| |
Patrícia Capítulo 75 
Não muito longe dali, Iara entrava na livraria, local de trabalho de Vânia. Haviam marcado um happy hour antes de irem para casa. No mais, tudo já havia sido encaminhado para que ela finalmente abrisse sua firma. O contador que ela contratara já cuidara de todos os trâmites e na próxima semana ela fecharia o contrato de aluguel do imóvel onde instalaria os equipamentos. Neste próximo ano muitas mudanças ocorreriam, porque ela estava deveras disposta a encarar uma nova etapa na sua vida. Abrir as portas de um novo negócio significaria para ela muito mais do que um simples trabalho: era uma vida sem Hélio, sem amarras e sem limites que começava agora. Os conselhos do pai a estavam ajudando muito, afinal ele sempre administrara bem sua pequena propriedade e, no que dependesse dele, a filha não cometeria nenhum grande erro no que ela agora se propunha a fazer. E Iara sabia que sempre poderia contar com este apoio. No entanto, sentia falta das opiniões de Patty. “Sinto falta é da presença dela, afinal não sei até que ponto suas opiniões me ajudariam... Gostaria muito de vê-la mais uma vez a sós... Espero que minha tentativa dê resultado desta vez...” Desde o dia anterior, quando Vânia aparecera de surpresa para o almoço de Natal, ela decidira investir nesta relação, apesar da dificuldade de aceitar a idéia de ficar longe de Patty. A princípio, a situação já estava definida. Naquela manhã havia deixado o bilhete para Patrícia na esperança que ela atendesse ao seu apelo. Algo lhe dizia que, desta vez, Patrícia aceitaria um encontro. Não tinha a intenção de estragar aquele namoro sem graça que ela insistia em manter com aquela pirralha metidinha, mas tinha necessidade de sentir novamente aquele beijo. Pela última vez que fosse! Vânia finalizava um atendimento quando Iara se aproximou: ––– Vai demorar muito pra sair hoje, Vânia? Iara fingiu não perceber a ponta de agressividade na resposta dela: ––– Como assim, Iara? Você sabe que só saio daqui depois das sete da noite! ––– Eu sei... Mas bem que hoje, só hoje, você poderia sair mais cedo... Estou cheia de planos pra nós. ––– Sério... Me desculpa, mas não posso mesmo! Se quiser, pode me esperar lá em casa... Em duas horinhas eu chego lá... ––– Não, eu prefiro ficar por aí... Vou dar uma volta, resolver umas coisas... A gente se fala depois... Beijo... Vânia deu de ombros e seguiu sua rotina. Iara entrou num café ali do lado, sentou-se e pediu um suco, que tomou com calma, saboreando o delicioso sabor de manga, sua fruta preferida. Ficou por ali nas duas horas que faltavam para Vânia sair do trabalho e, mesmo enquanto resolvia uma série de pequenas pendências, ela não desgrudou os olhos do celular, ansiosa pela ligação de Patty. Esta, porém, não aconteceu.
Naquela noite, quando Patty e Cíntia se encontraram, havia um misto de dor e de medo pairando sobre elas. Cíntia conhecia a dor do desprezo e da indiferença e sentiu pavor diante da iminência de passar novamente por isso. Já Patrícia nunca administrou bem o medo de ficar sozinha, apesar de todo o tempo que passara na solidão. Esforçou-se muito para se realizar em outras áreas da vida, e isto a alimentava a tal ponto que aquele longo período sem ninguém, antes de conhecer Iara, fora apenas um hiato necessário. Agora, nos braços de Cíntia ela tinha certeza de que não queria resgatar a relação com Iara. Isto, no entanto, não a impediu de sentir vontade de testar seu sentimento. Ao chegar ao apartamento de Cíntia e entrar pela porta que lhe era aberta, suas primeiras palavras não poderiam ser consideradas um cumprimento entre namoradas: ––– Sei que eu tenho essa cara de quem ‘pensa’ que sabe tudo e de quem ‘pensa’ que controla tudo na vida, mas não é nada disso! Falou isso ainda de pé diante de Cíntia que, sem se conter, respondeu um tom acima do seu normal. ––– O que você quer dizer com isso, Patty? Ah, e antes que eu me esqueça dos bons modos: boa noite... seja bem-vinda! ––– Boa noite, Cin – deu um beijo de leve nos lábios dela e continuou - Alguma coisa nesse bilhetinho da Iara me fez repensar muita coisa... Como Cíntia foi pega de surpresa com essa conversa logo na chegada, seu senso de defensa falou mais alto, e ela sequer tentou controlar as palavras que saíam aos borbotões: ––– Repensar? Patrícia você pode mudar tudo na tua vida, na hora que quiser! Não precisa vir me pedir autorização pra isso! Se você está repensando, vá até lá, conversa com a Iara! – Cíntia sentiu seus olhos cheios d’água, mas continuou – Só não me peça para ficar aqui, feito uma “Amélia”, toda submissa, aguardando você tomar decisões que vão afetar a minha vida também. ––– Calma, Cín... Espere eu terminar o meu raciocínio antes de me acertar com essa avalanche descontrolada de frases feitas! Para, mulher... ––– Você não tem a menor idéia de como eu passei a tarde toda! Tudo o que eu ouvia era esse “rinoceronte atrás da orelha” me incomodando sem trégua... E agora você vem pedindo calma imediatamente após dizer a palavra repensar? Não sou idiota, Patty! Vai repensar a sua história com a Iara lá, do lado dela, e não do meu! ––– Cíntia, que descontrole é esse, mulher? Você sempre foi tão comedida... Não estou entendendo... Vim conversar contigo... ––– Descontrole? Eu estou é com muita raiva por ter deixado essa brecha pra Iara entrar de novo na sua vida! Ah, chega! Onde foi que eu errei, hein, Patty? Realmente, Cíntia já estava quase gritando. Patrícia não esperava essa reação, por isso se aproximou pra concluir o que vinha tentando dizer: ––– Hei, minha Gatinha, não fica assim... Que idéia absurda é essa? Você não errou em nada... Entenda que eu só estou curiosa pra saber o que ela quer... ––– Ah, você não sabe o que ela quer? Não seja boba e não tente me fazer de idiota! ––– Vem cá, vamos conversar com calma... Senta aqui comigo... Cíntia, ignorando o tom de apelo na voz de Patty, evitou a mão que quase a tocava, foi até a cozinha, pegou um copo d’água e voltou. Patty, que a esperava sentada no braço do sofá, pegou-a pela mão e puxou-a para si. Cíntia ainda se manteve rígida por um tempo, depois foi relaxando e permitiu que Patty a mantivesse assim, grudada nela. Deixando-se levar, Cíntia desvencilhou-se um pouco do abraço de Patty, esfregou os olhos com as costas da mão, respirou fundo e disse, se esforçando para baixar o tom de voz: ––– O que é que você pretende fazer? Acalmar o meu coração e me deixar aqui, sozinha enquanto vai ao encontro da outra? Patty sorriu e respondeu, escorregando para o sofá e levando-a consigo: ––– Quer saber? Esta noite não está propícia para sair por aí me aventurando pelo meu passado! Vou ficar grudada em você até amanhã de manhã... Vem pra mim – disse. – Será nossa primeira noite a sós, depois de tantos dias e noites tomando cuidado para que nossos olhares, nossos sorrisos, nossos gestos e tudo o mais lá na casa de seus pais não revelassem nossos desejos. ––– Você promete que não vai sair correndo atrás da ex-mulher maravilha assim que eu me acalmar? ––– Agora não é hora de fazer promessas e sim, de fazer amor... Cíntia fez um muxoxo, mas deu um meio sorriso e se derreteu com os carinhos de Patty. Os toques e o clima foram esquentando até ao irreversível e delicioso ponto da entrega total. Nesse momento, o desejo grita mais alto e todos os medos se rendem à intensidade das paixões. Todos os sentidos se unem na mesma freqüência e todas as incertezas se dissipam em prol do prazer. Já era madrugada quando elas perceberam que, além de saciadas e cansadas, também sentiam fome e sede. Juntas foram para a cozinha prepararem “um prato de qualquer coisa”, como disseram entre beijos e sorrisos. Mas como tudo neste mundo tem um nome, devoraram com apetite redobrado aquela omelete improvisada e voltaram para cama, onde se abraçaram e dormiram até a manhã seguinte. Logo cedo Patrícia despertou, olhou para o seu lado e admirou a namorada que ressonava com aquela conhecida expressão de felicidade. E apesar da conversa tumultuada e dos apelos de Cíntia na noite anterior, ela decidiu que iria ao encontro de Iara. Com leveza fez um carinho nela e pensou: “Espero que você me perdoe depois, mas agora eu preciso coroar minhas certezas...ou incertezas, sei lá”. Aconchegou-se a ela e voltou a dormir. Durante toda a manhã ficaram grudadas vivendo esse momento a duas, sem a presença de qualquer outra pessoa. Cíntia sentia falta disso, já que estavam sempre com dona Marta pra lá e pra cá. Só que, por motivos óbvios, ela não dizia isso para Patty, afinal esta poderia levar ao comentário ao pé da letra e a confusão estaria armada. Para não fugir à rotina, Patty ligou pra mãe e combinou de buscá-la para almoçarem juntas. Depois do almoço, levou Cíntia em casa e foi embora com dona Marta. E, no primeiro momento em que ficou sozinha, em casa, ela ligou pra Iara e marcou de se encontrarem ainda naquela tarde.
Escrito por MariaN às 23h06
[]
[envie esta mensagem]
[link]
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
|