Free JavaScripts provided
by The JavaScript Source

Conto de Meninas - UOL Blog



Meu Perfil
BRASIL, Centro-Oeste, GOIANIA, Mulher, de 46 a 55 anos, Portuguese



Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 Mesa 27 - O Livro
 BOL - E-mail grátis
 ParadaLes
 Livre Arbítrio
 UOL - O melhor conteúdo
 Editora Malagueta
 Singelas Leituras
 Coisa Que Não Sei
 Contra a Intolerância
 Magia e Poesia





relojes web gratis




Free counter and web stats


 
Conto de Meninas


 

 

Patrícia

Capítulo 79

 

 

Iara olhava intrigada para a sua imagem no espelho. Em que momento havia perdido o controle da sua vida?
Quando se separou de Hélio, imaginara uma rota bem diferente desta em que se encontrava. O envolvimento com Patrícia a deixara mais vulnerável do que todo o tempo em que ficara presa ao casamento. De certa forma, se entregou à proteção de Patty da mesma maneira que havia cedido ao modo controlador de Hélio. Em que momento, afinal, perdera as forças pra continuar no caminho antes traçado? Não gostava das transformações pelas quais passara, mas não tinha força para voltar... Ou tinha?
Mas quem disse que precisava voltar a agir como aquela mosca-morta da época do casamento? Será que a preparação para a nova vida de solteira e independente havia sido insuficiente? Na teoria, parecia tão fácil e corriqueiro tomar atitudes e administrar a liberdade, depois de tantos anos naquela vida de casada, obediente e submissa ao marido...
Quanto mais pensava, mais percebia a dimensão da burrada que fizera com Patty. Agora, a dor de cabeça que a despertara mais cedo resolveu torturá-la ainda mais. A sensação que tinha era de que suas têmporas explodiriam a qualquer momento. De repente, sentiu uma forte pontada de dor na nuca, o que a obrigou a se segurar na bancada da pia. Porém, isso não aplacou o mal estar; em seguida se viu lutando contra as ânsias de vômito. Então, lembrou-se do quanto havia bebido durante a festa de réveillon, numa famosa casa de eventos próxima à capital.
Vânia insistira muito até convencê-la a aceitar o convite:
___ Vamos lá, Iara, chegou a hora de sacudir a poeira e dar a volta por cima.  Você precisa se jogar pra vida e começar um ano verdadeiramente novo: sem traumas, sem histórias mal resolvidas, sem maridos ou mulheres complicadas...
Diante desse argumento, Iara se deixou levar e não se arrependia, afinal, acabou se divertindo muito. E o que era melhor, sem culpas e sem remorsos, já que o filho passaria o final de ano com Hélio. Também não se sentira na obrigação de ficar com o pai, “Seu” Alcides, porque tinham passado o Natal juntos.
Seguindo o ‘conselho’ de Vânia, ela resolveu se jogar naquele que seria o seu primeiro réveillon após o divórcio. Justamente neste momento, ao juntar todos os caquinhos daquele ano que terminava, percebeu que havia muitas mágoas acumuladas, e era preciso desopilar. Portanto, ficar parada, quietinha num canto, ‘vendo o bonde ou a banda passar’ era a última coisa que ela faria. Definitivamente, para ela aquela noite não combinava com cantinho escuro no salão, revolvendo picuinhas internas.
Bom, assim que chegaram ao local da festa, se dirigiram a uma mesa bem localizada, onde as quatro mulheres ali sentadas já tomavam espumante. Eram Stella e Lola, juntas a mais tempo do que eram capazes de se lembrar, e Carolina e Renata, duas jovens que recém tinham se assumido diante dos amigos e da família. Vânia as cumprimentou e apresentou Iara como sua namorada. Enquanto respondia aos cumprimentos daquelas pessoas que faziam parte da vida de Vânia, Iara se surpreendeu analisando esse rótulo, já que elas haviam combinado que esta relação seria aberta e sem compromissos. Ou será que esse acordo quanto ao formato da relação só estava claro na sua cabeça e Vânia, na tentativa de conquistá-la acabou por aceitar esta condição que ela, Iara, deixara implícita? Ou seja, talvez Iara fosse a única a pensar nessa relação apenas como um caso: sem rótulos, sem cobranças, sem futuro, enfim.
Em poucos minutos chegou à conclusão de que o intuito de Vânia era aproximá-la do seu mundo. Sorridente, ela se deixou envolver e chegou a sentir-se feliz e à vontade naquela noite especial...
O casal Lola e Stella logo se incumbiu de deixá-la à vontade, enquanto Carolina e Renata estavam mais interessadas em namorar do que em interagir com as outras. Bem que tentaram trazê-las para o grupo fazendo algumas brincadeiras, as quais elas respondiam com sorrisos, sem se desgrudarem. Antes, durante e depois da contagem regressiva e do pipocar dos fogos de artifícios iluminando o ano novo, o grupo dançou, brincou, brindou e bebeu até altas horas. Desacostumada a sair em turma e a noitadas, Iara acabou fazendo confidências embriagadas à Lola, uma morena de personalidade muito tranqüila que lhe transmitiu muita confiança.

Agora, às onze da manhã, o espelho lhe mostrava um rosto cheio de marcas deixadas pelos inúmeros copos que esvaziou e pela noite mal dormida.
“Preciso de foco para aparar todas as arestas do ano passado, antes que se passe muito tempo e eu já não tenha muitas chances. Droga, eu nunca fui de beber tanto assim... O que será que deu em mim?... Quem sabe um café me ajuda agora...”
Saindo do banheiro, constatou que Vânia ainda dormia pesado. “Será que ela bebeu tanto quanto eu?... Ah, sei lá... Que diferença isso faz agora?”
Foi para a cozinha, preparou o café, sentou-se à mesa diante de uma xícara fumegante e repassou os detalhes do plano que havia arquitetado nos últimos dias. “Preciso fazer bem feito, pois pode ser minha última chance... Se não fosse feriado hoje, eu já iria partir pro ataque... mas com essa ressaca filha da mãe nem daria certo também...”
Vânia entrou de repente e não estava com a cara muito animada, apesar do cumprimento carinhoso:
___ Bom dia, gata incontrolável!
Iara levou um susto e quase derramou o café da xícara que, naquele momento levava aos lábios.
___ Putzzz! Droga, que susto!  Bom... Bom dia... – respondeu toda errada.
___Que houve com você, Iara? Aposto que estava pensando bobagens...  - Enquanto falava, Vânia fuzilou Iara com o olhar e, se sentando à sua frente, pegou uma caneca e também se serviu de café. – Como se não bastasse o monte de besteiras que você disse ontem à noite para as minhas amigas.
___ Besteiras! Que besteiras? Não se pode mais conversar e falar sobre a própria vida com quem a gente quiser? Afinal, a vida é minha... Qual é o problema? Tua amiga ficou me fazendo perguntas e eu fui respondendo e, por fim, fiz um resumo de tudo... Impossível não falar sobre Patrícia...
___ O problema, dona Iara, é que você usou a bebida como desculpa e se desmanchou toda falando sobre o que sente por ela! Eu fiquei com cara de trouxa! Vem cá, você me toma por idiota?
___ Eu pensei que você fosse mais compreensiva, Vânia! Sempre deixou claro que estava disposta a tudo pra ficar comigo e agora me cobra santidade? Não acho que eu tenha feito uma coisa tão séria assim!
___ Só você pode medir a seriedade do que fez! Sim, eu ainda estou disposta a muita coisa para pra ficar contigo, Iara, desde que você me respeite e não me faça de boba! Depois do que você falou pra Lola, a Stella veio me perguntar num tom bem “compreensivo” se eu tinha certeza de que queria entrar o ano novo com você...
___ Poxa!... Que pessoas vulgares você tem como amiga, hein?
___... e você sabe o que eu respondi? Claro que não sabe...
Vânia riu um riso amarelo e continuou:
___ Mas eu quero sim... eu ainda quero manter uma relação legal contigo... Quando é que você vai parar com essa mania horrorosa de julgar as pessoas, Iara? Vulgar foi você que saiu contando suas intimidades pra uma pessoa que mal conhece!
Iara se levantou e, sem que Vânia esperasse, puxou a toalha da mesa, derrubando tudo no chão. Correu para o quarto, gritando:
___ Não fico mais aqui! Chega de tudo isso! Vou dar um jeito na minha vida!!
___ Vai, mulher... Pode ir... Eu sei que você vai voltar...
Foi o que respondeu Vânia, com um sorriso.



Escrito por MariaN às 00h05
[] [envie esta mensagem] []




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]