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Patrícia Capítulo 74 
Mulheres como Patrícia, cuja luta pela sobrevivência e pelo respeito sempre começa muito cedo, aprendem a não dar importância para diz-que-diz-que, críticas em vão, falatórios ou a quaisquer palavras que possam desviar o seu foco da história que precisam escrever. E, Patty, ao escrever essa história em cada minuto vivido do seu dia a dia, não se preocupava nem um pouco com rimas bonitas ou palavras difíceis: sua vida era o que era, e ela apenas preenchia suas páginas com a disciplina de quem sabe como quer o seu próprio epílogo. Por este motivo, mesmo sabendo do preconceito e da rigidez de opinião dos familiares de Cíntia, se manteve firme e pronta para se defender caso alguém viesse com recriminações pra cima dela. Felizmente, ela não notara nenhuma situação difícil de ser contornada neste sentido. Enquanto saía da casa dos pais de Cíntia, ela pensava nisso. E pensava tão intensamente que não percebeu as lágrimas de emoção nos olhos da namorada. Dona Marta foi a primeira a notar que a menina Cín se mantinha quieta e calada, mesmo já tendo se passado cinco minutos desde a saída. ––– O que houve, Pequena? Ficou emocionada com a despedida? É tão pertinho... Você pode vir todo final de semana, se quiser... ––– Não é isso, dona Marta... É que, pela primeira vez, minha mãe me deu apoio... Ou me aceitou... Ou me entendeu... Sei lá... Não sei o que houve... Fiquei comovida com suas palavras enquanto a gente se abraçava, agora a pouco. Patrícia que se mantinha atenta ao volante, olhou pra ela, curiosa: ––– O que foi que ela te disse? E quando foi? ––– Ela me pediu pra eu me esforçar pra ser feliz, independentemente do que ela e meu pai dizem... Ou, apesar deles... E ainda falou que você é uma boa moça... Dona Marta sorriu ao se lembrar do comentário que fizera durante a ceia natalina e desviou o olhar ao perceber que Patty, sorrindo com carinho para Cíntia, lhe acariciava a mão. Cada uma ao seu modo, mas pelo mesmo motivo, as três estavam felizes naquele momento. A viagem foi tranquila e, ao chegarem à cidade, Patty deixou Cíntia em casa, e despediram-se com a promessa de se encontrarem mais tarde. Assim que ela estacionou na garagem do seu prédio, o porteiro se aproximou disposto a ajudá-las com a bagagem, que nem era tão volumosa assim. Elas aceitaram a gentileza, afinal, ele queria conversar. ––– Boa tarde, Dona Patrícia... Dona Marta... Ó, aquela moça esteve aqui procurando por vocês... ––– Moça, que moça? – perguntou Patty já adivinhando que só poderia ser Iara. ––– Aquela que vinha sempre aqui, a dona Iara... Ela até deixou um bilhete... – enfiando a mão no bolso da camisa, retirou e entregou a Patty um pedaço de papel. A essa altura, já estavam chegando ao elevador, e ele voltou para a portaria. ––– O que será que ela quer, filha? Logo agora que você e a Cíntia estão se acertando direitinho... espero que você não perca a cabeça indo atrás dela de novo. ––– Relaxa, mãe. Está tudo bem... depois eu leio e te conto o que ela quer... – respondeu. Minutos depois, em seu quarto, Patty leu o bilhete escrito com esferográfica preta com aquela caligrafia firme e peculiar, já que ela misturava letras de forma num estilo reto com outras bem arredondadas: “Patty, preciso te ver com urgência! Assim que voltar de viagem, por favor, me procure. A única coisa que quero agora é seguir minha vida, com ou sem você, mas antes, preciso de um beijo teu... Ass.: (ainda) Tua Iara” A primeira coisa que Patty pensou foi: “Poxa, ela poderia pelo menos ter colocado esse papel dentro de um envelope! Aposto que o porteiro leu; agora eles vão ter assunto por um bom tempo!” em seguida ela esqueceu o insignificante detalhe da indiscrição cometida por Iara e sentiu um calafrio na espinha pelas lembranças que estas palavras entre parênteses lhe trouxeram de imediato. Percebeu que seus olhos se enchiam de lágrimas e deixou-se levar pela nostalgia. O momento era totalmente inoportuno, já que havia coisas a fazer, como separar e guardar roupas trazidas do passeio, enfiar as malas no maleiro do guarda-roupa, tomar banho e sair para providenciar um lanche para as duas. Apesar disso, ela simplesmente se jogou sobre cama e se entregou às lembranças. Lembrou-se da noite e da maneira como conheceu Iara, das hipóteses loucas criadas como única chance real de cruzar com ela novamente, numa rua ou numa esquina dessa vida louca... Recordou as noites insones, quando se entregava aos devaneios, tecendo mil situações imaginárias, com direito a efeitos especiais, em que se veria novamente frente a frente com ela... Dias de intensa expectativa para o reencontro com aquela mulher, até então misteriosa... E ela quase pôde sentir tudo de novo. Todas as lutas, os sonhos quase se realizando, todas as vezes que fizeram amor, e também todas as palavras ditas e ouvidas nos muitos desentendimentos... de repente aquele fiapo constante de saudade adquiriu um novo formato, e ela sentiu vontade de repetir tudo com Iara. Embora estivesse tranquila ao lado de Cíntia, cedeu ao pedido contido no bilhetinho e pegou o telefone para ligar. No automático, apertou na tecla correspondente e com o coração aos pulos, esperou que ela atendesse: ––– (Oi, amor... já sentiu saudade?) Era a voz de Cíntia. Imediatamente ela se deu conta que sua realidade a chamava de volta. E que, apesar de quase ter sucumbido a uma recaída, a sua verdade fez com que ela retornasse ao seu eixo. Por acreditar que nada acontece por acaso, ela entendeu que o lapso que a fizera apertar a tecla referente ao número de Cíntia significava que o seu momento nostálgico provocado pelas palavras de Iara era apenas isso: a recordação de uma vida que ficara lá no passado, junto com Iara e aquela paixão que perdera seu auge, sem se transformar em amor... ––– (Patty, tudo bem? Fala comigo!!) Pega de surpresa porque estava viajando em seus pensamentos, e sem pensar duas vezes, Patty falou e falou tudo: ––– Cín, tinha um bilhete da Iara me esperando aqui... O porteiro me entregou assim que pisei no prédio... Ela quer me ver... ––– (Sei... e você quer vê-la?) Cíntia, do outro lado da linha, foi dominada por uma sensação tão grande de tristeza que precisou se sentar para continuar a conversa. ––– Estou em dúvida, eu confesso... Você me ajuda? Ah, sei lá... Nem sei porque te liguei... Cíntia se jogou na cama: “Vai começar tudo de novo, meu Deus?” ––– (Patrícia, eu não posso te proibir e nem te incentivar... Como diz o ditado: tua cabeça é o teu guia. Decida e... Bom, claro que é besteira te pedir isto, mas ... me avisa... Seja qual for a tua decisão...) Patty ficou calada por algum tempo, antes de dizer: ––– Quero te ver hoje. ––– (Tudo bem! Depois que terminar aqui, eu tomo um banho e te ligo para marcarmos o lugar...) ––– Não. Quando eu terminar de ajudar minha mãe aqui, EU tomo um banho e vou até sua casa. Beijo. Ela desligou, deixando do outro lado uma mulher em lágrimas, segurando o celular no orelha, incapaz de acreditar que daqui a pouco sua namorada poderia por um fim nesta relação pela qual ela havia lutado tanto. O resto da tarde foi doloroso. Por mais que ela tentasse pensar de maneira positiva, tudo o que lhe vinha à mente era sua própria imagem jogada num canto, chorando e sofrendo por amor. Como fosse um filme, ela pode rever todos aqueles meses passados sob a torturante visão de Patty nos braços de Iara. Visualizou cada dia daquela época, que nem fazia tanto tempo assim. Ainda não tinham completado dois meses de namoro... Puxa, logo agora que Patty recobrava a naturalidade, e seus olhos já não padeciam de tanta aflição, Iara voltava à cena. Será que toda a segurança emocional que ela transmitia a Patty perdia o valor assim, num abrir e piscar de olhos? Em sua casa, Patrícia também estava triste. Na verdade, nem ela sabia por que insistia em dar crédito ao bilhete de Iara. Era tão simples deixar pra lá, fazer de conta que nem havia lido aquelas palavras... estava tão claro que a intenção de Iara era perturbar sua paz tão arduamente conquistada com a presença e a ajuda de Cíntia... Mas o bichinho da tentação já se instalara em sua mente e, por maior que se esforçasse para não pensar sobre o beijo que Iara pedia, maior era a vontade de dar esse beijo. Será que ela também precisava esclarecer esta dúvida? Será que o sentimento por Iara estava realmente acabado e resolvido? Aqueles poucos meses em que ela estivera louca de paixão por ela haviam sido tão intensos, tão fortes e tão avidamente vividos, que Patty podia jurar que sugara plenamente cada um daqueles momentos. Porém, uma pontinha de desejo desabrochava dentro dela naquele instante. Aparentemente essa pontinha era tão insignificante que poderia residir dentro dela por toda a vida, sem que ela se desse conta, mas alimentada com a ração adequada poderia amplificar de tal modo que fatalmente a faria tomar atitudes das quais, certamente, se arrependeria depois. ––– Patty, o que está acontecendo que você não em ouve? Surgida não se sabe de onde, ela viu a mãe, de pé, diante dela. ––– Hãn... Ah, mãe... está tudo bem... acabei me distraindo aqui... ––– Foi aquele bilhetinho da Iara, né? Há muito tempo que ela deixara de tentar enrolar sua mãe. Era perda de tempo, porque esta sempre lhe fizera aquelas perguntas certeiras, cujas respostas já faziam parte delas. Então, para evitar aqueles dois trabalhos, que é o de mentir e o de dizer a verdade depois, ela aprendeu desde cedo a responder com a mais pura verdade. ––– Sim, mãe. A Iara quer me ver... ––– E você vai ao encontro dela? Oh, minha filha, sua vida anda tão tranquila... A Cíntia é tão boa companhia pra você... ––– Ela é bem mais do que uma simples companhia e tu sabe disso, mãe... ––– Então? Se você mesmo reconhece isso, porque é que vai caçar chifre em cabeça de cobra? ––– Mas eu não disse que vou me encontrar com ela? ––– E precisa dizer? Eu te conheço, menina... Você não estaria assim, tão pensativa, se não tivesse com minhocas na cabeça...
Escrito por MariaN às 20h52
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