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Conto de Meninas - UOL Blog



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Conto de Meninas


 

Patrícia

Capítulo 76

 

               

 

 

Chegou ao lugar marcado antes do horário. Ao entrar, cumprimentou a si mesma pelo bom-gosto. O estabelecimento era um café relativamente novo na cidade, localizado bem próximo à pequena Praça da Matriz, numa ruazinha bem charmosa, bastante arborizada e silenciosa. Certamente, logo seria descoberto e possivelmente se tornaria um ponto de encontro para os enamorados da cidade. Pensando nisso, sentou-se numa das cadeiras com espaldar de ripas e assentos acolchoados, forrados com um tecido vermelho que circundava uma pequena mesa redonda e pediu uma água ao garçom que imediatamente se aproximou.
Teve tempo de sobra para pensar, não apenas em sua vida amorosa, como também no futuro, na sua mãe e em todas as metas que pretendia alcançar em sua profissão. Definitivamente, não se enxergava neste mesmo cargo daqui a dez anos, executando uma função apenas para fins de sobrevivência. Sabia que só poderia chegar ao seu ápice profissional quando estivesse trabalhando em seu próprio escritório, estudando e se especializando cada vez mais na área do direito trabalhista. Teria que começar, pra valer, a planejar a sua vida daqui pra frente. O tempo passava inexoravelmente e havia todo um futuro esperando por ela. Talvez a vida não seja bem assim, porque ele só estaria a sua espera se fosse construído antes.
Nesse ponto, ao tentar se enxergar num tempo mais a frente do hoje, as divagações voaram até Cíntia e a mais uma noite passada em seus braços. Foram tantos os bons momentos juntas e, no entanto, ela jamais se declarou apaixonada pela namorada. “Cíntia... Cíntia... quanta dedicação, carinho e amor eu tenho recebido de você e mesmo assim não consegui dizer que te amo... Tenho ainda algumas incertezas... Ou serão apenas algumas dúvidas dentro das minhas certezas?”

Este foi apenas um pedaço de pensamento dentre os inúmeros que inundaram os momentos que antecederam à chegada de Iara. Passaram-se ainda vinte minutos até que a mulher por quem fora tão apaixonada entrasse no estabelecimento.
Patty acompanhou todos os seus passos, desde a porta até a mesa, com um olhar de admiração, pesar e expectativa. Usando um vestido florido e sandálias de salto baixo, Iara caminhava devagar. Devagar e sorridente. Havia esperança em cada passo. Quando ela se sentou ao seu lado foi com os olhos bem fechados que Patty recebeu o beijo que ela lhe deu no rosto. Em seguida estremeceu ao contemplar aquela pele que tantas vezes fizera incendiar. Quase sem fôlego esmiuçava com o olhar os detalhes daquele rosto bonito e do corpo maduro que se insinuava discretamente.
--- Obrigada por ter vindo, Patty!
Foi o que disse logo que se instalou.
--- Que nada! Eu também tenho um interesse muito especial nessa conversa.
Neste momento, o garçom se materializou na frente delas. Patrícia pediu um suco natural e Iara optou por um refrigerante.
--- Cheguei a cogitar um chope, mas bebida não combina com direção... – comentou Iara quando o garçom se afastou.
--- É... E responsabilidade, muitas vezes, implica abrir mão de pequenos prazeres. – concordou Patrícia.
--- É verdade. – disse Iara. Numa resposta típica de quem não tem o que dizer, ou quer mudar de assunto.
O período de silencio que se seguiu denotava a falta de intimidade que se instaurara entre elas. De repente Patty pensou: “Cadê aquelas duas mulheres tão fogosas e apaixonadas? Na cama tínhamos sexo quente, e na mesa, conversas ardentes... até mesmo as reclamações dela eram acaloradas. Então, o que estou fazendo aqui, afinal?”
Sacudiu discretamente a cabeça enquanto o garçom servia as bebidas e retomou a palavra, propondo um brinde:
--- Saúde!
Ao que Iara prontamente respondeu:
--- Saúde, sim! – e depois de um olhar – E a nós!
Patrícia apenas esboçou um sorriso, tomou um pouco do seu suco e, pousando o copo sobre a mesa, falou:
--- Eu vim aqui hoje, Iara...
--- E isso me fez muito feliz... – O olhar de Iara insinuava intenções contidas.
---... Apenas para atender a um pedido seu, para que nós duas possamos, finalmente, determinar o tipo de relação que teremos daqui pra frente.
--- Você diz isso de um jeito tão frio... Se qualquer outra pessoa te ouvisse agora poderia até acreditar que não sente nada por mim...
--- Mas eu não disse que não sinto nada por ti, Iara! Acontece que agora é diferente. Qualquer que seja a relação entre nós, ela não será tão... como dizer? ...voluptuosa como foi um dia.
Essa fase nós já vivemos... Já tivemos nossa cota de paixão...
--- Como é que você consegue ser tão fria comigo, Patty?
--- Fria, eu? Não, Iara... Você não imagina o quanto me custa fazer o papel da amiga que quer o seu bem e tenta abrir seus olhos e sua cabeça... Você precisa aceitar que novas relações estão começando em nossas vidas...
--- Mas do meu lado isso só está acontecendo porque você só queria ficar junto se fosse pra casar... Mesmo sabendo que eu lutava pra sair de um casamento infeliz... e a Vânia não me cobra casamento... Qual é o teu problema, Patty? Por que essa necessidade de morar junto? A gente poderia ter sido tão feliz não fosse essa sua exigência!
--- A nossa felicidade nunca esteve atrelada a isso, Iara! Nem vem... Tudo teria sido diferente se você não tivesse tanta vergonha de assumir a tua própria condição! A verdade é que nunca houve coração... Você só usou a razão, colocando as suas necessidades acima de tudo...
--- E o que eu deveria ter feito quando tudo se mostrava contra mim? E não esqueça que foi você quem me virou as costas no primeiro momento de dificuldade que surgiu. Você não lutou pra ficar comigo!
Patty mal acreditava no que ouvia.
--- Não vou entrar nesse jogo, Iara... Você pode até dizer que desisti muito rápido, que deveria ter insistido mais... Que deveria ter te ajudado a se assumir, mas há de concordar que nunca tivemos o mesmo tesão...
--- É óbvio que eu sentia tesão, sim... Que loucura é essa? Eu sempre me derreti com sua proximidade... e você sabe disso!
--- Estou falando de outro tesão. Aquele tesão para viver a mesma vida, os mesmos propósitos sem, no entanto, perder a individualidade, claro... Falo do tesão pra ser feliz, realizar sonhos, concretizar metas, enfrentar o dia a dia com a certeza de estar lutando com a pessoa certa ao seu lado.
--- Não me diga que você acredita mesmo que rotina seja sinônimo de tesão? Eu vivia isso quando nos conhecemos e sei que a rotina acaba com qualquer sentimento! Eu saí daquele casamento disposta a viver uma vida diferente... Não queria mais perder tempo com coisas pequenas, insignificantes ou que não me fizessem feliz...
--- Iara, pra começar, não confunda sentimento com relação. Outra coisa, você nunca amou o seu marido: só se casou pra não se assumir...
--- Você não sabe o que está dizendo! Só eu sei o que passei com aquele homem e você não me deu chance de sair do estado de choque pela minha separação... Eu só pedia um pouco mais de tempo pra me reformular, me reorganizar... Além de turrona, você é muito apressada...
--- É impressionante essa facilidade que você tem de me rotular, me ofender, magoar... Pensando bem, Iara, antes que a gente perca o respeito, vamos parar por aqui, porque você está se contradizendo muito. Fica difícil levar uma conversa desse jeito...  Além do mais, eu só te cobrava isso, porque quem ama tem pressa.
--- Não, quem ama é paciente, sabe esperar... não inferniza a vida da outra pessoa como você fazia comigo! Por isso, eu tenho dúvidas quanto a este amor. Ainda assim, estou tentando recuperar a nossa relação do mesmo ponto onde paramos...
--- Sem chance, Iara! Os arroubos de paixão que me levaram a desejar uma união de fato com você já não existem mais...
--- E a paixão também acabou assim, sem mais nem menos?
Patrícia apertou os olhos, antes de responder:
--- Eu diria que ela não passou no processo seletivo para ser promovida a amor.
Nessa hora Iara se revoltou e aumentou o tom de voz:
--- Ah, você é sempre muito contundente, senhora da razão, pouco se importando se vai machucar ou não! Pois saiba que, se pra você o nosso sentimento não significou nada, pra mim ele foi a força propulsora que me levou a tomar aquela decisão de sair de um casamento sem sentido e a acreditar na minha capacidade de ser feliz!
--- Fico contente por saber que a minha passagem pela tua vida não tenha sido em vão! Mas não sou senhora de nada, Iara! Tudo que vivemos foi muito intenso e talvez eu jamais volte a sentir por outra pessoa o que senti por você... E tudo que é vivido assim, tão visceralmente, acaba se gastando muito mais rápido...
--- Quanta besteira, Patty! Sério, você é mestra na arte de complicar o que de mais simples existe, que é o amor. Não vou mais insistir na possibilidade de reatar a nossa história. Você tem mais é que ficar com aquela bat-girl insossa, sem sal... sem açúcar... sem tempero nenhum. Vocês se merecem!
E, se levantando da mesa, continuou:
--- Só mais uma coisa, Patty: esquece que te pedi aquele último beijo. Já conheci melhores do que os seus...
Patrícia a olhava sem reação, enquanto ela se levantava pra ir embora.
--- Nunca pensei que a última frase que ouviria de você fosse algo assim, tão vulgar...
Esta frase foi dita pra ela mesma, porque a mulher por quem ela tanto lutara antes e que só existiu dentro de seu coração seguia com firmeza rumo à porta. E como fizera alguns minutos antes, Patty acompanhou os passos de Iara. Desta vez no sentido contrário. E teve certeza de que agora ela estava saindo da sua vida de uma vez por todas. Permaneceu ali por mais alguns minutos, como se estivesse alimentando a esperança de vê-la retornando para pedir desculpas pela grosseria. Como isto não aconteceu, ela chamou o garçom, pediu a conta, pagou e foi embora.

 



Escrito por MariaN às 17h12
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