficaram por conta de dona Marta. Ali pelas quatro da tarde ela as chamou para irem embora... Marta abraçou Carmen demoradamente, agradeceu-a pelas “boas-vindas” e convidou-a para passar um final de semana com elas, assim que surgisse uma oportunidade. Repetiu o convite e as mesmas palavras de carinho e de agradecimento ao se despedir de Afonso, e foi simpática com André, a esposa e os filhos. Patrícia fez o mesmo caminho da mãe, abraçando e agradecendo a todos, e Cíntia demorou-se um pouco mais ao se despedir de cada um dos seus entes queridos. Depois de abraçar muito sua mãe, foram de mãos dadas até próximo ao carro e, antes que ela entrasse, Carmen a abraçou e beijou novamente. As últimas palavras que Cíntia ouviu da mãe antes de partir foram: ––– Filha, apesar de nós, continue lutando pela sua felicidade... Seja com quem for, mas... – fez um gesto com a cabeça na direção de Patty, e acrescentou – ela é uma boa moça... Com os olhos lacrimejando, Cíntia deu um beijo nela e entrou ao lado de Patrícia.
Escrito por MariaN às 19h17
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